
AS AREIAS DO TEMPO
        (THE SANDS OF TIME)

 Escrito por Sidney Sheldon, EM 1989,
10 EDIO

As areias do Tempo

Sinopse

Este livro reafirma uma caracterstica que  marca registrada de Sheldon
: a exploso de ao, apoiada em mltiplos enredos secundrios. O
cenrio escolhido pelo autor  o conflito entre nacionalistas bascos e o
governo espanhol dos anos ps-Franco. O lder guerrilheiro basco Jaime
Miro e o corrupto e sdico Colonel Acoca esto dispostos a brigar at a
morte por seus objetivos. Quando Acoca saqueia brutalmente um convento
em busca de Miro, quatro freiras decidem fugir, estimuladas pela irm
Lucia, que se escondia no convento desde que se vingou do homem que ps
seu pai na cadeia. A bela irm Graciela, a irm Megan e a irm Teresa #
que est  beira de um colapso # escapam pela floresta com Lcia, onde
so auxiliadas a contragosto por Miro. Os apuros de Lcia e a
experincia das outras irms com a fuga do ritmo ao livro e prendem o
leitor  histria at a ltima pgina. .. ..




A Espanha, com suas paixes ardentes, ainda dilacerada pelos dios da sangrenta
Guerra Civil,  o cenrio deste novo  e  inesquecvel romance de Sidney Sheldon,
o autor mais
lido no mundo. A histria se passa logo depois da morte de Francisco Franco, o
ditador que
governou o pas com mos de ferro por quase quarenta anos.
Em 1976, o carismtico e idealista lder do proscrito movimento separatista
basco,
Jaime Mir, liberta da cadeia em Pamplona dois companheiros condenados  morte e
foge,
perseguido pela  polcia e pelo exrcito.
O cruel e vingativo Ramn Acoca, no comando da implacvel perseguio, desconfia
de que os bascos esto refugiados num convento cisterciense nos arredores de
vila e resolve
invadi-lo. Essa deciso desencadeia acontecimentos que vo repercutir-se  e
emocionar as
pessoas do mundo inteiro, que por duas semanas acompanharo atentas a uma
terrvel caada
humana.
Na pungente beleza da regio rural espanhola, o convento repousa, em eterna 
devoo 
a Deus. Mas mesmo a  os conflitos do mundo eclodem. As freiras desta ordem,  
uma das mais 
rigorosas do mundo, obrigadas ao  silncio total e  recluso absoluta, 
subitamente expulsas do 
ambiente aconchegante e seguro do convento, so brutalizadas e levadas para 
Madrid, presas. 
Mas quatro conseguem escapar e, arremessadas no perigo e na aventura, vem-se 
presas de 
paixes proibidas a que no podem ceder mas no ousam negar.
Irm Tereza, a mais velha, com sessenta e poucos anos,  estava no convento h 
trinta  anos,     fugindo do destino implacvel que lhe concedera uma voz 
maravilhosa e um 
rosto feio, uma linda irm e a desiluso com o nico homem que amou em toda a 
sua vida.
Irm Lucia, ardorosa beleza siciliana, estava h poucos meses no convento, um 
refgio 
de uma vida sobressaltada e nebulosa, envolvida com a Mfia e procurada em toda 
a Europa 
por dois assassinatos. Rubio Arzano, o fiel guerreiro, arrisca a vida para 
salv- -la, mesmo 
sabendo que nunca poder possu-la.
Irm Graciela  uma linda jovem  que entrou para o convento ainda adolecente, 
angustiada e desesperada, sem jamais ter conhecido um momento sequer de paz e 
amor, o que 
vai encontrar entre as freiras  cistercienses.  o bravo Ricardo Melhado, que 
renunciou  sua 
herana para lutar pela causa em que acredita, quem deseja desesperadamente 
casar com essa 
irresistvel beldade espanhola.
Irm Megam  loura,   de um tipo que no parece espanhol, abandonada ainda beb 
na 
casa de um campons nos arredores de vila, criada num orfanato; entrou para o 
convento 
porque no tinha para onde ir, mas vive torturada pela ansiedade em descobrir 
quem , que 
foram seus pais, por que a abandonaram.
As Areias do Tempo  uma aventura inesquesvel, que combina aco constante e 
atraes irresistveis,  com um suspense excepcional, as descobertas se 
sucedendo a todo o 
instante, no rtmo vertiginoso e fascinante que s o autor extraordinrio como 
Sidney Sheldon 
 capaz de oferecer.

 Sidney Sheldon  o autor de O Outro Lado da Meia-Noite,   Um Estranho no 
Espelho, A 
Outra Face, A Herdeira, A Ira dos Anjos, Se Houver Amanh e Um Capricho dos 
Deuses, todos 
bestsellers internacionais. A Outra Face foi aclamado pelo New York Times como 
"o melhor romance 
de mistrio do ano". Sheldon ganhou um Prmio Tony pela pea da Broadway Redhead 
e um Oscar 
por The Bachelor and the Bobby Soxer. Escreveu roteiros de vrios filmes e criou 
quatro sries de 
longa durao para a televiso, inclusive Hart to Hart (Casal Vinte, no Brasil) 
e I Dream of Jeannie 
(Jeannie  um Gnio), que produziu e dirigiu. Sidney Sheldon vive no Sul da 
Califrnia e admite ser 
fantico pelo trabalho. "No posso evitar", diz ele. "Adoro escrever".
Seus romances, inclusive o mais recente, Um Capricho dos Deuses, foram todos 
primeiros 
lugares nas listas de bestellers, e alguns foram transformados em minessries de 
grande sucesso para 
a TV.

         AGRADECIMENTO


Meus agradecimentos especiais a Alice Fischer, cuja ajuda
na pesquisa para este romance foi inestimvel. 

         MENSAGENS

As vidas de todos os grandes homens lembram
Que podemos tornar nossas vidas sublimes,
E, ao  partirmos, deixar para trs
Pegadas nas Areias do Tempo

Henry Wadsworth Longfellow
Um Salmo da Vida

Os mortos no precisam levantar
So uma parte da terra agora, e a terra nunca pode ser
conquistada, sobreviver a todos os sistemas de tirania.
Aqueles que nela entraram de maneira honrada - e no
houve homens que entraram mais honrosamente do que os
que morreram na Espanha - j alcanaram a imortalidade.

Ernest Hemingway

A Espanha dilacerou a terra com unhas,
Quando Paris era mais bela.
A Espanha projetou sua vasta rvore de sangue,
Quando Londres cuidava de seu jardim e seu lago de cisnes.

Pablo Neruda

         Nota do Autor


Esta  uma obra de fico. E, no entanto...
A terra romntica do flamenco e Dom Quixote, de senoritas de aparncias 
exticas, com 
travessas de casco de tartaruga nos cabelos,  tambm a terra de Torquemada, da 
Inquisio 
espanhola e de uma das mais sangrentas guerras civis da histria. Mais de meio 
milho de pessoas 
morreram nas batalhas pelo poder entre os republicanos e os rebeldes 
nacionalistas da Espanha. Em 
1939, entre Fevereiro e Junho, foram cometidos 269 assassinatos polticos, e os 
nacionalistas 
executaram, em mdia, mil republicanos por ms, sem permisso para o lamento. 
Foram incendiadas 
e destrudas 160 igrejas, e freiras foram arrancadas  fora de conventos, "como 
se fossem prostitutas 
num bordel", escreveu o duque de Saint-Simon, a respeito de um conflito anterior 
entre o governo 
espanhol e a igreja. Sedes de jornais foram saqueadas, e greves e motins 
tornaram-se endmicos em 
todo o pas. A guerra civil terminou com a vitria dos nacionalistas, sob o 
comando de Franco; depois 
da sua morte, a Espanha tornou-se uma monarquia.
A Guerra Civil, que se prolongou de 1936 a 1939, pode estar oficialmente 
encerrada, mas as 
duas Espanhas que lutaram nunca se reconciliaram. Hoje, outra guerra continua a 
assolar a Espanha, 
a guerra de guerrilha travada pelos bascos para recuperarem a autonomia que 
tinham sob a Repblica 
e perderam com o regime de Franco. A guerra est sendo travada com atentados a 
bomba, assaltos 
a bancos para financiar os atentados, assassinatos e destrbios.
Quando um membro da ETA, um grupo guerrilheiro basco  clandestino, morreu num 
hospital 
de Madrid, aps ser torturado pela polcia, os destrbios subsequentes em todo o 
pas levaram  
demisso do diretor-geral da polcia espanhola, cinco chefes de segurana e 
duzentos altos 
funcionrios policiais.
Em 1986, em Barcelona, os bascos queimaram a bandeira espanhola em pblico; em 
Pamplona, milhares de pessoas fugiram apavoradas quando nacionalistas bascos 
entraram em conflito 
com a polcia, numa sucesso de motins que se espalhava por toda a Espanha e 
ameaaram a 
estabilidade do governo. A polcia parami-litar retaliou com a maior violncia, 
disparando a mesmo 
contra casas e lojas de bascos. O terrorismo continua, e  mais violento que 
nunca.
Esta  uma obra de fico. E, no entanto...  

         AS AREIAS DO TEMPO

        Captulo 1


PAMPLONA, ESPANHA                                                              1976



Se o plano falhar, todos ns morreremos. Ele repassou-o mentalmente pela ltima 
vez, sonhando, avaliando,  procura de defeitos. No encontrou nenhum. O plano 
era usado e exigia 
um clculo do tempo cuidadoso, em fraes de segundos. Se desse certo, seria um 
feito espetacular, 
digno de El Cid. Se falhasse...
"Bom, o tempo de se preocupar j passou", pensou Jaime Mir. " tempo de aco".
Jaime Mir era um mito, um heri para o povo basco e antena para o governo 
espanhol. 
Tinha mais de um metro e  oitenta de altura, rosto forte e inteligente, corpo 
musculoso e olhos escu-
ros taciturnos. Testemunhas tendiam a descrev-lo como mais alto do que era, 
mais moreno do que 
era, mais impetuoso do que era. Era um homem complexo, um realista que 
compreendia as enormes 
desigualdades contra si, um romntico disposto a morrer por aquilo em que 
acreditava.
Pamplona era uma cidade enlouquecida. Era a ltima manh das corridas de touros, 
a Fiesta 
San Fermn, a celebrao anual realizada de 7 a 14 de Junho. Trinta mil 
visitantes enxameavam a 
cidade, procedentes do mundo inteiro. Alguns estavam ali apenas para observar o 
perigoso espetculo 
da corrida dos touros, outros queriam provar sua coragem, correndo na frente dos 
animais em 
disparada. Todos os quartos de hotel h muito que estavam ocupados, e 
universitrios de Navarra 
dormiam em vos de portas, sagues de bancos, automveis, na praa central, e 
at mesmo nas ruas 
e caladas da cidade.
Os turstas lotavam os cafs e os hoteis, assistindo aos ruidosos e pitorescos 
desfiles de 
gigantes de papier-mnche e escutando as msicas das bandas que desfilavam. Os 
participantes do 
desfile usavam mantos violetas, com capuzes verdes, vermelhos ou dourados. 
Fluindo as ruas, as 
procisses pareciam rios de arco-ris. A exploso de fogos de artifcio pelos 
postes e fios dos bondes 
aumentavam o barulho e a confuso geral.
A multido comparecia  tourada final da tarde, mas o evento mais espetacular 
era o encierro 
- a corrida matutina dos touros que lutariam mais tarde, naquele mesmo dia.
Dez minutos antes da meia-noite, na noite da vspera, os touros eram levados dos 
corrales 
de gas, pelas ruas escuras da parte inferior da cidade, atravessando o rio por 
uma ponte, at o curral 
na base da Calle Santo Domingo, fechada por barricadas de madeira em cada 
esquina, at alcanarem 
os currais de Plaza de Hemingway, onde ficavam at a tourada  tarde.
De meia-noite s seis horas da manh os visitantes permaneciam acordados, 
bebendo, 
cantando e fazendo amor, excitados demais para dormir. Os que participariam da 
corrida de touros 
usavam um leno vermelho de San Fermin em volta do pescoo.

's quinze para as seis da manh as bandas comearam a circular pelas ruas, 
tocando 
a msica vibrante de Navarra. s sete horas em ponto um rojo voava pelo ar, a 
fim de anunciar a 
abertura dos portes do curral. A multido era dominada por uma expectativa 
febril. Momentos 
depois um segundo rojo era disparado, um aviso  cidade de que os touros j 
estavam correndo. O 
que se seguia era um espetculo inesquesvel. Primeiro vinha o som. Comeava 
como um tnue e 
distante sussurro no vento, quase imperceptvel, depois ficava cada vez mais 
alto, at se transformar 
numa exploso de cascos batendo, e subitamente seis bois e seis touros 
apareciam. Cada um pesando 
cerca de setecentos quilos, avanavam pela Call Santo Domingo como expressos 
mortferos. Por 
dentro das barricadas de madeira instaladas em cada esquina, para manter os 
touros confinados a uma 
nica rua, havia centenas de jovens ansiosos e nervosos, decididos  a provar sua 
bravura enfrentando 
os animais enfurecidos.
Os touros corriam da extremidade da rua, passavam pela  Calle Laestrafeta e a 
Calle de 
Javier, passavam por farmcias e lojas de roupas, pelo mercado de frutas, a 
caminho da Plaza de 
Hemingway, e suavam gritos de ol da multido frentica. Com a chegada dos 
animais, comeavam 
uma debandada desesperada para escapar aos chifres afiados e cascos letais. A 
repentina realidade 
da morte se aproximando fazia com que alguns participantes corressem para a 
segurana dos vos 
de portas e sadas de incndio. Eram acompanhados por escrnios de "cobardon". 
Os poucos que 
tropeavam e caam no caminho dos touros eram logo puxados para um seguro.
Um menino e o av escondiam-se atrs de uma barricada, ofegantes com a emoo do 
espetculo que ocorria to perto dali.
- Olhe s para eles! - exclamou o velho. - Magnfico!
O menino estremeceu.
-  Tenho medo, av.
O velho passou o brao por seus ombros.
- Sim, Manuelo.  assustador, mas tambm maravilhoso. J corri com os touros uma 
vez. 
No h nada igual. Voc testa a si mesmo contra a morte, e isso faz com que se 
sinta um homem.
Em geral, levava dois minutos para os animais galoparem pelos novecentos metros 
da Calle 
Santo Domingo at a arena; no momento em que os touros entravam no curral, um 
terceiro rojo 
devia surgir no cu. Naquele dia o terceiro rojo no explodiu, pois ocorreu um 
incidente que nunca 
antes acontecera nos quatrocentos anos de histria de touros de Pamplona.
Enquanto os animais avanavam pela rua estreita, meia dzia de homens, vestidos 
nos trajes 
pitorescos da "feria", mudaram as posies das barricadas. Os touros foram 
obrigados a deixar a rua 
exclusiva e ficaram  solta no corao da cidade. O que, um momento antes, fora 
uma comemorao 
feliz se transformou no mesmo instante num pesadelo. Os animais frenticos 
atacaram os especta-
dores atordoados. O menino e o av foram dos primeiros a morrer, derrubados e 
pisoteados pelos 
touros. Violentas chicotadas atingiram um carrinho de beb e mataram a criana 
indefesa, derrubando 
a me com a cara esmagada. A morte pairara no ar por toda a parte. Os animais 
colidiam com 
espectadores desprotegidos, derrubando mulheres e crianas, enfiando os chifres  
compridos e fatais 
nas pessoas, barracas de comida e esttuas, arrasando tudo o que tinha o azar de 
se encontrar pela 
frente. Todos gritavam    desesperados , na tentativa de escapar do caminho dos 
animais enfurecidos.
Um furgo vermelho brilhante apareceu  frente dos touros, que se viraram para 
atac-lo, 
seguindo pela Calle de Estrella, a rua que levava ao  "crcel", a priso de 
Pamplona.

O "crcel"  um prdio de pedra, de dois andares, janelas gradeadas, aparncia 
assustadora. H guaritas nos quatro cantos, e a bandeira espanhola, vermelha e 
amarela, trmula por 
cima da porta. Um porto se abre para um pequeno ptio. O segundo andar do 
prdio consiste de 
celas, em que esto os presos condenados  morte. No interior da priso, um 
corpulento guarda, com 
um uniforme da Polcia Armada, conduzia um sacerdote de hbito preto pelo 
corredor do segundo 
andar. O guarda carregava uma submetra-lhadora. ao  perceber a expresso 
inquisitiva nos olhos do 
sacerdote  viso de arma, o guarda explicou:
- O cuidado nunca  demais aqui, padre. Temos a escria da terra neste andar.
O guarda pediu ao  padre que passasse por um detector de metal, muito parecido 
com os 
usados nos aeroportos.
- Desculpe, padre, mas os regulamentos...
- No tem problema, meu filho.
No momento em que o padre passou, uma sirene estridente irrompeu no corredor. 
Instintivamente, o guarda contraiu a mo que empunhava a submetralhadora.
O padre virou-se e sorriu para o guarda, murmurando:
- A culpa  minha. - Removeu uma pesada cruz de metal que pendia do pescoo numa 
corrente de prata e entregou-a ao  guarda. Quando tornou a passar, o detector 
permaneceu em 
silncio. O guarda devolveu a cruz e os dois continuaram a jornada pelas 
profundezas da priso.
O mau cheiro no corredor, perto das celas, era opressivo. O guarda estava com um 
nimo 
filosfico.
- Est perdendo seu tempo aqui, padre. Estes animais no tm almas para serem 
salvas.
- Ainda assim, meu filho, devemos tentar.
O guarda sacudiu a cabea. 
- Posso lhe garantir que os portes do inferno esto  espera para escolher os 
dois.
O padre olhou surpreso para o guarda.
- Dois? Fui informado que havia trs que precisavam de confisso.  
O guarda encolheu os ombros.
- Poupamos um pouco do seu tempo. Zamora morreu na enfermaria essa manh. 
Ingrato.
Eles alcanaram as celas mais distantes.
- Chegamos, padre.
O guarda destrancou a porta de uma cela, depois recuou, cauteloso, enquanto o 
padre 
entrava. Tornou a trancar a cela e ficou parado no corredor, alerta a qualquer 
sinal de problema.
O padre aproximou-se do vulto no imundo catre da priso.
- Seu nome, meu filho?
- Ricardo Mellado.
O padre fitou-o atentamente. Era difcil dizer com o que o homem parecia. O 
rosto estava 
inchado e esfolado, os olhos quase fechados. Atravs de lbios grossos, o homem 
murmurou:
- Fico contente que tenha podido vir, padre.
- Sua salvao  o dever da igreja, meu filho.
- Eles vo me enforcar esta manh?
O padre afagou-lhe o ombro, gentilmente.
- Foi condenado a morrer pelo garrote.
- No!
- Lamento muito. As ordens foram dadas pelo primero- -ministro pessoalmente. - O 
padre ps 
a mo na cabea do preso e entoou:
- Diz-me teus pecados"...

- Pequei muito em pensamento, palavra e aco, padre, e arrependo-me de todos os 
pecados 
com toda a fora do corao.
- "Ruego a muestro Padre celestial para la salvacin de tua alma. En el nombre 
del 
padre, del Hijo y del Espiritu Santo"...
O guarda, escutando do lado de fora da cela, pensou:         - Uma perda de tempo 
estupida. 
Deus cuspir no olho deste.
O padre acabou.
- "Adis", meu filho. Que Deus receba sua alma em paz.
O padre encaminou-se para a porta da cela. O guarda abriu-a, depois recuou, a 
arma 
apontada para o preso. Depois de trancar a porta, o guarda deslocou-se para a 
cela seguinte. Abriu 
a porta e disse:
- Ele  todo seu, padre.
O padre entrou na segunda cela. O homem tambm fora brutalmente espancado. O 
padre 
fitou-o em silncio por um longo momento.
- Qual   seu nome, meu filho?
- Felix Carpio. - Era um homem corpulento e barbudo, com uma cicatriz recente e 
lvida na 
face, que a barba no conseguia esconder. - No tenho medo de morrer, padre.
- Isso  ptimo, meu filho. ao  final, nenhum de ns  poupado.
Enquanto o padre ouvia a confisso de Carpio, ondas de som distantes, a 
princpio abafadas, 
depois se tornando mais altas, comearam a reverberar pelo prdio. Era a 
trovoada de cascos e gritos 
da multido em fuga. O guarda prestou ateno ao  barulho, sobressaltado. Os 
sons aproximavam-se 
depressa.
-  melhor se apressar, padre. Alguma coisa estranha est acontecendo l fora.
- J acabei.
O guarda abriu a porta da cela, o padre saiu para o corredor. A porta foi 
trancada de novo. 
Havia um estrpito rumoroso na frente da priso. O guarda virou-se para 
espreitar pela janela estreita 
e gradeada.
- Que barulho ser esse?
O padre disse:
- Parece que algum deseja uma audincia conosco. Pode me emprestar isso?
- Emprestar o qu?
- Sua arma, por favor.
Enquanto falava, o padre aproximou-se do guarda. Em silncio, removeu o topo da 
cruz que 
prendia no pescoo, revelando um estilete comprido. Num movimento rpido, 
mergulhou o estilete 
no peito do guarda.
- Saiba, meu filho - murmurou, enquanto tirava a submetra-lhadora das mos do 
guarda agonizante -,  que Deus e eu decidimos que voc no precisa mais desta 
arma. - Fazendo 
devotadamente o sinal da cruz, Jaime Mir acresentou:
- "In Nomine Patris"...
O guarda caiu no cho de cimento. Jaime Mir tirou-lhe as chaves e abriu 
rapidamente as 
portas das duas celas. Os sons da rua tornavam-se mais intensos.
- Vamos embora - ordenou Jaime.
Ricardo Mellado pegou a submetralhadora.
- Voc d um padre e tanto. Quase me convenceu. - Ele tentou sorrir,com a boca 
inchada.
- Eles pegaram vocs de jeito, no  mesmo? Mas no se preocupe. Todos pagaro 
por isso. 
O que aconteceu com Zamora? - Jaime Mir passou os braos pelos dois homens e 
ajudou-os a 
avanarem pelo corredor.

- Os homens espancaram-no at a morte. Pudemos ouvir os seus gritos. Levaram-no 
depois 
para a enfermaria e disseram que ele morreu de infarto.
Havia uma porta de ferro trancada  frente.
- Esperem aqui. - Disse Jaime Mir. Aproximou-se da porta e informou ao  guarda 
no outro 
lado:
- J acabei aqui.
O guarda abriu a porta.
-  melhor se apressar, padre. H algum distrbio ocorrendo l fora... - No 
concluiu a frase.
Enquanto o estilete de Jaime penetrava no corpo, o sangue esguichou pela boca do 
guarda. 
Jaime fez sinal para os dois homens.
- Vamos.
Felix Carpio pegou a arma do guarda e comearam a descer. A cena l fora era um 
cos. A 
polcia corria de um lado para outro, freneticamente, na tentativa de descobrir 
o que acontecia e 
controlar as pessoas que, aos berros, no ptio, debatiam-se para fugir dos 
touros enfurecidos. Um 
dos touros investira contra a entrada do prdio, esmagando a entrada de pedra. 
Outro dilacerava o 
corpo de um guarda uniformizado no cho.
O furgo vermelho encontrava-se no ptio, o motor ligado. Na confusso, os trs 
homens 
passaram quase despercebidos e aqueles que os viram escapar estavam ocupados 
demais em salvar 
as prprias vidas para tomar alguma providncia. Em silncio, Jaime e seus 
companheiros 
embracaram a traseira do furgo, que logo partiu acelerado, dispersando os 
pedrestes desesperados 
pelas ruas apinhadas.
A Guarda Civil, a polcia rural paramilitar, em uniforme verde e quepe preto de 
couro 
envernizado, tentava em vo controlar a multido histrica. A Polcia Armada, 
guarnecendo as capi-
tais provincias, tambm eram impotentes diante da confuso generalizada. As 
pessoas procuravam 
fugir em todas as direces, na tentativa desesperada de escapar dos touros 
enfurecidos. Os touros 
representavam menos perigo do que as prprias pessoas, que se pisoteavam na 
nsia de velhos e 
mulheres sendo derrubados sob os ps da multido de abalada.
Jaime olhou  consternado para o espetculo atordoante.
- No foi planeado para acontecer assim! O furgo deveria estar  espera nas 
barricadas para 
controlar os touros! - Olhava desolado para a carnificina, mas no pudia fazer 
coisa alguma para det- 
-la. Fechou os olhos para no ver.

O furgo chegou aos arredores de Pamplona e seguiu para o sul, deixando para 
trs o  clamor 
e a confuso da multido em pnico.
- Para onde estamos indo, Jaime? - perguntou Ricardo Mellado.
- H uma casa segura perto da Torre. Ficaremos l at escurecer e depois 
seguiremos em 
frente.
Felix Carpio estremecia de dor.
Jaime Mir observou-o, com uma expresso compadecida.
- Chegaremos num instante, amigo - murmurou, gentilmente.
Ele no conseguia tirar da cabea a cena terrvel de Pamplona.

Meia hora depois, eles se aproximaram da pequena aldeia de Torre e contornaram-
na, 
seguindo para uma casa isolada nas   montanhas. Jaime ajudou os dois homens a 
saltarem da traseira 
do furgo.
- Vocs sero apanhados  meia-noite - informou o motorista.

- Avise-os para trazerem um mdico - disse Jaime. - E livre-se desse furgo.
Os trs entraram na casa. Era uma casa de fazenda, simples e confortvel, com 
uma lareira 
na sala de estar e viga no tecto. Havia um bilhete na mesa. Jaime Mir leu-o e 
sorriou para a frase 
de recepo: "Mi casa es su casa". Encontrou garrafas de vinho no bar e serviu 
bebida para os trs.
- No h palavras para lhe agradecer, amigo. A voc - brindou Ricardo Mellado.
Jaime levantou o copo.
-  liberdade.
Um canrio cantou de repente numa gaiola. Jaime foi at l e observou sua 
agitao por um 
momento. Depois, abriu a gaiola, tirou o passarinho gentilmente e levou-o para 
uma janela aberta.
- Voe para longe, "pajarito" - murmurou. - Todas as criaturas vivas devem ser 
livres.

         Captulo 2

Madrid


O primeiro-ministro Leopoldo Martnez estava possesso. Era um homem pequeno, 
de culos, todo o corpo tremia enquanto falava.
- Jaime Mir deve ser detido! - gritou, a voz alta estridente. - Esto me 
enntendendo? - Olhou 
furioso para a meia dzia de homens reunidos na sala. - Estamos  procura de um 
nico terrorista, 
e todo o exrcito e a polcia so incapazes de encontrr-lo.
A reunio estava ocorrendo no Palcio Moncloa, residncia e local de trabalho do 
primeiro-ministro, a cinco quilmetros do centro de Madrid, na Carretera da 
Galicia, uma estrada sem 
placas de identificao. O prdio era de alvenaria, verde, com sacada de ferro 
batido, janelas verdes 
e guaritas em cada canto. 
Era um dia quente e seco, e atravs das janelas, at onde a vista podia 
alcanar, colunas de 
ondas de calor elevavam-se como batalhes de soldados fantasmas.
- Ontem Mir converteu Pamplona nu campo de batalha. - Martnez bateu o punho na 
mesa. 
- Assassinou dois guardas e tirou dois dos seus assassinos da priso. Muitos 
inocntes foram mortos 
pelos touros que ele soltou nas ruas. 
Por um instante, ningum disse nada. ao  assumir o cargo, o primeiro-ministro 
declarou, 
presunoso: 
- Meu primeiro ato ser acabar com esse grupo separatista. Madrid  a grande 
unificadora. 
Transforma andaluzes, bascos, catales e galegos em espanhis.
Fora excessivamente otimista. Os bascos, fervorosos em sua independncia, tinham 
outras 
ideias, e a onda de atentados a bomba,  assaltos a bancos e manifestaes de 
terroristas da 
organizao ETA (Euzkadi Ta Azkatasuna) continuara sem cessar.
O homem  direita de Martnez na reunio disse calmamente:
- Eu o encontrarei
Era o coronel Ramn Acoca, o chefe do GOE, Grupo de Operaciones Especiales, 
criado para perseguir os terroristas bascos. Acoca era um gigante, de sessenta e 
poucos anos, rosto 
marcado por cicatrizes, olhos frios e implacveis. Fora um jovem oficial sob o 
comando de Francisco 
Franco durante a Guerra Civil e ainda era fanaticamente devotado  filosofia de 
Franco: "Somos 
responsveis apenas perante Deus e a histria."
Acoca era um oficial brilhante e fora um dos assessores em que Franco mais 
confiara. O 
coronel sentia saudade da disciplina de punho de ferro, a punio rpida 
daqueles que questionavam 
ou desobedeciam  lei. Passara pelo turbilho da Guerra Civil, com sua aliana 
nacionalista de 
monarquistas, generais rebeldes, latifundirios, a alta hierarquia  da Igreja e 
os falangistas fascistas 
de um  lado, e as foras do governo republicano, incluindo socialistas, 
comunistas, liberais e 
separatistas bascos e catales, no outro. Fora um terrvel perodo de destruio 
e morte, uma loucura 
que atrara homens e material blico de uma dzia de pases, deixando um saldo 
de mortos 
assustador. E agora os bascos voltaram a lutar e matar.
O coronel Acoca comandava um grupo eficiente e implacvel de antiterroristas. 
Seus homens 
trabalhavam em operaes  clandestinas, usavam disfarces e no eram  divulgados 
ou fotografados, 
por medo de retaliao.

"Se algum pode deter Jaime Mir,  o coronel Acoca," pensou o primeiro-
ministro. 
Mas havia um problema:"Quem vai deter o coronel Acoca?"
A entrega do comando ao  coronel no fora ideia do primeiro- -ministro . Ele 
recebera um 
telefonema no meio da noite na sua linha particular. Eeconhecera a voz no mesmo 
instante.
- Estamos muito preocupados com as actividades de Jaime Mir e seus terroristas. 
Sugirimos 
que ponha o coronel Ramon Acoca no comando do GOE. Entendido?
- Entendido, senhor. Ser imediatamente providenciado.
A ligao fora cortada. 
A voz pertencia a um membro do OPUS MUNDO. A organizao era uma calada secreta 
que 
inclua banqueiros, advogados, dirigentes de poderosas corporaes e ministros 
do governo. Corriam 
rumores de que tinham enormes recursos  sua disposio, mas era um mistrio de 
onde procedia o 
dinheiro ou como era usado e manipulado. No era considerado saudvel fazer 
muitas perguntas a 
esse respeito.
O  primeiro-ministro pusera o coronel Acoca no comando, de acordo com as 
instrues, mas 
o gigante mostrara-se um fantico incontrolvel.   Seu GniO criara um reinado 
de terror.        O 
primeiro-ministro pensou nos terroristas bascos que os homens de Acoca haviam 
capturado perto de 
Pamplona. Foram julgados e condenados  morte. O coronel Acoca insistira para 
que fossem executa-
dos pelo brbaro garrote vil, a gargantilha de ferro com um espigo que era 
apertada aos poucos, at 
que partia a vrtebra e cortava a medula espinhal das vtimas. 
Jaime Mir tornou-se uma obsesso para o coronel Acoca.
- Quero sua cabea - disse o coronel Acoca - Cortemos sua cabea e o movimento 
basco 
morre.
 "Um exagero," refletiu o primeiro-ministro, embora devesse admitir que havia um 
fundo de 
verdade. Jaime Mir era um lder carismatico, fantico em relao  sua causa e 
por isso perigoso.
"Mas  sua maneira," concluiu o primeiro-ministro, "o coronel Acoca  igualmente 
perigoso."
Primo Casado, o diretor-geral de segurana Pblica, estava falando:
- Excelncia, ningum podia prever o que aconteceu em Pamplona. Jaime Mir ...
- Sei o que ele  - interrompeu o primeiro-ministro bruscamente - Quero saber 
onde ele est. 
- Virou-se para o coronel Acoca.
- Estou em sua pista - disse o coronel Acoca, a voz provocando um calafrio pela 
sala. - 
Gostaria de lembrar a Vossa Excelncia que no estamos lutando contra um homem 
apenas. Mas sim 
contra todo o povo basco. Eles forneceram alimentos, armas e abrigo a Jaime Mir 
e a seus 
terroristas. O homem  um hri para eles. Mas no se preocupe. Muito em breve 
ele ser um hri 
enforcado. Depois que eu lhe oferecer um julgamento justo,  claro.
"No ns. Eu." O primeiro-ministro especulou se os outros haviam notado. "Sem 
dvida," ele pensou, nervosamente, "alguma coisa precisar ser feita em relao 
ao  coronel muito 
em breve."
O primeiro-ministro levantou-se.
- Isso  tudo por enquanto, senhores.
Todos se levantaram para sair.  exceo do coronel Acoca, que ficou. Leopoldo 
Martnez 
comeou a andar de um lado para o outro.
- Malditos bascos. Por que no podem ficar satisfeitos em serem apenas 
espanhis? O que 
mais querem?

- So vidos por poder - disse Acoca. - Querem autonomia, sua prpria lngua e 
bandeira... 
-No enquanto eu ocupar este cargo. No permitirei que destruam a Espanha. O 
governo lhes dir 
o que podem e o que no podem fazer. No passam de uma ral que...
Um assessor entrou na sala.
- Com licena, Excelncia. O bispo Ib~nez chegou.
- Mande-o entrar.
Os olhos do coronel contraram-se.
- Pode estar certo de que a Igreja se encontra por trs de tudo isso.  tempo de 
lhes 
ensinarmos uma lio.
"A Igreja  uma das grandes ironias da nossa histria," pensou o coronel Acoca, 
amargurado.
No comeo da Guerra Civil, a Igreja Catlica ficara do lado das foras 
nacionalistas. O papa 
apoiava o Genralssimo Franco, e com isso lhe permitira proclamar que lutava no 
lado de Deus. Mas 
quando as igrejas, mosteiros e padres bascos foram atacados. a Igreja retirara 
esse apoio.
- Deve conceder mais liberdade aos bascos e catales - exigira a Igreja. - E 
deve suspender 
as execues de padres bascos.
O Generalssimo Franco ficara furioso. Como a Igreja ousava fazer exigncias ao  
governo?
Iniciara-se ento uma guerra de atributos. Mais igrejas e mosteiros foram 
atacados pelas 
foras de Franco. Freiras e padres foram assassinados. Bispos foram postos sob 
priso domiciliar, e 
sacerdotes por toda a Espanha foram multados por fazerem sermes considerados 
sediciosos pelo 
governo. S quando a Igreja o ameaou de excomunho  que Franco interrompeu os 
ataques.
"A maldita igreja!," pensou Acoca. Voltara a interferir aps a morte de Franco. 
Ele 
virou-se para o primeiro-ministro.
-  tempo do bispo ser informado sobre  quem manda na Espanha.
O bispo Calvo Ib~nez era magro, aparncia frgil, uma nuvem de cabelos brancos 
turbilhonando em torno da cabea. Olhou os dois homens atravs do pince-nez.
- Buenas tardes.
O coronel Acoca sentiu a blis subir pela garganta. A mera viso dos clricos 
deixava-o 
doente. Eram traidores levando seus estpidos cordeiros para o matadouro.
O bispo ficou parado,  espera de um convite para se sentar. O que no 
aconteceu. E tambm 
no foi apresentado ao  coronel. Era uma desfeita deliberada.
O primeiro-ministro olhou para Acoca, em busca de orientao.
O coronel disse, bruscamente:
- Recebemos algumas informaes desagradveis. Dizem que rebeldes bascos esto 
realizando reunies em mosteiros catlicos. Tambm h informaes de que a 
Igreja est permitindo 
que mosteiros e conventos guardem armas para os rebeldes. - Havia dio em sua 
voz. - ao  ajudarem 
os inimigos da Espanha, vocs tambm se tornam inimigos da Espanha.
O bispo Ib~nez fitou-o em silncio por um momento, depois virou-se para o 
primeiro-ministro Martnez.
- Com todo respeito, Excelncia, somos todos filhos da Espanha. Os bascos no 
so inimigos. 
Tudo o que pedem  liberdade para...
- Eles no pedem! - bradou Acoca. - Exigem! Circulam pelo pas saqueando, 
assaltando 
bancos e matando polcias... E ainda ousa dizer que no so nossos inimigos?
- Reconheo que houve excessos indesculpveis. Mas s vezes, quando se luta por 
aquilo em 
que se acredita...

- Eles no acreditam em coisa alguma, a no ser em si mesmos. No se importam 
com a 
Espanha.  como disse um dos nossos grandes escritores: "Nigum na Espanha se 
preocupa com o 
bem comum. Cada grupo se interessa apenas por si mesmo. A Igreja, os bascos, os 
catales. Cada 
um diz que se fodam os outros." 
O bispo sabia que o coronel Acoca citara errado  Ortega y Gasset. A citao 
inteira inclua 
o exrcto e o governo; mas, sabiamente, no disse nada. Tornou a se virar para 
o primeiro- -ministro, 
 espera de uma discusso racional.
- Excelncia, a Igreja Catlica...
O primeiro-ministro achou que Acoca j fora longe demais.
- No nos interprete mal, bispo. Em princpio,  claro, este governo est dando 
total apoio 
 Igreja Catlica.
O coronel Acoca interveio outra vez.
- Mas no podemos permitir que suas igrejas, mosteiros e conventos sejam usados 
contra ns. 
Se continuarem a permitir que os bascos guardem armas e realizem reunies neles, 
tero de arcar com 
as consequncias.
- Tenho certeza de que as informaes que recebeu esto equivocadas - declarou o 
bispo, 
suavemente. - Mas pode estar certo de que ordenarei uma investigao imediata.
O primeiro-ministro murmurou:
- Obrigado, bispo. Isso  tudo que pedimos.
Martnez e Acoca ficaram observando o bispo se retirar. Depois o primeiro-
ministro 
perguntou:
- O que acha?
- Ele sabe o que est acontecendo.
O primeiro-ministro suspirou. "J tenho problemas suficientes neste momento sem 
criar uma 
crise com a Igreja."
- Se a Igreja  a favor dos bascos, ento est contra ns. - A voz do coronel 
Acoca era mais 
enrgica agora. - Eu gostaria que me concedesse permisso para dar uma lio ao  
bispo.
O primeiro-ministro foi contido pela expresso de fanatismo nos olhos do 
coronel. Tornou-se 
cauteloso.
- Tem mesmo informaes de que as igrejas esto ajudando os rebeldes?
- Claro, Excelncia.
No havia como determinar se o homem dizia mesmo a verdade. O primeiro-ministro 
sabia 
o quanto Acoca odiava a Igreja. Mas talvez fosse bom deixar que a Igreja 
sentisse o gosto do aoite, 
desde que o coronel Acoca no fosse longe demais.   O primeiro-ministro Martnez 
ficou imvel por 
 um instante, pensativo.
Foi Acoca quem rompeu o silnio:
- Se as igrejas esto abrigando terroristas, ento elas devem ser punidas.
Relutante, o primeiro-ministro anuiu com a cabea.
- Por onde vai comear?
- Jaime Mir e seus homens foram vistos em vila ontem. Provavelmente esto 
escondidos 
no convento local.
O primeiro-ministro se decidiu.
- Reviste-o.
Essa deciso desencadeou uma sucesso de acontecimentos que sacudiu toda a 
Espanha e 
abalou o mundo.

         Captulo 3


        VILA

O silncio era como uma nevasca  amena, suave e aconchegante, to tranquilizante 
quanto 
o sussurro de um vento de vero. O convento Cisterciense da  Estrita Observncia 
ficava nos arre-
dores da cidade murada de vila, a mais alta cidade da    Espanha,   112 
quilmetros a noreste de 
Madrid. O convento fora construdo para o silncio. As regras haviam sido 
adotadaS em 1601, e 
permanece-ram inalteradas ao  longo dos sculos: litrgia, exerccio espi-
ritual, recluso rigorosa, 
permanncia e silncio. Sempre silncio.
O convento era um conjunto simples de prdios de pedra, em tornu de um claustro, 
dominado 
pela igreja. ao  redor do prdio central as arcadas abertas permitiam que  a    
claridade se espalhasse 
pelos largos blocos de pedra do cho, onde as freiras deslizam sem fazer 
barulho. Havia quarenta 
freiras no convento, rezando na igreja e vivendo no claustro. O convento de  
vila era um dos sete 
que restaram na Espanha, um sobrevivente das centenas que haviam sido destrudos 
na Guerra Civil, 
num dos peridicos movimentos anti-Igreja que dominam o pas ao  longo dos 
sculos.
O convento Cisterciense de Estrita Observncia era devotado exclusivamente a uma 
vida de 
oraes. Era um lugar sem estaes ou tempo, e aquelas que ali ingressavam se 
tornavam para 
sempre isoladas do mundo exterior. A vida cisterciense era contemplativa e 
penitencial; o ofcio 
divino era recitado todos os dias, e a clausura era completa e permanente.
Todas as irmas vestiam-se de forma identica, e seus trajes, como tudo no 
convento, eram 
caracterizados pelo simbolismo de sculos. O "capuche," o manto e capuz, 
simbolizava inocncia e 
simplicidade, a tnica de linho representava a renncia s coisas do mundo e 
mortificao; o 
escapulrio, pequenos quadrados de l usados sobre os ombros, indicava a 
disposio para o trabalho 
rduo. Uma touca, uma cobertura de linho dispostas em dobras por cima da cabea 
e em volta do 
queixo, lados do rosto e pescoo, completava o uniforme.

Dentro dos muros do convento havia um sistema de escadas e passagens internas 
ligando o 
refeitrio, sala comunitria, celas e capela, predominando por toda a parte um 
ambiente de amplitude 
fria e limpa. Janelas de trelia com vidro grosso davam para um jardim murado. 
Cada janela era 
guarnecida com barras de ferro e ficava acima da linha de viso, a fim de que 
no houvesse 
distraces externas. O refeitrio era amplo e austero, as janelas tinham 
persianas e cortinas. As velas 
nos castiais antigos projetavam sombras evocativas nos tectos e paredes.
Em quatrocentos anos, nada mudara dentro dos muros do convento, exceto os 
rostos. As 
irms no tinham pertences pessoais, pois desejavam ser pobres, emulando a 
pobreza de Cristo. A 
prpria igreja era desprovida de ornamentos, salvo uma cruz de ouro macio, de 
valor inestimvel, 
antigo presente de uma rica postulante. Por estar to em desacordo com a 
austeridade da ordem , era 
mantida nu armrio no refeitrio. Uma cruz de madeira simples pendia no altar da 
igreja.

As mulheres que partilhavam suas vidas com o Senhor viviam juntas, trabalhavam 
juntas, 
comiam juntas e rezavam juntas, mas nunca se tocavam e se falavam. As nicas 
excepes permitidas 
eram quando ouviam a  missa ou quando a reverenda superiora Betina lhes falava 
na privacidade de 
sua sala. Mesmo ento, uma antiga linguagem de sinais era usada ao  mximo 
possvel.
A reverenda madre era uma religiosa com cerca de setenta anos, expresso 
inteligente, jovial 
e dinmica, glorificada na paz e alegria de vida no convento, uma vida 
consagrada a Deus. Protetora 
irredutvel de suas freiras, sentia muita angstia quando era necessrio impor a 
disciplina, mais do que 
aquela que estava sendo punida.
As freiras circulavam pelos claustros e corredores de olhos abaixados, mos 
cruzadas dentro 
das mangas, na altura do peito, passando e repassando por suas  irms sem 
qualquer palavra ou sinal 
de reconhecimento. A nica voz no convento era a dos sinos - os  sinos que Vitor 
Hugo chamou de 
"A pera dos Campanrios".
As  irms vinham de antecedentes dspares e de muitos pases diferentes. 
Pretenciam  a 
famlias de aristocratas, camponeses, soldados... Chegaram ao  convento como 
ricas e pobres, 
instrudas e ignorantes, miserveis e exaltadas, mas ali eram todas iguais aos 
olhos de Deus, unidas 
em seu desejo de casamento eterno com Jesus.
As condies de vida no convento eram espartanas. No inverno o frio era 
cortante, e uma luz 
plida filtrava-se pelas janelas gradeadas. As freiras dormiam plenamente 
vestidas em enxergas de 
palha, cobertas por mantas speras de l, cada uma em sua pequena cela, 
mobiliada apenas com uma 
cadeira de pau, de encosto reto. No havia lavatrio, um pequeno jarro de barro 
e uma bacia ficava 
no cho, no canto da cela. Nenhuma freira tinha permisso para entrar na cela da 
outra,  exceo 
da reverenda madre Betina. No havia nenhum tipo de recreao, apenas trabalho e 
oraes. Havia 
reas de trabalho para tricotar, encardenar livros, fiar e fazer po. Havia oito 
horas de orao dirias: 
matinas, laudes, primas, teras, nonas, vsperas e completas. Havia ainda outras 
devoes: bnos, 
hinos e litanias.
"Matinas" era a orao que se fazia quando metade do mundo estava dormindo e a 
outra 
metade absorvia no pecado.
"Laudes", o ofcio do amanhecer, seguia-se s matinas, o nascer do sol aclamando 
como a 
figura de Cristo, triunfante e glorificado.
"Primas" era a orao matutina da igreja, pedindo as bnos para as obras do 
dia.
"Teras",  acontecia s nove horas da manh, consagrada por Santo Agostinho ao  
Esprito 
Santo.
"Sextas", eram s onze e meia, evocada para extinguir o calor das paixes 
humanas.
"Nonas", era recitada em silncio s trs horas da tarde, a hora da morte de 
Cristo.
"Vsperas", era o servio vespertino da igreja, como laudes fora a orao do 
amanhecer.
"Completas", eram s ltimas horas cannicas dos ofcios divinos. Uma forma de 
oraes 
noturnas, um preparativo para a morte e tambm para o sono, encerrando o dia com  
uma declarao 
de submisso amorosa: "Manus tuas, domine, comendo spiritum meum. Redemisti nos, 
domine, deus, 
veritatis."

Em algumas das outras ordens a flagelao fora abolida, mas sobrevivia nos 
conventos e 
mosteiros Cistercienses de clausura. Pelo menos uma vez por semana, e s vezes 
todos os dias, as 
freiras puniam seus corpos com a Disciplina, um aoite de trinta centmetros de 
comprimento, de 
corda fina, encerado, com seis pontas nodosas que provocavam uma dor 
angustiante; era usado para 
espancar as costas, pernas e ndegas. Bernard de Clairvaux, o asctico abade dos 
Cistercienses, 
advertira: "O corpo de Cristo est aniquilado... nossos corpos devem se 
conformar  semelhana do 
corpo ferido de Nosso Senhor."
Era  uma vida mais austera do que em qualquer priso, mas as irms viviam em 
xtase, como 
jamais ocorrera no mundo exterior. Haviam renunciado  ao  amor fsico, bens 
pessoais e liberdade 
de opo, mas ao  abrirem mo dessas coisas tambm renuciaram  ganncia e 
competio, dio e 
inveja, a todas as presses e tentaes que o mundo exterior impunha. No 
interior do convento 
reinava uma paz absoluta e o inefvel sentimento de alegria pela unio com Deus. 
Havia uma 
serenidade indescritvel dentro dos muros e nos coraes das mulheres que ali 
viviam. Se o convento 
era uma priso, tratava-se de uma priso no dem de Deus, com o conhecimento de 
uma eternidade 
feliz para as que escolheram livremente ingressar e permanecer ali.
A irm Lucia foi despertada pelo repicar  do sino do convento. Abriu os olhos 
surpresa e 
desorientada por um momento. Na pequena cela em que dormia ainda estava escuro, 
uma escurido 
desoladora. O som do sino avisava-lhe que eram trs horas da madrugada, quando  
o ofcio das 
viglias comeava.
"Droga! Esta rotina vai matar-me," pensou irm Lucia
Recostou-se no catre pequeno e desconfortvel, desesperada por um cigarro. 
Relutante, saiu 
da cama.  O pesado hbito que usava at para dormir roava contra sua pele 
sensvel como lixa. 
Pensou em todas as lindas roupas de estilistas penduradas em seu apartamento em 
Roma e no Chal 
em  Gstaad.
Irm Lucia podia ouvir o movimento suave e fartalhante das freiras, reunindo-se 
no corredor. 
Negligente, ela arrumou a cama e tambm  saiu para o extenso corredor, onde 
freiras entravam em 
fila, olhos abaixados. Lentamente, todas comeavam a encaminhar-se para a 
capela.
         "Parecem um bando de pinguins idiotas," pensou irm Lucia. No conseguia 
entender 
porque aquelas mulheres haviam deliberadamente renunciado s suas vidas, 
disistindo de sexo, belas 
roupas e boa comida. "Sem estas coisas, que motivo existe para continuar a 
viver? E as malditas 
regras!"
Quando irm Lucia entrara no convento, a reverenda madre avisara-lhe:
- Deve andar com a cabea baixa. Mantenha as mos cruzadas por dentro do hbito. 
D passos curtos. Ande devagar. Nunca deve fazer contato visual com qualquer das 
outras irms ou 
sequer olhar para elas.  No pode falar. Seus ouvidos so para escutar as 
palavras de Deus.
- Est bem, reverenda madre.
Durante o ms seguinte Lucia recebera as instrues.
- As que vieram para c no tinham a inteno de se juntarem s outras, mas sim 
habitar a ss 
com Deus. A solido do esprito  essencial para uma unio com Deus.  
salvaguarda pelas regras 
do silncio.
- Est bem, reverenda madre.
- Deve sempre  obedecer ao  silncio dos olhos. Fitar as outras nos olhos a 
distraria com 
imagens inteis.
- Est bem, reverenda madre.

- A primera lio que aprender aqui ser retificar o passado, expulsar os 
velhos hbitos e 
inclinaes seculares, apagar todas as imagens do passado. Far penitncia de 
purificao e 
mortificao para se despojar da vontade e amor prprios. No basta se 
arrepender das ofensas 
passadas. Quando compensar no apenas seus pecados, mas tambm por todos os 
pecados que j 
foram cometidos.
- Est bem, reverenda madre.
- Deve lutar contra a sensualidade, o que Joo da Cruz chamou de "a noite dos 
sentidos". - 
Est bem, reverenda madre.
- Cada freira vive em silncio e solido, como se j estivesse no cu. Nesse 
silncio puro e 
precioso, pelo qual tanto anseia, ela  capaz de escutar o silncio  infinito e 
possuir Deus. 
o final do primeiro ms, Lucia recebera os votos iniciais. Tivera que cortar os 
cabelos no 
dia da cerimnia. Fora uma experincia traumtica. A reverenda madre cuidava 
disso pessoalmente. 
Convocara Lucia  sua sala e fizera um sinal para que ela se sentasse. 
Prostrara-se s suas costas e, 
antes que Lucia percebesse o que estava acontecendo, ouvira o barulho da tesoura 
e sentira alguma 
coisa puxando-lhe os cabelos. Comeara a     protestar, mas compreendera 
subitamente que aquilo 
s podia melhorar o seu disfarce. "Poderei deix-lo crescer de novo mais tarde," 
pensara.  "Enquanto 
isso, ficarei parecendo uma galinha depenada."
o voltar para o cubculo lgubre que lhe fora designado Lucia pensara:  "Este 
lugar  um 
ninho de serpentes." O cho consistia de tbuas soltas. A enxerga e a cadeira de 
encosto reto ocupava 
a maior parte do espao. Sentira-se ansiosa por ler um jornal. "No h a menor 
possibilidade," 
refletia. Naquele lugar nunca tomava conhecimento dos jornais, muito menos 
escutavam rdio ou 
viam televiso. No havia qualquer ligao com o mundo exterior.
Contudo, o que mais afectava os nervos de Lucia era o silncio desolador. A 
nica 
comunicao era feita atravs de sinais com as mos, e aprend-los a levara a 
loucura. Quando 
precisava de uma vassoura, devia deslocar  a mo direita estendida da direita 
para a esquerda, como 
se estivesse varrendo. Quando a reverenda madre estava insatisfeita, unia os 
dedos mnimos trs 
vezes, na frente do corpo, os outros dedos comprimidos contra  as palmas. Quando 
Lucia se 
mostrava lenta na execuo  de seu trabalho, a reverenda madre  comprimia a 
palma da mo direita 
contra o ombro esquerdo. Para sensurar Lucia, ela coava a prpria face, perto 
do ouvido direito. 
com todos os dedos da mo direita, num movimento para baixo.
"Pelo amor de Deus," pensava Lucia, "parece que ela est coando uma mordida de 
pulga."
Elas chegaram  capela. As freiras rezaram silenciosamente; contudo, os 
pensamentos de irm 
Lucia se concentravam em coisas mais importantes do que Deus.
"Mais um ou dois meses, quando a polcia parar de me procurar, sairei deste 
hospcio."
Depois das oraes matutinas, irm Lucia marchou com as outras para o 
refeitrio, violando 
furtivamente os regulamentos,  como fazia todos os dias, ao  estudar os rostos 
das compa-nheiras. 
A sua nica diverso. Ela achava incrvel pensar que nenhumas das irms sabia 
como as outras 
pareciam.
Sentia-se fascinada pelos rostos das freiras. Algumas eram jovens, algumas 
velhas, outras 
bonitas, e feias. No podia compreender por que todas pareciam to felizes. 
Havia trs rostos que 
Lucia achava particularmente interessantes. Um era o da irm Teresa, que parecia 
ter cerca de 
sessenta anos. Estava longe de ser bonita, mas possua uma espiritualidade que 
lhe proporcionava um 
encanto quase sublime. Parecia estar sempre sorrindo interiormente, como se 
estivesse por dentro de 
algum segredo maravilhoso.

Outra freira que Lucia considerava fascinante era a irm Graciela, uma mulher de 
beleza 
extraordinria, com trinta e poucos anos. Tinha a pele azeitonada, feies 
refinadas, olhos que 
pareciam poos negros luminosos.
"Ela poderia ter sido uma estrela de cinema," pensou Lucia. "Qual  a sua 
histria? Por que 
se enterraria num lugar como este?"
A terceira freira que lhe atraa o interesse era a irm Megan. Olhos azuis, 
sobrancelhas e 
pestanas louras. Tinha vinte e poucos anos, rosto vioso e franco.
"O que ela est fazendo aqui? O que todas essas mulheres esto fazendo aqui? 
Ficam 
trancafiadas por trs desses muros, dormindo numa cela minma, uma comida 
horrvel, oito horas de 
oraes, trabalho rduo e muito pouco sono. Devem ser loucas... todas elas."
Estava numa situao melhor do que as outras, porque teriam de ficar ali pelo 
resto de suas 
vidas, enquanto ela saria dentro de um ou dois meses. "Talvs trs," pensou.  
"Este  um 
esconde-rijo perfeito. Eu seria uma tola se fosse embora de forma precipitada. 
Dentro de poucos 
meses a polcia vai pensar que morri. Quando sair daqui e pegar meu dinheiro na 
Sua, talvez escreva 
um livro a respeito desse hospcio."

Poucos dias antes, a reverenda madre pedira  irm Lucia que fosse ao  
escritrio para buscar 
um papel; enquanto estava ali, ela aproveitara para comear a revistar os 
arquivos. Infelizmente, fora 
surpreendida no acto de bisbilhotar.
- Far penitncia com a Disciplina - dicidira a reverenda madre Betina.
Irm Lucia baixara a cabea humildemente e sinalizava: 
- Sim, reverenda madre.
Lucia votara  sua cela, e minutos depois as freiras passando pelo corredor 
puderam ouvir 
o som terrvel do aoite assoviando pelo ar e caindo vrias vezes. O que no 
podia saber era que a 
irm Lucia estava aoitando a cama.
"Essas malucas podem ser sadomasoquistas, mas eu no  vou entrar nessa."

Elas estavam sentadas no refeitrio, quarennta freiras, em duas mesas compridas. 
A dieta 
Cisterciense era rigorosa vegetariana. Como o corpo ansiava por carne, o seu 
consumo era proibido. 
Muito antes do amanhecer, era servido uma xcara de ch ou caf e um pedao de 
po seco. A 
refeio principal era feita s onze horas da manh e consistia de uma sopa 
rala, uns poucos legumes, 
e de vez em quando um pedao de fruta.
A reverenda madre tinha instrudo Lucia:
- No estamos aqui para agradar a nossos corpos, mas sim para agradar a Deus.
"Eu no serviria  este desjejum a meu gato," pensou irm Lucia. "Estou aqui h 
dois meses, 
e aposto que j perdi uns quatro ou cinco  quilos.  a verso dvina de uma 
dieta rigorosa."
Quando o desjejum terminou, duas freiras levaram bacias de lavar loua para as 
extremidades 
das mesas. As irms em cada mesa levaram seus pratos para a irm com a bacia, 
que lavou cada um, 
enxugou com uma toalha e devolveu  outra irm. A gua foi ficando cada vez mais 
escura e 
gordurosa.
"E elas vo viver assim pelo resto de suas vidas," pensou irma Lucia, repugnada. 
"Mas no 
posso me queixar. Ainda  melhor do que uma sentena de priso perptua..."
Ela seria capaz de trocar sua alma imortal por um cigarro.


A meio quilmetro dali, pela estrada, o coronel Ramn Acoca e duas dzias de 
homens 
cuidadosamente escolhidos do  "GOE," o Grupo de "Operaciones Especiales," 
preparava-se para 
atacar o convento. 

        Captulo 4

  
O coronel Ramn Acoca possua os instintos de um caador. Adorava a perseguio, 
mas era 
o acto de matar que lhe proporcionava uma satisfao visceral. Confidenciara 
certa vez a um amigo: 
"Tenho um orgasmo quando mato. No faz diferena se  um cervo, um coelho ou um 
homem... H 
alguma coisa em tirar a vida que faz com que uma pessoa se sinta como Deus."
Agora trabalhava no servio de informaes militares e alcanara uma reputao 
de ser 
brilhante rapidamente. Era destemido, implacvel e inteligente, uma combinao 
que atrra a ateno 
de um dos auxiliares diretos do general Franco.
Ingressara no estado-maior  de Franco como tenente, e em menos de trs anos 
alcanaram 
o posto de coronel, uma faanha sem precedentes. Recebera o comando dos 
falangistas, o grupo 
especial usado para atorrorizar os opositores a Franco.
Fora durante a guerra que Acoca recebera a visita de um emissrio do "OPUS 
MUNDO" 
- Quero que compreenda que estamos lhe falando com permisso do general Franco.
- Claro, Senhor.
- Estamos observando-o h algum tempo, coronel. E estamos satisfeitos com o que 
vemos.
- Obrigado, Senhor.
- De vez em quando, temos certas misses que so digamos assim... confidenciais. 
E muito 
perigosas.
- Eu compreendo, senhor.
Temos muitos inimigos. Pessoas que no compreendem a importncia do trabalho que 
realizamos.
- Posso imaginar, senhor.
- As vezes elas interferem em nossos planos. No podemos permitir que isso 
acontea.
- Claro que no, senhor.
- Creio que poderamos usar um homem como voc, coronel. Acho que nos 
compreendemos.
- Claro, senhor. Eu me sentiria honrado em prestar qualquer servio.
- Gostaramos  que permanecesse no exrcito. Isso ser valioso para ns. Mas de 
vez em 
quando vamos design-lo para actuar em nossos projectos especiais.
- Obrigado, senhor.
- Nunca deve falar sobre isso com ningum.
- Nunca, senhor.
O homem deixar Acoca nervoso. Havia alguma coisa nele que era extremamente 
assustadora. 

Com o tempo, o coronel Acoca fora convocado a realizar algumas misses para o 
"OPUS 
MUNDO". Como fora avisado, todas eram perigosas. E absolutamente confidenciais.
Numa dessas misses, Acoca conhecera uma linda moa, de excelente famlia. At 
aquele 
momento, todas as suas mulheres tinham sido prostitutas ou vivandeiras. Acoca 
sempre as tratava 
com um desdm brutal. Algumas chegaram a se apaixonar por ele, atradas por sua 
fora. Essas 
recebiam o pior tratamento.

Mas Susana Cerredilla pertencia a um mundo diferente. O pai era professor na 
Universidade 
de Madrid, e a me, uma advogada. Susana tinha 17 anos, corpo de uma mulher e o 
rosto angelical 
de uma Madona. Ramn Acoca jamais conhecera ningum como aquela criana-moa. 
Sua gentil 
vulnerabilidade despertara-lhe uma ternura que jamais imaginara poder sentir.  
Apaixonou-se louca-
mente por ela, e o sentimento foi recproco, por razes que nem os pais nem 
Acoca compreendiam.
A lua-de-mel fora como se Acoca tivesse conhecido outra mulher. Conhecera o 
desejo, mas 
no a combinao de amor e paixo era algo que nunca experimentara  antes.
Trs meses depois do casamento, Susana informava-lhe que estava grvida. Acoca 
sentira a 
maior emoo. Para aumentar sua alegria, fora destacado para um posto na linda 
aldeia  de Casti-
blanco, no pas basco. Era o outono de 1936, quando a luta entre republicanos e 
nacionalistas se 
tornava mais ferrenha.
Numa tranquila manh de domingo, Ramn Acoca e a sua esposa tomavam caf na 
"plaza" 
da aldeia quando subitamente surgiram vrios manifestantes bascos.
- Quero que v para casa - dissera Acoca  esposa. - Vai haver problemas.
- E voc?
- V logo, por favor, ficarei bem.
Os manifestantes estavam comeando a escapar ao  controle.
Com alvio, Ramn Acoca observara Susana afastar-se da multido, a caminho de um 
convento na outra extremidade da praa. E no momento em que ela chegava, a porta 
do convento 
se abrira de repente e bascos armados, escondidos no interior, saram com as 
armas disparando. 
Acoca vira impotente a esposa cair sob uma saraivada de balas. Fora nesse dia 
que jurara vingana 
contra os bascos. A Igreja tambm fora responsvel. 
E agora ele estava em vila, diante de outro convento. "Desta vez eles 
morrero."

Dentro do convento, na escurido antes, do amanhecer, irm Teresa segurava a 
Disciplina 
com a mo direita e aoitava o prprio corpo com violncia sentindo as pontas 
nodosas cortarem- 
-na, enquanto recitava em silncio o "Miserere." Quase soltou um grito alto, mas 
o barulho no era 
permitido, e por isso ela reprimiu os gritos. "Perdoa-me, Jesus, por meus 
pecados. S testemunha que 
puni a mim mesma, como tu foste punido, e que me infligi ferimentos, como 
ferimentos te foram 
infligidos. Deixa-me sofrer, como tu sofreste."
Ela estava quase desmaiando de dor. Flagelou-se por mais trs vezes e depois 
arriou, 
agoniada, sobre o catre. No arrancara sangue. Isso era proibido. Estremecendo 
contra a agonia que 
cada movimento provocava, irm Teresa guardou o aoite na caixa preta e largou-a 
num canto. 
Estava sempre ali, uma lembrana constante de que o menor pecado devia ser pago 
com a dor.
A transgreo de irm Teresa ocorrera naquela manh, quando virava uma esquina 
do 
corredor, olhos baixos, e esbarrara em irm Graciela. Sobressaltada, fitava o 
rosto da irm Graciela. 
Irm  Teresa imediatamente comunicara a infrao,  e a revrenda madre Betina 
franzira o rosto em 
desaprovao, fizera o sinal da Disciplina, deslocando a mo direita de ombro 
para ombro, trs  
vezes, a mo fechada, como se empunhasse o aoite, o polegar sob o indicador. 

Deitada em seu catre, irm Teresa no conseguira tirar da cabea o rosto de 
extraordinria 
beleza da jovem que contemplara. Ela sabia que, enquanto vivesse, nunca se 
falariam e nunca mais 
tornaria a fit-la, pois o menor indcio de intimidade entre as freiras era 
punido com rigor. Num clima 
de rgida austeridade moral e fsica, no era permitido qualquer tipo de 
relacionamento. Se duas irms 
trabalhavam lado a lado e pareciam desfrutar da companhia silenciosa uma da 
outra, a reverenda 
madre logo as separava. As irms tambm no tinham permisso para sentar ao  
lado da mesma 
pessoa  mesa por duas vezes consecutivas.  A Igreja delicadamente chamava a 
atraco  de uma 
freira por outra de " uma amizade particular" , e    a penalidade era rpida e 
severa. Irm Teresa 
assumira a punio por violar a regra.
Agora o requinte do sino chegou aos ouvidos de irm Teresa como se soasse muito 
longe. 
Era a voz de Deus, repreendendo-a.

Na cela ao  lado o som do sino ressoou pelos corredores dos sonhos da irm 
Graciela, 
misturando-se com os rangidos lbricos das molas da cama. O mouro avanava em 
sua direo, nu, 
a virilidade intumecida, as mos se estendendo para agarr-la. Irm Graciela 
abriu os olhos, 
instantaneamente desperta, o corao disparado num frenesim. Olhou  volta, 
apavorada, mas estava 
sozinha na pequena cela e ouvia-se apenas o repicar tranquilizador do sino.
Irm Graciela ajoelhou-se ao  lado da cama.  "Jesus, agradeo por me livrar do 
passado. 
Agradeo pela alegria que sinto por estar aqui,  Sua luz. Deixe-me experimentar 
apenas a felicidade 
do Seu ser. Ajude-me, meu Amado, a ser sincera ao  Seu chamado. Ajude-me a 
aliviar o pesar do Seu 
sagrado corao."
Ela levantou-se e arrumou a cama com cuidado, depois juntou- -se  procisso de 
freiras que 
se encaminhavam em silncio para as matinas na capela. Podia sentir o cheiro 
familiar de velas acesas 
e as pedras gastas sob os ps metidos em sandlias.
No incio, assim que entrara para o convento, irm Graciela no compreendera 
quando a 
reverenda madre lhe dissera que uma freira era uma mulher que renuciava a tudo, 
a fim de possuir 
tudo. Tinha 14 anos na ocasio. Agora, 17 anos depois, aquilo era evidente para 
ela. Na 
contemplao, possua tudo, pois a contenplao era a mente respondendo  
alguma, as guas que 
corriam em silncio. Seus dias eram preenchidos por uma paz maravilhosa.
"Obrigada por me deixares esquecer, Pai. Obrigada por ficares do meu lado. Eu 
no poderia 
enfrentar o terrvel passado sem Ti. Obrigada... Obrigada... Obrigada..."
Quando as matinas acabaram, as freiras voltaram s suas celas para dormir at s 
laudes,  o 
nascer do sol.

L fora, o coronel Ramn Acoca e seus homens avanaram rapidamente pela 
escurido. ao 
 chegarem ao  convento, o coronel disse:
- Jaime Mir e seus homens estaro armados. No corram riscos. - Olhou para a 
fachada do 
convenmto, e por um instante viu outro convento, com guerrilheiros bascos 
saindo, e Susana 
tombando sob uma saraivada de balas. E acrescentou: - No se preocupem em 
capturar Mir vivo.

Irm Megan foi despertada pelo silncio. Era um silncio diferente, comovente, 
um mpeto 
apressado de ar, um sussurro de  corpos. Havia sons que ela nunca ouvira antes, 
em seus 15 anos no 
convento. Foi subitamente invadida por uma premonio de que havia algo muito 
errado.

Levantou-se sem, fazer barulho na escurido e abriu a porta de sua cela. Era 
inacreditvel, 
mas o longo corredor de pedra estava cheio de homens., Um gigante com uma 
cicatriz no rosto saa 
da cela da reverenda madre, puxando-a pelo brao. Megan ficou chocada. "Estou 
tendo um 
pesadelo," pensou. "Estes homens no podem estar aqui" 
- Onde  o esto escondendo? - perguntou o coronel Acoca.
A reverenda madre Betina tinha uma expresso de horror atordoado.
- Psiu! Este  um templo de Deus. Est profanando-o. - Sua voz era trmula. - 
Devem se 
retirar j.
O coronel apertou-lhe o brao com mais fora e sacudiu-a.
- Quero Mir, irm.
O pesadelo era real.
Outras portas de celas comearam a ser abertas e mais freiras apareceram, com 
expresses 
de total confuso. Nunca houvera coisa  em sua experincia que as preparasse 
para aquele aconteci-
mento extraordinrio.
O coronel Acoca empurrou a reverenda madre para longe e virou-se para Patrcio 
Arrieta, um 
dos seus ajudantes principais:
- Revistem tudo. De alto  a baixo.
Os homens de Acoca comearam a se espalhar, invadindo a capela, o refeitrio e 
as celas, 
acordando as freiras que ainda dormiam e forando-as rudemente a se levantarem e 
seguirem pelos 
corredores at  capela. As freiras obedeciam sem dizer nada, mantendo mesmo 
nessa hora o voto 
de silncio. Para Megan, a cena era como um filme sem som.
Os homens de Acoca estavam imbudos de um senso de vingana. Todos eram 
falangistas e 
lembravam muito bem que a Igreja se virara contra eles durante a Guerra Civil e 
apoiara os legalistas 
contra seu amado lder, o Generalssimo Franco. Aquela era a oportunidade de uma 
desforra.  A fora 
e o silncio das freiras deixavam os homens ainda mais furiosos.
o passar por uma das celas,  Acoca ouviu um grito l dentro. Olhou e viu um dos 
seus 
homens arrancando o hbito de uma freira. Ele seguiu em frente.

Irm Lucia foi despertada por gritos de homens. Sentou-se em pnico.  "A polcia 
me 
descobriu," foi seu primeiro pensamento.  "Preciso sair daqui imediatamente." 
Mas no havia meio 
de sair do convento, a no ser pela porta da frente do convento.
Levantou-se apressada e espiou pelo corredor. A viso com que seus olhos 
defrontaram era 
espantosa.  O corredor no estava cheio de guardas, mas sim de homens em trajes 
civis, armas em 
punho, destruindo lampies  e mesas. A confuso era total, enquanto eles corriam 
de um lado para 
outro.
A reverenda madre Betina estava parada no centro do cos rezando em silncio, 
enquanto 
contemplava a profanao de seu amado convento. Irm Megan foi para seu lado e 
Lucia se apressou 
em ir para junto das duas.
- h que dia... o que est acontecendo? - perguntou Lucia. - Quem so eles? - 
Eram as 
primeiras palavras em voz alta desde que ingressara no convento.
A reverenda madre ps a mo direita sob sua axila esquerda, trs vezes, o sinal 
para  
esconder. Lucia fitou-a, incrdula.
- Pode falar agora! Vamos sair daqui, pelo amor de Deus! E  mesmo pelo amor de 
Deus!
Patrcio Arrieta aproximou-se de Acoca. 
- J procuramos por toda parte, coronel. No h sinal de Jaime Mir ou de seus 
homens.
-Procurem de novo - insistio Acoca, obstinado.

Foi neste momento que a reverenda madre lembrou-se do nico tesouro que o 
convento 
possua. Dirigiu-se  irm Teresa e sussurou: 
- Tenho uma misso para voc. Pegue a cruz de  ouro e leve-a para o convento em 
Mendavia. 
Presisa tir-la daqui. Depresa!
Irm Teresa tremia tanto que sua touca adejava em ondas. Olhava fixamente para a 
reverenda 
madre, paralisada. Passara os ltimos trinta anos de sua vida no convento. A 
perspectiva de sair dali 
estava alm da imaginao e fez o sinal de "no posso." A reverenda madre estava 
frentica.  - A cruz 
no deve cair nas mos desses homens de Sat. Faa isso por Jesus. 
Uma luz surge nos olhos de irm Teresa. Ela empertigou-se, fez o sinal de "por 
Jesus." 
Virou-se e seguiu apresada para a capela.
Irm Graciela aproximou-se do grupo, olhando atordoada para a confuso 
desvairada do 
lugar. 
Os homens estavam se tornando cada vez mais violentos, quebrando tudo pela 
frente. O 
coronel Acoca observava-os com uma expresso de aprovao. Lucia virou-se para 
Megan e 
Graciela. 
- No sei o que vocs duas esto pensando, mas eu vou sair daqui. Vocs vm 
comigo?
Elas fitaram-na, aturdidas demais para responderem. 
Irm Teresa aproximou-se delas, apressada, carregando alguma coisa envolta por 
uma lona. 
Alguns homens conduziam mais freiras para o refeitrio. 
- Vamos logo - insistiu Lucia.
As irms Teresa, Megan e Graciela hesitaram por um momento, depois seguiram 
Lucia para 
a porta da frente. ao  virarem a extremidade do comprido corredor, perceberam 
que a enorme porta 
fora arrombada. Um homem seguiu de repente na frente delas.
- Esto indo para algum lugar? Podem voltar. Meus amigos tm planos para vocs. 
Lucia disse :
- Temos um presente para voc.
Ela pegou um dos pesados castiais de metal que ficavam nas mesas dos 
vestbulos, e sorriu. 
O homem  ficou perplexo.
- O que pode fazer com esse castial?
-Isto! - Lucia bateu com o castial na cabea do homem, e ele caiu no cho, 
inconsciente. 
As trs freiras ficaram  horrorizadas.
- Depresa! - Disse Lucia.
Um instante depois, Lucia, Megan, Graciela e Teresa estavam no ptio da frente, 
correndo 
para o porto, sob a noite estrelada. Lucia parou.
- Vou me separar de vocs. Eles vo procur-las, e por isso  melhor sarem 
daqui o mais 
depressa possvel. - Virou-se e comeou a sair para as montanhas, que se 
elevavam ao  longe, muito 
acima  do convento. "Eu me esconderei na Sua.  muito azar. Aqueles filhos da 
me destruram 
uma  cobertura perfeita." 
Enquanto subia pela encosta, Lucia olhou para baixo. L de cima, podia avistar 
as trs irms. 
Por mais incrvel que pudesse parecer, continuavam paradas na frente do porto 
do convento, como 
trs estatuas vestidas de preto. "Pelo amor de Deus!," pensou. "Saiam logo da, 
antes que eles as 
peguem! Depresa!"  

  Elas no podiam se mexer. Era como se todos os seus sentidos tivessem 
permanecido 
paralizados por tanto tempo que agora se encontravam incapazes de absorver o que 
lhes acontecia. 
 As freiras olhavam para os ps. To atordoadas que no podiam pensar. Haviam 
passado tanto 
tempo enclausuradas por trs dos portes de Deus, apartadas do mundo, que agora, 
fora  dos portes 
protetores, viam-se dominadas por sentimentos de confuso e pnico. No tinham a 
menor ideia que 
rumo seguir ou o que fazer. L dentro, a vida toda era organizada para elas. 
Haviam sido alimentadas, 
vestidas, instrudas sobre o que fazer e quando fazer. Viviam pelas regras. 
Agora, subitamente, no 
havia mais regras. O que Deus queria delas? Qual seria o Seu plano? Ficaram 
paradas,  juntas, com 
medo de falarem, com medo de olharem uma para a outra.
Hesitante, irm Teresa apontou para as luzes de vila, ao  longe,  e fez sinal 
de "por ali." 
Indecisas, elas comearam a se encaminhar para a cidade.
Observando-as do alto da colina, Lucia pensou: "No suas idiotas! Este ser o 
primeiro lugar 
em que eles vo procur-las. Ora, o problema  de vocs. J tenho os meus." 
Ficou parada por um 
instante, observando as freiras se encaminharem para a perdio, directo para o 
matadouro. "Merda."
Lucia desceu a encosta, tropeando em pedras soltas, correu atrs das irms, o 
hbito 
incmodo diminuindo a velocidade.
- Esperem um instante! - gritou. - Parem!
As irms pararam e se vieraram.  Lucia aproximou-se correndo, a respirao 
ofegante.
- Esto indo pelo caminho errado. O primeiro lugar que iro procurar vocs ser 
na cidade. 
Devem se esconder em algum outro lugar.
As trs irms fitaram-na em silncio. Lucia acrescentou, impaciente:
- As montanhas. Subam as montanhas. Sigam-me. - Virou-se e comeou a voltar para 
as 
montanhas. As outras ficaram olhando e depois de um instante partiram no seu 
encalo, uma a uma.
De vez em quando Lucia olhava para trs, a fim de se certi-ficar que as outras a 
seguiam. 
"Por que no posso cuidar da minha prpria vida?" pensou. "Elas no so 
responsabilidade minha. 
 E  mais perigoso se ficamos juntas." Continuou a subir, cuidando para que as 
outras no a 
perdessem de vista.
As irms encontraram a maior dificuldade na escalada, e cada vez ficavam mais 
lentas, Lucia 
parava e esperava por elas. "Vou me livrar delas amanh."
- Precisamos andar mais depressa - exortou Lucia.

A batida chegara ao  fim no convento. As freiras atordoadas, os hbitos 
amarrotados e 
manchados de sangue, estavam sendo embarcadas em caminhes fechados, annimos.
- Leve-as de volta para o quartel-general em Madrid - exortou o coronel Acoca. -  
E 
mantenha todas no isolamento.
- Sob que acusao?
- Esconder terroristas.
- Pois no, coronel. - Patrcio Arreta hesitou por instantes. - Quatro freiras 
esto 
desaparecidas.
Os olhos do coronel Acoca tornaram-se frios.
- Encontre-as.  

O coronel Acoca retornou a Madrid e foi se reportar ao  primeiro-ministro.
- Jaime Mir escapou antes de chegarmos ao  convento.
Martnez balanou a cabea.

- Eu j soube. - No pde deixar de especular se Jaime Mir alguma vez estivera 
no 
convento. De uma coisa estava certo. O coronel Acoca estava perigosamente 
escapando ao  controle. 
Houvera violentos protestos pelo brutal ataque ao  convento. O primeiro-ministro 
escolheu as 
palavras com todo cuidado:
- Os jornais esto me criticando pelo acontecido.
- Os jornais esto transformando esse terrorista num hroi - retrucou  Acoca, 
impassvel. - 
No podemos permitir que nos pressionem.
- Ele est causando muito embarao ao  governo, coronel. E as quatro freiras... 
se elas 
falarem...
- No se  preocupe. No podem ir longe. Eu as pegarei, e encontrarei Mir.
O primeiro-ministro j decidira que no podia mais correr riscos.
 - Coronel, quero que providencie para que as 36 freiras sejam bem tratadas,  e 
estou 
ordenando que o exrcito participe da busca a Mir e os outros. Vai trabalhar 
com o coronel Sostelo.
Houve uma pausa longa e perigosa.
- Qual de ns estar no comando da operao?
Os olhos de Acoca eram frios. O primeiro-ministro engoliu em seco.
- Voc,  claro.

Lucia e  as trs irms viajaram pelo o incio da manh, seguindo para o norte, 
na direco das 
montanhas, afastando-se de vila e do convento. As freiras, acostumadas a se 
movimentarem em 
silncio, quase no faziam barulho. Os nicos sons eram o farfa-lhar dos 
hbitos, o retinir dos 
rosrios, o estalido ocasional de um graveto quebrado e as respiraes  
ofegantes, enquanto subiam 
cada vez mais.
Chegaram a um plat na montanha Guadarrama e avanaram por uma estrada 
esburacada, 
margeada por moretas de pedra. Passaram, por campos com ovelhas e cabras. ao  
nascer do sol, j 
haviam precorrido vrios quilmetros e se encontravam num bosque, nos arredores 
da pequena aldeia 
de  Villacastn.
"Vou deix-las aqui," decidiu Lucia. "Seu Deus pode cuidar delas agora. Sem 
dvida, Ele 
cuidou muito bem de mim," pensou, amargurada. "A Sua est mais longe do que 
nunca. No tenho 
dinheiro nem passaporte,  estou vestida como um agente funerrio. A esta altura, 
aqueles homens j 
sabem que escapamos. Ficaro  nossa procura at nos encontrarem. Quanto mais 
cedo eu sair daqui 
sozinha, melhor."
Mas nesse instante aconteceu uma coisa que a levou a mudar de planos.
Irm Teresa avanava entre as rvores quando tropeou e o embrulho que guardava 
com 
tanto cuidado caiu na terra. A lona se abriu, e Lucia descobriu-se a olhar para 
uma cruz de ouro, 
grande, lavrada com requinte, faiscando aos raios do sol nascente.
" ouro de verdade," pensou. "Algum l em cima est mesmo cuidando de mim. 
Aquela cruz 
 um man. Um autntico man. A minha passagem para a Sua."
Lucia observou irm Teresa pegar a cruz e tornar a enrolar a lona, com todo 
cuidado. Sorriu 
satisfeita. Seria fcil tom-la. As freiras fariam qualquer coisa que ela 
mandasse.


A cidade de 'vila estava em alvoroo. As notcias do ataque ao  convento havia 
se espalhado 
depressa, e o padre Berrendo foi escolhido para uma confrontao com o coronel 
Acoca. O padre 
tinha mais de setenta anos, com uma fragilidade exterior que no condizia com a 
fora interior. Era 
um pastor afetuoso e compreensivo para com seus paroquianos. Naquele momento, 
porm, sentia 
uma fria incontrolvel.
O coronel Acoca deixou-o  espera por uma hora,  depois permitiu que o levassem 
at sua 
sala.
Padr Berrendo foi logo dizendo, sem qualquer  prembulo:
- Voc e seus homens atacaram um convento sem a menor provocao. Foi um acto de 
loucura.
- Procurmos apenas cumprir o nosso dever - retrucou o coronel, num tom rspido. 
- O 
convento abrigava Jaime Mir e seu bando de assassinos. Com isso, as prprias 
irms foram 
responsveis pelo o que aconteceu. Esto detidas para interrogatrio.
- O senhor encontrou Jaime Mir no convento? - perguntou o padre, irritado.
O coronel Acoca respondeu suavemente: - No. Ele e seus homens escaparam antes 
da nossa 
chegada. Mas vamos encontr-lo,  e se far justia.
 "A minha justia," pensou o coronel Acoca, selvagemente.

         Captulo 5


As freiras avanavan devagar, com seus trajes inadequados para o terreno 
acidentado. As 
sandlias eram finas demais para proteger-lhes os ps contra o terreno 
pedregoso, e os hbitos 
ficavam presos a tudo. Irm Teresa descobriu que nem sequer podia dizer o seu 
rosrio. Precisava 
das duas mos para evitar que os galhos lhe batessem no rosto.
 luz do dia, a liberdade parecia ainda mais aterradora do que antes. Deus 
expulsara as irms 
do den para um mundo estranho e assustador, retirando Sua orientao, em que 
elas haviam se 
apoiado por tanto tempo. Descobriram-se num  territrio inexplorado, sem  mapas 
e sem bssola. 
 Os muros que as  protegeram do mal por tantos  anos haviam desaparecido, e 
sentiam-se 
desprotegidas e expostas. O perigo rondava por toda a parte, e no mais 
dispunham de um refgio. 
Eram aliengenas. As vistas e sons eram fascinantes. Havia o zumbido dos insetos 
e o canto dos 
pssaros, o cu munto azul, tudo investindo contra seus sentidos. E havia algo 
mais que era 
desconcertante.
o fugirem do convento, Teresa, Graciela e Megan evitaram com todo o cuidado 
olhar uma 
para a outra, atendo-se instintivamente s regras. Agora, no entanto, cada uma 
se descobria a estudar 
avidamente os rostos das outras. Alm disso, aps tantos anos de silncio, 
encontravam dificuldades 
para falar; e quando falavam, as palavras eram hesitantes,  como se isso fosse 
novo e desconhecido. 
Suas vozes soavam estranhas nos prprios ouvidos. Apenas Lucia parecia 
desinibida e segura, e as 
outras se submeteram automaticamente  sua liderana.
-  melhor nos apresentarmos. Sou a irm Lucia - apresentou- -se ela.
- Sou a irm Graciela.
"A de cabelos escuros, beleza excepcional."
- Sou a irm Megan.
"A jovem loura, com olhos azuis deslumbrantes."
- Sou a irm Teresa.
"A mais velha do grupo. Cinquenta anos? Sessenta?"
Enquanto paravam no bosque para descansar, perto da aldeia, Lucia pensou: "Elas 
so como 
aves recem-nascidas, cadas dos ninhos. No durariam cinco minutos sozinhas. 
Ora, azar delas. Vou 
partir para a Sua com a cruz."
Lucia foi at  beira da clareira em que se encontravam e olhou atravs das 
rvores para a 
pequena aldeia l em baixo. Poucas pessoas andavam na rua, mas no havia sinal 
dos homens que 
invadiram o convento. "Agora," pensou Lucia.  "Esta  a minha oportunidade." Ela 
virou-se para as 
outras.
- Vou descer at a aldeia para tentar arrumar comida. Esperem aqui. - Acenou com 
a cabea 
para irm Teresa. - Venha comigo.
Irm Teresa ficou confusa. Durante trinta anos obedecera apenas s ordens da 
reverenda 
madre Betina, e agora, subitamente, aquela irm assumira o comando. "Mas o que 
esta acontecendo 
 a vontade de Deus," pensou. "Ele escolheu-a para nos guiar e assim ela fala 
com Sua voz."
- Devo levar esta cruz para o convento em Mendavia o mais depressa possvel.
- Est bem. Quando chegarmos l embaixo, pediremos para nos informarem o 
caminho.

As duas comearam a descer a encosta para a aldeia, Lucia atenta a qualquer 
perspectiva de 
problema. No havia nenhuma.
"Vai ser muito fcil," pensou ela. Chegaram aos arredores da aldeia. Uma placa 
informava: 
VILLACASTN.  frente ficava a rua principal.  esquerda, uma rua pequena e 
deserta.
ptimo, Pensou Lucia. No havia ningum para testemunhar o que estava prestes a 
acontecer. 
Ela entrou pela rua secundria.
- Vamos por aqui. Haver menos possibilidade de algum nos ver.
Irm Teresa balanou a cabea e seguiu-a, obediente. A questo agora era como 
lhe tirar a 
cruz.
"Eu poderia agarrar a cruz e correr," pensou Lucia, "mas ela provavelmente 
gritaria e atrairia 
muita ateno.  melhor dar um jeito para que fique quieta."
Um pequeno galho de uma rvore estava cado no cho,  sua frente. Lucia parou, 
inclinou-se 
para peg-lo. Era pesado. "Perfeito." Esperou que irm Teresa a alcanasse.
- Irm Teresa...
A freira virou-se para fit-la. No momento em que Lucia comeava a levantar o 
porrete, uma 
voz de homem disse, surgindo do nada.
- Deus esteja com vocs, irms.
Lucia virou-se, pronta para correr. Um  homem se encontrava parado ali, usando 
um hbito 
marrom comprido e capuz de frade. Era alto e magro, rosto aqulino, a expresso 
mais santa que 
Lucia j vira. Os olhos pareciam luzir com uma quente luz interior, a voz era 
suave e gentil.
- Sou o frei Miguel Carrillo.
A mente de Lucia estava em disparada. Seu primeiro plano fora interrompido. Mas 
agora, 
subitamente, tinha outro melhor.
- Graas a Deus que nos encontrou - murmurou.
Aquele homem seria sua garantia de fuga. Saberia o meio mais fcil de deixar a 
Espanha.
- Viemos do convento Cisterciense perto de vila - explicou Lucia. - Ontem  
noite ele foi 
invadido por alguns homens. As freiras foram levadas. Mas ns e outras duas 
conseguimos escapar.
Quando o frade respondeu, a voz estava impregnada de raiva:
- Venho do mosteiro de San Generro, onde estive durante os ltimos vinte anos. 
Fomos 
atacados anteontem - suspirou. - Sei que Deus tem algum desgnio para todos os 
seus filhos, mas 
devo confessar que no momento no compreendo qual possa ser.
- Esses homens esto  nossa procura - disse Lucia. -  importante que saiamos 
da Espanha 
to depressa quanto possvel. Sabe como se pode fazer?
Frei Carrillo sorriu gentilmente.
- Acho que posso ajud-las, irm. Deus nos reuniu. Leve-me para o lugar em que 
esto as 
outras.
Em poucos minutos Lucia levou o frade para o bosque e anunciou:
- Este  o frei Carrillo. Ele passou os ltimos vinte anos num mosteiro. Veio 
para nos ajudar.
As reaes ao  frade foram diferentes. Graciela no ousou fit-lo diretamente, 
Megan 
estudou-o com olhares rpidos  e interessados, e Irm Teresa considerou-o  como 
um  mensageiro 
enviado por Deus para lev-las ao  convento em Mendavia.
Frei Carrillo disse:

- Os homens que atacaram o convento esto sem dvida  procura de vocs. Mas 
ficaro 
atentos a quatro freiras. A primeira coisa que devem fazer  trocar de roupa.
- No temos outras roupas -  lembrou Megan.
Frei Carrillo deu-lhe um sorriso beatfico.
- Nosso Senhor tem um vasto guarda-roupas. No se preocupe, minha criana. Ele 
nos 
prover. Vamos para a aldeia. 
Eram duas horas da tarde, o momento da "siesta" 
, e frei Carrillo e as quatro freiras desceram pela rua principal da aldeia, 
alertas a qualquer 
sinal dos perseguidores. As lojas estavam fechadas, mas os restaurantes e bares 
se encontravam 
abertos, e deles saa uma msica estranha, estridente e dissonante. Frei 
Carrillo percebeu a expresso 
espantada no rosto de irm Teresa e explicou:
- Isso  rock and roll. Uma msica bem popular entre os jovens hoje em dia.
Duas moas estavam paradas na frente de um bar e ficaram olhando para as 
freiras, que 
tambm olharam, aturdidas com suas estranhas roupas. Uma delas usava uma saia 
to curta que mal 
cobria as coxas, a outra estava com uma saia mais comprida, s que aberta nos 
lados. As duas 
usavam blusas de tric muito justas sem mangas.
" como se estivessem quase nuas," pensou irm Teresa, horrorizada.
Um homem estava na porta, com um suter de gola rol, um casaco de aparncia 
estranha, 
sem gola, e um pendente de brilhante no pescoo.
Cheiros estranhos receberam as freiras quando passaram por uma bodega. Nicotina 
e usque.
Megan olhava fixamente para alguma coisa no outro lado da rua. Ela parou.
- O que houve? Qual  o problema? - perguntou frei Carrillo.
Ele virou-se para olhar. Megan observava uma mulher carregando um beb. Quantos 
anos 
haviam passado desde a ltima vez em que vira um beb ou mesmo uma criana 
pequena? Desde o 
orfanato, h 14 anos. O choque sbito fez com que Megan compreendesse o quanto 
sua vida estivera 
distante do mundo exterior.
Irm Teresa tambm olhava para o beb, mas pensava em  outra coisa. " o beb de 
Monique." A criana no outro lado da rua  comeou a gritar. "Est chorando 
porque eu o abandonei. 
Mas no, isso  impossvel. Aconteceu h trinta anos." Irm Teresa virou- -se, 
os gritos do beb 
rossoando-lhe nos ouvidos. Eles seguiram em  frente.
Passaram por um cinema. O cartaz na marquise anunciava: "Trs amantes," e as 
fotografias 
mostravam mulheres sumariamente vestidas, abraando um homem com o peito nu.
- Ora, elas esto... esto quase nuas! - exclamou irm Teresa.
Frei Carrillo franziu o rosto.
- Tem razo.  vergonhoso o que o cinema tem permisso para mostrar hoje em dia. 
Esses 
filmes  pura ponografia. Os actos mais pessoais e ntimos so apresentados, 
para todos verem. 
Transformam os filhos de Deus em animais.
Passaram por uma loja de ferragens, num salo de beleza, numa floricultura e 
numa loja de 
doces, todas fechadas para a "siesta." As irms pararam diante de cada loja e 
olharam aturdidas as 
vtrines, cheias de objectos outrora familiares, agora mera recordao.
o se aproximarem de uma loja de roupas femininas, frei Carrillo disse:
- Parem.

As cortinas nas vtrines estavam arriadas, e um cartaz na porta avisava: 
FECHADA.
- Esperem aqui, por favor.
As quatro mulheres observaram, enquanto ele dobrava a esquina e desaparecia. 
Trocaram 
olhares, aturdidas. O que ele ia fazer? E se no voltasse? Poucos minutos depois 
elas ouviram o 
barulho da porta da frente sendo aberta. Frei Carrillo ali estava, com uma 
expresso radiante. 
Gesticulou para que entrassem.
- Depressa!
Depois que todas estavam dentro da loja, ele trancara a porta, Lucia perguntou:
- Como pde...?
- Deus prov uma porta dos fundos, assim como a porta da frente - respondeu, 
solenemente.
Mas havia  uma insinuao maliciosa em sua voz que fez Megan sorrir.
As irms correram os olhos pela loja, assustadas. Era uma cornucpia 
multicolorida de 
vestidos e suteres, sutis e meias,  sapatos de salto alto e chapus. Artigos 
que no viam h anos. 
E os estilos pareciam muito estranhos. Havia bolsas e charpes, estojos de 
maquilagem e blusas. Era 
coisa demais para absorver. As freiras ficaram imveis, aterdoadas.
- Devemos nos apressar antes que a "siesta" acabe e a loja seja reaberta - 
advertiu frei 
Carrillo. - Sirvam-se. Escolham o que acharem melhor.
Lucia pensou: "Graas a Deus que posso outra vez me vestir como uma mulher." Ela 
encaminhou-se para um cabideiro com vestidos e comeou a examin-los. Encontrou 
uma  saia beje 
com uma blusa de seda castanho-amarelada para acompanh-la. "No  belenciaga, 
mas servir por 
enquanto." Apanhou tambm uma calcinha, um suti e um par de botas confortveis. 
Foi para trs 
de um cabideiro, despiu-se e em poucos minutos estava pronta para partir.
As outras demoraram a escolher suas roupas.
Graciela pegou um vestido branco de algodo que ressaltava os cabelos escuros e 
a pele 
morena, alm de um par de sandlias.
Megan pegou um vestido de algodo estampado que descia  abaixo dos joelhos e 
sandlias 
de saltos baixos.
Irma Teresa teve a maior dificuldade para escolher um traje. A variedade de 
opes era 
desconcertante. Havia sedas e flanelas, tweeds e couro... algodo, sarja e 
veludo... vestidos 
axadrezados e litrados de todas as cores. E todos pareciam... "sumrios" , foi a 
palavra que lhe veio 
 mente. Durante os ltimos trinta anos cobrira-se decentemente com os hbitos 
pesados de sua 
vocao. E agora lhe pediam que os removesse e pusesse aquelas criaes 
indecentes. Acabou 
escolhendo a saia mais comprida que pde encontrar e uma blusa de algodo, de 
mangas compridas 
e gola alta.
Frei Carrillo exortou-as:
- Depressa, irms. Troquem logo de roupa.
Elas se entreolharam, embaraadas. Ele sorriu.
- Ficarei  espera no escritrio,  claro. - Foi para os fundos da loja e entrou 
no escritrio. As 
irms comearam a se despir, terrivelmente inibidas pela presena das outras.
No escritrio, frei Carrillo puxara uma cadeira para a porta, subira nela,  e 
olhava pela 
bandeira da porta, enquanto as irms se despiam. Estava pensando: "Qual delas 
vou comer primeiro?"


Miguel Carrillo iniciara sua carreira de ladro quando tinha apenas dez anos. 
Nascera com 
cabelos louros encaracolados e um rosto angelical, o que se tormou de valor 
inestimvel na carreira 
que escolheu. Comeou de baixo, furtando bolsas e pequenos objectos em lojas.  
medida que se 
tornou mais velho, expandiu sua  carreira e comeou a roubar bbados e explorar  
mulheres ricas. 
Como era muito atraente,  teve um enorme sucesso. Inventou vrios golpes 
originais, cada um mais 
engenhoso do que o anterior. Infelizmente, o ltimo golpe foi sua desgraa.  
Apresentou-se como frei de um mosteiro distante, Carrillo viajou de igreja em 
igreja, 
solicitando abrigo para a noite. Era sempre atendido, e pela manh, quando abria 
a porta da igreja, 
o padre descobria que todos os artefactos valiosos haviam desaparecido, junto 
com o bom  frei.
Infelizmente, o destino o traiu. Duas noites antes, em Bjar, uma pequena cidade 
perto de 
vila, o padre voltou inesperadamente, e Miguel Carrillo foi surpreendido no 
acto de roubar o tesouro 
da igreja. O padre era corpulento e forte, derrubou carrilo no cho e anunciou 
que ia entreg-lo  
polcia. Um pesado clice de prata cara no cho, Carrillo pegou- e golpeou o 
padre. Ou o clice era 
muito pesado ou o crnio do padre muito frgil, pois o homem morreu. Miguel 
Carrillo fugiu em 
pnico, ansioso em ficar o mais longe possvel do local do crime. Passou por 
vila e soube do ataque 
ao  convento, desfechado pelo coronel Acoca e os seus agentes secretos do  
"GOE". E o destino quis 
que Carrillo se descobrisse no caminho das quatro freiras fugitivas.
Agora, ansioso na expectativa, estudou os corpos nus e pensou: "H outra 
possibilidade 
interessante. Como o coronel Acoca e seus homens esto  procura das irms, deve 
haver uma boa 
recompensa por suas cabeas. Vou com-las primeiro e depois entreg-las a 
Acoca." As mulheres, 
 exceo de Lucia, que j terminara de se vestir, estavam  totalmente nuas. 
Carrillo observou-as 
vestirem desajeitadas as novas roupas de baixo. Mas logo se arrumaram, abotoando 
com alguma 
dificuldade os botes a que no estavam acostumadas, puxando os zperes, 
querendo sair dali 
depressa, antes de serem descobertas.
Est na hora de entrar em aco, pensou Carrillo, feliz. Desceu da cadeira e 
voltou  loja. 
Aproximou-se das mulheres, estudou-as com aprovao e disse:
- Excelente. Ningum deste mundo pensaria que vocs so freiras. Gostaria de 
sugerir lenos 
para a cabea.
Escolheu um leno para cada uma e observou-as a ajeit-los em suas cabeas.
Miguel Carrillo tomou sua deciso.  Graciela seria a primeira. Era sem dvida 
uma das 
mulheres mais bonitas que j vira. "E que corpo! Como ela pde desperdiar tudo 
isso com Deus? 
Eu lhe ensinarei o que fazer com seus atributos."
Disse a Lucia, Teresa e Megan:
- Vocs devem estar com  fome. Podem ir at ao  caf por onde passamos e nos 
esperar ali. 
Irei  igreja e pedirei algum dinheiro emprestado ao  padre, a fim de podermos 
comer. - Virou-se para 
Graciela. - Quero que venha comigo, irm, para explicar ao  padre o que 
aconteceu  no convento.
- Eu... eu... est bem.
Carrillo acrescentou para as outras:
- Estaremos com vocs de novo dentro de pouco tempo. Sugiro que saiam pela porta 
dos 
fundos. - Observou Lucia, Teresa e Megan saram. Depois que ouviu a porta dos 
fundos fechar, 
virou-se para Graciela. "Ela  fantstica," pensou. "Talvez eu a mantenha 
comigo, usando-a em 
alguns golpes. Ela pode se tornar uma grande ajuda." Graciela olhava para ele.

- Estou pronta.
- Ainda no. - Carrillo fingiu estud-la um momemto. - No, acho que no vai 
dar. Esta roupa 
est errada em voc. Tire-a.
- Mas... por qu?
- No combina com  voc. As pessoas ficaro olhando, e no quer atrair muita 
ateno.
Ela hesitou, depois foi para trs do cabideiro. - Ande depressa. No dispomos de 
muito 
tempo.
Contrafeita, Graciela tirou o vestido pela cabea. Estava de calcinha e suti 
quando Carrillo 
surgiu subitamente.
- Tire tudo. - A voz dele era rouca.
Graciela fitou-o atordoada.
- Como? No! - Ela estava gritando. - Eu... no... posso... por favor...
Carrillo chegou mais perto.
- Eu a ajudarei, irm. - Estendeu as mos, arrancou o suti, rasgou a calcinha.
- No! - berrou Graciela. - No deve fazer isso! Pare!
Carrillo sorriu.
- "Carita," estamos apenas no comeo. Garanto que vai adorar.  - Seus braos 
fortes 
envolveram-na. Forou-a para o cho e levantou o hbito.
Foi como se uma cortina na mente de Graciela se abrisse de repente. Era o mouro 
tentando 
entrar nela, dilacerando suas profundezas, os gritos estridentes da me. E 
Graciela pensou, 
apavorada: "No, no outra vez. No, por favor... no outra vez..."
Ela se debatia agora, desesperada, lutando contra Carrilo, na tentativa de se 
levantar.
- Mas que droga! -  exclamou Carrillo.
Bateu com o punho no rosto de Graciela, e ela caiu para trs, atordoada, tonta.
Descobriu-se a retroceder no tempo.
De volta... de volta...

         Captulo 6


LAS NAVAS DE MARQUS, ESPANHA                                      1950

Graciela  tinha cinco anos de idade. Suas lembranas mais antigas eram de uma 
procisso de 
homens nus entrando e saindo da cama de sua me. A me explicou:
- Eles so seus tios. Deve mostrar respeito.
Os homens eram rudes e grosseiros, careciam de afeio. Ficavam por uma noite, 
uma 
semana, um ms, depois desapareciam. Quando partiam, Dolores Pinero procurava 
imediatamente 
por um novo homem.
Na juventude, Dolores pinro fora uma beldade, e Graciela herdara a aparncia da 
me.  
Mesmo quando criana, Graciela   era fascinante, com males salientes pele 
azeitonada, cabelos pretos 
lustrosos, pestanas densas e compridas. O corpo jovem encerrava muitas 
promessas.
Com a passagem dos anos, o corpo de Dolores Pinero  fora dominado pela gordura, 
e o rosto 
maravilhoso marcados pelos golpes amargos do tempo. Embora no fosse mais 
bonita, ela era 
acessvel e possua a reputao de ser uma ardorosa parceira na cama. Fazer amor 
era o seu nico 
talento, e ela o empregava para agradar aos homens, na esperana de mant-los, 
tentar comprar o 
amor com seu corpo. Ganhava a vida mal como costureira, porque era indiferente a 
seu ofcio e s 
contratada pelas mulheres da aldeia que no tinham condies de pagar s 
melhores.
Dolores Pinero desprezava a filha, pois era uma lembrana constante do nico 
homem que 
ela j amara. O pai de Graciela era um mecnico, jovem e bonito, que cortejava a 
bela e jovem Do-
lores. Ansiosa, ela se deixara seduzir. Quando anunciara que estava grvida,  
ele desaparecera, 
deixando Dolores com a maldio de sua semente.
Dolores tinha um temperamento explosivo e desforrou-se na criana. Sempre que 
Graciela 
fazia alguma coisa que a  desagradava, a me a espancava e gritava:
- Voc  to estupida quanto seu pai!
No havia a menor possibilidade da criana escapar  sua cesso de golpes ou 
gritos 
constantes. Graciella rezava todas as manhs, ao  despertar: "Por favor, Deus, 
no deixe que mame 
me bata hoje." Ou: "Por favor, Deus, faa mame feliz hoje." Ou: "Por favor, 
Deus, faa com que 
mame diga que me ama hoje."
Quando no estava atacando Graciella, a me a ignorava. Graciela preparava as 
prprias 
refeies e cuidava de suas roupas. Fazia o lanche que levava para a escola e 
dizia  professora:
- Minha me fez empanadas hoje. Ela sabe que eu gosto muito de empanadas.
Ou:
- Rasguei o vestido, mas minha me custurou para mim. Ela adora fazer as coisas 
para mim.
Ou:
- Minha me e eu vamos ao  cinema amanh.

E isso partia o corao da professora. Las Navas del Marqus  uma pequena 
aldeia, a uma 
hora de vila. Como todas as aldeias, por toda a parte, todo o mundo sabia da 
vida de todo o mundo. 
O estilo de vida de Dolores Pinero era uma desgraa e refletia sobre Graciela. 
As outras mes no 
deixavam que suas filhas brincassem com ela, a fim de que sua moral no fosse 
abalada. Graciela 
frequentava a escola na Plazoleta del Cristo, mas no tinha amigas, nem 
companheiras de 
brincadeiras. Era uma das alunas mais inteligentes da escola, mas as notas eram 
psimas. No 
conseguia se concentrar, pois estava sempre cansada.
A professora a advertia:
- Deve deitar mais cedo, Graciela, a fim de estar bem descansada para fazer seus 
deveres 
direito.
Mas a exausto nada tinha haver com deitar tarde. Graciela e a me partilhavam 
uma casa 
pequena de dois cmodos. A menina dormia num sof na sala mnima, com apenas uma 
cortina fina 
e surrada a separ-la do quarto. Com Graciela podia falar  professora sobre os 
sons obcenos que a 
despertavam  noite e a mantinham acordada, enquanto a me fazia amor com 
qualquer estranho que 
por acaso estivesse em sua cama?
Quando Graciela levava o boletim para casa, a me sempre gritava:
- Estas so as notas que eu j esperava! E sabe por que tira essas notas 
pssimas? Porque 
voc  estpida! Muito estpida!
E Graciela acreditava, fazia o maior esforo para no chorar.

 tarde, depois das aulas, Graciela vagueava sozinha, andando pelas ruas 
estreitas e sinuosas, 
com accias e pltanos, passando por casas de pedra caiadas de branco, em que os 
pais  amorosos 
viviam com suas famlias. Graciela tinha muitos colegas, mas todos apenas em sua 
mente. Eram lindas 
meninas e garotos simpticos, convidavam-na para todas as suas festas, serviam 
bolo e soverte. Os 
amigos imaginrios eram gentis  e afetuosos, todos consideravam-na muito 
inteligente. Quando a me 
no estava por perto, Graciela mantinha longas conversas com os amigos 
imaginrios.
"Quer me ajudar com os deveres de casa, Graciela? No sei somar, e voc  muito 
boa nisso."
"O que vamos fazer esta noite, Graciela? Podemos ir ao  cinema ou passear pela 
cidade e 
tomar uma coca-cola."
"Ser que sua me a deixaria vir jantar conosco esta noite, Graciela?"
"Acho que no vai dar. Minha me se sente muito sozinha quando no estou em 
casa. Afinal, 
sou tudo o que ela tem."
Aos domingos, Graciela levantava-se cedo e vestia-se sem fazer barulho, tomando 
cuidado 
para no acordar a me e qualquer que fosse o tio que estivesse na cama. Depois, 
ia para a igreja de 
San Juan Baptista, onde o padre Prez falava sobre as alegrias da vida aps a 
morte, uma vida de 
conto de fadas, com Jesus; e Graciela sentia-se ansiosa em morrer e se encontrar 
com Jesus.

Padre Prez era um homem atraente, de quarenta e poucos anos. Assistia os ricos 
e pobres, 
doentes e saudveis, desde que viera para Las Navas del Marqus, vrios anos 
antes. No havia 
segredos na pequena aldeia que ele no conhecesse. Padre Prez conhecia Graciela  
como uma 
frequencia assdua da igreja e tambm estava a par das histrias sobre o que 
constante fluxo de  es-
tranhos que partilhavam a cama de Dolores Pinero. No era um lar apropriado 
ppara uma criiana, 
mas no havia nada que ele pudesse fazer a esse respeito. Admirava-se por 
Graciela se sair to bem. 
Era uma menina boa e gentil, nunca se queixava ou falava sobre a vida domstica.

Graciella aparecia na igreja todas as manhs de domingo com uma roupa limpa e 
arrumada, 
que ele sabia ter sido lavada por ela. Padre Prez sabia que ela era escorraada 
pelas outras crianas 
da aldeia, e seu corao se confrangia. Fazia questo de passar alguns momentos 
com Graciela depois 
da missa, todos os domingos; e quando dispunha de tempo, levava-a um caf para 
tomar um sorvete.

No inverno a vida da Graciela era uma paisagem desolada, montona e sombria. Las 
Navas 
del Marqus ficava num vale, cercado  de montanhas, por causa disso, os invernos 
duravam seis 
meses. Os veres eram mais fceis de suportar, pois os turistas chegavam e 
enchiam a aldeia com 
risos e danas, as ruas  fervi-lhavam. Os turistas reuniam-se na Plaza de Manuel 
Delgado Barredo, 
com seus pequenos coretos de pedra, escutavam a orquestra e observavam os 
nativos danarem a 
sardana, a dana folclorica de muitos sculos, sempre descalos, as mos dadas, 
dando voltas 
graciosas, num crculo colorido. Graciela gostava de observar os visitantes, 
sentados nos cafs de 
beira de calada com seus aperitivos ou envolvidos nas compras no mercado de 
peixe.  uma hora 
da tarde a bodega estava  sempre repleta de turistas, bebendo "chateo" e comendo 
pedaos de carne, 
frutos do mar, azeitonas e batatas fritas.
O mais excitante para Graciela era assistir ao  "passeo" , todos os dias, ao  
fim da tarde. 
Rapazes e moas andavam de um lado para outro da Plaza Mayor, em grupos 
segregados, os rapazes 
olhavam para as moas, enquanto pais, avs e amigos vigiavam atentos dos cafs 
na calada. Era o 
tradicional ritual de acasalamento, mantido h sculos. Graciela ansiava em 
participar, mas a me 
proibia.
- Quer ser uma puta? - gritava para a filha. - Fique longe de rapazes. Eles s 
querem uma 
coisa de voc. - Uma pausa e ela acrescentava, amargurada: - Sei por experincia 
prpria.

Se os dias eram suportveis, as noites eram uma agonia. Atravs da cortina que 
separava as 
camas. Graciela podia ouvir os sons dos gemidos, estertores e respirao 
ofegante, e sempre as 
obscenidades.
- Mais depressa... com mais fora!
- "Cge-me!"
- "Mmame ela verga!"
- "Mtelo en el culo!
Antes dos dez anos de idade, Graciela j ouvira todas as palavras obscenas do 
vocabulrio 
espanhol. Eram sussurradas e gritadas, balbuciadas e gemidas. Os gritos de 
paixo repugnavam 
Graciela e ao  mesmo tempo lhe despertavam estranhos anseios.

Quando Graciela estava com 14 anos, o mouro entrou em cena. Era o maior homem 
que 
graciela j vira. A pele era de preto lustroso e a cabea raspada. Tinha ombros 
enormes, peito 
estufado e braos musculosos. O mouro chegou durante a noite, quando Graciela 
dormia. Ela s o 
viu pela manh, quando ele empurrou a cortina para o lado e passou por sua cama, 
completamente 
nu, a caminho da privada nos fundos. Graciela fitou-o e quase soltou um grito de 
espanto. Ele era 
enorme, em todas as partes. "Isso vai matar minha me," pensou Graciela. O mouro 
a viu.
- Ora, ora... o que temos aqui? Dolores Pinero deixou a cama apressada e veio se 
postar ao 
 seu lado.
- Minha filha - disse, bruscamente.
Uma onda de embarao envolveu Graciela ao  ver o corpo nu da me junto do homem. 
O 
mouro sorriu, exibindo dentes bonitos, brancos e regulares.
- Qual  o seu nome, "guapa?"

Graciela estava envergonhada demais com a nudez do homem para falar.
- Ela se chama Graciela, e  retardada.
- Ela  linda. Aposto que voc parecia assim quando jovem. - Ainda sou jovem - 
respondeu 
Dolores em tom spero, virando-se para a filha e acrescentou: - Vista-se ou vai  
chegar atrasada na 
escola.
- Est bem, mame.
O mouro ficou parado ali, contemplando-a. A me pegou-lhe o brao musculoso e 
murmurou, 
insinuante:
- Vamos voltar para a cama, querido. Ainda no acabamos.
- Mais tarde - respondeu o mouro, ainda olhando para Graciela.

O mouro  ficou. Todos os dias, ao  voltar da escola, Graciela rezava para que 
ele tivesse ido 
embora. Por motivos que no compreendia, aquele homem a deixara apavorada. 
Sempre era polido 
com ela, e nunca tentara coisa alguma, mas Graciela sentia calafrios s de 
pensar nele.
O tratamento  que ele dispensava  me era bem diferente. Passava a maior parte  
do dia na 
pequena casa, bebendo sem parar. Tomava qualquer dinheiro que Dolores ganhava. 
s vezes,  noite, 
no meio do acto de amor, Graciela o ouvia espancar a me. Pela manh, Dolores 
Pinero aparecia com 
um olho roxo ou um lbio partido.
- Por que atura esse homem, mame?
- Voc no compreendia. Ele  um homem de verdade, no um ano como os outros. 
Sabe 
 como satisfazer uma  mulher. - Dolores passou a  mo pelos cabelos, num gesto 
coquete. - Alm do 
mais, ele est perdidamente apaixonado por mim.
Graciela no acreditava nisso. Sabia que o mouro apenas usava sua me, mas no 
usou 
protestar de novo. Tinha pavor do temperamento explosivo da me, pois Dolores 
Pinero parecia 
dominada por uma espcie de insanidade quando ficava furiosa. Numa das ocasies 
perseguira 
Graciela com uma faca de cozinha, porque ela se atrevera a fazer um ch para um 
dos             " tios".

No incio de uma manh de domingo, Graciela levantou-se para ir  igreja. A me 
sara cedo 
para entregar alguns vestidos. No momento em que Graciela tirou a camisola, a 
cortina foi puxada 
e o mouro apareceu. Estava nu.
- Onde est sua me, "guapa?"
- Mame saiu cedo. Tinha de entregar alguns vestidos.
O mouro, contemplando o corpo nu de Graciela, murmurou:
- Voc  mesmo uma beleza.
Graciela sentiu-se corar. Sabia o que devia fazer: cobrir a nudez, pr uma saia 
e uma blusa, 
sair dali. Em vez disso, ficou parada, incapaz de se mexer. Observou o membro do 
mouro comear 
a inchar e subir diante de seus olhos.   Podia  ouvir as vozes ressoando em seus 
ouvidos: "Mais 
depressa... Com mais fora!" Sentiu que estava prestes a desfalecer.
- Voc  uma criana. Ponha logo as suas roupas e saia daqui - disse o mouro, a 
voz rouca.
E Graciela descobriu-se em movimento. Aproximou-se do mouro. Passou os braos 
pela 
cintura dele, sentiu o membro duro comprimindo-se contra seu corpo.
- No... - balbuciou. - No sou uma criana.

A dor que se seguiu foi diferente de tudo o que Graciela j conhecera antes. Foi 
terrvel, 
insuportvel. Foi maravilhosa, inebriante, linda. Ela apertava o mouro com os 
braos. Ele a levou a 
um orgasmo depois de outro, e Graciela pensou: "Ento todo o mistrio  isso." E 
era maravilhoso 
finalmente conhecer o segredo de toda criao. Ser parte da vida, saber o que 
era a alegria, agora e 
para sempre.
- Que porra vocs esto fazendo? Era Dolores Pinero, aos gritos. Por um 
instante, tudo 
parou, ficou paralisado no tempo. Dolores Pinero estava de p ao  lado da cama, 
olhando para a filha 
e o mouro.
Graciela fitou a me, apavorada demais para falar. Os olhos de Dolores Pinero 
faiscavam com 
uma raiva insana.
- Sua puta! - berrou. - Sua puta nojenta!
- Mame... por favor...
Dolores Pinero pegou um pesado cinzeiro de ferro na mesinha-de-cabeceira e bateu 
com toda 
a fora na cabea da filha.
Foi a ltima coisa de que Graciela se lembraria.

Ela acordou numa enfermaria de hospital, grande e branca, com duas dzias de 
camas, todas 
ocupadas. Enfermeiras corriam apressadas de um lado para outro, tentando atender 
s necessidades 
dos pacientes.
A cabea de Graciela latejava com uma dor lancinante. Cada vez que se maxia, 
rios de fogo 
corriam por ela. Ficou deitada ali, escutando os gritos e gemidos das outras 
pacientes.
o final da tarde um jovem interno parou ao  lado de sua cama. Tinha trinta e 
poucos anos, 
mas parecia velho e cansado.
- Finalmente acordou - disse. 
- Onde estou? - Graciela descobriu que doa muito falar.
- Na enfermaria de cariedade do Hospital Provincial de vila. Foi trazida ontem, 
em pssimo 
estado. Tivemos de dar vrios pontos na sua testa. - O interno fez uma pausa. - 
O cirurgio-chefe 
decidiu cuidar de voc pessoalmente. Disse que era bonita demais para ficar 
marcada por cicatrizes.
"Ele est enganado," pensou Graciela. "Ficarei marcada pelo resto da vida."

No segundo dia,  padre Prez foi visitar Graciela. Uma enfermeira arrastou uma 
cadeira para 
o lado da cama. O padre contemplou a moa linda e plida deitada ali, e seu 
corao se estremeceu. 
A coisa terrvel que acontecera com ela era o escndalo de Las Navas del 
Marqus, mas no havia 
nada que algum pudesse fazer a esse respeito. Dolores  Pinero contara  polcia 
que a filha 
machucara a cabea ao  cair. Padre Prez perguntou ento a Graciela:
- Est se sentindo melhor, criana?
Graciela assentiu, e o movimento fez com que sua cabea doesse ainda mais.
- A polcia tem feito perguntas. Tem alguma coisa que     gostaria que eu 
dissesse a eles?
Houve um silncio prolongado,  antes que ela balbuciasse:
- Foi um acidente.
O padre no pde suportar a expresso nos olhos de Graciela.
- Entendo... - O que Graciela tinha a dizer era doloroso demais. - Conversei com 
sua me...
E Graciela soube de tudo no mesmo instante.
- Eu... no posso mais voltar para casa, no  mesmo?
- Infelizmente,  no. Vamos conversar sobre isso. - Segurou- -lhe a mo. - 
Voltarei para 
visit-la amanh.
- Obrigada, padre.

Depois que ele foi embora, Graciela rezou: "Querido Deus, deixe-me morrer, por 
favor. No 
quero mais viver."
No tinha onde ir e ningum para procurar. Nunca mais veria sua casa. Nunca mais 
queria ir 
 escola ou contemplar os rostos familiares das professoras. No lhe restava 
coisa alguma no mundo. 
Uma enfermeira parou ao  p da cama.
- Precisa de alguma coisa? 
Graciela fitou-a em desespero. O que havia para dizer? 
No dia seguinte, o interno tornou a aparecer.
- Tenho boas notcias - disse, constrangido. - J est em condies de ter alta. 
- Era uma 
mentira, mas o resto  do discurso foi verdadeiro. - Precisamos do leito.
Ela estava livre para sair... mas sair para onde?

Quando o padre Prez chegou, uma hora depois, estava acompanhado por outro 
sacerdote.
- Este  o padre Berrendo, um velho amigo meu.
Graciela olhou para o padre de aparncia frgil.
- Padre... 
"Ele tinha razo," pensou o padre Berrendo. "Ela  mesmo linda."
Padre Prez contara o que acontecera com Graciela. Berrendo esperava encontrar 
sinais 
visveis do tipo de ambiente em que a criana vivera, uma dureza, desafio, 
autocompaixo. Mas no 
havia nada disso no rosto da moa.
- Lamento que tenha passado por momentos to terrveis - disse-lhe padre 
Berrendo.
A frase insinuava um significado mais profundo.
Padre Prez acrescentou:    
- Graciela, preciso voltar a Las Navas del Marqus. Vou deix-la aos cuidados de 
padre 
Berrendo.
Graciela foi dominada por um sbito sentimento de pnico. Sentiu que o ltimo 
vnculo com 
sua casa estava sendo cortado.
- No v! - suplicou.
Padre Prez pegou-lhe a mo e disse, gentilmente:
- Sei que se sente s, mas no est. Acredite em mim, criana, no est s.
Uma enfermeira aproximou-se da cama, carregando um fardo. Entregou-o a Graciela.
- Aqui esto suas roupas. Lamento, mas ter que ir embora agora.
Um pnico ainda maior dominou Graciela.
- Agora?
Os dois padres trocaram um olhar.
- Por que no se veste e vem comigo? - sugeriu padre Berrendo. - Poderemos 
conversar.
Quinze minutos depois padre Berrendo ajudava Graciela a sair pela porta do 
hospital para o 
sol quente. Havia um jardim na frente com flores de cores fortes, mas Graciela 
estava atordoada 
demais para not-las.

Quando estavam sentados em seu escritrio, padre Berrendo disse:
- Padre Prez me contou que voc no tem para onde ir.
Graciela acenou com a cabea
- No tem parentes?
- S... - Era difcil dizer. - S... minha me.
- Padre Prez disse que frequentava regularmente a igreja em sua aldeia.

Uma aldeia que nunca mais tornaria a ver.
-  verdade.
Graciela pensou naquelas manhs de domingo, a beleza dos servios na igreja, o 
quanto 
ansiava estar com Jesus, escapando da angstia da vida que levara.
- Graciela, alguma vez pensou em entrar para um convento?
- No. - Estava aturdida com a ideia.
- H um convento aqui em vila...     o convento Cister-ciense. Elas a 
aceitariam ali. - Eu... 
no sei...
A ideia era assustadora.
- No  para todas - disse padre Berrendo. -   E devo avis- -la  que  a mais 
rigorosa de 
todas as ordens. Depois de passar pelos portes e tomar os votos, faz uma 
promessa a Deus de nunca 
mais sair.
Graciela ficou em silncio, a mente povoada  por pensamentos conflitantes, 
olhando para a 
janela. A perspctiva de se isolar do mundo era terrvel. "Seria como ir para a 
priso." Mas por outro 
lado, o que o mundo tinha a lhe oferecer? Dor e    desespero alm de sua 
capacidade de suportar. 
Pensara muitas vezes em suicdio. Aquilo podia representar uma sada para sua 
angstia.
Padre Berrendo acrescentou:
- Depende de voc, minha criana. Se quiser, eu a levarei para conhecer a 
reverenda madre 
superiora.
- Est bem.

A reverenda madre estudou o rosto da moa  sua frente. Na noite passada, pela 
primeira vez 
em muitos e muitos anos, ela ouvira a voz. "Uma jovem vir ao  seu encontro. 
Proteja-a."
- Quantos anos tem, minha filha?
- 14. 
- Ela j tem idade suficiente. No sculo quatro, o papa determinara que as 
jovens tinham 
permisso para se tornarem freiras aos 12 anos.
- Tenho medo - murmurou Graciela para a reverenda madre Betina.
"Tenho medo." As palavras ressoaram na mente de Betina. "Tenho medo..."
Acontecera h muitos anos. Ela estava falando com o padre.
- No sei se tenho vocao para isso, padre. Tenho medo.
- O primeiro contacto com Deus, Betina, pode ser bastante desconcertante, e a 
deciso de 
consagrar sua vida a Ele  das mais difceis. 
"Como descobri minha vocao?" especulara Betina. Quando pequena, evitava a 
igreja e as 
aulas de catecismo. Na adolescncia, estava mais interessada em festas, roupas e 
rapazes. Se 
perguntasse s amigas em Madrid para indicarem possveis candidatas a freiras, 
Betina ficaria no final 
da lista. Ou, mais acuradamente, nem entraria na lista. Mas aos 19 anos 
comearam a ocorrer eventos 
que mudaram sua vida. Estava na cama, dormindo, quando uma voz disse:
- Betina, levante-se e saia.
Abriu os olhos e sentou-se na cama, assustada. Acendeu o abajur na mesinha-de-
cabeceira. 
Estava s. "Que sonho estranho!"
Mas a voz fora bastante real. Tornou a deitar-se, mas foi impossvel voltar a 
dormir.
- Betina, levante-se e saia. 
" o meu subconsciente," pensou. "Por que eu haveria de querer sair no meio da 
noite?" 

Apagou o abajur, mas tornou a acend-lo um momento depois. "Isso  loucura."
Mas acabou pondo um chambre e chinelas e desceu. Todos na casa dormiam.
Abriu  a porta da cozinha, e nesse instante foi envolta por uma onda de medo, 
porque de 
alguma forma sabia que deveria sair para o ptio. Correu os olhos pela escurido 
e divisou um brilho 
de luar numa geladeira abandonada, agora usada para guardar ferramentas.
Betina compreendeu subitamente por que estava   ali. Encaminhou-se  para a 
geladeira, como 
se estivesse hipnotizada, e abriu-a. Seu irmo de trs anos estava l dentro, 
inconsciente.
Esse foi o primeiro incidente. Com o tempo, Betina racionalizou isso como uma 
experincia 
perfeitamente normal. "Devo ter ouvido meu irmo levantar e sair para o ptio, 
lembrei que a 
geladeira estava ali, fiquei preocupada com ele, e por isso sa para verificar."
A experincia no foi fcil de explicar. Aconteceu um ms depois. No sono, 
Betina ouviu uma 
voz dizer:
- Voc deve apagar o fogo.
Sentou-se na cama, completamente despertada, o corao disparado. Outra vez, foi 
impossvel voltar a dormir. Ps o chambre e chinelos, saiu para o corredor. No 
havia fumaa. No 
havia fogo. Abriu a porta do quarto dos pais. Tudo normal ali. Tambm no havia 
fogo no quarto do 
irmo. Desceu e verificou todos os cmodos. No havia o menor indcio de fogo.
"Sou uma idiota," pensou. "Foi apenas um sonho."
Voltava para a cama no momento em que a casa foi sacudida por uma exploso. Ela 
e a 
famlia escaparam, os bombeiros conseguiram extinguir o incndio.
- Comeou no por - explicou um bombeiro. - E uma caldeira explodiu.
O incidente seguinte ocorreu trs semanas depois. E desta vez no foi sonho.
Betina estava no ptio, lendo, quando avistou um estranho atravessando. Ele a 
fitou, e nesse 
instante ela sentiu uma malevolncia irradiando-se do homem, quase palpvel. Ele 
virou-se e foi 
embora.
Betina no conseguiu tir-lo da mente.
Trs dias depois, ela estava num prdio de escritrio,  espera do elevador. A 
porta se abriu, 
e ela j ia entrar no elevador quando reparou no ascensorista. Era o homem que 
vira no ptio. Betina 
recuou, assustada. A porta fechou-se e o elevador subiu. Momentos depois caiu, 
matando todas as 
pessoas que estavam l dentro.
No domingo seguinte Betina foi  igreja.
"Santo Deus, no sei o que est acontecendo, e me sinto assustada. Por favor, 
oriente-me e 
diga o que devo fazer."
A resposta veio naquela noite, enquanto Betina dormia. A voz disse uma nica 
palavra. 
"devoo." 
Pensou a esse respeito durante o resto da noite, e pela manh foi conversar com 
o padre.
Ele escutou atentamente o que Betina tinha a dizer.
- Ah, voc  uma das afortunadas! Foi escolhida.
- Escolhida para qu?
- Est disposta a devotar toda sua vida a Deus, minha criana?
- Eu... eu no sei...
Mas, no final, ela acabou ingressando no convento.

"Escolhi o caminho certo," pensou a reverenda madre Betina, "porque jamais 
conheci tanta 
felicidade..."

E agora ali estava aquela criana maltratada a murmurar:
- Tenho medo.
A  reverenda madre pegou a mo de Graciela.
- Leve o tempo que precisar para decidir, Graciela. Deus no ir embora. Pense a 
esse 
respeito, volte e poderemos conversar.
Mas o que havia para pensar? "No tenho outro lugar para onde ir," refletiu 
Graciela. E o 
silncio seria bem-vindo. "J ouvi sons terrveis demais." Fitou a reverenda 
madre e disse:
- Terei prazer com o silncio.
 Isso acontecera 17 anos antes, e nesse perodo Graciela encontrara paz pela 
primeira vez. 
  E toda sua vida era dedicada a Deus. O passado no mais lhe pertencia. Estava 
perdoada pelos 
horrores com que fora criada. Era a esposa de Cristo, e ao  final de sua vida 
iria se juntar a Ele.
 medida que os anos se passaram, em profundo silncio, apesar dos pesadelos 
ocasionais, 
os sons terrveis em sua mente pouco a pouco se desvaneceram.

Irm Graciela foi designada para trabalhar no jardim, cuidando dos pequenos 
arco-ris do 
milagre de Deus, jamais se cansava de seu esplendor. Os muros do convento 
erguiam-se acima dela, 
por todos os lados, como uma montanha de pedra, mas Graciela nunca se sentia 
aprisionada; em vez 
disso, sentia-se isolada do terrvel mundo exterior, um mundo que jamais queria 
rever.

A vida no convento fora serena e pacfica. Agora, porm, os pesadelos 
assustadores 
convertiam-se em realidade. Seu mundo, fora invadido por brbaros. Expulsaram-na 
de seu santurio, 
para o mundo a que renunciara para sempre. E seus pecados, ressurgiam, enchendo-
a de horror. O 
mouro voltara. Pudia semtir seu bafo quente no rosto. Enquanto lutava com ele, 
Graciela abriu os 
olhos, e era o frade quem  estava por cima dela, tentando penetr-la. E ele 
dizia: 
- Pare de resistir, irm. Vai gostar disso.
- Mame! - gritou Graciela. - Mame! Socorro!

         Captulo 7


Lucia Carmine sentia-se muito bem enquanto descia pela rua, acompanhada por 
Megan e 
Teresa. Era maravilhoso usar de novo roupas femininas, e ouvir o susurro da seda 
contra sua pele. 
Olhou para as outras. As duas andavam nervosamente, desacostumadas s roupas 
novas parecendo 
inibidas e embaraadas na saia   e meias. "Parecem que vieram de outro planeta," 
pensou Lucia.  
"Certamente no pertencem a este.  como se estivessem usando cartazes que 
dizem: 
PEGUEM-ME."
Irm Teresa era a mais contrafeita. Trinta anos no convento incutiram-lhe um 
profundo senso 
de recato, que estava sendo violado pelos eventos que no podiam controlar. 
Aquele mundo a que 
outrora pertencera agora parecia irreal. O convento, sim, que era real, e ela 
ansiava por voltar ao  
santurio de seus mouros protetores.
Megan estava consciente de que os homens a contemplavam enquanto descia pela rua 
e 
corou. Vivera num mundo de mulheres por tanto tempo que esquecera como era ver 
um homem, 
muito menos observar um a sorrir-lhe. Era embaraoso, indecente... excitante. Os 
homens 
despertavam sensaes que Megan sepultara h muito tempo. Pela primeira vez em 
anos, estava 
consciente de sua feminidade.
Estavam passando pelo bar que haviam visto na ida, e a msica sara estrondosa 
para a rua. 
Como fora mesmo que frei Carrillo chamara? Rock and roll. "Muito popular entre 
os jovens." E, 
subitamente,  Megan compreendeu o que era. ao  passarem pelo cinema, o frade 
dissera: " 
vergonhoso o que o cinema tem permisso para mostrar hoje em dia. Esse filme  
pura pronografia. 
Os actos mais pessoais e intimos so apresentados, para todos verem."
O corao de Megan comeou a  bater mais depressa. Se frei Carrillo passara os 
ltimos vinte 
anos encerrado num mosteiro, como podia saber sobre a msica de rock ou o que o 
cinema exibia? 
Alguma coisa estava terrivelmente errada. Virou-se para Lucia e Teresa e disse, 
em tom de urgncia:
- Precisamos voltar  loja.
Elas observaram enquanto Megan se virava correndo, depois a seguiram.

Graciela estava no cho, lutando desesperadamente para se desenvencilhar, 
arranhando e 
empurrando Carrillo.
- Mas que droga! Fique quieta! - Estava ficando sem flego. Ouviu um som e 
levantou os 
olhos. Viu um salto de um sapato avanando para sua cabea e foi a ltima coisa 
de que se lembrou 
depois. Megan levantou a trmula Graciela e abraou-a.
- Calma, calma... Est tudo bem. Ele no vai mais incomod- -la.
 Alguns  minutos se passaram antes que Graciela pudesse falar, balbuciando, 
suplicante:
- Ele... ele... no foi minha culpa desta vez.
Lucia e Teresa entraram na loja. Lucia percebeu toda a situao com um rpido 
olhar.
- O filho da me!
Olhou para o vulto inconsciente e seminu no cho. Enquanto as outras observavam, 
Lucia 
pegou alguns cintos num balco e amarrou as mos de Carrillo nas costas.

- Amarre os ps - disse a Megan.
Megan ps-se a trabalhar. Lucia finalmente levantou-se satisfeita. - Pronto. 
Quando abrirem 
a loja esta tarde, ele ter de explicar o que est fazendo aqui. - Estudou 
Graciela atentamente. - Voc 
est bem?
- Eu... eu... estou. - Graciela tentou sorrir.
-  melhor sairmos daqui - disse Megan. - Vista-se. Depressa.
Quando estavam prontas para sair, Lucia disse: 
- Esperem um instante.
Foi at a caixa registradora e apertou uma tecla. Havia algumas notas e cem 
pesetas ali. Lucia 
tirou-as, pegou uma bolsa no balco e guardou as notas dentro. Viu a expresso 
desaprovadora no 
rosto da irm Teresa.
- Pense da seguinte maneira - disse Lucia. - Se Deus no quisesse que ficssemos 
com este 
dinheiro, irm, no o poria aqui para ns.

Elas estavam sentadas no caf, reunidas. Irm Teresa estava dizendo:
- Devemos levar a cruz ao  convento em Mendavia o mais depressa possvel. Haver 
segurana ali para todas ns.
"Para mim no," pensou Lucia. "Minha segurana  aquele banco suo. Mas uma 
coisa de 
cada vez. Preciso antes de me apo-derar da cruz."
- O convento em Mendavia no fica ao  norte daqui?
- Fica.
- Os homens estaro  nossa procura em cada cidade. Por isso,  devemos dormir 
nas 
montanhas esta noite. 
"Ningum ouvir, mesmo que ela grite." 
Uma garonete trouxe  o cardpios para a mesa e    distri-buiu-os. As irms 
olharam, com 
expresses confusas. Subitamente, Lucia compreendeu. H muitos anos que elas no 
tinham opo 
de qualquer tipo. No convento, comiam automaticamente a comida simples que lhes 
era servida. 
Agora, defrontavam-se com uma cornucpia de iguarias desconhecidas. Irm Teresa 
foi a primeira 
a se manifestar:
- Eu... eu quero um caf e po, por favor.
Irm Graciela acrescentou:
- E eu tambm.
Megan declarou:
- Temos uma jornada longa e rdua pela frente. Sugiro que peamos alguma coisa 
mais 
nutritiva, com ovos.
Lucia fitou-a com uma nova ateno. " nela que devo ficar de olho," pensou 
Lucia. Em voz 
alta, ela declarou:
- Irm Megan tem razo. Deixem que eu peo por vocs, irms. - Pediu laranjas em 
fatias, 
tortilhas de batatas, bacon, po, gelia e caf. - Estamos com pressa - avisou  
garonete.
A "siesta"  terminava s quatro e meia, e toda cidade des-pertaria. Ela queria 
estar bem longe 
antes que isso acontecesse, antes que descobrissem Miguel Carrillo na lojas de 
roupas.
Quando a comida chegou, as irms ficaram imveis, olhando, aturdidas.
- Sirvam-se - exortou Lucia.
Elas comearam a comer, cautelosas a princpio, depois com a maior satisfao, 
superando 
os sentimentos de culpa. Irm Teresa era a nica que estava com problemas. Levou  
um pouco  boca 
e balbuciou:

- Eu... eu... no posso...  renuncia...
Megan disse:
- No quer chegar ao  convento, irm? Ento precisa comer para manter as foras.
- Est bem, vou comer. Mas prometo que no vou gostar - declarou irm Teresa, 
empertigada.
Lucia precisou fazer um grande esforo para manter a expresso compenetrada.
- Est certo, irm. Mas coma tudo.
Depois que acabaram, Lucia pagou a conta com uma parte do dinheiro que tirara da 
caixa 
registadora. Elas saram para o sol quente. As ruas comearam a se encher, as 
lojas j estavam abrin-
do. "A esta altura, provavelmente, j encontraram Miguel Carrillo," pensou 
Lucia.
Ela e Teresa estavam impacientes em deixar a cidade, mas Graciela e Megan 
andavam 
devagar, fascinadas pelas vistas, sons e cheiros do lugar.
S quando saram para os arredores e se encaminharam para as montanhas  que 
Lucia 
comeou a relaxar. Seguiram para o norte, subindo sempre, bem devagar devido ao  
terreno 
acidentado. Lucia sentia-se tentada a perguntar a irm Teresa se na gostaria 
que ela carregasse a 
cruz, mas achou melhor no dizer nada que podesse despertar suspeitas na mulher 
mais velha.
o chegarem a uma pequena clareira no alto, cercada por rvores, Lucia disse:
- Podemos passar a noite aqui. Pela manh seguiremos para o convento em 
Mendavia.

O sol deslocava-se devagar pelo cu azul. A clariedade estava em silncio, 
exceto pelos sons 
confortveis de vero. A noite finalmente caiu.
Uma a uma, as mulheres deitaram na relva verde.
Lucia ficou imvel, a respirao leve, atenta a um silncio mais profundo,  
espera de que as 
outras adormecessem, a fim de entrar em aco.
Irm Teresa estava encontrando dificuldades para dormir. Era uma experincia 
estranha 
dormir sob as estrelas, cercada por outras irms. Elas tinham nomes agora, 
rostos e vozes, e Teresa 
receava que Deus a punisse por esse conhecimento proibido. Sentia-se 
terrivelmente perdida.
Irm Megan tambm no conseguia dormir. Sentia-se excitada pelos acontecimentos 
do dia. 
"Como descobrira que o frade era uma fraude?" especulou. "E onde encontrei 
coragem para salvar 
irm Graciela?" Sorriu, incapaz de evitar alguma satisfao consigo mesma, 
estando ciente de que 
tal sentimento era um pecado. 
Graciela dormia, emocionalmente esgotada pelo que passara. Remexia-se no sono, 
atormentada por sonhos em que era perseguida por corredores escuros e 
interminveis.
Lucia Carmine mantinha-se imvel,  espera. Assim ficou por quase duas horas, 
depois se 
sentou e deslocou-se pela escurido, sem fazer barullho, na direo de irm 
Teresa. Pegaria o 
embrulho e desapareceria.
o se aproximar de irm Teresa, Lucia descobriu que ela estava acordada, 
ajoelhada, 
rezando. "Merda!" Lucia recuou apressada.
Tornou a se deitar, forando-se a ser paciente. Irm Teresa no poderia rezar 
durante a noite 
inteira. Precisava de dormir um pouco.

Lucia planeou seus movimentos. O dinheiro tirado da caixa registadora seria 
suficiente para 
que pegasse um nibus ou trem at Madrid. ao  chegar l, seria fcil arrumar um 
penhorista. Viu-se 
entregando-lhe a cruz de ouro. O homem desconfiaria de que era roubada, mas isso 
no faria a menor 
diferena. Ele teria muitos clientes ansiosos em compr-la.  
"Eu lhe darei cem mil pesetas pela cruz."
Ela a pegaria no balco. "Prefiro vender meu corpo primeiro."
"Cento e cinquenta mil pesetas."
"Prefiro derret-la e deixar o ouro escoar pelo bueiro."
"Duzentas mil pesetas. Esta  minha ltima oferta."
"Est me roubando vergonosamente,, mas vou aceitar." 
O homem estenderia as mos para a cruz, na maior ansiedade.
"Sob uma condio."
"Uma condio?"
"Isso mesmo. Perdi meu passaporte. Conhece algum que possa me providenciar 
outro?"  
Suas mos ainda estariam na cruz de ouro.
Ele hesitaria, mas acabaria dizendo: "Por acaso tenho um amigo que arruma essas 
coisas."
E o negcio seria fechado. Ela estaria a caminho da Sua e da liberdade. 
Lembrou-se das 
palavras do pai: "H muito mais dinheiro l do que poderia gastar em dez vidas."
Seus olhos comearam a fechar. Fora um longo dia.
Em seu meio  sono, Lucia ouviu o repicar de um sino na aldeia distante. 
Provocou-lhe 
lembranas, de outro lugar, de outro tempo... 

         Captulo 8


toRMINA, SICLIA                                                              1968



Ela era despertada todas as manhs pelos sinos da igreja de San Domenico, no 
alto das 
Montanhas Peloritoni, ao  redor de tormina. Gostava de acordar devagar, 
espreguiando-se 
languidamente, como uma gata. Mantinha os olhos fechados, ciente que havia 
alguma coisa 
maravilhosa para lenbrar. "O que era?"  A questo provocava-lhe a mente, e ela 
reprimia, sem querer 
saber por enquanto, preferindo saborear a surpresa. E de repente de repente sua 
mente era envolvida 
pela recordao, na mais intensa alegria. Era Lucia Maria Carmine, a filha de 
Angelo Carmine, o que 
era suficiente para tornar qualquer pessoa feliz no mundo. 
Moravam numa villa grande, com mais criados do que Lucia, ento com 15 anos, 
podia 
contar. Um guarda-costas levava-a para a escola todas as manhs, numa limusine 
blindada. Cresceu 
com os mais lindos vestidos e os brinquedos mais caros em toda a Siclia, era a 
inveja das colegas da 
escola.
Mas era em torno de seu pai que a vida de Lucia se concentrava. A seus olhos, 
ele era o 
homem mais bonito do mundo. Era baixo e corpulento, com rosto forte e olhos 
castanhos tempestuo-
sos,  que irradiavam poder. Tinha dois filhos, Arnaldo e Victor, mas era a filha 
que Angelo Carmine 
adorava. 

E Lucia o idolatrava. Na igreja, quando o padre falava em Deus, Lucia sempre 
pensava no 
pai. Ele ia  cabeceira de sua cama pela manh e dizia:
- Hora de levantar para a escola, "faccia d'angelo."
Cara de anjo. No era verdade,  claro. Lucia sabia que no era realmente 
bonita. "Sou 
atraente," ela pensava, estudando-se objetivamente no espelho. Isso mesmo. 
Fascinante, em vez de 
bela. O reflexo mostrava uma moa com rosto oval, pele cremosa, lisa, dentes 
brancos, um queixo 
forte - forte demais? -, lbios sensuais e cheios - cheios demais? -, olhos 
escuros e espertos. Mas se 
o rosto ficava aqum da beleza, o corpo mais do que compensava. Aos 15 anos, 
Lucia possua o 
corpo de mulher, seios arredondados e firmes, cintura fina e quadris que se 
mexiam com uma 
promessa sensual.
- Precisamos cas-la muito cedo - costumava zombar o pai. - Muito em breve 
estar levando 
os rapazes  loucura, minha pequena virgem.
- Quero casar com algum como voc,  papai, s que no h ningum como voc.
Ele riu.
- No se preocupe. Encontraremos um principe para voc. Nasceu sob uma estrela 
de sorte, 
e um dia saber como  ser abraada por um homem que lhe far  amor.
Lucia corou.
- Sim, papai.
Era verdade que ningum lhe fizera amor... no nas ltimas 12 horas. Benito 
Patas, um dos 
guarda-costas, ia sempre para sua cama quando o pai no estava na cidade. Ter 
Benito a lhe fazer 
amor dentro de casa aumentava a emoo, porque Lucia sabia que o pai mataria os 
dois se algum dia 
descobrisse.

Benito estava na casa dos trinta anos, e sentia-se lisonjeado porque a linda e 
jovem filha 
virgem do grande Angelo Carmine o escolhera para deflor-la. - Foi o que voc 
esperava? - 
perguntou ele, na primeira vez em que se deitaram juntos.
- Foi, sim - balbuciou Lucia. - Melhor at. - Ela pensou: "Ele no  to bom 
quanto Mrio, 
Tony ou Enrico, mas  melhor do que Roberto e Leo." Ela no conseguia lembrar-se 
do nome dos 
outros.
Aos 13 anos, Lucia concluiu que j fora virgem por tempo suficiente. Olhava ao  
redor e 
decidira que o afortunado seria Paolo Costello, o filho de um mdico de Angelo 
Carmine. Paolo tinha 
17 anos, alto e corpulento, o astro do time de futebol da escola. Lucia 
apaixonara-se perdidamente 
por Paolo na primeira vez que o vira. Dava um geito de esbarrar com ele tantas 
vezes quanto 
possvel. Nunca ocorrera a Paolo que os constantes encontros eram planeados com 
maior cuidado. 
Considerava a jovem e atraente filha de Angelo Carmine como uma criana. Mas num 
dia quente de 
vero, em agosto, Lucia resolveu que no podia mais esperar.
Telefonou para Paolo.
- Paolo... aqui  Lucia Carmine. Meu pai gostaria de conversar uma coisa com 
voc e quer 
saber se pode encontr-lo esta tarde na sala de sinuca.
Paolo  ficou surpreso e lisonjeado. Sentia o maior respeito por Angelo Carmine, 
mas sequer 
imaginava que o poderoso mafioso sabia de sua existncia.
- Terei o maior prazer. A que horas ele gostaria que eu estivesse a?
- s trs horas.
Hora da sesta, quando o mundo estaria dormindo. O salo de sinuca era isolado, 
num canto 
da ampla propriedade, o pai estava fora da cidade. No havia a menor 
possibilidade de serem inter-
rompidos.
Paolo chegou pontualmente na hora marcada. O porto do jardim estava aberto, e 
ele seguiu 
direto para o salo de sinuca. Parou diante da porta fechada e bateu.
- Signore Carmine? Posso entrar?
No houve resposta. Paolo conferiu o relgio. Cauteloso, abriu a porta e entrou. 
Estava 
escuro l dentro.
- Signore Carmine?
Um vulto aproximou-se.
- Paolo...
Ele reconheceu a voz de Lucia.
- Estou  procura de seu pai, Lucia. Ele est aqui?
Ela estava bem perto agora, o suficiente para que Paolo descobrisse que se 
encontrava 
completamente nua.
- Santo Deus! - balbuciou Paolo. - O que...?
- Quero que voc faa amor comigo.
- Est louca?  apenas uma criana. Vou embora.  -  Encaminhou-se para a porta.
- Pode ir. Direi a papai que voc me estupou.
- No faria isso.
- Saia daqui e descobrir.
Ele parou. Se Lucia cumprisse a ameaa, no havia a menor dvida na mente de 
Paolo sobre 
o destino que o aguardava.  A castrao seria apenas o incio. Voltou para junto 
de Lucia, a fim  de 
tentar argumentar.
- Lucia, querida...
- Gosto quando me chama de querida.

- No... preste ateno, Lucia. O caso  muito srio. Seu pai me matar se 
disser que eu a 
estupei.
- Sei disso.
Ele fez outra tentativa. - Meu pai cairia em desgraa. Toda a minha famlia 
seria desgraada.
Era intil.
- O que quer de mim?
- Quero que faa tudo comigo. 
- No.  impossvel. Seu pai me matar se descobrir.
- E se sair daqui, ele o matar. no tem opo, no  mesmo?
Ele entrou em pnico.
- Por que eu, Lucia?
- Porque estou apaixonada por voc, Paolo! - Segurou-lhe as mos e comprimiu 
gentilmente 
entre suas pernas. - Sou uma mulher. Faa-me sentir como tal.
Na semi-escurido, Paolo podia ver os seios arredondados, os mamilos duros, os 
pelos 
escuros entre as pernas.
"Meu Deus!", pensou Paolo. "O que um homem pode fazer?"
Ela levou-o para um sof, ajudou-o a tirar as calas e as coecas. Ajoelhou-se e 
ps o membro 
duro na boca, chupando gentilmente. Paolo pensou: "Ela j fez isso antes." E 
quando estava por cima 
dela, penetrando fundo, as mos de Lucia em suas costas, apertando, os quadris 
se comprimindo 
contra ele na maior ansiedade. Paolo pensou: "Por Deus, ela  maravilhosa!"
Lucia estava no paraso. Era como se tivesse nascido para aquilo. 
Instintivamente, sabia com 
preciso o que fazer para  agradar a ele e agradar a si mesma. Todo o seu corpo 
pegava fogo. Sentiu 
que se aproximava do orgasmo, mais e mais; quando finalmente aconteceu, ela 
gritou de pura alegria. 
Os dois ficaram imveis depois, exaustos, a respirao difcil. Passou-se algum 
tempo antes que Lucia 
murmurasse:
-  mesma hora amanh.

Quando Lucia estava com 16 anos, Angelo Carmine decidiu que estava na hora da 
filha 
conhecer alguma coisa do mundo. Com a idosa tia Rosa como acompanhante, Lucia 
passou as frias 
escolares em Capri, e Ischia, Veneza e Roma e inmeros outros lugares.
- Deve ser refinada... no uma camponesa, com seu papai. Viajar vai melhorar sua 
educao. 
Em Capri, tia Rosa a levar para conhecer o Mosteiro Cartusiamo de So Tiago, a 
Villa de San 
Michele e o Palazzo a Mare...
- Pois no, papai.
- Em Veneza tem a Baslica de So Marcos, o Palcio Ducal, a Igreja de So Jorge 
e o Museu 
Academia.
- Pois no, papai.
- Roma  o tesouro do mundo. Deve visitar a Cidade do Vaticano, a Baslica de 
Santa Maria 
Maggiore e a Galeria Borghese,  claro.
- Claro, papai.
Com um planeamento cuidadoso, Lucia conseguiu no ver nenhum desses lugares. Tia 
Rosa 
insistia em tirar uma sesta todas as tardes e dormir cedo  noite.
- Deve descansar tambm, criana.
- Claro, tia Rosa.

E assim, enquanto tia Rosa dormia., Lucia danou no Quisisana em Capri, passeou 
numa 
"carrozza" puxada por um cavalo de chapu e plumas, juntou-se a um grupo de 
estudantes na Marina 
Piccola, foi a piqueniques em Begni di Tiberio, tomou o "funicolare" para 
Anacapri, onde se juntou 
a um grupo de universitrios franceses para drinques na Piazza Umberto I.
Em Veneza,  um belo gondoleiro levou-a a uma discoteca, e um pescador levou-a a 
uma 
pescaria em Chioggia. E tia Rosa dormia.
Em Roma, Lucia tomou vinho da Aplia e descobriu todos os restaurantes agitados 
em voga, 
como o Marte, Ranieri e Giggi Fazi.
Onde quer que fosse, Lucia descobria pequenos bares e boates, homens romnticos 
e 
atraentes, pensando sempre: "O querido papai estava certo. Viajar melhorou minha 
educao."
Na cama, ela aprendeu a falar diversas lnguas diferentes e pensou: "Isso  
muito mais 
divertido do que as aulas de linguas na escola." 

o voltar para casa, em tormina, Lucia confidenciou s amigas mais ntimas: 
- Fiquei nua em Npoles, drogada em Selerno, bbeda em Florena e fodida em 
Lucca.

A prpria Siclia era uma maravilha a explorar, uma ilha de templos gregos, 
anfiteatros 
romanos bizantinos, capelas, banhos rabes e cavalos subios.
Lucia achava Palermo atraente e animada, gostava de vaguear pelo Kalsa, o velho 
distrito 
rabe, e  visitar a Opera dei Pupi, o teatro de marionetes. Mas Tormina, onde 
nascera, era sua cidade 
predileta. Era um lugar de Carto postal, no mar Jnio, numa montanha pairando 
sobre o mundo. Era 
uma cidade de butiques e joalherias, bares e lindas praas antigas, "trattorias" 
e hoteis pitorescos, 
como o Excelsior Palace e o San Domenico.
A estrada que sobe do porto de Naxos  ngreme. Estreita e perigosa. Quando 
Lucia ganhou 
um carro, ao  completar 15 anos, violou todas as leis de trnsito, mas nunca foi 
detida pelos 
"carabinieri". Afinal era filha  de Angelo Carmine. 

Para os considerados bastante corajosos ou estupidos para perguntarem, Angelo 
Carmine 
estava no ngcio imobilirio. E em parte era verdade, pois a famlia Carmine 
possuia a villa em 
tormina, uma casa no lago Como, em Cernobbio, um chal em Gstaad, um 
apartamento e uma 
imensa fazenda nos arredores de Roma. Mas Carmine tambm operava negcios 
diferentes. Possuia 
vrios bordeis, dois cassinos, seis navios que traziam cocana de suas 
plantaes na Colmbia e uma 
variedade de outros empreendimentos lucrativos, inclusive agiotagem. Angelo 
Carmine era o capito 
dos mafiosos sicilianos e, assim, era apropriado que vivesse bem. Sua vida era 
uma inspirao para 
os outros, a prova animadora de que um pobre campons italiano que fosse 
ambicioso e trabalhasse 
duro poderia se tornar rico e bem-sucedido.
Carmine comeara como mensageiro para os mafiosos quando tinha 12 anos. Aos 15 
tornou-se cobrador de emprstimos de agiotagem, aos 16 anos matara o primeiro 
homem  e se 
estabelecera sua reputao. Pouco depois disso, casara com a me de Lucia, Anna. 
Nos anos 
subsequentes, Angelo Carnime subira pela traioeira escada corporativa at ao  
topo, deixando em 
sua esteira sucesso de inimigos mortos.   Ele crescera, mas Anna permanecera a 
camponesa simples 
com quem se casara. Deu-lhe trs lindos filhos, mas depois disso sua 
contribuio  vida de Angelo 
cessou. Como se soubesse que no tinha mais lugar na vida da sua famlia, Anna 
atenciosamente 
morreu, sendo bastante diferente para faz-lo com um mnimo de rebulio.

Arnaldo e Victor estavam no negcio com o pai. Desde pequena, Lucia sempre 
ouvira as 
conversas excitantes entre o pai e os irmos, escutava histrias de como haviam 
enganado ou 
dominado seus inimigos. Para Lucia, o pai era como um cavaleiro numa armadura 
reluzente. Nada 
via de errado no que o pai e os irmos faziam. ao  contrrio,  eles ajudavam as 
pesssoas. Se as 
pessoas queriam jogar, por que deixar que leis estupidas impedissem? Se os 
homens encontravam 
prazer em comprar sexo, por que   no ajud-los?  E como o pai e os irmos eram 
generosos ao  
emprestar dinheiro s pessoas que eram repelidas pelos banqueiros de corao 
duro. Para Lucia, o 
pai e os irmos eram cidados exemplares. A prova disso estava nos amigos do 
pai. Uma vez por 
semana, Angelo Carmine oferecia um grande jantar na villa e... ah, as pessoas 
que se sentavam  sua 
mesa! O prefeito comparecia, assim como alguns veriadores e juzes, artistas de 
cinema e cantores 
de pera, muitas vezes o prprio chefe de polcia e um monsenhor. Vrias vezes 
por ano o prprio 
governador visitava a casa.
Lucia levava uma vida idlica, com muitas festas, roupas e jias, carros e 
criados, amigos 
poderosos. E de repente, num ms de Fevereiro, quando tinha 23 anos, tudo 
terminou abruptamente.
Comeou de forma bastante incua. Dois homens foram  villa para falar com seu 
pai. Um 
deles era um amigo, o chefe de polcia, o outro seu lugar-tenente.
- Perde-me, "padrone" - disse o chefe de polcia -, mas esta  uma formalidade 
estpida a 
que o comissrio est me  obrigando. Mil perdes, "padrone", mas se fizer a 
gentileza em me 
acompanhar  delegacia, providenciei para que esteja em minha casa a tempo de 
desfrutar a festa de 
aniversrio de sua filha.
- No h problema. Um homem deve cumprir seu dever. - Angelo Carmine falou 
jovialmente 
e sorriu. - Esse novo comissrio que foi designado pelo presidente ... para 
usar uma expresso 
tpica... um " cu-de-ferro", no  mesmo?
- Infelizmente,  isso mesmo. - O chefe de polcia suspirou - Mas no se 
preocupe. J vimos 
muitos homens assim chegarem e partirem depressa, no  mesmo, "padrone"?
Os dois riram e seguiram para a delegacia.

Angelo no voltou para a festa naquele dia e tambm no apareceu no dia 
seguinte. Na 
verdade, nunca mais tornou a ver qualquer de suas casas. O Estado apresentou um 
indiciamento com 
uma centena de acusaes contra ele, incluindo homicdio, trfico de drogas, 
prostituio, incndio 
criminoso e dezenas de outros crimes. A fiana foi negada. A polcia lanou uma 
rede em que 
prendeu toda a organizao criminosa de Carmine. Ele contava com suas ligaes 
poderosas na 
Siclia para que as acusaes contra ele fossem  arquivadas, mas acabou sendo 
levado para Roma, 
s escondidas, e internado na Regina Coeli, a mais notria priso italiana. Foi 
metido numa cela 
pequena, com janela gradeada, um aquecedor, uma cama e um vaso sem tampa. Era 
uma afronta! 
Uma indignidade alm da imaginao!
No comeo, Carmine tinha certeza que Tommasco Contorno, seu advogado, haveria de 
solt-lo imediatamente. Quando Contorno encontrou-o na sala de visitas da 
priso, Carmine estava 
furioso.
- Eles fecharam meus bordis e a operao de trfico de txicos, sabem tudo da 
lavagem do 
dinheiro. Algum est falando. Descubra quem  e me traga sua lngua.
- No se preocupe, "padrone" - assegurou Contorno. - Vamos descobrir. - Seu 
otimismo era 
infundado.

A fim de proteger suas testemunhas, o Estado se recusava intransigentemente a 
revelar os 
nomes, at o incio do julgamento.
Dois dias antes do julgamento, Angelo Carmine e os outros mafiosos acusados 
foram 
transferidos para a Prigione Rebibbia, a vinte quilmetros de Roma. Um tribunal 
prximo fora 
fortificado como uma casamata. Os 160 mafiosos acusados foram levados por um 
tnel subterrneo, 
com algemas e corrente, metidos em trinta celas feitas de ao e vidro  prova de 
balas. Guardas 
armados cercaram o interior e exterior do tribunal, os espectadores foram 
revistados antes de 
poderem entrar.
o entrar no tribunal, Angelo Carmine sentiu o corao pular de alegria, pois o 
juiz que 
presidia o julgamento era Giovanni Buscetta, um homem que estivera na sua folha 
de pagamento 
durante 15 anos, um hspede frequente de sua casa. Carmine sabia que finalmente 
haveria justia.

O julgamento comeou. Angelo Carmine contava com a "omert," cdigo de silncio 
siciliano, para proteg-lo. Para o seu espanto,  no entanto, descobriu que a 
principal testemunha do 
Estado era nada menos do que Benito Patas, o guarda-costas. Benito Patas estava 
com a famlia 
Carmine h tanto tempo, e merecia tanta confiana que tinha permisso para estar 
presente na sala 
de reunies em que se discutiam questes confidenciais de negcios; e como os 
negcios consistiam 
de todas as actividades ilegais nos estatutos criminais,  Patas tinha estado a 
par de muitas 
informaes. Quando prendera Patas minutos depois de ele ter assassinado a 
sangue-frio e mutilado 
o novo namorado  de sua amente, a polcia ameaara-o com priso perptua. Embora 
relutante, Patas 
concordara em ajudar a polcia a condenar Carmine, em troca de uma sentena mais  
leve. Agora, 
numa incredulidade horrorizada, Angelo Carmine sentou-se no tribunal e escutou 
Patas revelar os 
segredos mais ntimos da famlia.
Lucia tambm comparecia ao  tribunal todos os dias, ouvindo o homem que fora seu 
amante 
destruir o pai e os irmos.
O testemunho de Benito Pata abriu as comportas. Depois que a investigao do 
comissrio 
comeou, inmeras vtimas apresentaram-se para contar histrias de Angelo 
Carmine e o que os seus 
capangas lhes havia feito. A Mfia controlara seus negcios  fora, 
chantageara, forara  
prostituio, assassinara e mutilara pessoas amadas, vendera txicos a seus 
filhos. A lista de 
atrocidades era interminvel.
Ainda mais perniciosos foram os testemunhos dos "pentiti," os membros 
arrependidos da 
Mfia que resolveram falar.

Lucia teve permisso de visitar o pai na priso.
Ele recebeu-a jovialmente. Abraou-a e sussurrou:
- No se procupe, "faccia d'andelo." O juiz Giovanni Buscettar  meu s secreto 
na manga. 
Ele conhece todos os truques da lei. Vai us-los para que eu e seus irmos 
sejamos absolvidos.
Angelo Carmine provou ser um pssimo profeta.
O pblico estava indignado com os excessos da Mfia e quando o julgamento 
finalmente 
terminou, o juiz Giovanni Buscetta, um astuto animal poltico, condenou os 
mafiosos a longas 
sentenas de priso. Angelo Carmine e seus dois filhos receberam a pena mxima 
na lei italiana, a 
priso perptua, com um mnimo obrigatrio de 28 anos.
Para Angelo Carmine, era uma sentena de morte.


Toda a Itlia aclamou. A justia triunfara por fim. Para Lucia, porm, era um 
pesadelo alm 
da imaginao. Os trs homens que ela mais amava no mundo estavam sendo enviados 
para o inferno.
Mais uma vez, Lucia teve permisso para visitar o pai na cela. A mudana em 
Angelo 
Carmine, da noite para o dia, era angustiante. Em pouco tempo ele se tornara um 
velho. O corpo 
estava murcho, e a pele corada  e saudvel se tornara amarelada.
- Eles me traram - lamentou-se Angelo Carmine. - Todos me traram. O juiz 
Geovanni 
Buscetta... eu o possuia, Lucia! Tornei-o um homem rico, e ele fez eesta coisa 
terrvel comigo. E 
Patas! Fui com um pai para ele. Oque aconteceu com o mundo? O que aconteceu com 
a honra? Eles 
so sicilianos, como eu.
Lucia pegou a mo do pai e disse em voz baixa:
- Tambm sou siciliana, papai. Ter sua vingana. Juro que ter, por minha vida.
- Minha vida acabou - retrucou Angelo Carmine. - Mas a sua ainda est pela 
frente. Tenho 
uma conta numerada em Zurique. O Banco Leu. H mais dinheiro do que voc poderia 
gastar em dez 
vidas. - Sussurou um nmero em seu ouvido. - Deixe a maldita Itlia. Pegue o 
dinheiro e divirta-se.
Lucia abraou-o
- Papai...
- Se algum dia precisar da um amigo, pode confiar em Dominic Durell. Somos como 
irmos. 
Ele tem uma casa na Frna, em Bziers, perto da fronteira espanhola.
- No esquecerei.
- Prometa que deixar a Itlia.
- Prometo, papai. Mas h uma coisa que preciso fazer primeiro.

Ter um desejo ardente de vingana era uma coisa, encontrar um meio de consum-lo 
era 
outra. Estava sozinha, e no seria fcil. Lucia pensou na expresso italiana 
"Rubare il mestiere." 
Roubar a profisso deles. "Preciso pensar na maneira como eles fazem."

Poucas semanas depois do pai e os irmos comearem a cumprir as  sentenas de 
priso, 
Lucia Carmine apareceu na casa do juiz Giovanni Buscetta. O prprio juiz abriu a 
porta.
Fitou Lucia surpreso. Vira-a muitas vezes quando era hspede na casa de Carmine, 
mas quase 
nunca haviam se falado.
- Lucia Carmine! O que est fazendo aqui? No deveria...
- Vim agradecer-lhe, Meritssimo.
Ele estudou-a desconfiado.
- Agradecer o qu?
Lucia fitou- nos olhos.
- Por denunciar meu pai e irmos pelo que eles eram. Eu no passava de uma 
inocente, 
vivendo naquela casa de horrores. No tinha a menor ideia de que monstros... - 
Perdeu o controle 
e comeou a chorar.
O juiz ficou indeciso, depois afagou-lhe o ombro.
- Calma, calma... Entre e tome um ch.
- Oh, obrigada.
Quando estavam sentados na sala de estar, o juiz Buscette disse:
- No sabia que se sentia assim em relao a seu pai. Tinha a impresso de que 
eram muito 
ligados.
- S porque eu ignorava como ele e meus irmos eram. Quando descobri... - Lucia 
estremeceu. -  No pode imaginar como . Eu queriia sair, mas no havia 
escapatria para mim.

- Eu no sabia. - Ele afagou-lhe a mo.  -  Receio t-la julgado mal, minha 
cara.
O juiz Buscetta notou,  no pela primeira vez, que linda jovem Lucia era. Usava 
um vestido 
preto simples, que revelava   os contornos do corpo sensual. Ele contemplou os 
seios arredondados 
e no pde deixar de observar como ela crescera.
"Seria sensacional dormir com a filha de Angelo Carmine," pensou Buscetta. "Ele 
est 
impotente agora para me fazer qualquer coisa. O velho filho da puta pensava que 
me possuia, mas 
eu era esperto demais para ele. Lucia provavelmente  virgem. Eu poderia lhe 
ensinar algumas coisas 
na cama." Uma empregada idosa trouxe o uma bandeja com ch e uma travessa de 
biscoitos. Ps na 
mesa.
- Devo servir o ch?
- Pode deixar que eu sirvo - murmurou Lucia.
Sua voz era quente, cheia de promessa. O juiz Buscetta sorriu para Lucia.
- Pode ir - disse ele  empregada.
- Pois no, senhor.
O juiz observou Lucia encaminhar-se para a mesinha em que estava a bandeja e 
servir o ch 
com todo cuidado.
- Tenho a impresso de que voc e eu podemos nos tornar bons amigos - comentou o 
juiz 
Buscetta, sondando.
Lucia ofereceu-lhe um sorriso sedutor.
- Eu gostaria muito que isso acontecesse, Meritssimo.
- Por favor... Giovanni.
- Giovanni. - Lucia entregou-lhe o ch. Ergueu sua xcara, num brinde. -  morte 
dos viles.
Sorrindo, Buscetta tambm levantou sua xcara. - Ele tomou um gole e fez uma 
careta. O ch 
estava com um gosto amargo.
- Est muito...?
- No, no. Est ptimo, minha cara.
Lucia tornou a levantar sua xcara.
-  nossa amizade. - Tomou outro gole.
Buscetta acompanhou-a.
- ... - No terminou o brinde. Foi dominado por um sbito espasmo, sentiu que 
um ferro em 
brasas lhe espetava o corao. Levou a mo ao  peito.
- Oh, Deus! Chame um mdico...
Lucia continuou sentada, tomando o ch calmamente observando-o levantar, 
cambalear e cair 
no cho. O corpo de Buscetta teve alguns estertores e depois ficou imvel.
- Esse  o primeiro, papai - murmurou Lucia.

Benito Patas estava em sua cela, jogando pacincia,  quando o guarda anunciou:
- Tem uma visita conjugal.
Bennito ficou radiante. Desfrutava de uma situao especial, como informante, 
com muitos 
privilgios, entre os quais as visitas conjugais. Patas tinha algumas namoradas, 
que alternavam as 
visitas. Especulou qual delas fora visit-lo.
Contemplou-se no pequeno espelho pendurado na parede de cela, passou um pouco de  
creme nos cabelos, alisou-os para trs, depois seguiu o guarda pelo corredor da 
priso, at a rea em 
que ficavam as salas reservadas.
O guarda gesticulou paraque ele entrasse. Patas avanou, na maior expectativa. 
Estacou 
abrutamente, espantado.
- Lucia! Santo Deus, o que est fazendo aqui? Como conseguiu entrar?
Ela respondeu suavemente:

- Informei-os que estvamos noivos, Benito. - Usava um vestido de seda vermelho 
que aderia 
s curvas do corpo, com um decote ousado.
Benito Patas recuou.
- Saia!
- Como quiser. Mas h uma coisa que deve ouvir primeiro. Quando o vi sentado no 
banco de 
testemunhas e falar contra meu pai e meus irmos, eu o odiei. Queria mat-lo. - 
Ela chegou mais 
perto. - Mas depois compreendi que sua atitude era um acto de bravura. Ousou se 
levantar e dizer 
a verdade. Meu pai e meus irmos no eram maus,  mas fizeram coisas horrveis, e 
voc foi o nico 
forte o suficiente para enfrent-los. - Acredite em mim, Lucia, a polcia me 
forou...
- No precisa explicar. No para mim. Lembra da primeira vez em que fizemos 
amor? 
Compreendi ento que estava apaixonada por voc, e sempre estaria.
- Lucia, eu nunca teria feito o que...
- Querido, acho que ns dois devemos esquecer o que aconteceu. Est feito. 
Agora, o que 
importa somos eu e voc. - Lucia estava bem perto agora.
Ela estava agora bem prximo, e ele podia sentir seu perfume inebriante. Sua 
mente se 
encontrava na maior confuso.
- Voc... fala srio? 
- Mais srio do que qualquer outra coisa que j fiz na vida. Por isso  que vim 
aqui hoje, para 
provar a voc. Para mostrar que sou sua. E no apenas com palavras. - Seus dedos 
subiram para as 
alas do vestido, que um instante depois estava no cho. Lucia se encontrava nua 
por baixo.
-  Acredita em mim agora?
Por Deus, ela era linda!
- Acredito. - A voz de Benito era rouca.
Lucia adiantou-se, seu corpo roou contra ele.
- Dispa-se - sussurrou ela. - Depressa! - Observou enquanto Patas tirava as 
roupas. Quando 
ficou nu, ele pegou sua mo e levou-a para a cama no canto da sala. No perdeu 
tempo com preli-
minares. Num instante estava em cima dela, abriu-lhe as pernas e penetrando-a, 
com um sorriso 
arrogante.
-  como nos velhos tempos - disse, presunoso. - No pde me esquecer, no  
mesmo?
- No - sussurrou Lucia em seu ouvido. - E quer saber por que no pude esquecer 
voc?
-Quero, sim,  "mi amore."
- Por que sou uma siciliana, como meu pai.
Estendeu a mo para trs e tirou o alfinete comprido que lhe prendia os cabelos.
Benito Patas sentiu alguma coisa espet-lo por baixo das costelas e a dor sbita 
f-lo abrir a 
boca para gritar; mas a boca de Lucia grudada na sua beijando-o. Enquanto o 
corpo de Benito 
estrebuchava por cima dela. Lucia teve um orgasmo.
Poucos minutos depois estava vestida, o alfinete de volta nos cabelos. Benito se 
encontrava 
sob o cobertor, os olhos fechados. Lucia bateu na porta e sorriu para o guarda 
que a abriu, a fim de 
deix-la sair.
- Ele est dormindo - sussurrou.
O guarda contemplou a bela moa e sorriu.
- Provavelmente esgotou-o.
- Espero que sim - disse Lucia.


A pura ousadia dos dois assassinatos teve a maior repercusso na Itlia. A linda 
filha de um 
mafioso  vingara o pai e os irmos, e o excitvel pblico italiano aclamou-a, 
trocendo por sua fuga. 
A polcia, como no podia deixar de ser, assumiu uma posio diferente. Lucia 
Carmine assassinara 
um  respeitvel juiz e depois cometera um segundo homicdio, dentro dos muros de 
uma priso. A 
seus olhos, igual aos crimes era o facto de Lucia t- -los feito de idiotas. Os 
jornais estavam se 
divertindo  sua custa.
- Quero a cabea dela! - bradou o comissrio de polcia para o vice-comissrio. 
- E quero 
hoje!
A caada aumentou. O alvo de toda essa ateno se escondia na casa de Salvatore 
Giuseppe, 
um dos

 homens de seu pai que conseguira escapar  tempestade.
No comeo o nico pensamento de Lucia fora o de vingana a honra do pai e 
irmos. 
Esperava ser capturada e se preparava para o sacrifcio. Quando xxxxxxxconseguiu 
sair 
da priso, no entanto, 
seus pensamentos passaram da vingana para a sobrevivncia. Agora que consumara 
o que planejara, 
a vida voltara subitamente a ser preciosa. "No deixarei que me peguem," jurou a 
si mesma. "Nunca."

Salvatore Giuseppe e a sua esposa fizeram o que podiam para disfarar Lucia. 
Clarearam-lhe 
os cabelos, mancharam-lhe os dentes, compraram culos e algumas roupas folgadas.
Salvatore estudou o resultado com olhos crticos.
- No est mau - disse ele. -  Mas tambm no  o suficiente. Precisamos tir-la 
da Itlia. 
Deve ir para algum lugar em que sua fotografia no esteja na primeira pgina de 
todos os jornais. Um 
lugar em que possa se esconder por  alguns meses.
E Lucia lembrou-se: 
"Se algum dia precisar de um amigo, pode confiar em Dominic Durell. Ele tem uma 
casa na 
Frana, em Bziers, perto da fronteira espanhola." 
- Sei de um lugar para onde ir - anunciou ela. - Precisarei de um passaporte.
- Eu providenciarei.

Vinte e quatro horas depois, ela olhava para um passaporte com o nome dee Lucia 
Roma, 
com uma fotografia em sua nova aparencia.
- Para onde vai?
- Meu pai tem um amigo na Frana que me ajudar.
- Se quiser que eu a acompanhe at  fronteira... - ofereceu-se Salvatore.
Os dois sabiam que era perigoso.
- No Salvatore. J fez o suficiente por mim. Devo continuar sozinha.

Na manh seguinte, Salvatore Giuseppe alugou um  fiat em nome de Lucia Roma e 
entregou-lhe as chaves.
- Tome cuidado - recomendou.
- No se preocupe. Nasci sob uma estrela de sorte.
O pai no lhe dissera isso?
Na fronteira italiana-francesa os carros  espera avanavam devagar, numa fila 
comprida. ao 
 se aproximar da barreira de imigrao, Lucia comeou a ficar cada vez mais 
nervosa. Estariam  sua 
procura em todos os pontos de sada do pas. Se a pegassem, sabia que seria 
condenada  priso 
perptua. "Eu me matarei primeiro," pensou.
Chegou ao  inspetor da imigrao.

- Passaporte, "signorina."
Lucia entregou o passaporte preto pela janela do carro. Enquanto o pegava, o 
inspetor 
fitou-a, e Lucia reparou que uma expresso de perplexidade surgiu em seus olhos. 
O homem olhou 
do passaporte para seu rosto, novamente para o passaporte. Lucia sentiu  que o 
corpo se contraa.
- Voc  Lucia Carmine - disse ele.

         Captulo 9



- No! - gritou Lucia. O sangue esvaiu-lhe do rosto. Ela olhou em redor  
procura de um 
meio de escapar. No havia nenhum. E subitamente, para sua incredulidade, o 
guarda sorria.  Incli-
nou-se para ele e sussurrou:
- Seu pai foi bom para minha famlia, "signorina." Pode passar. Boa sorte.
Lucia sentiu-se tonta de alvio.
- "Grazie." - Pisou no acelerador e pecorreu os 25 metros at a fronteira 
francesa.
O inspetor de imigrao orgulhava-se de ser um conhecedor de belas mulheres, e 
aquela  sua 
frente no era certamente uma beldade. Tinha cabelos cor de rato, culos de 
lentes grossas, dentes 
manchados, e vestia-se com desmazelo.
"Por que as italianas no podem parecer to bonitas quanto as francesas?", 
pensou, 
repugnado. Carimbou o passaporte de Lucia e acenou  para que ela passasse.
Lucia chegou a Bziers seis horas depois.

O telefone foi atendido ao  primeiro toque da campainha, e surgiu uma voz suave 
de homem.
- Al?
- Dominic Durell, por favor.
- Dominic Durell sou eu. Quem est falando?
- Lucia Carmine. Meu pai disse...
- Lucia! - A voz transbordava boas-vindas. - Eu esperava por notcias suas.
- Preciso de ajuda.
- Pode contar comigo.
Lucia sentiu-se reanimada. Era a primeira boa notcia que ouvia em muito tempo, 
e precebeu 
de repente como se sentia esgotada.
- Preciso de um lugar onde possa me esconder da polcia.
- No tem problema. Minha esposa e eu temos um lugar perfeito que poder usar, 
enquanto 
quiser.
Era quase bom demais para ser verdade.
- Obrigada.
- Onde voc est, Lucia?
- Estou...
Nesse instante o estrondo de um rdio de ondas curtas da polcia entrou na 
linha, e foi 
desligado no momento seguinte.
- Lucia...
Um alarme alto ressoou na cabea de Lucia.
- Lucia... onde voc est? Irei busc-la.
"Por que ele teria um rdio de polcia em sua casa? E atendera ao  primeiro 
toque da 
campainha. Quase como se estivesse  espera da sua ligao."
-  Lucia... pode me ouvir?
Ela sabia, com absoluta certeza, que o homem no outro lado da linha era um 
polcia. Estavam 
 sua procura ali tambm. E investigavam o ponto de origem daquele telefonema.
- Lucia...
Ela desligou e afastou-se rapidamente da cabine telefnica. "Preciso sair da 
Frana," pensou.

Voltou ao  carro e pegou um mapa no porta-luvas. A fronteira espanhola ficava a 
poucas 
horas dali. Guardou o mapa e partiu na direco sudeste, rumo a San Sebastin.
Foi na fronteira espanhola que as coisas comearam a sair erradas.
- Passaporte, por favor.
Lucia entregou ao  inspetor de imigrao espanhola. Ele deu uma olhada rpida e 
comeou 
a devolv-lo, mas alguma coisa fez com que hesitasse. Estudou Lucia mais uma vez 
e sua expresso 
mudou.
- Espere um momento, por favor. Preciso carimbar o passaporte l dentro.
"Ele me reconheceu," pensou Lucia, desesperada. Observou o homem entrar no 
pequeno 
escritrio e mostrar o passaporte a um colega. Os dois puseram-se a falar muito 
excitados. Tinha de 
escapar. Ela abriu a porta e saiu. Um grupo de turistas alemes, que acabaram de 
passar pela barreira 
da fronteira, embarcava ruidosamente num nibus de excurso, perto do carro de 
Lucia. O cartaz na 
frente do nibus dizia Madrid.
- "Achtung!" - o guia estava chamando.  "Schnell."
Sem pensar duas vezes, Lucia encaminhou-se para o grupo sorridente sem parar, 
entrou no 
nibus, virando o rosto ao  passar pelo guia. Sentou-se no fundo do nibus,  
mantendo a cabea 
abaixada. "Vamos logo!", ela rezou. "Depressa!"
Pela janela, Lucia viu que outro guarda se juntara aos dois primeiros e todos 
examinavam seu 
passaporte. Como que em resposta  orao de Lucia, a porta do nibus foi 
fechada e o motor ligado. 
Um momento depois o nibus partia de San Sebastin para Madrid. O que 
aconteceria quando os 
guardas da fronteira descobrissem que ela deixara o carro? O primeiro pensamento 
seria o de que fora 
a casa de banho. Esperariam e finalmente mandariam algum procur-la. A 
providncia seguinte seria 
revistar a rea, a fim de verificar se ela se escondera  em algum lugar. A essa 
altura, dezenas de carros 
e nibus j teriam passado. A polcia no teria a menor ideia do rumo que ela 
seguira, ou em que 
direco viajava.

O grupo no nibus estava obviamente desfrutando umas frias felizes. "Por que 
no?", pensou 
Lucia, amargurada. "No tm a polcia nos seus calcanhares. Vale a pena arriscar 
o resto da minha 
vida?", pensou a esse respeito, reconstituindo mentalmente as cenas com o juiz 
Buscetta e Benito.
"Tenho a impresso de que voc e eu podemos nos tornar bons amigos, Lucia...  
morte dos 
viles."
E Benito Patas: " como nos velhos tempos. No pde me esquecer, no  mesmo?"
E ela fizera com que os dois traidores pagassem pelos pecados contra sua 
famlia. "Valeu a 
pena?" Eles estavam mortos, mas o pai e os irmos sofreriam pelo resto de suas 
vidas. "Claro que 
valeu a pena!" concluiu Lucia.
Algum no nibus ps-se a entoar uma velha cano alem e os outros 
acompanharam-no:
- "In Munchen ist ein Hofbrau Haus, ein, zwei, sufa...
Estarei segura por algum tempo com este grupo," pensou Lucia. "Decidirei o que 
fazer em 
seguida, quando chegar a Madrid."
Ela nunca chegou a Madrid.

O nibus fez uma parada prevista na cidade murada de vila, para refrescos, e o 
que o guia 
chamou delicadamente de um momento de conforto.
- "Alle raus vom bus "- gritou ele.

Lucia continuou sentada, observando os passageiros levantarem-se e atropelarem-
se a 
caminho da porta do nibus. "Estarei mais segura se ficar aqui." Mas o guia 
notou-a. - Saia, 
"Fraulein!" - disse. - S temos quinze minutos.
Lucia hesitou, depois levantou-se relutante e avanou para a porta.
- "Warten sie bitte!" Voc no  desta excurso.
Lucia presenteou-o com um sorriso exuberante e disse:
- No, no sou, Acontece que meu carro enguiou em San Sebastin, e  muito 
importante 
que eu chegue logo a Madrid. Por isso...   
- "Nein!" - berrou o guia. - Isso no  possivel. A excurso  particular.
- Sei disso. Mas preciso...
- Deve falar primeiro com a sede da agncia em Monique.
- No posso. Estou com pressa e...
- "Nein, nein." Poderia meter-me numa encrenca. Saia logo ou chamarei a polcia.
- Mas...
Nada que ela dissesse  poderia demov-lo. Vinte minutos depois Lucia observou o 
nibus 
partir pela estrada em direco de Madrid. Estava encalhada ali, sem passaporte 
e quase sem dinheiro; 
quela altura as polcias de alguns pases a procuravam, para prend-la por 
homicdio.
Virou-se para examinar o lugar. O nibus parara na frente de um prdio circular, 
com uma 
placa na frente que dizia ESTACIN DE AUTOBUSES. 
"Posso pegar outro nibus aqui," pensou.
Ela entrou na estao. Era um prdio grande, com  parede de mrmore, alguns 
guichs 
espalhados, com uma placa por cima de cada um: SEGVIA... MUnOGALINDO... 
VALLADOLID... SALAMANCA... MADRId. Uma escada-rolante e escada comuns levavam ao 
 subsolo, de onde os nibus partiam.  Havia uma  "pastelera" onde vendiam 
biscoitos, bolos, balas 
e sanduches envoltos de papel encerado. Lucia descobriu subitamente que estava 
faminta.
" melhor no comprar nada at descobrir quanto custa uma passagem de nibus," 
pensou.
Quando se encaminhava para o guich com a placa de Madrid, dois guardas 
uniformizados 
entraram apressados na estao. Um deles levava uma fotografia. Foram de guich 
em guich, 
mostrando a fotografia aos bilheteiros. 
"Esto  minha procura. Aquele guia miservel me denunciou."
Uma famlia de passageiros recm-chegados subia pela escada-rolante. ao  se 
encaminharem 
para a porta, Lucia foi andando ao  lado, misturando-se, saiu  da estao.
Caminhou pelas ruas de calamento de pedras de vila, fazendo um esforo para 
no correr, 
com medo de atrair a ateno. Entrou na Calle de la Madre Soledad, com seus 
prdios de granito e 
sacadas de ferro batido preto. Chegou  Plaza de laz Santa e sentou-se num  
banco do parque, 
tentando imaginar o que deveria fazer agora. A cem metros dali havia vrias 
mulheres e alguns casais 
sentados no parque, desfrutando o sol da tarde.
Assim que Lucia se sentou, um carro de polcia apareceu. Parou na outra 
extremidade da 
praa e dois guardas saltaram. Aproximaram-se de uma das mulheres sentada 
sozinha e comearam 
a interrog-la. O corao de Lucia disparou.

Forou-se a levantar devvagar, mesmo com o corao batendo forte, virou-se e 
comeou a 
andar na direco oposta aos guardas. A rua seguinte tinha um nome incrvel: rua 
da Vida e Morte. 
"Ser um pressgio?"
Havia lees de pedra reais na praa, com as lnguas de fora, e, em sua 
imaginao febril, Lucia 
sentiu que tentavam abocanh- -la.  sua frente havia uma enorme catedral, tendo 
na fachada um 
medalho esculpido de uma moa e uma caveira sorrindo. O prprio ar parecia 
impregnado pela 
morte.
Lucia ouviu um sino da igreja e olhou atravs do porto aberto da cidade.  
distncia, no alto 
de uma colina, erguiam-se os muros de um convento. Ela parou, ficou olhando.

- Por que veio a ns, minha filha? - perguntou a reverenda madre Betina, 
suavemente.
- Preciso de um refgio.
- E decidiu procurar o refgio em Deus?
"Exatamente."
- Isso mesmo. - Lucia comeou a improvisar. -  o que sempre quis... devotar-me 
 vida do 
Espirito.                          
- Em nossas almas, no  o que todos desejamos, filha?
"Meu Deus, ela est mesmo engolindo a minha histria," pensou Lucia, feliz.
A reverenda madre continuou:
- Deve compreender que a Ordem Cisterciense  a mais rigorosa de  todas, minha 
criana. 
Estamos completamente isolados do mundo exterior.
As palavras soavam como msica aos ouvidos de Lucia.
- As que passam  por estes muros devem fazer votos de nunca mais  ir embora.
- Nunca mais vou querer ir embora - garantiu Lucia.
"Ou pelo menos durante os prximos meses."
A madre levantou-se.
-  uma deciso importante. Sugiro que volte agora e pense a esse respeito com 
todo 
cuidado, antes da deciso final.
- J pensei a esse respeito - apressou-se Lucia em dizer. - Acredite, reverenda 
madre, no 
tenho pensado em outra coisa. - Fitou a madre prioresa nos olhos. - Quero ficar 
aqui mais do que 
qualquer outra coisa no mundo. - A voz de Lucia ressoava com sinceridade.
A reverenda madre ficou perplexa. Havia alguma coisa inquietante e frentica 
naquela mulher 
que era perturbadora. E, no entanto, que melhor motiivo havia para algum vir 
para o convento, onde 
o seu esprito poderia ser tranquilizado pela meditao e orao?
- Voc  catlica?
- Sou.
A reverenda madre pegou uma antiquada pena de escrever.
- Diga-me seu nome, criana.
- Meu nome  Lucia Car... Roma.
- Seus pais so vivos?
- S meu pai.
- O que ele faz?
- Era um homem de negcios. Est aposentado. - Lucia pensou no pai, plido e 
consumido 
na ltima vez em que o vira, e sentiu uma  pontada de angstia.
- Tem irmos?
- Dois.
- E o que eles fazem?
Lucia decidiu que precisava de toda a ajuda que pudesse obter.

- So padres.
- Maravilhoso.
A catequese prolongou-se por trs horas. No final, a reve-renda madre disse:
- Providenciarei um leito para a noite. Pela manh, comear a receber as 
instrues e, 
quando acabarem, se ainda tiver o desejo, poder ingressar na Ordem. Mas devo 
avisar-lhe que  um 
caminho difcil o que escolheu. - Pode eestar certa que no tenho alternativa - 
declarou Lucia, 
solenemente.

A brisa noturna era quente e suave, sussurrando pela clareira no bosque. Lucia 
dormia. Estava 
numa festa, em uma linda villa, o pai e os irmos tambm se achavam presentes. 
Todos se divertiam, 
at que um estranho entrou na sala e indagou:
- Quem so essas pessoas?
Ento as luzes apagaram-se,  um facho forte de uma lanterna incidiu em seu 
rosto, ela 
despertou e sentou-se, ofuscada.
Havia alguns homens na clareira,  volta das freiras. Com a luz em seus olhos, 
Lucia mal 
podia divisar seus contornos.
- Quem so vocs? - tornou o homem a perguntar, a voz rude e profunda.
Lucia encontrava-se instantaneamente desperta, a mente alerta. Estava acuada. 
Mas se 
aqueles homens fossem da polcia, saberiam quem eram as freiras. E o que faziam 
no bosque  noite? 
Lucia resolveu correr o risco e disse:
- Somos irms do convento em vila. Alguns homens do governo apareceram e...
- J ouvimos falar a esse respeito  - interrompeu o homem.
As outras irms estavam todas sentadas agora, despertas e apavoradas.
- Quem... quem so vocs?
- Meu nome  Jaime Mir.

Eles eram  seis, vestidos de calas grossas, bluses de couro, suteres de gola 
rol e sapatos 
de lona com solas de corda, e as tradicionais boinas bascas. Estavam fortemente 
armados e, ao  luar 
fraco, tinham uma aurea demonaca. Dois homens davam a impresso de terem sido 
brutamente 
espancados.
O homem que se apresentara como Jaime Mir era alto e magro, com olhos pretos 
penetrantes.
- Eles  podem estar por perto. - Ele virou-se para um membro do bando. - D uma 
olhada.
- Sm.
Lucia identificou a voz que respondera como feminina. Observou-a afastar-se 
entre as 
arvvores, em silncio.
- O que vamos fazer com elas? - perguntou Ricardo  Mellado.
- Nada - respondeu Jaime Mir. - Vamos deix-las e seguir em frente.
Um dos homens protestou: 
- Jaime... essas so as irmzinhas de Jesus.
- Ento deixe que jesus cuide delas - retrucou Jaime Mir bruscamente. - Temos 
trabalho a 
fazer.
As freiras ficaram de p,  espera da deciso deles. Os homens concentravam-se 
em torno de 
Jaime Mir, argumentando com ele.
- No podemos deixar que sejam apanhadas. Acoca e seus homens esto  procura 
delas.
- Tambm esto  nossa procura, "amigo." 
- As irms jamais consiguiro escapar sem a nossa ajuda. 

- No - insistiu Jaime Mir, decidido. - No arriscaremos nossas vidas por elas. 
J temos 
nossos prpios problemas. 
Felix Carpio, um dos seus lugar-tenentes, interveio:
- Podemos escolt-las por parte do caminho, Jaime. S at elas sarem daqui. - 
Olhou para 
as freiras. - Para onde esto indo, irms?
Teresa respondeu, com a luz de Deus em seus olhos:
- Tenho uma misso sagrada. H um convento em Mendavia que nos abrigar. Felix 
Carpio 
disse a Jaime Mir:
- Podemos acompanh-las at l. Mendavia fica em nosso caminho para  San 
Sebastin.
Jaime Mir virou-se para ele,  furioso.
- Seu idiota! Por que no pem uma placa no caminho avisando para onde estamos 
indo?
- Eu s queria... 
- "Mierda!" - A voz estava cheia de raiva. - Agora no temos alternativa. 
Teremos de lev-las 
conosco. Se Acoca as descobrisse, faria com que falassem. Elas vo nos retardar 
e tornar muito mais 
fcil para Acoca e seus carniceiros encontrarem a nossa trilha.
Lucia no prestava muita ateno. A cruz de ouro encontrava- -se ao  seu 
alcance, tentadora. 
"Mas esses miserveis! Voc escolhe os piores momentos, Deus, e tem um estranho 
senso de humor."
- Est bem - dizia Jaime Mir. - Tentaremos resolver o problema da melhor forma 
possvel. 
Mas no podemos viajar todos juntos, como um circo. - Virou-se para as freiras. 
No era capaz de 
ivitar a irritao na voz. - Alguma de vocs sequer sabe onde fica Mandavia?
As irms se entreolharam.
- No exatamente - respondeu Graciela.
- Ento,  como esperam chegar l?
- Deus nos guiar - respondeu irm Teresa, resoluta.
Outro dos homens, Rubio Arzano, sorriu.
- Esto com sorte. - Acenou com a cabea na direco de Jaime. - Ele desceu para 
gui-las 
em pessoa, irm.
Jaime  silenciou-o com um olhar.
- Vamos nos separar. Seguiremos por trs caminhos             diferentes.  - 
Tirou o mapa da 
mochila.
Os homens se agacharam ao  redor, apontando os fachos das lanternas para o mapa.
- O convento de Mandavia fica aqui, a sudeste de Logrono. Seguirei para o norte, 
passando 
por Valladolid, depois subirei para Burgos. - Jaime passou os dedos pelo mapa e 
virou-se para 
Rubbio, um homem alto, com aparncia de campons. - Voc vai pelo caminho de 
Olmedo, Penafiel 
e Aranda de Duero.
- Certo, amigo.
Jaime Mir concentrou-se outra vez no mapa. Olhou para Ricardo Melado, um homem 
com 
os rostos machucados.
- Ricardo, siga para Segvia, depois pegue o caminho da montanha para Cerezo de 
Abajo, 
e depois Soria. Voltaremos a nos encontrar em Logrono. - Guardou o mapa. - 
Logrono fica a 210 
quilmetros daqui. - Jaime calculou mentalmente. - Vamos nos encontrar l daqui 
a sete dias. 
Mantenha-se longe das estradas principais.
- Em que lugar de Logrono vamos nos encontrar? - perguntou Felix.
- O Cirque Japon estar se apresentando em Logrono na prxima semana - lembrou 
Ricardo.
- ptimo. Vamos nos encontrar l. Na matin.

- Com quem as freiras vo viajar? - indagou Felix Carpio.
- Vamos dividi-las.
Estava na hora de acabar com aquilo, decidiu Lucia.
- Se os soldados esto  procura de vocs, "seor," estaramos mais seguras se 
viajssemos 
sozinhas.
- Mas ns no estaramos, irm - retrucou Jaime. - Sabem demais sobre nossos 
planos agora.
- Alm do mais - acresentou Rubbio -, vocs no teriam a menor chance. 
Conhecemos o 
territrio. Somos bascos, e os habitantes l do norte so nossos amigos. Vo nos 
ajudar e nos es-
conder dos soldados Nacionalistas. Nunca chegariam a Mandavia sozinhas. 
"No quero ir para Mandavia, seu idiota."
- Muito bem, vamos logo embora - falou Jaime Mir, relutante. - Quero estar 
longe daqui 
antes do amanhecer.
Irm Megan escutava em silncio o homem que dava ordens.
Era rude e arrogante, mas parecia irradiar um tranquilizador senso de poder. 
Jaime Mir 
olhou para Teresa e apontou para Tomas e Rubbio Arzano.
- Eles sero responsveis por voc.
- Deus  responsvel por mim - retrucou irm Teresa.
- Claro - respondeu Jaime, secamente. - Deve ter sido por isso que veio parar 
aqui.
Rubbio aproximou-se de Teresa.
- Rubbio Arzano a seu servio, irm. Como se chama?
- Sou irm Teresa.
Lucia intervio no mesmo  instante:
- Viajarei com irm Teresa.
No permitiria de jeito nenhum que a separassem da cruz de ouro. Jaime assentiu.
- Est bem. - Ele apontou para Graciela. - Ricardo, voc vai com esta.
Ricardo Mellado balanou a cabea.
- Boeno."
A mulher que Jaime enviara para fazer um reconhecimento voltou ao  grupo e 
anunciou:
- Est tudo em ordem.
- ptimo. - Jaime olhou para Megan. - Voc vem comigo, irm.
Megan assentiu. Jaime Mir fascinava-a. E havia alguma coisa intrigante na 
mulher. Era 
morena, aparncia ameaadora, as feies aquilinas de um predador. A boca nela 
alguma coisa in-
tensamente sexual. A mulher  aproximou-se de Megan.
- Sou Amparo Jirn. Fique de boca fechada, irm, e no haver problemas.
- Vamos partir - avisou Jaime aos demais. - Logrono, dentro de sete dias. Na 
percam as 
irms de vista.
Irm Teresa e Rubbio Arzano j comeavam a descer a trilha. Lucia seguiu 
apressada no 
encalo deles. Vira o mapa que Rubbio Arzano guardara na mochila. "Vou tir-lo 
quando ele estiver 
dormindo," decidiu Lucia.
A fuga atravs da Espanha comeara.

         Captulo 10


Miguel Carrillo estava nervoso.  Mais do que isso, Miguel Carrillo estava muito 
nervoso. No 
fora um dia maravilhoso para ele. O que comeara to bem pela manh, quando 
encontrara as quatro 
freiras e as  convencera  de que era um frade, terminara com ele derrubado e 
inconciente, mos e ps 
amarrados, deixado no cho da loja de roupas.
Fora a mulher do proprietrio quem o encontrara. Era uma mulher idosa e 
corpulenta, de 
bigode e estourada. Fitara-o, todo amarrado no cho, e dissera:
- "Madre de Dis!" Quem  voc? O que est fazendo aqui?
Carrillo recorrera a todo seu charme.
- Graas aos cus que apareceu, "seorita." - Jamais vira algum que fosse mais 
obviamente 
uma seorita - Estava  tentando me livrar dessas correias para poder usar seu 
telefone e chamar a 
polcia.
- No respondeu  minha pergunta.
Ele tentara se ajeitar numa posio mais confortvel.
- A explicao  simples, seorita. Sou frei Gonzales. Venho de um mosteiro 
perto de 
Madrid. Passava por sua linda loja quando vi dois homens arrombando-a.  Achei 
que era o meu dever, 
como mensageiro de Deus, impedi-los. Entrei atrs, na esperana de persuadi-los 
a  disistirem de seus 
pecados, mas eles me dominaram e me amarraram. Agora, se fizere a gentileza de 
me soltar...
- "Mieda!"
Carrillo fitara-a aturdido.
- O que disse?
- Quem  voc?
- J disse. Sou...
- Voc  o maior mentiroso que j conheci.
Ela fora at os hbitos que as freiras haviam descartado.
- O que  isso?
- Ah, isso... os dois jovens estavam usando esses hbitos como disfarce e...
- H trajes aqui de quatro pessoas. Disse que eram dois homens.
-  isso mesmo. Os outros dois apareceram depois e... 
Ela se encaminhou para o telefone.
- O que vai fazer?
- Chamar a polcia.
- Posso lhe garantir que isso no  necessrio. Assim que me soltar, irei 
directo  polcia e 
farei um relato completo.
A mulher fitara-o com desdm.
- Seu hbito est aberto, frei.

A polcia foi ainda menos compreensiva do que a mulher. Carrillo estava sendo 
interrogado 
por quatro homens da Guarda Civil. Os uniformes verdes e quepes de verniz preto 
do sculo dezoito 
eram suficientes para inspirar terror por toda a Espanha, e efectuaram sua magia 
em Carrillo.
- Sabia que corresponde exatamente  descrio de um homem que assassinou um 
padre l 
no norte?
Carrillo suspirou.
- No estou surpreso.  Tenho um irmo gmio, que os cus possam puni-lo. Foi por 
sua causa 
que ingressei no mosteiro. Nossa pobre me...

- Esquea.
Um gigante com cicatriz no rosto entrou na sala. - Boa tarde, coronel Acoca.
-  esse o homem?
- Isso mesmo, coronel. Por causa dos hbitos das freiras que encontramos com ele 
na loja, 
achamos que poderia estar interessado em interrog-lo pessoalmente.
O coronel Acoca aproximou-se do infeliz Carrillo.
- Claro que estou interessado... e muito.
Carrillo ofereceu ao  coronel seu sorriso mais insinuante.
- Fico contente que esteja aqui, coronel. Estou numa misso para minha igreja, e 
 importante 
que chegue a Barcelona o mais depressa possvel. Como j tentei explicar  a 
esses simpticos 
cavalheiros, sou uma vtima das circunstncias, apenas porque tentei ser um bom 
samaritano.
O coronel Acoca acenou com a cabea amavelmente.
- Como est com pressa, tentarei no desperdiar seu tempo.
Carrillo ficou  radiante.
- Obrigado, coronel.
- Fico feliz em saber disso. Fale-me a respeito das quatro freiras.
- No sei coisa nenhuma sobre quatro, freiras...
O punho que o atingiu na boca tinha soqueira de lato, e o sangue esguichou pela 
sala.
- Santo Deus! - balbuciou Carrillo. - O que est fazendo?
O coronel Acoca repetiu:
- Fale-me a respeito das quatro freiras.
- Eu no...
O punho tornou a acertar na boca de Carrillo, quebrando dentes. Carrillo estava 
sufocando 
com o prprio sangue.
- No! Eu...
- Fale-me a respeito das quatro freiras. - A voz de Acoca era suave e afvel.
- Eu... - Carrillo viu o ponho levantar. - Est bem! Eu...  Eu... - As palavras 
saram 
atabalhoadas. - Elas estavam em Villacastn, fugindo do convento. Por favor, no 
me bata de novo.
- Continue.
- Eu prometi ajud-las. Precisavam trocar de roupas.
- Ento arrombou a loja...
- No. Eu...  verdade... elas roubaram algumas roupas, depois me derrubaram e 
foram 
embora.
- Comentaram para onde iam?
Um estranho senso de dignidade prevaleceu subitamente em Carrillo.
- No.
O facto de no mencionar Mendavia nada tinha haver com um desejo de proteo das 
freiras. 
Carrillo no estava preocupado com elas. Era apenas porque o coronel lhe 
desfigurara o rosto. Seria 
muito difcil ganhar a vida depois que sasse da priso.
O coronel Acoca virou-se para os homens da Guarda Civil.
- Esto vendo o que um pouco de persuaso amigvel pode fazer? Mandem-no  para 
Madrid, 
sob acusao de assassinato.


Lucia, irm Teresa, Rubbio Arzano e Toms Sanjuro caminharam para o noroeste, 
seguindo 
na direco de Olmedo, permanecendo longe das estradas principais e atravessando 
plantaes de ce-
reais. Passando por rebanhos de ovelhas e cabras; a inocncia da paisagem 
pastoral era um irnico 
contraste com o grande perigo em que todos estavam. Andaram durante toda a 
noite, e ao  
amanhecer se encaminharam para um ponto isolado nas colinas.
- A cidade de Olmedo fica logo adiante - avisou Rubbio Arzano. - Pararemos aqui 
at ao  
anoitecer. Vocs duas precisam de dormir um pouco. Irm Teresa estava 
fisicamente exausta. Mas 
alguma coisa lhe acontecia, em termos emocionais, que era muito mais 
desconcertante. Sentia que 
perdia o contacto com a realidade. Comeara com o desaparecimento de seu 
precioso rosrio. 
Perdera-o... ou algum o roubara? No sabia. Fora seu conforto por mais anos que 
podia se lembrar. 
Quantas milhares de ave-marias, padres-nossos e salv-rainhas? Tornara-se parte 
dela, sua segurana, 
e agora sumira.
Perdera-o no convento durante o ataque? E houvera mesmo um ataque? Parecia to 
irreal 
agora... No distinguia mais o real do imaginrio. Seria o beb de Monique? Ou 
Deus estava lhe 
pegando peas? Era tudo muito confuso. Quando jovem, tudo era mais simples. 
Quando era jovem... 
  

         Captulo 11


ZE, FRANA                                                                       1924


Quando tinha apenas oito anos, a maior parte da felicidade na vida de Teresa de 
Fosse vinha 
da igreja. Era como uma chama sagrada que a atraa  para seu calor. Visitava a 
Chapelle des Pnitents 
Blancs, rezava na catedral em Mnaco e em Notre Dame Bon Voyage, em Cannes, mas 
comparecia 
cada vez mais aos servios na igreja em ze.
Teresa vivia num  "chteau" numa montanha, por cima da aldeia merieval  de ze, 
perto de 
Monte Carlo, dando para a Crte d'Azur. A aldeia ficava no alto de um penhasco, 
e parecia a Teresa 
que l de cima podia contemplar o mundo inteiro. Havia um mosteiro no topo, com 
fileiras de casas 
descendo pela encosta da montanha, at o azul do Mediterrneo.
Monique, um ano mais moa do que Teresa, era a beldade da famlia. Mesmo quando 
criana, 
 j se podia perceber que cresceria para se tornar uma bela mulher. Tinha 
feies delicadas, olhos 
azuis faiscantes e uma segurana tranquila, que se ajustava  aparncia.
Teresa era o patinho feio. E os De Fosses sentiam-se embaraados com a filha 
mais velha. Se 
Teresa fosse convencionalmente feia, poderiam envi-la a um cirurgio plstico 
para diminuir o nariz, 
aumentar o queixo ou endiretar os olhos. Mas o problema estava no facto de todas 
as feies de 
Teresa serem um pouco tortas. Tudo parecia deslocado, como se ela fosse uma 
comediante que 
maquilava o rosto para provocar  risadas.
Mas se Deus a lesara na questo da aparncia, compensara ao  abeno-la com um 
dom 
extraordinrio, Teresa possua uma voz de anjo. Fora notada pela primeira vez em 
que cantara no 
coro da igreja.  Os paroquianos escutaram aturdidos os tons puros e preciosos 
que saam da criana. 
 medida que Teresa crescia, a voz se tornava mais bela. Ali, sentia que 
encontrara o seu lugar. Fora 
da igreja, no entanto, Teresa era extremamente tmida, angustiosamente conciente 
de sua aparncia.
Na escola, era Monique quem vivia cercada de amigos tanto meninos como meninas 
afluam 
para o seu lado. Queriam brincar com ela, serem vistos com ela. Monique era 
convidada para todas 
as festas. Ela tambm era convidada, mas no seu caso era uma lembrana 
posterior, o cumprimento 
de uma obrigao social. Teresa sabia disso, e se sentia angustiada.
- Ora, Rene, no pode convidar uma das meninas De Fosse sem chamar a outra. 
Seria falta 
de educao.
Monique sentia-se envergonhada devido  feira da irm. Achava que isso, de 
alguma forma, 
refletia-se sobre ela.
Seus pais comportavam-se de maneira adequada em relao  filha mais velha. 
Cumpriam  o 
dever parental de maneira escrupulosa, mas Monique era sem dvida a filha que 
adoravam. O nico 
ingrediente pelo qual Teresa ansiava eestava faltando: o amor.
Era uma criana obediente, sempre disposta a agradar, uma boa aluna que adorava 
msica, 
histria e lnguas estrangeiras, esforava-se ao  mximo na escola. As 
professoras, as criadas e os 
habitantes da cidade sentiam pena dela. Como um comerciante disse um dia, quando 
Teresa deixou 
a loja:
- Deus no estava atento quando a criou.

Onde Teresa encontrara amor era na igreja. O padre a amava, e jesus a amava. Ela 
ia  missa 
todas as manhs e fazia as 14 estaes da cruz. Ajoelhando-se na igreja fria e 
abobadada, sentia a 
presena de Deus. Quando cantava ali, Teresa experimentava um senso de esperana 
e de 
expectativa. Sentia que alguma coisa maravilhosa estava perto de lhe acontecer. 
Era a nica coisa que 
tornava a vida suportvel.
Teresa nunca confidenciou sua infelicidade aos pais ou  irm, pois no queria 
incomod-los, 
e guardava para si o segredo de quanto Deus a amava e quanto ela amava a Deus.
Teresa adorava a irm. Brincavam juntas no terreno  que cercava o  "chteau," e 
ela deixava 
Monique vencer todos os jogos. Combinavam fazer exploraes juntas, desciam 
pelos ngremes 
degraus de pedra escavados na montanha at a aldeia de ze l embaixo, vagueavam 
pelas ruas 
estreitas em que ficavam as lojas dos artesos, observando-os a venderem suas 
mercadorias.
Quando as meninas atingiram a adolescncia, as predies dos aldees se 
confirmavam. 
Monique tornou-se ainda mais bela, e os rapazes cercavam-na, enquanto Teresa 
tinha pouqussimos 
amigos e permanecia em casa costurando ou lendo ou indo  aldeia fazer compras.
Um dia, ao  passar pela sala de estar, Teresa ouviu o pai e a me discutindo 
sobre ela.
- Ela ser uma velha solteirona. Ficar com a gente por toda a nossa vida.
- Teresa encontrar algum. Tem um temperamento muito amvel.
- No  isso que os rapazes de hoje procuram. Querem algum que possam desfrutar 
na cama.
Teresa fugiu.

Teresa ainda cantava na igreja aos domingos, por causa disso ocorreu um evento 
que quase 
lhe mudou a vida. Havia na congregao uma certa madame Neff, tia de um director 
de emissora de 
rdio em Nice. Ela foi falar com Teresa numa manha de domingo.
- Est desperdiando sua vida aqui, minha filha. Possui uma voz extraordinria. 
Deveria 
us-la.
- Mas estou usando. Eu...
- No me refiro a... - madame Neff correu os olhos pela igreja - ...isso. Falo 
de usar sua voz 
de forma profissional. Orgulho-me de reconhecer o talento quando o escuto. Quero 
que cante para 
meu sobrinho. Ele pode lev-la para a rdio. Est interessada?
- Eu... eu no sei...
O simples pensamento apavorava Teresa.
- Converse com sua famlia.

-  uma ideia maravilhosa - comentou a me de Teresa.
- Pode ser uma boa coisa para voc - acrescentou o pai.
Apenas Monique apresentou restries:
- Voc no  profissional. Pode se expor ao  ridculo.
O que nada tinha a ver com os motivos de Monique para tentar desencorajar a 
irm. Na 
realidade, Monique temia que Teresa obtivesse sucesso. Monique  que sempre 
ocupava o centro das 
atenes. "No  justo," pensou. "Deus no deveria ter dado a Teresa uma 
excelente voz. E se ela 
se tornar famosa? Eu ficarei em segundo plano, ignorada."
E, assim, Monique tentou persuadir a irma a no aceitar o convite.
Mas no domingo seguinte, madame Neff avisou Teresa:

- Falei com meu sobrinho. Ele est disposto a lhe conceder uma audio. Espera-a 
na prxima 
quarta-feira, s trs horas.
Na quarta-feira seguinte, uma Teresa muito nervosa apareceu na emissora de rdio 
em Nice 
e procurou o director. - Sou Louis Bonnet - apresentou-se ele, bruscamente. - 
Posso lhe conceder 
cinco minutos.
A aparncia fsica de Teresa confirmava seus piores receios. A tia j lhe 
enviara alguns 
talentos antes.
"Eu deveria dizer a ela para no sair da cozinha." Mas no faria isso. A tia era 
muito rica, e 
ele o nico herdeiro.
Teresa seguiu Louis Bennet por um corredor estreito, at um pequeno estdio.
- J cantou profissionalmente alguma vez?
- No, senhor. - Teresa estava com a blusa encharcada de suor. "Por que deixei 
que me 
convencessem a vir aqui?", especulou. Estava em pnico, com vontade de fugir.
Bennet colocou-a na frente de um microfone.
- No tenho um pianista disponvel hoje, e por isso ter de cantar uma 
"capella." Sabe o que 
significa a "capella?"
- Sei, sim senhor.
- Maravilhoso.
Ele questionou, no pela primeira vez, se a tia seria rica o suficiente para 
fazer com que todas 
aquelas audies valessem a pena.
- Ficarei na cabine de controle. Ter tempo para uma cano.
- Senhor... o que devo...?
Ele se fora. Teresa ficou sozinha no estdio, diante do microfone. No tinha a 
menor ideia 
do que iria cantar.
- Basta procur-lo - dissera a tia. - A emissora tem um programa musical todas 
as noites de 
sbado e...
"Preciso sair daqui."
- No tenho o dia todo - soou a voz de Louis de repente.
- Desculpe, mas no posso...
O director, no entanto, estava determinado a puni-la por desperdiar seu tempo.
- S algumas notas - insistiu.
O suficiente para que podesse dizer  tia como a garota fora uma tola. Talvez 
isso a 
persuadisse a parar de enviar seus "protgs."
- Estou esperando - acrescentou.
Bennet recostou-se na cadeira e acendeu um Gitane. Mais quatro de trabalho. 
Yvette estaria 
 sua espera. Teria tempo de passar no seu apartamento, antes de ir para casa e 
a esposa. Talvez at 
houvesse tempo para...
Foi neste instante que ele ouviu e  no pde acreditar. Era uma voz to pura e 
to suave que 
provocou calafrios por sua espinha. Uma voz impregnada de anseios e desejo, que 
cantava a solido 
e o desespero, amores perdidos e sonhos mortos, uma voz que lhe trouxe lgrimas 
aos olhos. Avivou 
nele  emoes que julgava h muito mortas. "Meu Deus! Onde estava ela?"
Um tcnico de som passava pela cabine de controle e parou, ao  ouvir aquela voz, 
fascinado. 
A porta estava aberta, e outros comearam a chegar, atrados pela voz. Ficaram 
parados  em silncio, 
ouvindo o som pungente de um corao clamando desesperadamente por amor. No 
havia qualquer 
outro som na cabine. Quando a cano terminou, houve silncio prolongado, at 
que uma mulher 
murmurou:
- Quem quer que ela seja, no a deixe escapar.

Louis Bennet passou apressado para o estdio. Teresa preparava-se para sair.
- Desculpe por ter demorado tanto.  que eu nunca...
- Sente-se, Maria.
- Teresa.
- Desculpe. - Ele reespirou fundo. - Temos um programa musical nas noites de 
sbado. - Eu 
sei. Sempre o escuto.
- Gostaria de participar?
Teresa fitou aturdida, incapaz de acreditar no que ouvia.
- Est querendo dizer... quer me contratar?
- A partir desta semana. No incio, pagaremos o minimo, mas ser uma excelente 
promoo 
para voc.
Era quase bom demais para ser verdade. "Eles vo me pagar para cantar."

- Pagar? - exclamou Monique. - Quanto?
- No sei. E tambm no me importa. 
"O importante  que algum me quer," quase acrescentou, mas se conteve a  tempo.
-  uma notcia maravilhosa. Ento voc vai apresentar-se no rdio! - comentou o 
pai.
A me j comeava a fazer planos.
- Pediremos a todos os nossos amigos para escutarem e mandarem cartas com 
elogios  sua 
voz.
Teresa olhou para Monique,  espera de que a irm dissesse: "No precisam de 
fazer isso. 
Teresa  muito boa."
Mas Monique no disse nada. "Isso passar  depresa," era o que ela estava 
pensando.
Estava enganada.

Na noite de sbado, na emissora de rdio, Teresa estava em pnico.
- Fique tranquila, pois isso  perfeitamente natural - garantiu Louis Bonnet. - 
Todos os 
artistas passam por tal momento.
Estavam sentados na pequena sala usada pelos artistas.
- Voc ser uma sensao.
- Acho que vou vomitar.
- No h tempo. Entrar no ar dentro de dois minutos.
Teresa ensaiara naquela tarde com uma pequena orquestra que a acompanharia. O 
ensaio fora 
extraordinrio. O estdio em que fora realizado estava lotado pelo pessoal da 
emissora, que ouvira 
falar da moa com a voz incrvel. Todos escutaram em silncio enquanto Teresa 
ensaiava as canes 
que iria cantar no ar. Ningum duvidava de que estavam testemunhando o 
nascimento de uma estrela 
importante.
-  uma pena que ela no seja bonita - comentou um contra- -regra. - Mas,  pelo 
rdio, quem 
pode saber a diferena.

O desempenho de Teresa naquela noite foi magnfico.  Ela sabia que nunca cantara 
melhor. 
E quem sabia at aonde   aquilo poderia lev-la? Talvez, se se tornasse famosa, 
tivesse homens a seus 
ps, suplicando para que casasse com eles. Como acontecia com Monique.
Monique comentou, como se lesse seus pensamentos:
- Estou muito feliz por voc, mana, mas no fique  muito entusiasmada. Essas 
coisas nunca 
duram para sempre. 
"Isso vai durar," pensou Teresa, na maior felicidade. "Sou finalmente uma 
pessoa. Sou 
algum."
Na manh de segunda-feira houve um telefonema interurbano para Teresa. 

- Provavelmente  uma brincadeira - advertiu o pai. - A pessoa se apresentou 
como Jacques 
Raimu. 
"O mais importante director artstico da Frana." Teresa atendeu, cautelosa.
- Al?
- Seorita. De Fosse? - Teresa De Fosse?
- Isso mesmo.
- Sou Jacques Raimu. Ouvi seu programa de rdio na noite de sbado.  exatamente 
do que 
estava  procura.
- Eu... eu no compreendo...
- Estou  encenando uma pea na Comdie Franaise, um musical. Comeo os ensaios 
na 
prxima semana, e estava  procura de algum com uma voz como a sua. Para ser 
franco, no h 
ningum com uma voz como a sua. Quem  seu agente?
- Agente? Eu... eu no tenho agente.
- Pois ento irei at a pessoalmente e faremos um contrato.
- Monsieur Raimu... eu... no sou bonita.
Era angustiante dizer as palavras, mas Teresa sabia que era necessrio. "Ele no 
deve criar 
falsas expectativas." Raimu riu.
- Espere at depois de eu a produzir. O teatro  faz-de-conta. A maquilagem pode 
fazer as 
mgicas mais incrveis.
- Mas...
- Estarei a amanh.

Era um sonho por cima de uma fantasia. Estrelar numa pea de Raimu!
- Acertarei o contrato com ele - declarou o pai de Teresa. -  preciso tomar 
muito cuidado 
quando se lida com essa gente de teatro.
- Precisamos comprar um vestido novo para voc - sugeriu a me. - E eu o 
convidarei para 
jantar.
Monique no comentou nada. Considerava aquela situao insuportvel. No podia 
aceitar 
que a irm se tornasse uma estrela. Talvez houvesse uma maneira...

Monique deu um jeito para ser a primeira a descer quando Jacques Raimu chegou  
residncia 
dos De Fosse naquela tarde. Ele foi recebido por uma jovem to bonita que seu 
corao exultou. Ela 
vestia um traje branco simples que ressaltava seu corpo  perfeio. 
"Por Deus!," pensou ele. "Esta aparncia e a voz! Ela  perfeita. Ser uma 
estrela de 
sucesso."
- No tenho palavras para expressar como me sinto feliz por conhec-la - disse 
Raimu.
Monique sorriu efusivamente.
- Tambm me sinto muito feliz por conhec-lo. Sou uma grande admiradora sua, 
Monsieur 
Raimu.
- ptimo. J vi que trabalharemos juntos muito bem. Trouxe um roteiro comigo.  
uma linda 
histria de amor e eu acho...
Nesse momento Teresa entrou na sala. Usava um vestido novo, mas mesmo assim 
parecia 
desajeitada. Parou ao  deparar com Jacques Raimu.
- Ahn... como vai? No sabia que estava aqui... chegou mais cedo.
Ele olhou para Monique, inquisitivo.
- Esta  minha irm - disse Monique. - Teresa.
As duas notaram a mudana de expresso de Raimu. Passou do choque ao  
desapontamento 
e repulsa.

- Voc  a cantora?
- Isso mesmo.
Ele virou-se para Monique.
- E voc...
Monique sorriu, com um ar de inocncia.
- Sou a irm de Teresa.
Raimu virou-se para examinar Teresa outra vez, depois sacu-diu a cabea. - Sinto 
muito. 
Voc ... - Ele hesitou,   procura da pala-vra apropriada. - ...jovem demais. E 
agora, se me do 
licena, preciso voltar a Paris.
As irms ficaram paradas ali, observando Raimu encaminhar-se para a porta. 
"Deu certo," pensou Monique, exultante. "Deu certo."

Foi o ltimo programa de rdio de Teresa. Louis Bonnet suplicou que voltasse, 
mas ela 
sentia-se muito magoada. 
"Depois de  olhar para minha irm," pensou, "como algum pode me querer?  Sou 
muito 
feia."
Enquanto vivesse,  jamais esqueceria a expresso de Jacques Raimu. 
"A culpa  minha, por ter acalentado sonhos absurdos. Essa  a maneira de Deus 
me punir."
Depois disso, Teresa cantaria apenas na igreja e se tornaria ainda mais reclusa.

Durante os dez anos seguintes, a bela Monique recusou mais de uma dzia de 
pedidos de 
casamento. Foi cortejada pelos filhos do prefeito, banqueiros, mdicos e 
comerciantes da aldeia. Os 
pretendentes variavam de jovens recm-sados da escola a homens maduros, bem-
sucedidos, na casa 
dos quarenta e cinquenta anos. E a todos Monique dizia "Non."
- O que est procurando? - perguntou-lhe o pai, desconcertado.
- Todos aqui so muito chatos, papai. ze  um lugar sem a menor sofisticao. 
Meu principe 
encantado est em Paris.

E, assim, submisso, o pai mandou-a para Paris. Como  um pensamento posterior, 
tambm 
enviou Teresa. As duas moas ficaram num pequeno hotel no Bois de Boulogue.
Cada irm viu uma Paris diferente. Monique frequentava bailes de cariedade e 
jantares 
elegantes, tomava ch com rapazes da nobreza. Teresa visitava Las Invalides e o 
Louvre. Monique 
ia  s corridas em Longchamp e s festas de gala em Malmaison. Teresa ia  
Catedral de Notre Dame 
para rezar, passeava pelo caminho arborizado do canal So Martin. Monique ia ao  
Maxim's e ao  
 Moulin Rouge, enquanto Teresa andava pelos Quays, parando nas livrarias e 
florista, entrando na 
Baslica de So Denis. Teresa gostou de Paris, mas para Monique a viagem foi um 
fracasso.
o voltarem para casa, Monique disse:
- No encontrei qualquer homem com quem quisesse casar.
- No conheceu ningum que a interessasse? - perguntou o pai.
- No. Houve um rapaz que me levou para  jantar no Maxim's. O pai  dono de 
minas de 
carvo. 
- Como ele era? - indagou a me,  ansiosa.
- Era rico, bonito, polido e me adorava.
- Ele pediu-a em casamento?
- A cada dez minutos. Finalmente me recusei a v-lo de novo.
A me ficou espantada.
- Por qu?

- Porque ele s sabia falar sobre carvo: carvo betuminoso, carvo de pedra, 
carvo preto, 
carvo cinzento. Muito chato.

No ano seguinte, Monique decidiu que queria voltar a Paris.
- Vou arrumar minhas malas - disse Teresa.
Monique sacudiu a cabea.
- No. Desta vez acho que irei sozinha.
Assim, enquanto Monique ia a Paris, Teresa ficava em casa e frequentava a igreja 
todas as 
manhs, rezando para que a irma encontrasse um belo principe. E um dia o milagre 
aconteceu. Um 
milagre porque foi com Teresa que aconteceu. Seu nome era raul Giradot.
Ele foi  igreja de Teresa num domingo e ouviu-a cantar. Nunca antes escutara 
nada parecido. 
"Preciso conhec-la," pensou.
No incio da manh de segunda-feira, Teresa foi  ao  armazm-geral da aldeia, a 
fim de 
comprar tecido para um vestido que queria fazer. raul Giradot trabalhava por 
trs do balco. Levan-
tou os olhos quando Teresa entrou e seu rosto se ilumminou.
- A voz!
Ela ficou embaraada.
- Como...  o que disse?
- Ouvi voc cantar na igreja ontem.  magnfica.
Ele era alto e bonito, olhos escuros inteligentes e faiscantes, lbios atraentes 
e sensuais. Tinha 
trinta e poucos anos, um ou dois a mais do que Teresa.
Ela ficou to atordoada por sua aparncia que pde apenas balbuciar. Fitou-o 
fixamente, o 
corao disparado.
- O-obrigada... eu... eu queria trs metros de musselina, por favor.
raul sorriu.
- Terei o maior prazer em atend-la. Por aqui.
Subitamente, era difcil para Teresa concentrar-se na compra. Estava conciente 
demais da 
presena do rapaz, quase sufocando, consciente de sua beleza e charme, da aura 
viril que o cercava.
Depois que Teresa escolheu,  enquanto raul embrulhava o tecido, ela tomou 
coragem para 
perguntar:
- Voc...  novo aqui, no  mesmo?
Ele olhou para ela e sorriu, e calafrios a percorreram.
- "Oui." Cheguei em ze h poucos dias. Minha tia  dona desta loja e precisava 
de ajuda, por 
isso resolvi passar algum tempo aqui.  
"Quanto ser algum tempo?", Teresa descobriu-se a  especular.
- Deveria cantar profissionalmente - comentou raul.
Ela lembrou a expresso de Raimu ao  v-la. No, no se arriscaria a se expor 
publicamente 
outra vez. 
 - Obrigada - murmurou Teresa.
Ele ficou enternecido com o embarao e timidez de Tereza e tentou puxar 
conversa.
- Nunca estive em ze antes.  uma linda cidadezinha.
- , sim.
- Nasceu aqui?
- Nasci.
- Gosta do lugar?
- Gosto.
Teresa pegou o embrulho e fugiu.
No dia seguinte ela arrumou um pretexto para voltar  loja. Passara metade da 
noite 
acordada, pensando no que diria a Raul. 
"Estou contente que goste de ze...

Sabia que o mosteiro foi construdo no  sculo catorze...
J visitou Saint-Paul-de-Vence? H uma capela ali...
Gosto de Monte Carlo... e voc?  maravilhoso saber que est perto daqui. s 
vezes minha 
irm e eu vamos de carro ao  Grand Corniche e ao  Teatro Fort Antoine. Por acaso 
voc conhece? 
 um teatro grande, ao  ar livre...
Sabia que Nice j se chamou Nikaia? Oh, no sabia? Pois  verdade. Os gregos 
estiveram l 
h muito tempo. H um museu em Nice com as relquias de homens das cavernas que 
l viveram h 
milhares de anos. No  interessante?" 
Teresa estava preparada, com tudo que ia dizer guardado na cabea. Infelizmente, 
no 
momento em que entrou na loja e avistou Raul, tudo fugiu-lhe da mente. Limitou-
se a fit-lo 
fixamente, incapaz de falar.
- "Bonjour" - disse Raul, jovialmente. -  um prazer tornar a v-la, 
Mademoiselle De Fosse.
- "Merci." - Teresa sentiu-se uma idiota. "Estou com trinta anos. E me comporto 
como uma 
colegial. Pare com isso."
Mas ela no podia parar.
- Em que posso servi-la?
- Eu... preciso de mais musselina.
O que era a ltima coisa de que ela precisava.
Ela observou Raul pegar a pea de tecido. Ele colocou-a no balco e comeou a 
medir.
- Quantos metros vai querer?
Teresa comeou a responder dois metros, mas o que saiu foi outra coisa:
- Voc  casado?
 Ele fitou-a com um sorriso afetuoso.
- No. Ainda no tive essa sorte. 
"Pois vai ter," pensou Teresa. "Assim que Monique voltar de Paris."
Monique adoraria aquele homem. Eram perfeitos um para o outro. O pensamento da 
reao 
de Monique ao  conhecer Raul encheu Teresa de felicidade. Seria maravilhoso ter 
Raul Giradot como 
cunhado.
No dia seguinte, quando Teresa passava pela loja, Raul avistou-a e saiu 
apressado.
- Boa tarde, mademoiselle. Eu ia tirar uma folga. Se est livre, no gostaria de 
tomar ch 
comigo?
- Eu... eu... est bem, obrigada.
Sentiu-se com a lngua presa em sua presena, embora Raul no podesse ser mais 
simptico. 
Fez tudo que podia para deix-la a vontade, e logo Teresa se descobriu a contar 
quele estranho 
coisas que nunca dissera a ningum antes. Falaram de solido.
- As multides me deixam solitria - comentou Teresa. - Sempre me sinto como uma 
ilha num 
mar de pessoas.
Ele sorriu.
- Eu compreendo.
- Mas deve ter muitos amigos...
- Conhecidos. Afinal, ser que algum tem realmente amigos?
Era como se ela estivesse falando para uma imagem no espe-lho. O tempo passou 
depressa, 
e logo estava na hora de Raul voltar ao  trabalho. Quando se levantaram, ele 
perguntou:
- No quer almoar comigo amanh?
Ele estava apenas sendo gentil,  claro. Teresa sabia que nenhum homem poderia 
se sentir 
atrado por ela. Especialmente algum to maravilhoso como Raul Giradot. Tinha 
certeza que ele era 
 gentil com todo mundo.

- Eu gostaria muito - respondeu Teresa.
o se encontrarem no dia seguinte, Raul disse, com um entusiasmo infantil:
- Consegui ficar de folga a tarde toda. Se no estiver muito ocupada, por que 
no vamos at 
Nice?
Seguiram pela Moyenne Corniche no carro de Raul, com a capota arriada, a cidade 
estendeu-se abaixo deles como um tapete mgico. Teresa recostou-se no assento e 
pensou: "Nunca 
me senti to feliz." E depois, com um sentimento de culpa: "Estou feliz por 
Monique."
A irm estava para voltar de Paris no dia seguinte. Raul seria o  presente de 
Teresa para ela. 
Era bastante realista para saber que os rauls do mundo no eram para ela. J 
sofrera demais na vida, 
e h muito apreendera a distinguir o que era real ou no. O homem bonito ao  seu 
lado,  guiando o 
carro, era um sonho impossvel que  ela sequer podia se permitir.
Almoaram no Le Chantecler, no Hotel Negresco, em Nice. Foi uma refeio 
magnfica, mas 
depois Teresa no se lembrou do que comeu. Tinham muitas coisas a dizer um para 
o outro. Ele era 
espirituoso e encantador, parecia achar Teresa interessante... realmente 
interessante. Perguntou sua 
opinio sobre muitas coisas e escutou com ateno as respostas. Concordaram 
sobre quase tudo. Era 
como se fossem almas gmias. Se Teresa tinha algum pesar pelo que estava prestes 
a acontecer, 
tratou de expuls-lo da mente, determinada.
- Gostaria de jantar no "chteau" amanh? Minha irm est voltando de Paris. 
Gostaria que 
a conhecesse.
- Eu teria o maior prazer, Teresa.

Quando Monique chegou em casa no dia seguinte, Teresa apressou-se em receb-la 
na porta. 
Apesar de sua determinao, no pde deixar de perguntar:
- Conheceu algum interessante em Paris? - Prendeu a respirao,  espera da 
resposta da 
irm.
- Os mesmos homens chatos de sempre -  anunciou Monique.
Ento Deus tomara a deciso final.
- Convidei algum para jantar esta noite - anunciou Teresa. - Acho que vai 
gostar dele. 
"No devo nunca deixar que algum saiba o quanto gosto dele," pensou Teresa.

Naquela noite, s sete e meia em ponto, o mordono levou Raul Giradot at a sala 
de estar, 
onde Teresa, Monique e os pais esperavam.
- Minha me e meu pai. Monsieur Raul Giradot.
- Muito prazer.
Teresa respirou fundo.
- E minha irm, Monique.
- Como vai?
A expresso de Monique era polida, nada mais. Teresa olhou para Raul, esperando 
v-lo 
atordoado pela beleza de Monique.
- Muito prazer.
Apenas corts.
Teresa continuou imvel, a respirao presa,  espera das fascas que surgiriam 
entre os dois. 
Mas Raul fitou-a e disse:
- Voc est muito bonita esta noite, Teresa.
Ela corou e balbuciou:
- Oh, obrigada...

Tudo naquela noite foi confuso. O plano de Teresa de  apro-ximar Monique e Raul, 
v-los 
casar, ter Raul como cunhado... nada disso sequer comeou a acontecer. Por mais 
incrvel que 
podesse parecer, a ateno de Raul concentrou-se toda em Teresa. Era como um 
sonho impossvel 
que se tornara realidade. Sentia-se como Cinderela, s que era a irm feia, e o 
principe a escolhera. 
Era irreal, mas estava acontecendo Teresa descobbriu-se a fazer um esforo para 
resistir a Raul e seu 
charme, porque sabia que era bom demais para ser verdade, e temia ser magoada 
outra vez. Durante 
todos aqueles anos escondera suas emoes, protegendo-se contra o sofrimento que 
acompanhava 
a rejeio. Agora, instintivamente, tentou mais uma vez fazer a mesma coisa. Mas 
Raul era 
irresistvel.
- Ouvi sua filha cantar - disse Raul. - Ela  um milagre. Teresa corou.
- Todo mundo adora a voz de Teresa - comentou Monique, suavemente.
Foi uma noite inebriante. Mas a melhor coisa ainda estava para acontecer.
o terminar o jantar, Raul disse aos pais de Teresa:
- Seus jardins parecem adorveis. - Ento olhou para Teresa - Voc me levaria 
para v-los?
Teresa olhou para Monique, tentando decifrar as emoes da irm. Mas monique 
parecia 
completamente indiferente. 
"Ela deve estar cega, surda e muda", pensou Teresa.
E depois recordou todas as ocasies em que Monique fora a Paris, Cannes  e So 
Tropez,  
procura de seu principe encantado, sem jamais encontr-lo. 
"Ento a culpa no   dos homens.  da minha irm. Monique no tem a menor  
ideia do que 
quer."
Teresa virou-se para Raul.
- Terei o maior prazer.
L fora, ela no pode abandonar o assunto.
- Gostou de Monique?
- Parece muito simptica - respondeu Raul. - Pergunte o quanto gosto da irm 
dela.
E ele abraou-a e beijou-a.
Foi diferente de tudo o que Teresa j experimentara antes. Ela tremeu nos braos 
de Raul e 
pensou: "Obrigada, Deus. Oh, muito obrigada!"
- Quer jantar comigo amanh? - perguntou Raul.
- Quero, sim - balbuciou Teresa.

Quando as duas irms ficaram ss, Monique comentou:
- Ele parece gostar mesmo de voc.
- Acho que sim - murmurou Teresa, timidamente.
- Gosta dele?
- Gosto.
- Tome cuidado, mana. - Monique soltou uma risada. - No deixe que lhe suba  
cabea. 
"Tarde demais," pensou Teresa, desamparada.  "Tarde demais."

Teresa e Raul ento passaram a encontrar-se todos os dias. Em geral, Monique os 
acompanhava. Os trs passeavam juntos pelas praias de Nice, riam diante de 
hotis com aparncia 
de bolos de casamento. Almoaram no Htel du Cap, em Cap d'Antibes, visitaram a 
Capela Matisse, 
em Vence. Jantaram no Chteau de la Chvre d'Or e na fabulosa La Ferme So 
Michel. Uma manh, 
s cinco horas, os trs foram ao  mercado do produto, que se espalhava pelas 
ruas de Monte Carlo, 
compraram po fresco, legumes e frutas.

Aos domingos, quando Teresa cantava na igreja, Raul e Monique ali estavam para 
ouvir.
Depois, Raul abraava Teresa e murmurava:
- Voc  mesmo um milagre. Eu poderia ouvi-la cantar pelo resto da minha vida.
Quatro semanas depois de se conhecerem, Raul pediu-a em casamento.
- Tenho certeza que poderia conquistar qualquer homem que quisesse, Teresa, mas 
eu ficaria 
honrado se me escolhesse.
Por um momento terrvel, Teresa pensou que ele estava escarnecendo, mas Raul 
acrescentou, 
antes que ela podesse dizer qualquer coisa:
- Minha querida, devo lhe dizer que j conheci muitas mu-lheres, mas voc  a 
mais sensvel, 
a mais talentosa, a mais afectuosa... Cada palavra soava como msica aos ouvidos 
de Teresa. Queria 
rir; queria chorar. "Como sou abenoada por amar e ser amada," pensou.
- Quer casar comigo?

Depois que Raul foi embora, Teresa correu para a biblioteca, onde a irm, o pai 
e a me 
tomavam caf.
- Raul me pediu em casamento! - Seu rosto estava radiante e quase tinha beleza.
Os pais ficaram aturdidos.
Foi Monique quem falou.
- Tem certeza que ele no est atrs do dinheiro da famlia, Teresa?
Aquilo soava como um tapa na cara.
- No quis ser grosseira - acrescentou Monique -, mas tudo parece acontecer 
depressa 
demais.
Teresa estava determinada a no permitir que coisa alguma destrusse sua 
felicidade.
- Sei que quer me proteger, Mas Raul tem dinheiro. O pai deixou-lhe uma pequena 
herana, 
e ele no tem medo de trabalhar para ganhar a vida. - Teresa pegou a mo da irm 
e suplicou: - Por 
favor, Monique, fique contente por mim. Nunca pensei em conhecer este 
sentimento. Sinto-me to 
feliz, eu poderia morrer.
Os trs abraaram-na e disseram como estavam felizes por ela, comearam a 
discorrer 
excitados sobre os planos para o casamento.
Na manh seguinte,  bem cedo,   Teresa foi  igreja e ajoe-lhou-se  para rezar.
- Obrigada, Pai. Obrigada por me conceder tanta felicidade. Farei tudo para me 
mostrar  
altura do Seu amor e do amor de Raul. Amm.

Teresa entrou no armazm-geral, nas nuvens e disse:
- Se no se incomoda, meu caro senhor, eu gostaria de encomendar um tecido para 
um 
vestido de noiva.
Raul riu e abraou-a.
- Voc ser uma noiva maravilhosa.
E Teresa sabia que ele falava srio. Era esse o milagre.

O casamento foi marcado para o ms seguinte, na igreja da aldeia. Monique,  
claro, seria a 
madrinha.

s cinco horas da tarde de sexta-feira, Teresa falou com Raul pela ltima vez. 
ao  meio-dia 
e meia de sbado,  espera de Raul na sacristia da igreja, j com um atraso de 
meia hora, Teresa foi 
procurada pelo padre. Ele pegou-a pelo brao e levou-a para um canto. Teresa 
ficou espantada com 
sua agitao. O corao comeou a bater forte.
- Qual  o problema? Aconteceu alguma coisa com Raul?
- Oh, minha cara... - murmurou o padre. - Minha pobre e querida Teresa...
Ela comeava a entrar em pnico.
- O que houve, padre? Conte logo!
- Eu... eu acabei de receber uma notcia, Raul...
- Foi um acidente? Ele est ferido?
- Giradot deixou a cidade no incio desta manh.
- Ele o qu? Deve ter acontecido alguma emergncia que o fez...
- Ele partiu com sua irm. Foram vistos quando pegavam o trem para Paris.
A sala comeou a girar. "No," pensou Teresa. "No devo      desmaiar. No devo 
fraquejar 
perante Deus." Anos mais tarde, ela s tinha uma lembrana nebulosa dos 
acontecimentos 
subsequentes. A distncia, ouviu o padre fazer um comunicado aos convidados, mal 
percebeu o 
tumulto na igreja. A me abraou-a e murmurou: 
- Minha pobre Teresa...  demais que sua prpria irm fosse to cruel. Sinto 
muito.
Mas Teresa mostrava-se subitamente calma. Sabia como endireitar tudo. 
- No se preocupe, mame. No culpo Raul por se apaixonar por Monique. 
Aconteceria com 
qualquer homem. Eu j deveria saber que nenhum homem poderia jamais me amar. 
- Est enganada - protestou o pai. - Voc vale dez Moniques. 
 Mas sua compaixo estava anos atrasada. 
- Eu gostaria de ir para casa agora, por favor.
  Eles atravessaram a multido. Os convidados recuaram para deixa-los passar, 
observando-os 
em silncio.

  ao  chegarem ao   "chteau," Teresa disse calmamente: 
 - Por favor, no se preocupem comigo. Prometo que tudo vai acabar bem. 
  Subiu para o quarto do pai, pegou sua navalha e cortou os pulsos.    

         Captulo 12



Quando Teresa abriu os olhos, o mdico da famlia e o padre da aldeia estavam de 
p ao  lado 
 da cama.
- No! - gritou ela. - No quero voltar! Deixem-me morrer! Deixem-me morrer!
- O suicdio  um pecado mortal - avisou o padre. - Deus deu-lhe a vida, Teresa. 
S Ele pode 
decidir quando deve acabar. Voc  jovem. Tem toda uma vida pela frente.
- Para fazer o qu?  - soluou Teresa. - Sofrer mais? No suporto a angstia em 
que estou 
vivendo! No aguento mais!
- Jesus suportou a dor    e morreu por todos ns - disse o padre, gentilmente. - 
No vire as 
costas a Ele.
- Precisa repousar - disse o mdico, aps examinar Teresa. - J falei com sua 
me para lhe 
fazer uma dieta leve. - Ele sacudiu um dedo para Teresa. - Isso no inclui 
navalhas.
Na manhH seguinte, Teresa saiu da cama. Quando entrou na sala de estar, a me 
disse, 
alarmada:
- O que est fazendo de p? O mdico mandou...
- Preciso ir  igreja. Preciso falar com Deus - falou Teresa com voz rouca.
A me hesitou.
- Irei com voc.
- No. Devo ir sozinha.
- Mas...
- Deixe-a ir - interveio o pai.
Eles observaram a filha desolada sair de casa.
- O que acontecer com ela? - murmurou a me de Teresa.
- S Deus sabe.

Ela entrou na igreja to familiar,  foi at o altar e ajoe-lhou-se.
- Vim  Sua casa para lhe dizer uma coisa, Deus. Eu O desprezo. Desprezo-O por 
me deixar 
nascer to feia. Desprezo-O por deixar minha irm nascer to bonita. Desprezo-O 
por deix-la tomar 
o nico homem que j amei. Cuspo em Voc.
As ltimas palavras soaram to altas que as outras pessoas se viraram para fit-
la, enquanto 
ela se levantara e saa camba-leando.

Teresa nunca imaginara que podesse haver tanta dor. Era insuportvel. Era-lhe 
impossvel 
pensar em qualquer coisa. Des-cobriu-se incapaz de comer ou dormir. O mundo 
parecia abafado e 
distante. As lembranas explodiam-lhe na mente, incessantemente, como cena de um 
filme.
Recordou o dia em que ela, Raul e Monique passeavam pela praia em Nice.
- Est um lindo dia para um mergulho - sugeriu Raul.
- Eu adoraria, mas no podemos, Teresa no sabe nadar.
- No me importo se vocs dois forem nadar. Ficarei  espera no hotel.
E sentia-se muito satisfeita porque Raul e Monique estavam se dando to bem.
Almoaram numa pequena estalagem, perto de Cannes.
- A lagosta est ptima hoje. - Sugeriu o "meitre."

- Eu vou querer - disse Monique. - A pobre da Tereza no pode. Os crustceos a 
deixam 
cheia de urticrias.
- Sinto saudade de andar a cavalo - comentou Raul quando estavam em So Tropez. 
- 
Costumava montar todas as manhs quando estava em casa. Quer ir comigo, Teresa?
- Eu... eu no sei montar, Raul.
- Eu no me importaria de ir com voc, Raul - interveio Monique. - Adoro montar.
E os dois passaram a manh inteira passeando a cavalo.
Houve centenas de pistas, e ela no percebera nenhuma. Fora cega porque quis ser 
cega. Os 
olhares que Raul e Monique trocavam, os inocentes contatos das mos, os 
sussurros e risos. 
"Como pude ser to estpida?" 
 noite, quando Teresa conseguia finalmente cochilar, havia sonhos. Era sempre 
um sonho 
diferente mas era sempre o mesmo sonho.
Raul e Monique encontravam-se no trem, nus, fazendo amor, o trem passava por uma 
ponte 
sobre um desfiladeiro, que ruia, e todos no trem mergulhavam para a morte.
Raul e Monique encontravam-se num quarto de hoteel, nus, na cama. Raul largava 
um 
cigarro, e o quarto explodia em chamas, os dois eram queimados at a morte, seus 
gritos despertavam 
Teresa.
Raul e Monique caam de uma montanha, afogavam-se num rio, morriam num desastre 
de 
avio.
Era sempre um sonho diferente.
Era sempre o mesmo sonho.

A me e o pai de Teresa estavam desesperados. Viam a filha definhar, e no havia 
nada que 
pudessem fazer para ajud-la. De repente, Teresa comeou a comer. E comia sem 
parar. Parecia que 
a comida nunca era suficiente. Recuperou o peso e continuou a engordar, ficou  
imensa. Quando o 
pai e a me tentavam-lhe falar de seu sofrimento, ela declarava:
- Sinto-me to bem agora. No se preocupem comigo.
Teresa levava a vida como se nada houvesse de errado. Continuava a ir  aldeia e 
fazia 
compras, como sempre. Jantava com a me e o pai todas as noites, lia ou 
costurava. Construia uma 
fortaleza emocional ao  seu redor, e estava determinada a no permitir que 
ningum a rompesse. 
"Nenhum homem jamais vai querer olhar para mim. Nunca mais." Exteriormente, 
Teresa parecia bem. 
Por dentro, afundara-se num abismo de desesperada solido. Mesmo quando se 
encontrava cercada 
de pessoas, sentava-se numa cadeira solitria, numa sala solitria, numa casa 
solitria, num mundo 
solitrio.

Pouco depois de um ano depois de Raul abandonar Teresa, o pai fez as malas para 
uma 
viagem a vila.
- Tenho alguns negcios para tratar l - disse a Teresa. - Depois disso, porm, 
estarei livre. 
Por que z de paz em Greenwich, Connecticut, e viajara at Manhattan para que 
Ellen Scott Dudash 
fosse apresentada  famlia do marido.

Byron Scott recebeu o irmo bruscamente:
- Mas que loucura foi essa... casar com uma vigarista polonesa? Ficou maluco?
Susan Scott foi igualmente implacvel.
Claro que antes mesmo de abri-la, Teresa foi dominada pela premonio de algo 
terrvel 
assomando  sua frente.
A carta dizia: 
          
"Minha querida Teresa:


Deus sabe que no tenho o direito de cham-la de
 querida da, depois da coisa terrvel que lhe fiz, mas  prometo recompens-la, 
nem que leve 
a vida inteira para 
isso. No sei por onde comear.
Monique    fugiu e deixou-me com nossa filhinha de dois
meses.  Para ser sincero, sinto-me aliviado. Devo confessar
que tenho vivido num inferno desde o dia em que a deixei.
Jamais compreenderei por que procedi daquela maneira.
Parece que fui apanhado por    algum encantamento mgico de 
Monique, mas sabia desde o incio que meu casamento com ela
era um erro lamentvel. Voc sempre foi o amor da minha 
vida. Sei agora que o nico lugar onde posso encontrar a 
felicidade  ao  seu lado. Quando receber esta carta, j 
estarei de volta para voc.
Amo voc, e sempre amei, Teresa. Pelo bem do resto de
nossas vidas juntos, eu lhe peo perdo. Querida..."  

Ela no pde terminar de ler a carta. O pensamento de tornar a ver Raul e a 
filha dele e 
Monique era inconcebvel, obseno.
Teresa jogou a carta no cho, histrica.
- Preciso sair daqui! Esta noite! Agora! Por favor... por favor!
Foi impossvel acalm-la.
- Se Raul est vindo para c - disse o pai -, voc deve pelo menos falar com 
ele.
- No! Se me encontrar com ele, vou mat-lo! - Teresa segurou os braos do pai, 
as lgrimas 
escorriam-lhe pelo o rosto. - Leve-me com voc! - implorou.
Estava disposta a ir para qualquer parte, contanto que fugisse dali.
E, assim, naquela noite, Teresa e o pai partiram para vila.

O pai de Teresa estava angustiado com a infelicidade da filha. No era por 
natureza um 
homem compassivo, mas no ano que passara Teressa conquistara sua admirao com 
seu 
comportamento corajoso. Enfrentara os moradores da cidade de cabea erguida, e 
nunca se queixara. 
  Ele sentia-se impotente, incapaz de confort-la.
Lembrou-se de quanto consolo ela encontrara outrora na igreja e disse a Teresa, 
quando 
chegaram a vila:
- Padre Berrendo, o sacerdote daqui,  um velho amigo meu. Talvez possa ajud-
la. Gostaria 
de falar com ele?
- No.
Teresa no queria mais nada com Deus. Permaneceu sozinha no quarto de hotel, 
enquanto 
o pai cuidava dos negcios. Quando ele voltou, Teresa continuava sentada na 
mesma cadeira, 
olhando para a parede.
- Por favor, Teresa, fale com o padre Berrendo.
- No.
O pai ficou desorientado. Ela recusava-se a deixar o quarto do hotel e no 
queria voltar a 
ze.
Como ltimo recurso, o padre foi procur-la.
- Seu pai me disse que houve um tempo em que voc ia  igreja regularmente.
Teresa fitou o padre de aparncia frgil nos olhos e disse friamente:
- No estou mais interessada. A Igreja no tem nada para me oferecer.

Padre Berrendo sorriu.
- A Igreja tem alguma coisa a oferecer a todas as pessoas, minha criana. A 
Igreja nos d 
esperana e sonhos...
- J tive minha quota  de sonhos. Agora, nunca mais. Ele pegou as mos e viu as 
cicatrizes 
brancas nos pulsos, to tnues quanto uma memria antiga.
- Deus no acredita nisso. Fale com Ele e Ele lhe dir.
Teresa continuou sentada, o olhar fixo na parede e quando o padre finalmente 
saiu, ela nem 
sequer se apercebeu.

Na manh seguinte, Teresa entrou na igreja fria e abobadada, e quase no mesmo 
instante foi 
envolvida pelo antigo e familiar sentimento de paz. A ltima vez em que entrara 
numa igreja fora para 
insultar Deus. Sentiu-se muito envergonhada. Fora a sua prpria fraqueza que a 
trara, no Deus.
- Perdoe-me - murmurou -, pois eu pequei. Tenho vivido no dio. Ajude-me. Por 
favor, 
ajude-me. - Teresa levantou os olhos, e padre Berrendo estava sentado ali.
Quando ela terminou, o padre levou-a para seu escritrio, alm da sacristia.
- No sei o que fazer, padre. No acredito mais em coisa alguma. Perdi a f. - 
Sua voz estava 
impregnada de desespero.
- Tinha f quando era jovem?
- Tinha, sim. E muita.
- Ento ainda a tem, minha criana. Apenas a f real e permanente. Tudo o mais  
transitrio.
Conversaram por horas naquele dia.
Quando Teresa voltou ao  hotel, ao  final da tarde, o pai disse:
- Preciso retornar a ze. Est pronta para partir?
- No, papai. Deixe-me ficar aqui mais algum tempo.
Ele hesitou.
- Ficar bem?
- Ficarei, papai. Prometo.

Teresa e  padre Berrendo passaram a se encontrar todos os dias. O corao do 
padre 
confrangeu-se por Teresa. Via nela no uma mulher gorda e desgraciosa, mas um 
esprito belo e 
infeliz. Conversavam sobre Deus a criao e o sentido da vida. Pouco a pouco, 
quase contra a 
vontade, Teresa recomeou a encontrar conforto. Padre Berrendo um dia 
desencadiou nela uma 
reaco profunda.
- Se no acredita neste mundo, minha criana, ento acredite no prximo. 
Acredite no mundo 
em que Jesus espera para receb-la.
E pela primeira vez desde o dia que deveria ser seu casamento, Teresa comeou a 
sentir paz 
outra vez. A igreja tornara-se seu refgio, como antes. Mas precisava pensar em 
seu futuro.
- No tenho para onde ir.
- Pode voltar para casa.
- No. Jamais poderia voltar para l. Nunca poderia encarar Raul outra vez. No 
sei o que 
fazer. Quero me  esconder, mas no tenho onde me esconder.
Padre Berrendo ficou em silncio um longo tempo, at finalmente murmurar:
- Poderia ficar aqui.
Ela correu os olhos pela sala, aturdida.
- Aqui?

- O convento Cisterciense fica prximo. - Ele inclinou-se para a frente. - 
Deixe-me falar um 
pouco a respeito dele.  um mundo dentro do mundo, onde todas as pessoas 
dedicam-se a Deus.  
um lugar de paz e serenidade.
O corao de Teresa comeou a animar-se.
- Parece maravilhoso.
- Devo adverti-la.  uma das ordens mais rigorosas do mundo. Quem entra ali faz 
um voto 
de castidade, silncio e obedincia. E quem entra nunca mais sai.
As palavras provocaram uma emoo em Teresa.
- No vou querer sair nunca mais.  o que tenho procurado, padre. Desprezo o 
mundo em 
que vivo.
Mas padre Berrendo ainda estava preocupado. Sabia que Teresa enfrentaria uma 
vida 
totalmente diferente de tudo o que j expe-rimentara at aquele momento.
- No pode haver retorno.
- No mudarei de ideia.

No dia seguinte,  bem cedo, padre Berrendo  levou Teresa ao  convento para 
conhecer a 
reverenda madre Betina. Deixou-as conversarem.
Assim que entrou no convento, Teresa teve certeza. "Finalmente," pensou, 
exultante. 
"Finalmente."
Depois do encontro ela, ansiosa, telefonou para os pais.
- Eu estava muito preocupada. Quando voltar para casa? - indagou a me.
- Estou em casa.


O bispo de vila cumpriu o rito:
- Criador, "Senhor, envie sua bno a esta serva, a fim  de que ela seja 
fortalecida com a 
virtude celestial e possa manter uma f total e fidelidade ininterrupta."
- Renunciei ao  reino deste mundo e a todos os adornos seculares, pelo amor de 
Nosso 
Senhor, Jesus Cristo - respondeu Teresa.
O bispo fez o sinal da cruz por cima dela.
- "De largitatis tuae fonte defluxit ut cum honorem nuptiarum nulla interdicta 
minuissent ac 
super sanctum conjugium nuptialis benedictio permaneret existerent conubium, 
concupiscerent 
sacramentum, nec imitarentur quod nuptiis agitur, sed diligerent quod nuptiis 
praenotatur." Amm.
- Amm.
- Eu te esposo com Jesus Cristo, o filho do Pai Supremo. Assim, recebe o  selo 
do Esprito 
Santo, a fim de que possas ser chamada de esposa de Deus, e sers coroada para 
eternidade se o 
servires fielmente. - O bispo levantou-se. - Deus, o Pai Todo-Poderoso, Criador 
do cu e da terra, 
que concedeu te receber em npcias, como a abenoada Maria, me de Nosso Senhor, 
Jesus Cristo... 
"ad beatae Mariae, matris Domini nostri, Jesu Cristi, consortium..." te recebe, 
que na presena de 
Deus e Seus anjos possas preseverar, pura e imaculada, mantendo teu propsito de 
amor e castidade, 
com a pacincia que possas merecer para receber a coroa de sua bno, atravs 
do mesmo Cristo, 
Nosso Senhor. Deus te torna forte quando frgil, fortalece quando fraca, alivia 
e governa tua mente 
com compaixo, e orienta teus caminhos. Amm.


Agora, trinta anos depois, deitada no bosque, observando o sol se elevar por 
cima do 
horizonte, irma Teresa pensou: "Fui para o convento por todos os motivos 
errados. No estava 
correndo  para Deus, mas fugindo do mundo. Mas Deus leu meu corao."
Estava com sessenta anos, e os ltimos trinta de sua vida haviam sido os mais 
felizes que 
conhecera. E agora, abruptamente, fora lanada de volta ao  mundo do qual 
fugira. E sua mente lhe 
pregava estranhas peas. 
"O que Deus planeou para mim?"

         Captulo 13


Para a irm Megan,a viagem era uma aventura. Acostumara-se s novas vistas e 
sons que a 
cercavam e sentia-se surpresa com a rapidez da adaptao.
Considerava os companheiros de jornada fascinantes. Amparo Jir era uma mulher 
vigorosa, 
capaz de acompanhar o ritmo dos dois homens com a maior facilidade, ao  mesmo 
tempo em que era 
bem feminina.
Felix Carpio, o homem corpulento de barba avermelhada e cicatriz, pareciia 
amvel e 
simptico.
Para Megan, no entanto, o mais irresistvel do grupo era Jaime Mir. Havia nele 
uma fora 
implacvel, uma f inabalvel em suas convices que fazia Megan lembrar-se das 
freiras no conven-
to.
o iniciarem a jornada, Jaime, Amparo e Felix carregavam sacos de dormir e 
rifles nos 
ombros.
- Deixem-me carregar um dos sacos de dormir - sugeriu Megan.
Jaime Mir fitou-a surpreso e depois deu de ombros.
- Est bem, irm. - Entregou-lhe o saco.
Era mais pesado do que Megan esperava, mas no  se queixou. "Enquanto estiver 
com eles, 
 farei minha parte."
Megan tinha a impresso de que estavam andando por toda a eternidade, tropeando 
pela 
escurido, atingidos por galhos, arranhados pela vegetao baixa, atacados por 
insetos, guiados 
apenas pela luz do luar.
"Quem so essas pessoas? E por que esto sendo caadas?" Como Megan e as outras 
freiras 
tambm estavam sendo perseguidas, ela comeou a sentir uma forte ligao com os 
novos 
companheiros.
Quase no conversavam, mas de vez em quando trocaram frases enigmticas.
- Est tudo acertado em Valladolid?
- Tudo, Jaime. Rubbio e Toms se encontraro conosco no banco durante a tourada.
- ptimo. Mande um  aviso para Largo Cortez nos esperar. Mas no marque data.
- Certo.  
"Quem so Largo Cortez, Rubbio e Toms?," especulou Megan. "E o que aconteceria 
na 
tourada e no banco?" Quase chegou a perguntar, mas achou melhor no faz-lo. 
"Tenho a impresso 
de que no gostariam de muitas perguntas."

Perto do amanhecer, eles sentiram cheiro de fumaa no vale l embaixo. 
- Esperem aqui - sussurrou Jaime. - E fiquem quietos.
Os outros ficaram observando enquanto ele se encaminhava para a beira da 
floresta e 
desaparecia.
Megan disse:
- O que foi?
- Cale-se! - sibilou Amparo Jir.
Jaime Mir voltou 15 minutos depois.
- Soldados. Vamos contorn-los.
Voltaram por quase um quilmetro, depois avannaram cautelosos pelo bosque, at 
alcanarem uma pequena estrada secundria. Os campos espalhavam-se pela frente, 
recendendo a 
feno modo e frutas maduras.
A curiosidade de Megan prevaleceu, levando-a a perguntar:

- Por que os soldados esto atrs de vocs?
- Digamos que no pensamos da mesma maneira - respondeu Jaime. Megan tinha de se 
satisfazer com isso. "Por enquanto," pensou. Estava determinada a saber mais 
sobre aquele homem.
Meia hora depois, quando chegaram a uma clareira resguardada, Jaime disse:
- O sol est subindo. Ficaremos aqui at o anoitecer. - Olhou para Megan. - Esta 
noite 
teremos de andar mais depressa.
Ela acenou com a cabea.
- Tudo bem.
Jaime pegou os sacos de dormir e desenrolou-os.
Felix Carpio disse a Megan:
- Fique com o meu, irm. Estou acostumado a dormir no cho.
-  seu - protestou Megan. - Eu no poderia...
- Pelo amor de Deus! - interveio Amparo, bruscamente. - Entre logo no saco. No 
queremos 
que comece a gritar por causa das malditas aranhas.
Havia uma hostilidade em seu tom que Megan no podia enten-der. "O que a est 
incomodando?," especulou Megan
Ela observou Jaime ajeitar o saco de dormir perto do lugar em que ela se 
encontrava e depois 
se acomodar.  Amparo Jir deitou-se ao  seu lado. "J entendi," pensou Megan.
Jaime olhou para a freira e disse:
-  melhor dormir um pouco. Temos um longo caminho pela frente.

Megan foi despertada no meio da noite por um gemido. Algum parecia sentir uma 
dor 
terrvel. Sentou-se. Os sons vinham do saco de Jaime. "Ele deve estar passando 
mal," foi o primeiro 
pensamento.
O gemido foi se tornanmdo cada vez mais alto, e depois Megan ouviu a voz de 
Amparo Jir 
balbuciando:
- Oh, mais, mais! D tudo para mim, querido! Com mais fora! Sim! Agora! Agora!
Megan corou. Tentou fechar os ouvidos aos sons, mas era impossvel. Pensou como 
seria 
Jaime Mir a fazer-lhe amor.
Fez o sinal-da-cruz no mesmo instante e comeou a rezar: "Perdoe-me, Pai. Faa 
com que 
meus pensamentos se ocupem apenas de Voc. Faa com que meu esprito O procure, 
a fim de 
encontrar a fonte e o bem em Voc."
E os sons continuaram. Finalmente, quando Megan j comeava a pensar que no 
seria capaz 
de aguentar mais um instante sequer, eles pararam. Mas havia outros rudos que a 
mantinham 
acordada. Os sons da floresta reverberavam ao  seu redor. Havia uma cacofonia de 
acasalamento de 
aves, grilos, a conversa dos pequenos animais e os grunhidos dos animais 
maiores. Megan 
esquecera-se de como o mundo exterior podia ser barulhento. Sentia falta do 
silncio maravilhoso 
do convento. Para seu espanto, sentia saudades at do orfanato. O terrvel, 
maravilhoso orfanato...

         Captulo 14



VILA                                                                              1957


Eles a chamavam de "Megan o Terror".
Eles a chamavam  de "Megan o Demnio de Olhos Azuis".
Eles a chamavam de "Megan a Impossvel".
Ela estava com dez anos de idade. 
Fora levada ao  orfanato ainda quando beb, deixada na porta de um campons e 
sua mulher 
que no tinham condies de cri-l. 
O orfanato era um prdio austero, dois andares, caiado em branco, nos arredores 
de vila, na 
parte mais pobre da cidade, perto do Plaza de Santo Vicente, dirigido por 
Mercedes Angeles, uma 
autntica amazona, com um comportamento arrebatado, que no condizia com a 
ternura que nutria 
por seus pupilos. 
Megan era diferente das outras crianas, uma estranha com cabelos louros e olhos 
azuis 
brilhantes, sobressaindo no contraste com as morenas, de olhos e cabelos 
escuros. Desde o incio, 
porm, Megan fora diferente nos outros aspectos. Era uma criana independente, 
lder, promotora 
de travessuras.  Sempre que havia problemas no orfanato, Mercedes Angeles podia 
estar certa de que 
Megan se encontrava por trs.
o longo dos anos, Megan comandou protestos contra comida, tentou organizar as 
crianas 
num sindicato, encontrava maneiras inventivas de atormentar as supervisoras, 
inclusive algumas 
tentativas de fuga.  desnecessrio dizer que Megan era extremamente popular 
entre as outras 
crianas. Era mais jovem do que muitas, mas todas recorriam  sua orientao. 
Era uma lder nata. 
E as crianas menores adoravam quando Megan lhes contava histrias. Posuia uma 
imaginao 
delirante.
- Quem foram meus pais, Megan?
- Seu pai era um esperto ladro de jias. Subiu no telhado de um hotel no meio 
da noite para 
roubar um diamante que pertencia a uma actriz famosa, No momento em que metia o 
diamante no 
bolso, a atriz acordou. Ela acendeu a luz e viu-o.
- E no mandou prend-lo?
- No. Ele era muito bonito.
- O que aconteceu ento?
- Eles se apaixonaram e se casaram. Depois, voc nasceu.
- Mas por que me mandaram para um orfanato? Eles no me amavam?
Era essa sempre a parte difcil.
- Claro que amavam. Mas... morreram numa terrvel avalanche quando esquiavam na 
Sua.
- O que  uma terrvel avalanche?
-  quando uma poro de neve desce ao  mesmo tempo e enterra a pessoa.
- E papai e mame morreram ao  mesmo tempo?
- Isso mesmo. E as ltimas palavras foram para dizer que amavam voc. Mas no 
havia 
ningum para cuidar de voc, por isso veio para c. 

Megan sentia-se to ansiosa quanto as outras crianas em saber quem eram seus 
pais.  noite, 
acalentava-se at o sono, inventando histrias para si mesma: "Meu pai foi um 
soldado na Guerra 
Civil. Era um capito, e muito corajoso. Foi ferido em um combate, e minha me 
foi a enfermeira que 
cuidou dele. Casaram, ele voltou  frente e foi morto. Mame era pobre demais 
para me sustentar, 
e por isso precisou me deixar na fazenda, o que lhe partiu o corao." E ela 
chorava de compaixo 
pelo pai bravo e morto e pela me desconsolada. Ou: "Meu pai era um toureiro. 
Foi um dos maiores 
matadores. Era o favorito da Espanha. Todos o adoravam. Mame era uma linda 
danarina de 
flamenco. Casaram, mas um dia ele foi morto por um enorme e perigoso touro. 
Mame foi obrigada 
a renunciar-me." 
Ou: "Papai era um esperto espio do outro pas..."
As fantasias eram interminveis.

Havia trinta crianas no orfanato, variavam de recm-nascidos abandonados, at 
os de 14 
anos. Quase todas eram    espanholas, mas havia tambm crianas de outros 
pases.  Megan tornou-se 
fluente em vrias lnguas. Dormia junto com uma dzia de outras garotas. Havia 
conversa sussurradas 
at noite tarde sobre bonecas e roupas, depois sobre sexo,  medida que as 
garotas se tornavam mais 
velhas. Isso logo virou o principal tema das conversas.
- Ouvi dizer que di muito.
- No me importo. Mal posso esperar para saber com .
- Vou casar, mas nunca deixarei que meu marido faa isso comigo. Acho que  
obceno.
Uma noite, quando todos dormiam, Primo Cond, um dos meninos do orfanato, entrou 
no 
dormitrio das garotas. Foi  at a cama de Megan.
- Megan... - Sua voz era um sussurro.
Ela despertou no mesmo instante.
- Primo? O que aconteceu?
Ele soluava, assustado.
- Posso ficar na sua cama?
- Pode, mas fique quieto.
Primo tinha 13 anos, a mesma idade de Megan, mas pouco desenvolvido, e fora uma 
criana 
maltratada. Sofria pesadelos terrveis e acordava aos gritos no meio da noite. 
As outras crianas 
atormentavam-no, mas Megan sempre o protegia.
Primo  deitou na cama ao  seu lado.
Megan sentiu as lgrimas escorrerem pelas faces do menino. Abraou-o e murmurou:
- Est tudo bem, est tudo bem... - mimou-o gentilmente, e os soluos cessaram.
O corpo de Primo comprimiu-se contra o de Megan, e ela pde sentir o crescente 
excitamento dele.
- Primo...
- Desculpe. Eu... eu no pude evitar.
Sua ereo se comprimia contra ela.
- Eu amo voc, Megan.  a nica pessoa de quem eu gosto no mundo inteiro.
- Ainda no esteve no mundo l fora.
- No ria de mim, por favor.
- No estou rindo.
- No tenho mais ningum, s voc.
- Sei disso.
- Eu amo voc.
- Tambm amo voc, primo.
- Megan... voc... me deixaria fazer amor com voc?
- No.
Houve silncio.

- Desculpe ter incomodado voc. Voltarei para minha cama. - A voz de Primo 
estava 
impregnada de angstia. Ele comeou a afastar-se.
- Espere. - Megan deteve-o, querendo atenuar seu sofrimento, sentindo-se tambm 
excitada. 
- Primo, eu... eu no posso deixar que faa amor comigo, mas posso fazer uma 
coisa que o levar a 
se sentir melhor. Est bom assim?
- Est. - A voz de Primo era um murmrio. Ele estava de pijama.
Megan puxou o cordo que prendia a cala e enfiou a mo e comeou a acarici-lo.
Primo gemeu e sussurrou:
- Ai, isso  maravilhoso - e, um momento depois: - Meu Deus, eu amo voc, Megan.
Ela estava com o corpo em chamas, e se naquele momento Primo dissesse: "Quero 
fazer amor 
com voc", teria respondido sim.
Mas ele permaneceu imvel, em silncio; minutos depois voltou  sua cama.
No houve sono para Megan naquela noite. E nunca mais permitiu que  Primo 
voltasse  sua 
cama.
A tentao era muito grande.

De vez em quando, uma criana era chamada  sala da supervisora para conhecer os 
pais que 
pretendiam adot-la. Era sempre um momento de grande emoo para as crianas, 
pois representava 
uma oportunidade de escapar da terrvel rotina do orfanato, e ter um lar de 
verdade, pertencer a 
algum.
o longo dos anos. Megan observou outros rfos serem esco-lhidos. Iam para 
casas de 
comerciantes, fazendeiros, banqueiros. Mas eram quase sempre as outras crianas, 
nunca ela. A 
reputao de Megan a precedia. Ouvia seus pais em  potencial conversarem.
-  uma criana muito bonita, mas ouvi dizer que tem um temperamento difcil.
- No  a menina que levou 12 cachorros para o orfanato no ms passado?
- Dizem que  uma lder. Acho que no se daria bem com nossos filhos.
Eles no tinham a menor ideia do quanto as outras crianas adoravam Megan.
Padre Berrendo visitava o orfanato uma vez por semana. Megan aguardava ansiosa 
essas 
visitas. Era uma leitora voraz, e o padre e Mercedes Angeles providenciavam para 
que tivesse sempre 
um livro  sua disposio. Podia discutir coisas com o padre que no ousava 
falar com qualquer outra 
pessoa. Fora ao  padre Berrendo que o casal de camponeses entregara Megan quando 
beb.
- Por que eles no quiseram ficar comigo?
O velho sacerdote respondeu gentilmente.
- Desejavam muito, mas eram velhos e doentes.
- Por que acha que meus pais verdadeiros me abandonaram naquela fazenda?
- Tenho certeza que foi porque eram pobres e no tinham condies de sustent-
la.   



 medida que crescia, Megan tornava-se cada vez mais devota. Sentia-se atrada 
pelos 
aspectos culturais da Igreja Catlica. Leu as Confisses de Santo Agostinho, as 
obras de So 
Francisco de Assis, Thomas Merton e vrios outros. Ia  Igreja regularmente e 
gostava  dos ritos 
solenes, missa, receber comunho, a Bno. Talvez, acima de tudo, adorasse o 
sentimento 
maravilhoso de serenidade que sempre a envolvia na igreja.
- Quero ser uma catlica - disse ela um dia ao   padre Berrendo.
Ele pegou-lhe a mo e disse, com um piscar de olho:
- Talvez voc j seja, Megan, mas vamos nos certificar se  isso que realmente 
deseja.  Crs 
em Deus, o Pai Todo-Poderoso, criador do cu e da Terra? - Sim, creio!
- Crs em Jesus Cristo, Seu nico filho, que nasceu e sofreu?
- Sim, creio!
- Crs no Esprito Santo, na Santa Igreja Catlica, na comunho dos santos, na 
remisso dos 
pecados, na ressurreio do corpo e da vida eterna?
- Sim, creio!
O padre soprou gentilmente em seu rosto.
- "Exi ab ea spiritus immunde." Afasta-te dela, esprito impuro, e d lugar ao  
Esprito Santo, 
o Paraclito. - Ele tornou a soprar em seu rosto. - Megan, recebas o bom Esprito 
atravs deste sopro 
e recebas a bno de Deus. A Paz esteja contigo.

Aos 15 anos, Megan tornou-se uma linda mulher, com cabelos louros compridos e 
uma pele 
leitosa, que a destacava ainda mais da maioria das companheiras.
Um dia ela foi chamada ao  gabinete de Mercedes Angeles. Padre Berrendo 
aguardava-a.
- Ol, padre.
- Ol, cara Megan.
- Infelizmente, Megan, estamos com um problema - comentou Mercedes Angeles.
-  mesmo? - Ela vasculhou o crebro, na tentativa de lembrar-se de sua ltima 
travessura.
A diretora continuou:
- H um limite de idade para permanecer aqui, de 15 anos... e voc j fez 15 
anos.
Megan h muito que conhecia o regulamento,  claro. Mas relegara-o para o fundo 
da mente, 
porque no queria enfrentar o facto de que no tinha nenhum lugar no mundo para 
onde ir, que 
ningum a queria, e seria abandonada outra vez.
- Eu... eu tenho de ir embora?
A generosa amazona estava transtornada. mas no tinha alternativa.
- Lamento profundamente, mas devemos respeitar os regulamentos. Podemos  
encontrar uma 
posio para voc como criada.
Megan no sabia o que dizer.
Padre Berrendo interveio:
- Para onde gostaria de ir?
Enquanto pensava a esse respeito, Megan teve uma ideia. Havia um lugar para onde 
ir.
Desde os 12 anos de idade que Megan ajudava na manunteno no orfanato fazendo 
entregas 
na cidade, muitas delas ao  convento Cisterciense. As entregas eram sempre 
feitas  reverenda madre 
Betina. Megan lanara olhares furtivos para as freiras rezando ou andando pelos 
corredores e 
percebera nelas um sentimento quase irressistvel de serenidade. Invejava a 
alegria que as freiras 
pareciam irradiar. Para Megan, o convento era como uma casa de amor.

A reverenda madre gostava da garota exuberante, e ao  longo dos anos tiveram 
vrias 
conversas demoradas.
- Por que as pessoas entram para os conventos? - perguntou Megan uma vez.
- As pessoas recorrem a ns por muitos motivos. A maioria vem para se dedicar a 
Deus. Mas 
algumas porque no tm esperana. Ns lhe damos esperanas. Outras porque se 
sentem desiludidas 
com a vida. Ns lhe mostramos que Deus  a razo. Algumas vm porque esto 
fugindo. Outras 
porque se sentem alienadas e querem pertencer a alguma coisa.
Foi isso que lhe provocou uma reao. "Nunca pertenci realmente a ningum," 
pensou 
Megan. "Esta  a minha oportunidade."
- Acho que eu gostaria de entrar para o convento.
Seis semanas depois ela tomou os votos.
E, finalmente, Megan encontrou o que procurava h tanto tempo. No se sentia 
mais s. 
Aquelas eram suas irms, a famlia que nunca tivera, eram todas uma s sob o 
domnio do Pai.

Megan travalhava no convento como guarda-livros. Sentia-se fascinada pela antiga 
linguagem 
de sinais que as irms usavam quando precisavam se comunicar com a reverenda 
madre. Havia 472 
sinais, o suficiente para transmitirem tudo que precisavam expressar.
Quando era a vez de uma irm varrer os corredores compridos, a reverenda madre 
Betina 
levantava a mo direita com a palma  para a frente e soprava  no dorso. Se uma 
freira estava com 
febre, procurava a reverenda madre e comprimia as pontas do indicador direito e 
do dedo mdio 
contra o lado exterior do pulso esquerdo. Se um  pedido devia ser protelado, a 
reverenda madre 
suspendia o punho direito na frente do ombro direito e depois estendia um pouco 
para a frente e para 
baixo. "Amanh."
Numa manh de novembro,  Megan foi introduzida nos ritos da morte. Uma freira 
estava  
beira da morte, e um chocalho de madeira ressoou pelo claustro, o sinal para o 
incio de um  ritual 
inalterado desde 1030. Todas aquelas que podiam atender ao  chamado foram no 
mesmo instante 
ajoelhar-se na enfermaria, para a extrema-uno  e os salmos. Rezaram em 
silncio para que interce-
dessem pela alma da irm de partida. Para indicar que estava na hora dos ltimos 
sacramentos, a 
reverenda madre estendeu a mo esquerda, com a palma para cima, desenhou uma 
cruz com a ponta 
do polegar direito.
E, finalmente, houve um sinal da prpria morte, uma irm pondo a ponta do 
polegar direito 
sob o queixo e levantando-o ligeiramente.
Depois que as ltimas oraes foram ditas, o corpo  ficou sozinho por cerca de 
uma hora, a 
fim de que a alma pudesse partir em paz. ao  p da cama estava o grande crio  
pascal, o smbolo 
cristo da luz eterna, ardendo em seu castial de madeira.
A enfermeira lavou o corpo  e vestiu a freira com  o hbito, escapulrio preto 
sobre a touca 
branca, meias grossas e sandlias feita a mo. Uma freira trouxe flores frescas 
do jardim, e fez uma 
coroa. Aps vestirem a morta, seis freiras levaram-na em procisso para a igreja 
e colocaram-na no 
catafalco, coberto de um lenol branco, diante do altar. No seria deixada 
sozinha na presena de 
Deus; duas freiras permaneciam ali o resto do dia e da noite, rezando, enquanto 
o crio pascal 
bruxuleava ao  lado.

Na tarde seguinte, depois da missa Rquiem, as freiras levarram-na atravs do 
claustro at 
o cemitrio particular, murado, onde mantinham seu isolamento mesmo depois de 
mortas. As irms, 
 trs de cada lado, baixaram o corpo para a sepultura, sustentando-o por tiras 
de linho branco.     Era 
 um custume cisterciense que suas mortas ficassem descobertas na terra, 
sepultadas sem um caixo. 
Como ltimo servio prestado  irm, duas freiras jogavam terra sobre o corpo 
imvel, antes que 
todas voltassem,  igreja para os salmos da penitncia. Por trs vezes, elas 
suplicaram que Deus 
tivesse misericrdia de sua alma:
"Domine miserere super peccatrice.
Domine miserere super peccatrice.
Domine miserere super peccatrice."
Houve muitas ocasies em que a jovem Megan foi dominada pela melancolia. O 
convento 
 proporcionava-lhe serenidade, mas ela no tinha totalmente paz. Era como se uma 
parte sua estivesse 
faltando. Sentia anseios que h muito deveria ter esquecido. Descobriu- -se a 
pensar nos amigos que 
deixara no orfanato, especulando sobre o que lhes acontecera. E se perguntando o 
que estaria 
acontecendo no mundo exterior, o mundo a que renunciara, um mundo em que havia 
msica, dana 
e riso.
Megan procurou a irma Betina.
- Acontece com todas ns de vez em quando - garantiu a reverenda madre a Megan. 
- A 
Igreja se chama "acedia."  uma doena espiritual, um instrumento de Sat. No 
se preocupe com 
isso, criana. Vai passar.
E passou.
Mas no passou foi o anseio profundo de saber quem eram seus pais. "Nunca 
saberei," 
pensava Megan, desesperada. "No enquanto eu viver." 

         Captulo 15


NOVA YORK                                                                      1976



Os reprteres reunidos, diante da fechada cinzenta do Waldorf-Astoria Hotel, em 
Nova York, 
observavam o desfile de celebridades em trajes a rigor que desembarcavam das 
limusines, passavam 
pelas portas giratrias e seguiam para o Grande Salo de Baile, no terceiro 
andar. Os convidados 
vinham de todas as partes do mundo.
Cmaras espocavam, enquanto os fotgrafos gritavam:
- Senhor vice-presidente, quer olhar para c, por favor? 
- Governador Adams, posso tirar uma foto, por favor?
Havia senadores e representantes de vrios pases, magnatas do mundo dos 
negcios e dos 
artistas famosos. E todos estavam ali para celebrar o sexagsimo aniversrio de 
Ellen Scott. Na ver-
dade, no era tanto ela que homenageavam, mas sim a filantropia da Scott 
Industries, um dos mais 
poderosos conglomerados do mundo.  O vasto imprio inclua empresas petrolferas 
e usinas 
sidergicas, sistema de comunicaes e bancos. Todo o dinheiro arrecadado 
naquela noite iria para 
obras de caridade internacionais.
A Scott Industries tinha interesse em todas as partes do mundo. H vinte e sete 
anos, seu 
presidente, Milo Scott, morrera inesperadamente de um ataque cardaco, e sua 
esposa, Ellen, 
assumira o comando do gigantesco conglomerado. Nos anos subsequentes, ela 
demonstrara ser uma 
brilhante executiva, pois mais do que triplicara o patrimnio da empresa.
O Grande Salo de Baile do Waldorf-Astoria era um enorme salo decorado em bege 
e 
dourado, com um palco acarpetado em vermelho num lado. Um balco com 33 
camarotes, com um 
candelabro sobre cada um, estendia-se em curva em todo o ambiente.
No centro do balco sentava-se a convidada de honra. Havia pelo menos seiscentos 
homens 
e mulheres presentes, jantando em mesas reluzentes pela pradaria.
Terminando o jantar,  o governador de Nova York subiu ao  palco.
- Senhor vice-presidente, senhoras e senhores, honrosos convidados, estamos 
todos aqui esta 
noite com um nico propsito: prestar um tributo a uma mulher extraordinria e  
sua genrosidade 
altrusta ao  longo dos anos. Ellen Scott  o tipo de pessoa que poderia ter 
alcanado o sucesso em 
qualquer rea. Poderia ter sido uma grande cientista ou mdica. Tambm seria uma 
grande poltica 
e devo dizere que se Ellen Scott decidir se candidatar  presidncia dos Estados 
Unidos, serei o 
primeiro a votar nela. No na prxima eleio,  claro, mas na seguinte.
Houve risos e aplausos.
- Mas Ellen Scott  muito mais do que apenas uma mulher brilhante.  um ser 
humano 
caridoso e compassivo que nunca hesitar em se envolver nos problemas com que se 
defronta  o 
mundo actual... 
O  discurso  prolongou-se por mais dez minutos, mas Ellen Scott no prestava 
mais ateno. 
"Como ele est enganado," pensou, amargurada. "Como todos esto enganados. A 
Scott Industries 
nem mesmo  minha. Milo e eu a roubamos. Eu sou culpada de um crime ainda maior 
do que esse. 
No importa mais. No agora. Porque em breve estarei morta."

Ela recordou as palavras exactas do mdico ao  ler os resultados dos exames que 
representavam a sua sentena de morte:
- Lamento profundamente, Sr Scott, mas receio que no haja maneira de lhe dar a 
notcia 
gentilmente.    O  cncro espalhou- -se por todo o sistema linftico.  
inopervel.
Ela sentira um sbito peso no estmago.
- Quanto tempo ainda me resta?
O mdico hesitara.
- Um ano... talvez.
"No  tempo suficiente. No com tanta coisa ainda por fazer."
- No dir coisa alguma a ningum,  claro. - Sua voz era firme.
- Claro que no.
- Obrigada, doutor.
No tinha lembrana da sada do Centro Mdico Presbiterano Colmbia ou da viagem 
para 
o centro da cidade. Tinha apenas um pensamento: "Devo encontr-la antes de 
morrer."
O discurso do governador terminara.
- Senhoras e senhores,  minha honra e privilgio apresentar a Sr Ellen Scott.
Ela levantou-se, ovacionada de p, e encaminhou-se para o palco, uma mulher 
magra, cabelos 
grisalhos, empertigada, vestida com uma elegncia e irradiando uma falsa 
vitalidade. "Olhar para mim 
 como ver a luz distante de uma estela h muito morta," pensou, amargurada. "Na 
verdade, no 
estou mais aqui."
No palco, ela esperou os aplausos cessarem. "Esto aplaudindo um monstro. O que 
fariam 
se soubessem?" Quando comeou a falar, a voz estava firme:
- Senhor vice-presidente, senadores, governador Adams... 
"Um ano," pensava ela. "Eu me pergunto onde ela est, se continua viva. Preciso 
encontr-la."
Ele continuou a falar, dizendo automticamente todas as coisas que a audincia 
esperava 
ouvir.
- Aceito com satisfao esse tributo, no para mim, mas para todos que tanto tm 
trabalhado 
a fim de aliviar o fardo dos menos afortunados do que ns...
Sua mente retrocedeu no tempo, por 42 anos, at Gary, Indiana...

Aos 18 anos, Ellen Dudash era empregada na fbrica de peas automotrizes da 
Scott 
Indutries, em Gary, Indiana. Era uma jovem atraente e expansiva, muito popular 
entre os colegas de 
trabalho. No dia em que Milo Scott foi inspecionar a fbrica. Ellen foi 
escolhida para escolt-lo.
- J pensou nisso, Ellie? Talvez acabe se casando com o irmo do patro, e todos 
ns 
estaremos trabalhando para voc.
Ellen Dudash riu.
-  bem possvel... e vai acontecer quando as galinhas criarem dentes.
Milo Scott no era absolutamente o que Ellen esperava. Tinha trinta e poucos 
anos, era alto 
 e esbelto. "No  nada feio," pensou Ellen. Ele era tmido, quase diferente.
-  muita gentileza de sua parte tomar seu tempo para me mostrar as instalaes. 
Espero no 
estar afastando-a do seu trabalho.
Ela sorriu.
- Espero que esteja.
Era um homem fcil de se conversar. 

"No posso acreditar que estou gaguejando com o irmo do patro. Espere s at 
contar tudo 
a mame e papai."
Milo Scott parecia verdadeiramente interessado pelos operrios e seus problemas. 
Ellen 
conduziu-o pelo departamento em que eram fabricados as peas de transmisso. 
Mostrou a sala de 
tmpera, onde as engrenagens eram submetidas a um processo de endurecimento, a 
seco de 
acondicionamento e o departamento de expedio. Ele parecia devidamente 
impressionado.
- Sem dvida  uma grande operao, no  mesmo, Senhorita Dudash?  
"Ele possui tudo isso e se comporta como um garoto embasbacado. H gente de 
todos os 
tipos."
Foi na seco de montagem que o acidente ocorreu. O cabo de um carro suspenso, 
levando 
ferro despencou. Milo Scott encontrava-se directamente embaixo. Ellen viu o  que 
estava para 
acontecer uma fraco de segundo antes e, sem pensar, empurrou-o para o lado. 
Duas barras de ferro 
atingiram-na antes que pudesse escapar. Ela caiu, inconsciente. 
Despertou numa sute particular de um hospital. O quarto estava literalmente 
repleto de 
flores. Quando abriu os olhos e viu tudo, Ellen pensou: "Morri e fui para o 
cu."
Havia orqudeas, rosas, lrios, crisntemos e flores raras que no podia 
identificar. 
O brao direito estava engessado, as costelas enfaixadas. Uma enfermeira entrou.
- Ah, j acordou, Senhorita Dudash. Vou chamar o mdico.
- Onde... onde estou?
- Blake Center...  um hospital particular.
Ellen correu os olhos pela ampla sute. "Nunca poderei pagar tudo isso."
- Estamos interceptando as ligaes para voc.
- Que ligaes?
- A imprensa vem tentando entrevist-la. Seus amigos tm telefonado. O Sr. Scott 
ligou 
vrias vezes... 
"Milo Scott!"
- Ele est bem?
- Como?
- Ele ficou machucado no acidente?
- No. Esteve aqui no incio da manh, mas voc ainda dormia.
- Ele veio me visitar?
- Isso mesmo. - A enfermeira correu os olhos  sua  volta. - A maioria destas 
flores foi 
enviada por ele. 
"Incrvel!"
- Seus pais esto na sala de espera. Sente-se em condies para receb-los 
agora?
- Claro.
- Vou cham-los. 
"Puxa, nunca fui tratada assim num hospital," pensou Ellen.
Seus pais entraram e se aproximaram da cama. Eles haviam nascido na Polnia, e 
tinham 
apenas uma noo de ingls. O pai era mecnico, corpulento e rude, na casa dos 
cinquenta anos, a 
me era uma camponesa simples do norte da Europa.
- Trouxe-lhe uma sopa, Ellen.
- Mame... eles do comida s pessoas nos hospitais.
- No da minha sopa. No vo alimentar voc direito no hospital. Coma tudo e 
ficar boa 
mais depressa.
- J viu o jornal? Eu trouxe para voc - comentou o pai.

Entregou o jornal a Ellen. A manchete dizia: OPERA^H'RIA ARRISCA A VIDA PARA 
SALVAR PATRO.
Ellen leu a matria duas vezes.
- Foi muita coragem sua salv-lo. 
"Coragem! Foi uma estupidez. Se eu tivesse tempo para pensar, teria me salvado. 
Foi a coisa 
mais imbecil que j fiz. Ora, eu poderia ter morrido!"

Milo Scott foi visitar Ellen mais tarde, ainda naquela manha. Trazia outro boqu 
de flores.
- So para voc - disse, contrafeito. - O mdico garantiu que ficar boa. Eu...  
eu no tenho 
palavras para expressar como me sinto grato.
- No foi nada.
- Foi o acto mais corajoso que j vi. Salvou minha vida.
Ellen tentou se mexer, mas o movimento provocou-lhe uma aguda dor no brao.
- Voc est bem?
- Claro. - Ela sentiu o lado comear a latejar. - O que o mdico disse que 
estava errado 
comigo?
- Quebrou o brao e est com trs costelas fracturadas. 
Ele no podia dar uma notcia pior. Os olhos de Ellen enche-ram-se de lgrimas.
- Qual  o problema?
Como ela podia lhe contar? Riria dela. Vinha economizando para umas frias h 
muito 
sonhadas em Nova York com algumas colegas da fbrica. Era seu sonho. "Agora, 
ficarei sem 
trabalhar um ms ou mais. L se vai Manhattan."
Ellen trabalhava desde os 15 anos. Sempre fora independente e auto-suficiente, 
mas agora 
pensou: "Se ele est mesmo to grato, talvez concorde em pagar  parte das contas 
do hospital. Mas 
no posso pedir-lhe." Comeava a sentir-se sonolenta. "Deve ser a medicao." E 
disse, com a voz 
meia engrolada:
- Obrigada por todas as flores, Sr. Scott. E Foi um prazer conhec-lo. 
"Eu me preocuparei com as contas do hospital mais tarde."
Ellen Dudash adormeceu.

Na manh seguinte, um homem alto e de aparncia distinta entrou na sute de 
Ellen.
- Bom dia, Senhorita Dudash. Como est se sentindo esta manh?
- Muito melhor, obrigada.
- Sou Sam Norton, director de relaes pblicas da Scott Industries.
- Ah... - Ela nunca o vira antes. - Mora aqui?
- No. Vim de avio de Washington.
- Para me ver?
- Para ajud-la.
- Ajudar-me em qu?
- A imprensa est l fora, Senhorita Dudash. Como no creio que j tenha dado 
uma 
entrevista colectiva alguma vez, pensei que talvez pudesse querer alguma ajuda.
- O que eles querem?
- Basicamente, vo perguntar como e por que salvou o Sr. Scott.
- Isso  fcil. Se eu parasse para pensar, teria fugido de l como se fosse do 
inferno.
Norton fitou-a aturdido.

- Senhorita Dudash... acho que eu no diria isso, se estivesse no seu lugar.
- Porqu?  a verdade.
No era absolutamente o que ele esperava. A garota parecia no ter a menor ideia 
de sua 
situao. Alguma coisa a preocupava, e resolveu falar.
- Vai se encontrar com o Sr. Scott?
- Vou, sim.
- Poderia me fazer um favor? - Se eu puder, claro.
- Sei que o acidente no foi culpa dele, e no me pediu para empurr-lo para o 
lado, mas... 
- O mas veio forte e independente em Ellen levou-a a hesitar. - Ora, no 
importa. 
" agora," pensou Norton. "Quanto ela tentar extorquir? Ser dinheiro? Um cargo 
melhor? 
O qu? "
- Continue, por favor, Senhorita Dudash.
Ela falou impulsivamente:
- A verdade  que no tenho muito dinheiro, vou perder algum pagamento por causa 
disso 
e acho que no tenho condies de pagar todas as contas do hospital. No quero 
incomodar o Sr. 
Scott, mas se ele pudesse me arrumar um emprstimo, juro que eu pagaria tudo. - 
Ellen percebeu a 
expresso de Norton e interpretou-a errada. - Desculpe. Talvez esteja parecendo 
mercenria. 
Acontece que eu estava economizando para uma viajem e... isso arruinou meus 
planos. - Respirou 
fundo. - Mas no  problema dele. Darei um  jeito.
Sam Norton quase beijou-a. "H quanto tempo que no deparo com a inocncia 
autntica? 
 suficiente para restaurar minha f no sexo feminino."
Sentou-se no lado da cama e sua atitude profissional desapareceu. Pegou-lhe a 
mo.
- Ellen, tenho o pressentimento de que voc e eu vamos ser grandes amigos. 
Prometo que 
 no precisar se preocupar com dinheiro. Nossa primeira providencia ser lev-
la para essa entrevista 
colectiva. Queremos que saia disso tudo com uma boa imagem e... - Ele parou. - 
Serei franco. Minha 
funo  cuidar para que a Scott Industries saia disso tudo com a melhor imagem. 
Est entendendo?
- Acho que sim. Est querendo dizer que no parecia certo se eu dissesse que no 
estava 
realmente interessada em salvar Milo Scott? Ficaria muito melhor se eu  dissesse 
algo como "Gosto 
tanto de trabalhar para a Scott Industries que quando vi o Sr. Milo Scott em 
perigo compreendi que 
devia tentar salv-lo, mesmo com o risco da minha prpria vida"? 
- Isso mesmo.
Ellen riu.
- Muito bem, se isso vai ajud-lo. Mas no quero engan-lo, Sr. Norton. No sei 
o que me 
levou a proceder daquela forma.
Ele riu.
- Esse ser nosso segredo. , agora, vou deixar as feras entrarem.
Havia um grande nmero de reprteres e fotgrafos, de emossoras de rdio, 
jornais e revistas. 
A imprensa  tencionava tirar o mximo proveito. No era todos os dias que uma 
linda empregada 
arriscava a vida parra salvar o irmo do patro. E o facto de o patro ser Milo 
Scott no prejudicava 
a histria em nada.
- Senhorita Dudash... quando viu aquele ferro caindo, qual foi o seu primeiro 
pensamento?
Ellen olhou para Sam Norton com uma expresso de inocncia e respondeu:

- Pensei: "Preciso  salvar o Sr. Scott. Eu nunca me perdoa-ria se o deixasse 
morrer."
A entrevista colectiva prosseguiu sem maiores dificuldades.
Quando percebeu que Ellen comeava a se cansar, San Norton apressou-se em 
encerr-la:
- J chega, senhoras e senhores. Muito obrigado a todos.
Depois que os jornalistas se retiraram, Ellen perguntou:
- Eu me sa bem?
- Foi maravilhosa. E agora durma um pouco.
Ela teve um sono irrequieto. Sonhou que se encontrava no saguo do Empire States 
mas os 
guardas no a deixavam subir no alto porque no tinha dinheiro suficiente para 
comprar um igresso.

Milo Scott foi visitar Ellen naquela tarde. Ela ficou surpresa ao  v-lo. Fora 
informada que 
ele morava em Nova York.
- Contaram-me que voc se saiu muito bem na entrevista colectiva. Voc  uma 
herona.
- Sr. Scott... preciso lhe contar uma coisa. No sou uma herona. No parei para 
pensar em 
salv-lo. Eu... eu apenas fiz.
- Sei disso. Sam Norton me contou.
- Ento...
- H vrios tipos de herosmo, Ellen. No pensou em me salvar, mas agiu 
instintivamente, em 
vez de se salvar.
- Eu... eu apenas queria que soubesse.
- Sam tambm me contou que estava preocupada com as contas do hospital.
- Bem...
- J cuidei de tudo. E quanto  possibilidade de perder uma parte do salrio... 
- ele sorriu: - 
Senhorita Dudash... acho que no sabe o quanto lhe devo.
- No me deve nada.
- O mdico me informou que voc receber alta amanh. Pode-rei lev-la para 
jantar? 
"Ele no compreende," pensou Ellen. "No quero sua caridade. Nem sua  
compaixo."
- Falei srio quando disse que no me deve nada. Obrigada por se encarregar das 
contas do 
hospital. Estamos quites.
- ptimo. E agora posso convid-la para jantar?

Foi assim que comeou. Milo Scott permaneceu em Gary por uma semana, e viu Ellen 
todas 
as noites
Os pais advertiram-na:
- Tome cuidado. Os patres  no saiem com operrias a menosque queiram alguma 
coisa.
Essa foi a atitude de Ellen Dudash no incio, mas Milo a fez mudar de ideia. Foi 
um perfeito 
cavalheiro em todos os momentos, e a verdade finalmente aflorou  em Ellen: Ele 
gosta mesmo da 
minha companhia. 
Enquanto Milo se mostrava tmido e reservado. Ellen era franca e expansiva. 
Durante toda 
sua vida, Milo estivera cercado de mulheres com a ambio ardente de entrarem 
para a poderosa 
dinastia Scott. E se empenhavam em jogos calculistas. Ellen Dudash era a 
primeira mulher totalmente 
honesta que Miro j conhecera. Dizia  exatamente o que pensava. Era inteligente, 
atraente e, acima 
de tudo, uma companhia divertida. No final da semana, os dois estavam 
apaixonados.
- Quero casar com voc - disse Milo. - No consigo pensar em qualquer outra 
coisa. Vai 
casar comigo?
- No.

Ellen tambm no fora capaz de pensar em outra coisa. A vverdade era que estava 
apavorada. 
Os Scott encontravam-se to prximos da realeza quanto era possvel nos Estados 
Unidos. Eram 
famosos, ricos e poderosos. "No perteno ao   cculo deles. S poderia bancar a 
tola. E o mesmo 
aconteceria a Milo." Mas ela sabia que travava uma batalha perdida.
Foram casados por um juz de paz em Greenwich, Connecticut, e viajara at 
Manhattan para 
que Ellen Scott Dudash fosse apresentada  famlia do marido.

Byron Scott recebeu o irmo bruscamente: - Mas que loucura foi essa... casar com 
uma 
vigarista polonesa? Ficou maluco?
Susan Scott foi igualmente implacvel.
- Claro que ela se casou com Milo pelo dinheiro. Quando descobrir que ele no 
tem nada, 
arrumaremos uma anulao. Esse casamento no vai durar muito.
Mas eles subestimaram Ellen Scott.
- Seu irmo e sua cunhada me odeiam, mas no me casei com eles. Casei com voc. 
No 
quero me interpor entre voc e Byron. Se isso o deixa muito infeliz, Milo, basta 
dizer, e irei embora.
Ele abraou a esposa e sussurrou:
- Adoro voc... e quando Byron e Susan a conhecerem direito, tambm vo ador-
la.
Ellen apertou-o e pensou: "Como ele  ingnuo. E como eu o amo."

Byron e Susan no eram grosseiros com a nova cunhada. Mostravam-se 
condescendentes. 
Para eles, Ellen seria sempre a garota polonesa que trabalhara numa das fbricas 
da Scott Industries.
Ellen observava e lia sobre como as esposas dos amigos de Milo se vestiam, e 
tratava de 
imit-las. Estava determinada a se tornar a esposa apropriada para Milo Scott, e 
conseguiu. Mas no 
aos olhos de Byron e Susan. E, pouco a pouco, sua ingenuidade transformou-se em 
cinismo. "Os 
ricos e poderosos no so to maravilhosos assim," pensou. "Tudo o que querem  
se tornar mais 
ricos e mais poderosos."

Ellen era muito protetora em relao a Milo, mas havia pouco que pudesse fazer 
para 
ajud-lo. A Scott Industries era um dos poucos conglomerados de capital fechado 
do mundo,  e todas 
as aces pertenciam a Byron. O irmo caula era um empregado assalariado, e 
Byron nunca o 
deixava esquecer isso. Tratava-o de maneira vergonhosa. Milo era encarregado de 
todos os trabalhos 
sujos, e nunca recebia qualquer crdito pelo que fazia.
- Por que atura isso, Milo? No precisa dele. Podemos ir embora. E voc pode 
montar seu 
prprio negcio.
- Eu no poderia deixar a Scott Industries. Byron precisa de mim.
Com o passar do tempo, porm, Ellen veio a compreender o verdadeiro motivo. Milo 
era um 
fraco. Precisava de algum forte para se apoiar. Ela sabia que ele nunca teria 
coragem suficiente para 
largar a companhia.  "Muito bem," pensou, irritada. "Um dia a companhia lhe 
pertencer. Byron no 
pode viver para sempre. E Milo  o nico herdeiro."
Foi um golpe para Ellen quando Susan Scott anunciou que estava grvida. "O beb 
vai herdar 
tudo."
Quando a criana nasceu, Byron declarou:

-  uma menina, mas eu lhe ensinarei como administrar a companhia.
"O miservel," pensou Ellen, o corao dodo por Milo.
O nico comentrio de Milo foi:
- No  uma criana linda?

 CAPTULO 16


O piloto do Lockheed Lodestar estava preocupado.
- Uma frente de tempestade aproximava-se.
A situao no me agrada. - Acenou com a cabea para o co-piloto. - Assuma o 
comando. 
- Ento deixou a carlinga e foi para a cabine de passageiros.
Havia cinco passageiros abordo, alm do piloto e co-piloto: Byron Scott, o 
brilhante e 
dinmico fundador, e principal executivo da Scott Industries; sua atraente 
esposa, Sussan; a filha de 
um ano, Patricia; Milo Scott, o irmo caula de Byron; e a esposa de Milo, 
Ellen. Voavam num dos 
avies da companhia, de Paris rumo a Madrid. Levar a criana fora um impulso de 
ltimo minuto de 
Susan.
- Detesto ficar longe de minha filha por tanto tempo - ela disera a Byron.
- Tem medo que ela nos esquea? - zombou ele. - Est bem, vamos lev-la conosco.
Com  o trmino da Segunda Guerra Mundial, a Scott Industries expandia-se  
rapidamento no 
mercado europeu. Em Madrid, Byron Scott analizaria as possibilidades de 
construir uma nova usina 
sidergica.
O piloto aproximou-se de Byron.
- Com licena, senhor. Estamos nos aproximando de nuvens tempestuosas. A 
situao pela 
frente no parece boa. Devemos voltar?
Byron Scott olhou pela pequena janela. Voavam por uma massa de nuvens cinzentas, 
riscadas, a intervalos de poucos segundos, por relmpagos.
- Tenho uma reunio em Madrid esta noite. Pode contornar a tempestade?
- Vou tentar. Se no for possvel, ento teremos de voltar.
Byron assentiu.
- Est certo.
- Podem apertar os cintos, por favor?
O piloto voltou apressado  para a carlinga.
Susan ouviu a conversa. Pegou a criana no colo, arrependida, subitamente, por 
t-la trazido. 
"Preciso dizer a Byron para mandar o piloto voltar," pensou.
- Byron...
Foram apanhados de repente pela tempestade, e o avio comeou a se sacudir,  
merc das 
rajadas de vento. Os movimentos tornaram-se mais violentos. A chuva batia nas 
janelas. A tempes-
tade acabara com toda a visibilidade. Os passageiros tinham a sensao de que 
viajavam num mar de 
algodo revolto.
Byron acionou o sistema de intercomunicao.
- Onde estamos, Blake?
- Oitenta quilmetros a noroeste de Madrid, sobre a cidade de vila.
Byron tornou a olhar pela janela.
- Esqueceremos Madrid por esta noite. Vamos voltar e sair logo daqui.
- Entendido.

A deciso veio uma frao de segundo tardia. Enquanto o piloto comeava a fazer 
a volta, 
o pico de uma montanha surgiu abruptamente  sua frente. No houve tempo para 
evitar a coliso. 
Houve um estrondo e o cu explodiu, enquanto o avio deslizava pela encosta da 
montanha, 
espatifando-se, fragmentos da fuselagem e asas espalhando-se por um elevado 
plat.
Depois da coliso houve um silncio anormal, que durou pelo que parecia uma 
eternidade. 
Foi rompido pelo crepitar das chamas, que comearam a envolver o trem de 
aterragem do avio.

- Ellen...
Ellen Scott abriu os olhos. Estava deitada sob uma rvore. O marido inclinava-se 
por cima 
dela, batendo de leve em seu rosto.
o ver que estava viva, Milo Scott exclamou:
- Graas a Deus!
Ellen sentou-se, tonta, a cabea latejando, cada msculo no corpo dolorido. 
Olhou em redor, 
contemplando os destroos do que fora outrora um avio, repleto de corpos 
humanos. Estremeceu.
- E os outros? - balbuciou Ellen, a voz rouca.
- Esto mortos.
Fitou o marido, aturdida.
- ?h, Deus, no!
Ele assentiu, o rosto contrado em dor.
- Byron, Susan, a criana, os tripulantes... todos.
Ellen Scott tornou a fechar os olhos e disse uma orao silenciosa. "Por que 
Milo e eu fomos 
poupados?" Era  difcil pensar com nitidez. "Precisamos descer  procura de 
socorro. Mas  tarde 
demais. Esto todos mortos." Era impossvel accreditar. Estavam cheios de vida 
apenas poucos 
minutos antes.
- Pode se levantar?
- Eu... eu creio que sim.
Milo ajudou a esposa a ficar de p. Houve uma vertigem terrvel, e ela ficou 
parada,  espera 
que passasse.   Milo virou-se e olhou para o avio. As chamas se tornaram mais 
intensas.
- Vamos sair daqui, Ellen. O avio vai explodir a qualquer momento.
Afastaram-se depressa e ficaram observando os destroos arderem. Um instante 
depois houve 
uma exploso dos tanques de combustvel, as chamas envolveram o avio por 
completo.
-  um milagre estarmos vivos - murmurou Milo.
Ellen olhou para o avio em chamas. Alguma coisa  pressionava-lhe a mente, mas 
no 
conseguia pensar com nitidez. Algo sobre a Scott Industries. E de repente ela 
soube.
- Milo?
- O que ? - perguntou ele, com o pensamento distante.
-  o destino. - O fervor em sua voz fez com que ele se virasse.
- Como?
- A Scott Industries... pertence a voc agora.
- Eu no...
- Milo, Deus a deixou para voc - falava Ellen com veemncia. - Voc viveu a 
vida toda  
sombra de seu irmo mais velho. - Ela conseguia coordenar as idias agora, sem 
se preocupar com 
a dor de cabea.
As palavras saam numa enxurrada que llhe sacudia todo o corpo.
- Voc trabalhou para Byron durante vinte anos, na construo da companhia.  
to 
responsvel pelo sucesso quanto ele, mas Byron... alguma vez lhe deu crdito por 
isso? No. Foi 
sempre a sua companhia, seu sucesso, seus lucros. Pois agora voc... voc 
finalmente tem a 
oportunidade de fazer as coisas sozinho.
Milo ficou horrorizado.

- Ellen... os corpos esto... como pode pensar a esse respeito...?
- Sei de tudo. Mas no os matamos.  a nossa vez, Milo. Podemos finalmente agir. 
No h 
ningum vivo para reivindicar a companhia, s ns. A companhia  nossa! Sua! 
De repente os dois ouviram o choro de uma criana. Ellen e Milo Scott se 
entreolharam, 
incrdulos.
-  Patrcia! Ela est viva! ?h, Deus!
Encontraram a criana perto de alguns arbustos. Por algum milagre, nada sofrera.
Milo pegou-a, aninhou-a no colo, com carinho.
- Calma, calma, est tudo bem, querida - sussurrou. - Vai acabar tudo bem.
Ellen estava a seu lado, com uma expresso chocada.
- Voc... voc disse que ela havia morrido.
- Deve ter sido lanada para fora do avio e ficou inconssciente.
Ellen olhou em silncio para a criana por um longo tempo, e depois disse, numa 
voz abafada:
- Ela devia ter morrido com  os outros.
Foi a vez de Milo ficar chocado.
- O  que est dizendo?
- O testamento de Byron deixa tudo para Patricia. Voc passar os prximos vinte 
anos  
como seu tutor, a fim de que ela possa, quando crescer, humilh-lo tanto quanto 
o pai.  isso o que 
voc quer?
Milo ficou quieto.
- Jamais teremos outra oportunidade como essa. - Ela olhava fixamente para a 
criana e havia 
uma expresso desvairada em seus olhos que Milo nunca vira antes. Ela parecia... 
"Ela est fora de 
si. Sofrendo de uma concusso."
- Pelo amor de Deus, Ellen, o que se est passando?
Ela fitou-o em silncio por um momento,  o brilho descairado desapareceu-lhe dos 
olhos.
- No sei - respondeu Ellen, calmamente. Aps uma pausa, ela acreescentou: - H 
uma coisa 
que podemos fazer: deix-la em algum lugar, Milo. Segundo o piloto, estamos 
perto da vila. Deve 
haver muitos turistas l. No h motivo que algum associe a criana com o 
desastre de avio.
Ele sacudiu a cabea.
- Os amigos sabem que Byron e Susan trouxeram Patricia.
Ellen olhou para o avio em chamas.
- Isso no  problema. Todos morreram queimados no avio. Faremos um servio  
"in 
memoriam" particular aqui.
- No podemos fazer isso, Ellem. Jamais poderamos escapar impunes.
- Deus fez por ns. Conseguiremos escapar.
Milo contemplou a criana.
- Mas ela  to...
- Ela ficar bem. Vamos larg-la numa bela casa de fazenda, nos arredores da 
cidade. Algum 
ir adot-la, e ela crescer para levar uma vida feliz aqui.
Milo sacudiu a cabea.
- No posso fazer isso. De jeito nenhum.
- Se me ama, far isso por ns. Precisamos escolher, Milo. Pode ter-me a mim ou 
passar o 
resto da vida trabalhando para a filha de seu irmo.
- Por favor, eu...
- Voc me ama?

- Mais do que minha prpria vida.
- Pois ento prove.

Os dois desceram pela encosta da montanha, no escuro, com todo cuidado, 
fustigados pelo 
vento. Como o avio cara numa rea de muitas rvores, o estrondo fora abafado, 
e por isso os habi-
tantes locais ainda  no sabiam do acidente.
Trs horas depois, nos arredores de vila, encontraram uma pequena casa de 
fazenda. Ainda 
no amanhecera.
- Vamos deix-la aqui - sussurrou Ellen.
Milo fez a ltima tentativa.
- Ellen, no poderiamos...?
- Faa o que estou mandando!
Sem dizer nada, ele levou a criana para a porta da casa. A menina usava apenas 
uma 
camisola rosa rasgada, enrolada numa manta.
Milo contemplou Patricia por um longo momento, os olhos marejados de lgrimas, 
depois 
ajeitou-a no cho, com delicadeza. E sussurou:
- Seja feliz, querida.

O choro despertou Asuncin Moras. Por um momento sonolenta, ela pensou que fosse 
o 
balido de uma cabra ou de uma ovelha. "Como escapara do cercado?"
Resmungando, Asuncin levantou-se da cama quente, ps um velho chambre desbotado 
e 
encaminhou-se para a porta. ao  ver a criana aos gritos e esperneando, ela 
exclamou:
- "Madre de Dios!" - e ela chamou  o marido.
Recolheram a criana, que no parava de chorar, e parecia estar ficando azul.
- Temos de lev-la para o hospital.
Envolveram a criana com outra manta, pegaram a camionneta e foram para o 
hospital. 
Sentaram-se num banco no corredor comprido,  espera de atendimento. Meia hora 
depois apareceu 
um mdico, que levou a criana para exame.
- Ela est com pneumonia - avisou ele.
- Vai sobreviver?
O mdico encolheu os ombros.

Milo e Ellen Scott entraram cambaleando na delegacia da polcia em vila.
O sargento de planto fitou os dois turistas enlameados.
- "Buenos das." Em que posso ajud-los?
- Houve um terrvel acidente - avisou Milo. - Nosso avio caiu numa montanha 
e...
Uma hora depois, uma expedio de socorro estava a caminho da montanha. Quando 
l 
chegou, no havia nada a fazer, a no ser ver os restos carbonizados e 
fumegantes de um avio e seus 
passageiros.

O inqurito sobre o acidente foi conduzido de maneira superficial pelas 
autoridades 
espanholas.
- O piloto no deveria tentar voar numa tempestade to intensa. Devemos atribuir 
o acidente 
a erro do piloto.
No havia motivo para que algum de vila associasse o desastre de avio com uma 
criana 
pequena deixada na porta de uma casa de fazenda.
Estava acabado.
Estava apenas comeando.


Milo e Ellen realizaram um servio "in memoriam" particular por Byron, a esposa 
Susan e a 
filha Patricia. ao  voltarem a Nova York, realizaram outro "in memoriam," com a 
presena dos 
chocados amigos dos Scotts.
- Que tragdia terrvel! E a pobre Patricia...
-  verdade - murmurou Ellen, tristemente. - A nica bno  que aconteceu to 
depressa 
que nenhum deles sofreu. 
A comunidade financeira ficou abalada com a morte de Byron Scott. A cotao da 
aco da 
Scott Industries caiu. Mas Ellen Scott no se preocupou. Tranquilizou o marido:
- No h problema. Tornar a subir. Voc  melhor do que Byron jamais foi. Ele 
conteve a 
companhia, Milo. Agora, vamos faz-la avanar.
Milo abraou-a.
- Mo sei o que faria sem voc.
Ellen sorriu.
- No haver necessidade. Daqui por diante, teremos tudo no mundo que sempre 
sonhamos.
Ela apertou-o firme e pensou: "Quem poderia acreditar que Ellen Dudash, de uma 
pobre 
famlia polonesa de Gary, Indiana, diria um dia "Daqui por diante teremos tudo 
no mundo com que 
sempre sonhamos"?"
E ela falava srio.

A criana permaneceu no hospital por dez dias, lutando por sua vida. Depois que 
a crise 
passou, o padre Berrendo procurou o campons e a esposa.
- Tenho boas notcias para vocs - disse ele, feliz. - A criana vai ficar boa.
Os Moras trocaram um olhar contrafeito.
- Fico contente por ela - murmurou o campons, evasivo.
Padre Berrendo estava radiante.
-  uma ddiva de Deus.
- Claro, padre. Mas minha esposa e eu conversamos e chegamos  concluso de que 
Deus  
generoso demais conosco. Sua ddiva exige alimentao, e no temos condies de 
sustent-la.
- Mas ela  uma criana muito bonita - ressaltou padre Berrendo. - Alm disso...
- Concordo. Mas minha esposa e eu somos velhos e doentes, no podemos assumir a 
responsabilidade de criar uma criana. Deus ter de aceitar sua ddiva de volta.
E assim, sem ter para onde ir, a criana foi enviada para o orfanato em vila.

Milo e Ellen estavam sentados no escritrio do advogado de Byron Scott para a 
leitura do 
testamento. Os trs eram as nicas pessoas presentes. Ellen sentiu um 
excitamento quase 
insuportvel. Umas poucas palavras num pedao de papel fariam com que ela e Milo 
se tornassem 
ricos para sempre. 
"Compraremos obras dos velhos mestres, uma propriedade em Southampton, um 
castelo na 
Frana. E isso  apenas o comeo." 
O advogado comeou a falar, e Ellen concentrou-se nele. Meses antes, ela vira 
uma cpia do 
testamento de Byron, e sabia exactamente o que dizia:  
""No caso de minha esposa e eu falecermos, deixo todas as minhas aces  na 
Scott Industries 
para minha nica filha, Patricia, e designo meu irmo Milo como executor 
testamentrio, at que ela 
alcance a idade legal e possa assumir..." 

"Pois tudo isso est mudado agora," pensou Ellen, na maior emoo.
O advogado, Lawrence Gray, disse solenemente:
- Foi um terrvel choque para todos ns. Sei o quanto voc amava seu irmo, 
Milo, e aquela 
linda criana... - Ele sacudiu a cabea. - Mas a vida precisa de continuar. 
Talvez no saiba que seu 
irmo habia alterado o testamento. No vou incomod-lo com aspectos jurdicos. 
Lerei apenas a parte 
essencial. - Folheou o testamento e encontrou o pargrafo que procurava. - 
Corrijo este testamento 
para que minha filha, Patricia, receba a quantia de cinco milhes de dlares e 
mais a distribuio de 
um milho de dlares por ano, pelo resto de sua vida. Todas as aces na Scott 
Industries em meu 
nome ficaro para meu irmo, Milo, como uma recompensa pelos longos fieis e 
valiosos servios que 
prestou  companhia ao  longo dos anos.
Milo Scott sentiu que a sala comeava a balanar. O advogado levantou os olhos.
- Est se sentindo bem?
Milo tinha dificuldade para respirar. "Santo Deus, o que fizemos? Ns a privamos 
de sua 
herana e no era absolutamente necessrio. Mas agora podemos devolver-lhe 
tudo."
Virou-se para dizer alguma coisa a Ellen, mas a expresso  nos olhos da esposa 
deteve-o.

- Deve haver alguma coisa que possamos fazer, Ellen. No podemos simplesmente 
deixar 
Patricia l. No agora.
Estavam no apartamento na Quinta Avenida, vestindo-se para um jantar de 
caridade.
-  exactamente o que vamos fazer - declarou Ellen. - A menos que voc prefira   
traz-la de 
volta e tentar explicar por que falamos que morreu queimada no desastre de 
avio.
Milo no tinha resposta para isso. Depois de pensar por um momento, ele disse:
- Muito bem, mas vamos enviar dinheiro todos os meses, a fim de...
- No seja tolo, Milo - falou Ellen, bruscamente. - Mandar dinheiro? E fazer com 
que a polcia 
comece a investigar por que algum est enviando dinheiro para a criana, at 
nos descobrir? No 
 possvel. Se a concincia o incomoda, teremos o dinheiro da companhia para dar 
a obras de 
caridade. Esquea a criana, Milo. Ela est morta, lembra? 
"Lembra... lembra... lembra..."
As palavras ecoaram na mente de Ellen Scott, enquanto contemplava a audincia no 
salo de 
baile do Waldorf-Astoria e conclua seu discurso. Mais uma vez foi ovacionada de 
p. 
"Vocs esto aclamando uma morta," pensou.

Os fantasmas voltaram naquela noite.  Ellen julgava t-los exorcizado h muito 
tempo. No 
comeo, depois dos servios "in memoriam" para Byron, Susan e Patricia, os 
visitantes noturnos 
apareciam com frequencia. Neblinas tnues pairavam por cima de sua cama, e vozes 
sussurravam-lhe 
no ouvido. Despertava, o corao disparava, mas no via nada. No contou a Milo. 
Ele era um fraco, 
poderia ficar apavorado e cometer uma loucura, algo que arriscaria a companhia. 
Se a verdade fosse 
revelada, o escndalo arruinaria a Scott Industries, e Ellen estava determinada 
a impedir que isso 
jamais acontecesse. E por isso ela sofria os fantasmas em silncio, at que 
finalmente desapareceram, 
deixando-a em paz.

Agora, na noite do banquete, eles voltaram. Ellen acordou e sentou-se na cama, 
olhando em 
redor. O quarto estava vazio e quieto, mas ela sabia que os fantasmas se 
encontravam ali. O que 
tentavam lhe dizer? Sabiam que ela os encontraria em breve?
Ellen levantou-se e foi para a ampla sala de estar, decorada com antiguidades, 
da bela casa 
na cidade que comprara depois da morte de Milo. Correu os olhos pela aprazvel 
sala e pensou: 
"Pobre Milo." No tivera muito tempo para desfrutar os benefcios da morte do 
irmo. Morrera de 
um ataque cardaco um ano depois do desastre de avio, e Ellen Scott assumira a 
companhia, 
dirigindo- -a com tanta eficincia e habilidade que projectara a Scott 
Industries no mbito 
internacional.
"A companhia pertence  famlia Scott," pensou. "No vou entreg-la a estranhos 
annimos."
E isso levou seus pensamentos  filha de Byron e Susan. A legtima herdeira do 
trono que lhe 
fora roubado. Habia medo em seus pensamentos? Havia um desejo de fazer uma 
expiao antes de 
sua prpria morte?
Ellen Scott passou a noite inteira sentada na sala de estar, os olhos voltados 
para o nada, 
pensando e planeando. H quanto tempo fora? Vinte e oito anos. Patricia seria 
agora uma mulher 
adulta, pressumindo que ainda vivia. O que se tornara sua vida? Casara com um 
campons ou um 
comerciante da aldeia? Tinha filhos? Ainda vivia em vila ou fora para algum 
outro lugar? 
"Devo encontr-la," pensou Ellen. "E depressa. Se Patricia continua viva, 
preciso v-la, 
conversar com ela. Devo finalmente acertar as contas. O dinheiro pode converter 
mentiras em ver-
dades. Encontrarei um meio de resolver o problema sem que ela descubra o que 
realmente 
aconteceu."

Na manh seguinte, Ellen chamou Alan Tucker, chefe da segurana da Scott 
Industries. Era 
um ex-detetive, com cerca de quarenta anos, magro, calvo, plido, trabalhador e 
inteligente.
- Quero que faa um investigao para mim.
- Pois no, Sr Scott.
Ellen estudou-o um momento, especulando sobre o que poderia contar-lhe "No 
posso dizer 
nada," concluiu. "Enquanto estiver viva, recuso-me a pr a companhia em risco. 
Deixarei que ele 
descubra Patricia primeiro e depois decidirei como cuidar da situao."
Inclinou-se para a frente:
- H 28 anos uma rf foi deixada na porta de uma casa de fazenda, nos arredores 
de vila, 
Espanha. Quero que descubra onde ela est hoje e a traga para mim o mais 
depressa possvel.
O rosto de Alan Tucker permaneceu impassvel. A Sr Scott no gostava que seus 
empregados demonstrassem emoo.
- Est bem, madame. Partirei amanh.

         Captulo 17



O  coronel Ramn Acoca encontrava-se num nimo expansivo. Todas as peas 
finalmente 
comeavam a se encaixar. Uma ordenana entrou na sala.
- O coronel Sostelo chegou.
- Mande-o entrar.   
"No precisarei mais dele," pensou Acoca." "Pode voltar para seus soldadinhos de 
chumbo."
O coronel Fal Sostelo entrou na sala.
- Coronel.
- Coronel.
" irnico," pensou Sostelo. "Temos o mesmo posto, mas o gigante de cicatriz 
possui o 
poder para me liquidar. Ele deve estar ligado  maldita "OPUS MUNDO"."
Sostelo ficava indignado por ser obrigado a responder ao  chamado de Acoca, como 
se fosse 
algum inexpressivo subordinado. Mas fez um esforo para no deixar transparecer 
seus sentimentos.
- Queria falar comigo?
- Queria sim. - Acoca apontou para uma cadeira. - Sente-se. Tenho algumas 
notcias para 
voc. Jaime Mir est com as freiras.
- "O qu?"
- Isso mesmo.  Elas esto viajando com Mir e seus homens. Ele dividiu o bando 
em trs 
grupos.
- Como..., como sabe disso?
Ramn Acoca recostou-se na cadeira.
- Joga xadrez?
- No.
-  uma pena. Trata-se de um jogo muito instrutivo. Para ser um bom jogador,  
necessrio 
penetrar na mente do adversrio. Jaime Mir e eu jogamos xadrez um com o outro.
Fal Sostelo ficou surpreso.
- No compreendo.
- No literalmente, coronel. No usamos tabuleiro de xadrez. Usamos nossas 
mentes. 
Provavelmente compreendo Jaime Mir melhhor do que qualquer outra pessoa no 
mundo. Sei como 
sua mente funciona. Tinha certeza que ele tentaria explodir a represa em Puenta 
la Reina. Capturamos 
dois dos seus homens ali e foi apenas por sorte que o prprio Mir escapou. Eu 
sabia que ele tentaria 
salv-los, e Mir sabia que  eu estava a par. - Acoca encolheu os ombros. - No 
previ que ele usaria 
os touros para promover a fuga. - Habia um tom de admirao em sua voz.
- D impresso de que...
- De que o admiro? Admiro sua mente. Desprezo o homem.
- Sabe para onde Mir est indo?
- Viaja para o norte. Eu o pegarei nos prximos trs dias.
O coronel Sostela estava mais aturdido do que nunca.
- Finalmente ser dado o xeque-mate.
Era verdade que o coronel Acoca compreendia Jaime Mir e a maneira como sua 
mente 
funcionava, mas no era suficiente para ele. O coronel queria uma vantagem, para 
garantir a vitria, 
e a encontrara.
- Como...?
- Um dos terroristas de Mir  um informante - explicou o coronel Acoca.


Rubbio, toms e as duas freiras evitaram as cidades maiores e seguiram por 
estradas 
secundrias, passando por velhas  al-deias, com ouvelhas e cabras pastando, os 
pastores escutavam 
msica e partidas de futebol pelos rdios transistorizados. Era uma pitoresca 
justaposio do passado 
e presente, mas Lucia tinha outras coisas na mente.
Permanecia perto de irm Teresa, esperando pela primeira oportunidade de se 
apoderar da 
cruz e fugir. Os dois homens estavam sempre ao  lado delas. Rubbio Arzano era o 
mais corts, um 
homem alto, simptico, jovial. "Um campons de mentalidade simples," concluiu 
Lucia. Toms 
Sanjuro era franzido e calvo. "Parece-se mais com um vendedor de sapatos do que 
com um 
terro-rista. Ser fcil de enganar os dois."
Atravessaram as plances ao  norte de vila  noite, esfriada pelos ventos que 
sopravam das 
montanhas Guadarrama. Havia um vazio assustador nas plancies ao  luar. Passavam 
por  "granjas" 
de trigo, olivais, Vinhedos e milharais e pegavam batatas ealface, frutas das 
rvores, e ovos de 
galinhas nos galinheiros.
- Toda a regio rural da Espanha  um vasto mercado - comentou Rubbio Arzano.
Toms Sanjuro sorriu.
-  tudo de graa.
Irm Teresa mantinha-se totalmente indiferente  conversa. Seu nico pensamento 
era 
alcanar o convento em Mendavia. A cruz parecia cada vez mais pesada, mas estava 
determinava a 
no permitir que lhe sasse das mos. "Muito em breve," pensou. "Daqui a pouco 
estaremos l. 
Fugimos de Getsmane e de nossos inimigos para a nova manso que Ele preparou 
para ns."
- O que disse? - indagou Lucia.
Irm Teresa no percebera que falava em voz alta.
- Eu... nada.
Lucia examinou-a mais atentamente. A mulher mais velha parecia transtornada, e 
um pouco 
desorientada, sem saber o que acontecia ao  seu redor. Acenou a cabea para o 
saco de aniagem que 
irm Teresa carregava.
- Deve estar pesado - disse num tom de simpatia. - No gostaria de que eu 
carregasse um 
pouco?
Irm Teresa comprimiu a cruz contra o corpo.
- Jesus carregou um fardo mais pesado. Posso carregar este por Ele. "Se    algum 
homem for 
atrs de mim, que negue a si mesmo, assuma a sua cruz diria e me acompanhe." Eu 
a levarei - 
acrescentou ela, obstinada.
Havia algo estranho em seu tom de voz.
- Est se  sentindo bem, irm?
- Claro.

Irm Teresa achava-se longe de estar bem. No conseguira dormir. Sentia-se tonta 
e febril. 
A mente escapava-lhe ao  controle outra vez. "No posso ficar doente," pensou. 
"Irm Betina me 
repreenderia." Mas irm Betina no estava ali. Era tudo muito confuso. E quem 
eram aqueles 
homens? No confio neles. "O que querem comigo?"
Rubbio Arzano tentara puxar conversa com irm Teresa, procurando deix-la  
vontade.
- Deve lhe parecer estranho, irm, estar de volta ao  mundo. Quanto tempo passou 
no 
convento? 
"Por que queria ele saber?"
- Trinta anos.

- Puxa,  um bocado de tempo. De onde veio?
Era angustiante para ela at mesmo pronunciar a palavra.
- ze.
O rosto de Arzano se iluminou.
- ze? Passei um vero l, em frias.  uma cidadezinha maravilhosa. Conheo 
bem. 
Lembro-me...
Conheo bem. At que ponto? "Ser que ele conhece Raul? Fora Raul que o 
mandara?" E a 
verdade atingiu-a como um relmpago. Aqueles estranhos haviam sido enviados para 
lev-la de volta 
a ze, para Raul Giradot. Estavam sequestrando-a. Deus a puniu por abandonar o 
beb de Monique. 
Ela tinha certeza agora que a criana que vira na praa de Villacastn era de 
sua irm. "Mas no podia 
ser, no  mesmo? Isso acontecera h trinta anos," Teresa murmurou para si 
mesmo. "Esto mentindo 
para mim."
Rubbio Arzano observava-a, escutando seus murmrios.
- Algum problema, irm?
Ela entendera tudo agora. No permitiria que a levassem de volta para Raul e o 
beb. 
Precisava chegar ao  convento em Mendavia e entregar a cruz de ouro, Deus ento 
a perdoaria pelo 
terrvel pecado que cometera. "Devo ser esperta. No posso deixar que percebam 
que sei de seu 
segredo." Olhou para Rubbio e acres-centou:
- Estou bem.
Seguindo em frente, atravz  de plances secas, crestadas pelo sol, chegaram a 
uma pequena 
aldeia em que camponesas vestidas de preto lavavam roupa numa fonte, sob um 
telhado, apoiado em 
quatro vigas antigas. A gua passava  por uma comprida calha de madeira, de 
forma que estava 
sempre fresca. As mulheres esfregavam as roupas em blocos de pedra e enxugavam 
na gua corrente. 
"Uma cena muito pacfica," pensou Rubbio. Lembrava-o da fazenda que deixara para 
trs. " 
assim que a Espanha era. Sem bombas, sem matanas. Algum dia voltaremos a ter 
paz?"
- "Buenos das."
- "Buenos das."
- Poderamos beber um pouco? Viajar deixa as pessoas com muita sede.
- Claro. Sirvam-se, por favor.
A gua estava fresca e revigorante. 
"- Gracias, Adis.
"- Adis."
Rubio detestava partir.

As duas mulheres e os dois acompanhantes seguiram em frente, passando por 
oliveiras e 
sobreiros, o ar do vero impregnado  com a fragncia de uvas e laranjas maduras. 
Passaram por 
pomares de macieiras, cerejeiras e ameixeiras, fazendas ruidosas, com o barulho 
de galinhas, porcos 
e cabras.
Rubio e Toms na frente, conversando em voz baixa. 
"Esto falando de mim. Pensam que no conheo seu plano." Irm Teresa chegou 
mais perto, 
a fim de poder escutar o que diziam.
- ...uma recompensa de quinhentas mil pesetas por nossas cabeas. Claro que o 
capito Acoca 
pagaria mais por Jaime, mas no quer sua cabea. Quer seus "cojones."
Os homens riram. 
Enquanto escutava a conversa, a convico de irm Teresa foi se tornando cada 
vez mais 
forte. "Esses homens so assassinos executando o trabalho de Sat, mensageiros 
do mal enviados 
para me condenarem ao  enferno eterno. Mas Deus  mais forte do que eles. Ele 
no permitir que 
me levem de volta para casa."

Raul Giradot estava ao  seu lado, exibindo o sorriso que ela conhecia to bem. 
"A voz!"
"Como?"
"Ouvi voc cantar ontem.  magnfica."
"Em que posso servi-la?" "Preciso de trs metros de musseline, por favor."
Pois "no. Por aqui... Minha tia  dona desta loja e precisava de ajuda, por 
isso resolvi  
trabalhar para ela por algum tempo."
"Tenho certeza que poderia conquistar qualquer homem que quisesse, Teresa, mas 
espero que 
me escolha."
Ele era to bonito... 
"Nunca conheci ningum como voc, minha querida." 
Raul abraava-a e beijava-a. 
"Vai ser uma linda noiva.
"Mas agora sou esposa de Cristo. No posso voltar para Raul."
Lucia observava irm Teresa atentamente. Ela falava sozinha, mas Lucia no 
conseguia 
distinguir as palavras. 
"Ela est desabando," pensou Lucia. "No vai aguentar muito tempo. Preciso de me 
apoderar 
daquela cruz o mais depressa possvel."
O crepsculo j cara quando avistaram a cidade de Olmega ao  longe.
Rubio parou.
- Haver soldados por l. Vamos subir pelas colinas e contornar a cidade.
Saram da estrada e deixaram as plancies, rumo s colinas, por cima de Olmega. 
O sol 
deslizava pelos picos da serra, e o cu comeava a escurecer.
- Precisamos de percorrer apenas mais alguns quilmetros - garantiu Rubio Azano, 
tranquilizador. - E depois poderemos descansar. 
Alcanaram o topo de uma alta colina Toms Sanjuro levantou a mo subitamente e 
sussurrou:
- Esperem!
Rubio adiantou-se para seu lado, foram juntos at a beira da colina e olharam 
para o vale l 
embaixo. Havia um acampamento de soldados. 
"- Mierda!" - murmurou Rubio. - Deve haver um ploto inteiro. Ficaremos aqui em 
cima pello 
resto da noite.  Provavelmente eles levantaro acampamento ao  amanhecer, e 
ento podemos seguir 
em frente. - Virou-se para Lucia e irm Teresa, tentando no deixar transparecer 
sua preocupao. 
- Passaremos a noite aqui, irms. No podemos fazer barulho. H soldados l 
embaixo, e no 
queremos que nos descubram.
Era a melhor notcia que Lucia poderia ouvir. " perfeito," pensou. 
"Desaparecerei com a 
cruz durante a noite. No ousaro tentar seguir-me, por causa dos soldados."
Para irm Teresa, a notcia teve um significado diferente. Ouvira os homens 
comentarem que 
 algum chamado coronel Acoca estava  procura deles. "Chamaram o coronel Acoca 
de inimigo. 
Mas esses homens so o inimigo; portanto, o coronel Acoca deve ser meu amigo. 
Obrigada, Deus, 
por enviar-me o coronel Acoca." 
"O homem chamado Rubio estava lhe falando:
- Entendeu, irm? Todos devemos ficar muito quietos.
- Entendi. - "E entendi mais do que voc imagina. Eles no sabiam que Deus lhe 
permitia ver 
em seus coraes malignos."
Toms Sanjuro disse, gentilmente:

- Sei como deve ser difcil para as duas, mas no se preocupem. Daremos um jeito 
para que 
cheguem ss e salvas ao  convento. 
"Para ze,  o que ele est querendo dizer. Ah, mas como ele  astuto. Fala as 
palavras de 
mel do diavo. Mas Deus est em mim, e Ele me guia." Ela  sabia o que devia 
fazer. Mas precisava 
ser muito cautelosa.
Os dois homens arrumaram os sacos de dormir das freiras, um ao  lado do outro.
- Vocs duas devem dormir um pouco.
As mulheres enfiaram-se nos sacos de dormir, nada fami-liares. A noite estava  
excepcionalmente clara, e o cu salpicado de estrelas cintilantes. Lucia 
contemplou-as e pensou, feliz: 
"Dentro de mais algumas horas estarei a caminho da liberdade. Assim que os 
outros adormecerem." 
Ela bocejou. No percebera como estava cansada. A viagem longa e rdua e a 
tenso emocional 
deixaram-na exausta. Sentiu os olhos pesados. "Vou descansar s um pouco," 
pensou Lucia.
Ela dormiu.
Irm Teresa,  deitada ao  seu lado, permaneceu acordada, em sua luta contra os 
demnios que 
tentavam possu-la, a fim de mandar sua alma para o inferno. "Devo ser forte. O 
Senhor est me 
testando. Fui exilada a fim de poder encontrar o caminho de volta para Ele. E 
esses homens fazem 
de tudo para me deter. No posso permitir."

s quatro horas da madrugada, irm Teresa sentou-se sem fazer barulho e olhou  
sua volta. 
Toms Sanjuro dormia a poucos passos dela. O homem alto e moreno chamado Rubio 
estava de vigia 
na beira da clareira, de costas para ela. Podia ver sua silhueta contra as 
rvores.
Em silncio, irm Teresa levantou-se. Hesitou, pensando na cruz. "Devo lev-la? 
Mas estarei 
voltando para c muito em breve. Preciso encontrar um lugar em que fique segura 
at eu voltar." 
Olhou para o lugar em que irm Lucia dormia. "Isso mesmo. Est segura com minha 
irm em Deus," 
decidiu irm Teresa.
Aproximou-se do outro saco de dormir, sem fazer barulho, e enfiou a cruz l 
dentro. Lucia 
no se mexeu. Irm Teresa virou-se e afastou-se pelo bosque, fora da vista de 
Rubio Arzano. 
Comeou a descer a encosta, com todo cuidado, na direco do acampamento dos 
soldados. A 
encosta era ngreme e escorregadia com o orvalho, mas Deus lhe deu asas, e ela 
desceu depressa, sem 
tropear ou cair, ao  encontro da salvao.
O vulto de um homem surgiu de repente na escurido  sua frente. Uma voz 
indagou:
- Quem est a?
- Irm Teresa.
Ela aproximou-se da sentinela, que usava um uniforme militar e apontava um rifle 
para ela.
- De onde veio, velha?
Irm Teresa fitou-o com olhos brilhantes.
- Deus me enviou.
O sentinela arregalou os olhos.
-  mesmo?
- , sim. Ele me mandou para falar com o coronel Acoca.
O soldado sacudiu a cabea.
-  melhor dizer a Ele que voc no  do tipo do coronel. "Adis, seora."

- No compreende. Sou a irm Teresa, do convento Cister-ciense. Fui capturada 
por Jaime 
Mir e seus homens. - Observou uma expresso de espanto estampar-se no rosto do 
homem.
- Voc...  do convento?
- Isso mesmo.
- O de vila?
- Exactamente. - Teresa estava impaciente. O que havia com o soldado? Ser que 
no 
compreendia como era importante que fosse salva daqueles homens maus?
- O coronel no se encontra aqui no momento, irm...
Era um golpe inesperado. - ...mas o coronel Sostelo est no comando. Posso lev-
la a ele.
- E ele poder me ajudar?
- Claro. Acompanhe-me, por favor.
A sentinela mal podia acreditar na sua sorte. O coronel Fal Sostelo despachara 
plotes para 
vascolhar toda a regio  procura das quatro freiras, sem o menor sucesso. 
Agora, uma das irms 
aparecia no acampamento e se entregava.  O coronel ficaria muito satisfeito.
Chegaram  barraca em que o coronel Fal Sostelo e seu subcomandante examinavam 
um 
mapa. Os homens levantaram os olhos quando a sentinela e uma mulher entraram.
- Com licena, coronel. Esta  a irm Teresa, do convento Cisterciense.
O coronel Sostelo ficou incrdulo. Nos ltimos trs dias, todas as suas energias 
haviam-se 
concentrado na descoberta de Jaime Mir e as freiras, e agora, ali na sua 
frente, estava uma delas. 
"Havia" mesmo um Deus.
- Sente-se, irm. 
"No h tempo para isso," pensou irm  Teresa. Precisava de faz-lo compreender 
como a 
situao era urgente.
- Devemos nos apressar. Eles esto tentando me levar de volta para ze.
O coronel ficou perplexo.
- Quem est tentando lev-la de volta para ze?
- Os homens de Jaime Mir.
Ele se levantou.
- Irm... por acaso sabe onde esses homens se encontram?
Irm Teresa respondeu impaciente.
- Claro. - Ela virou-se e apontou. - Esto l em cima, nas colinas, se 
escondendo de vocs.

         Captulo 18


Alan Tucker chegou a vila no dia seguinte a conversa com Ellen Scott. Fora um 
longo vo, 
e Tucker devia estar exausto, mas sentia-se estimulado. Ellen Scott no era uma 
mulher propensa a 
caprichos. "H alguma coisa estranha por trs  de tudo isso, e se eu jogar 
minhas cartas direito, tenho 
a impresso de que poder ser bastante proveitoso para mim," pensou Alan Tucker. 
Resgistou- -se 
no Cuarto Postes Hotel e perguntou ao  recepcionista:
- H algum jornal por aqui?
- Nesta mesma rua, "seor." No lado esquerdo, a dois quarteires. No pode 
errar.
- Obrigado.
- De nada.
Enquanto descia pela rua principal, observando a cidade ressuscitar depois da 
"siesta" da 
tarde, Tucker pensava na garota misteriosa que viera buscar. S podia ser uma 
coisa importante. Mas 
importante por qu? Podia ouvir a voz de Ellen Scott.
"Se ela estiver viva, traga-a para mim. No deve falar sobre isso com ningum."
"Est certo, madame. O que devo dizer a ela?"
"Diga apenas que uma amiga de seu pai deseja conhec-la. Ela vir."
Tucker encontrou a redao do jornal. Entrou e aproximou-se de algumas pessoas 
que 
trabalhavam por trs de mesas.
"- Perdone," eu gostaria de falar com o editor.
O homem apontou para uma sala.
- Ali," seor."
"- Gracias." - Tucker caminhou at a porta aberta e olhou para dentro. Um homem 
de trinta 
e poucos anos estava sentado por trs de uma mesa, ocupado com seus textos. - 
com licena - disse 
Tucker. - Posso lhe falar por um momento?
O homem  fitou-o.
- Em que posso ajud-lo?
- Estou  procura de uma "seorita." 
O editor sorriu.
- No estamos todos, "seor?"
- Foi deixada numa casa de fazenda por aqui quando era beb.
O sorriso se desvaneceu.
- Ah... Ela foi abandonada?
- Isso mesmo.
- E est tentando descobri-la?
- Estou.
- H quantos anos isso aconteceu, "seor?"
- H 28 anos.
O homem encolheu os ombros.
- Foi antes do meu tempo. 
"Talvez no seja to fcil assim."
O senhor poderia sugerir algum que seja capaz de me ajudar? 
O editor recostou-se na cadeira, pensativo.
- Acho que sim. Sugiro que converse com o padre Berrendo.

Padre Berrendo estava sentado  sua escrivaninha, uma manta cobria-lhe as pernas 
finas, 
escutando o estranho.
Quando Aalan Tucker terminou de explicar sua presena ali, padre Berrendo disse:

- Por que deseja saber isso, "seor?" Aconteceu h muito tempo. Qual  o seu 
interesse nisso?
Tucker hesitou, escolhendo as palavras com todo cuidado.
- No estou autorizado a revelar. S posso lhe garantir que no tenciono fazer 
qualquer mal 
 mulher. Se podesse informar-me onde fica a casa de fazenda em que foi 
deixada...

A casa da fazenda. Afloraram-lhe as lembranas do dia em que os Moras o 
procuraram, aps 
levarem a criana ao  hospital. 
"Acho que ela  est morrendo, padre. O que vamos fazer?"
Padre Berrendo telefonara para seu amigo, Don Morago, o chefe de polcia.
- Acho que a criana foi abandonada por turistas em visita a vila. Poderia 
verificar nos hotis 
e pousadas, descobrir se  algum chegou com um beb e partiu s?
A polcia examinara as fichas de registos que todos os hotis eram obrigados a 
preencher, mas 
nada encontraram.
-  como se a criana tivesse cado do cu - comentara Don Morago.
No tinha a menor ideia de quanto estava prximo da soluo do mistrio.

Quando padre Berrendo levara a criana para o orfanato, Mercedes Angeles 
pergunta:
- Ela tem nome?
- No sei.
- No havia uma manta ou qualquer coisa com o nome?
- No.
Mercedes Angeles olhara para a criana nos braos do padre.
- Ento teremos de lhe dar um nome, no  mesmo?
Ela acabara de ler um romance fascinante e gostara muito do nome da herona.
- Megan... vamos cham-la de Megan.
E 14 anos depois, padre Berrendo levara Megan para  o convento Cisterciense.

Agora aps tantos anos, aquele estrangeiro estava  procura de Megan. "A vida 
sempre d 
voltas completas," pensou padre Berrendo. "De alguma forma misteriosa, deu um 
crculo completo 
para Megan." No, no para Megan. Esse era o nome que lhe fora dado pelo 
orfanato.
- Sente-se, "seor." H muitas coisas para contar.
E ele contou.
Quando o padre terminou, Alan Tucker ficou ele em silncio, a mente em 
disparada. Devia 
haver um motivo muito forte para o interesse de Elle Scott por uma criana 
abandonada numa casa 
de fazenda na Espanha h 28 anos. Uma mulher agora chamada Megan, segundo o 
padre. 
"Diga a ela que uma amiga de seu pai deseja conhec-la."
Se sua memria no falhava, Byron Scott, a esposa e a filha haviam morrido num 
desastre de 
avio, h muitos anos, em algum lugar da Espanha. Poderia haver ligao? Alan 
Tucker sentiu um 
crescente excitamento.
- Padre... eu gostaria de ir ao  convento para falar com ela.  muito 
importante.
O padre sacudiu a cabea.
- Infelizmente, chegou tarde demais. O convento foi atacado h dois dias por 
agentes do 
governo.
Alan Tucker ficou aturdido. 

- Atacado? O que aconteceu s freiras?
- Foram presas e transferidas para Madrid.
Alan Tucker levantou-se.
- Obrigado, padre. - Pegaria o primeiro avio para Madrid.
Padre Berrendo acrescentou.
- Quatro freiras escaparam. A irm Megan foi uma delas. As coisas estavam se 
complicando.
- Onde ela est?
- Ningum sabe. A polcia e o exrcito esto  sua procura e das outras irms.
- Ahn...
Em circunstncias normais, Alan Tucker telefonaria para Ellen Scott e informaria 
que chegava 
a um beco sem sada. Mas todos os seus instintos de detetive lhe diziam que 
havia alguma coisa 
naquele caso que justificava a continuao da investigao.

Ele  fez uma ligao para Elen Scott.
- Surgiu um problema, Sr Scott. - Alan Tucker relatou a conversa com o padre. 
Houve um 
silncio prolongado.
- Ningum sabe onde ela est?
- Ela e as outras freiras fugiram, mas no podem se esconder por muito tempo. A 
polcia e 
metade do exrcito espanhol esto  sua procura. Quando forem encontradas, 
estarei l.
Outro silncio.
- Isso  muito importante para mim, Tucker.
- Sei disso, Sr Scott.

Alan Tucker voltou ao  jornal. Estava com sorte. O escritrio ainda no fechara. 
Ele disse ao 
 editor:
- Gostaria de dar uma olhada nos arquivos, se for possvel.
- Est  procura de alguma coisa em particular?
- Estou, sim. Houve um acidente de avio aqui.
- H quanto tempo, "seor?"
Se - estou certo... h 28 anos. Foi em 1948.
Alan  Tucker levou quinze minutos para encontrar a notcia que procurava. A 
manchete 
saltou-lhe diante dos olhos.



        ACIDENTE DE AVIO MATA EXECUTIVO E FAMLIA

Primeiro de Outubro de 1948. "Byrron Scott, presidente da
Scott Industries, sua esposa Susa e a filha de um ano,
Patricia, morreram carbonizados num desastre de avio..."

"Acertei na sorte grande!" Alan Tucker sentiu o pulso disparar. "Se isso  o que 
penso, ento 
serei um homem rico... um homem muito rico."

         Captulo 19




Ela estava nua na cama e podia sentir o membro duro de Benito Patas se 
comprimindo contra 
sua virilha. O corpo dele era maravilhoso, e ela apertou mais, sentindo o calor 
aumentar em seu 
corpo, excit-lo. Mas alguma coisa estava errada. "Eu matei Patas," pensou. "Ele 
est morto."
Lucia abriu os olhos e sentou-se, tremendo, olhando ansiosa ao  redor. Benito 
no  se 
encontrava ali. Ela estava na floresta, num saco de dormir. Alguma coisa se 
comprimia contra sua 
coxa. Estendeu a mo por dentro do saco de dormir e tirou a cruz envolta pela 
lona. Fitou-a, 
incrdula. "Deus acava de efectuar um milagre para mim," pensou.
No tinha a menor ideia de como a cruz fora parar ali, e tambm no se 
importava. 
Finalmente conseguira-a. Tudo que precisava fazer agora era fugir dali.
Saiu do saco de dormir e olhou para onde irm Teresa devia estar dormindo. Ela 
se fora. 
Lucia olhou  sua volta, pela escurido, mal pde divisar o vulto de Toms 
Sanjuro na beira da 
clareira. No sabia onde Rubio estava. "E no tem importncia.  hora de sair 
daqui," pensou Lucia.
Lucia encaminhou-se para a beira da clareira oposta quela em que se encontrava 
Sanjuro, 
abaixando-se para no ser vista.
E foi nesse instante que o pandemnio se desencadeou.

O coronel Fal Sostelo tinha uma deciso de comando a tomar. Recebera ordens do 
primeiro-ministro em pessoa para trabalhar em estrita ligao com o coronel 
Ramon Acoca, 
ajudando-o  a capturar Jaime Mir e as freiras. Mas o destino o abenoava, 
entregando uma freira 
em suas mos. Por pegar os terroristas e ficar com todas as glrias. "Foda-se o 
coronel Acoca," 
pensou Fal Sostelo. "Este caso  meu. Talvez a  "OPUS MUNDO" passe a me usar, em 
vez de 
Acoca, com todas as suas besteiras sobre partida de xadrez e se meter na mente 
dos outros. Est na 
hora de dar uma lio ao  gigante da cicatriz."
O coronel Sostelo deu ordens expressas a seus homens.
- No faam prisioneiros. Esto enfrentando terroristas. Atirem para matar.
O major Ponte hesitou.
- Coronel, h freiras com os homens de Mir. No deveramos...?
- Estarems prestando um favor a elas, ajudando-as a se encontrarem com seu Deus.
Sostelo selecionou uma dzia de homens para acompanh-lo na operao e 
determinou que 
fossem fortemente armados. Subiram pela encosta sem fazer barulho, no escuro. 
Quase no havia 
visibilidade. "ptimo. Eles no podero aperceber-se da nossa aproximao." 
Depois que seus 
homens assumiram as posies, o coronel Soostelo gritou, apenas como uma 
formalidade:
- Larguem as armas! Vocs esto cercados! - E no mesmo instante, ele 
acrescentou: - Fogo! 
No parem de atirar!
Uma dzia de armas automticas comeou a disparar uma saraivada de balas pela 
clareira.

Toms Sanjuro no teve a menor chance. Uma rajada de metra-lhadora acertou-o no 
peito, 
e ele morreu antes mesmo de o corpo bater no cho. Rubio Arzano encontrava-se no 
outro lado da 
clareira quando o tiroteio comeou. Viu Sanjuro cair, virou-se e comeou a 
levantar a arma para 
responder ao  fogo, mas conteve-se. A escurido na clareira era total, e os 
soldados disparavam a 
esmo. Se respondesse ao  fogo, revelaria sua posio. Para seu espanto, divisou 
Lucia agachada a 
menos de um metro.
- Onde est irm Teresa?
- Ela... ela sumiu.
- Fique abaixada.
Rubio pegou a mo de Lucia e ziguezagueou para a floresta, afastando-se do fogo 
inimigo. 
Os tiros zumbiam perigosameente prximos enquanto corriam, mas momentos depois 
Lucia e Rubio 
j se encontravam entre as rvores. Continuaram a correr.
- Segure minha mo, irm.
Podia ouvir os soldados atrs, mas aos poucos o barulho foi diminuindo. Era 
impossvel 
perseguir algum na escurido total da floresta.
Rubio parou para deixar Lucia recuperar o flego.
- Ns os despistamos por enquanto - disse-lhe ele. - Mas  precissamos de 
continuar a fugir. 
Lucia respirava com dificuldade.
- Se quiser descansar um pouco, irm...
- No. - Ela estava exausta, mas no tinha a menor inteno de deixar que a 
apanhassem. 
Logo agora, que estava com a cruz. - Estou bem. Vamos sair daqui.

Fal Sostelo defrontava-se com o desastre. Um terrorista estava morto, mas s 
Deus sabia 
quantos haviam escapado. No  tinha Jaime Mir, e s pegara uma das freiras. 
Sabia que teria de 
comunicar ao  coronel Acoca o acontecido, e no se sentia ansioso pelo encontro.

A segunda ligao de Alan Tucker para Ellen Scott foi ainda mais perturbadora do 
que a 
primeira.
- Descobri uma informao muito interessante, Sr Scott - disse, cauteloso.
- O que ?
- Verifiquei os arquivos de um jornal daqui, a fim de obter mais informaes 
sobre a garota.
- E o que encontrou? - Ellen preparou-se para o que sabia ser inevitvel.
Alan Tucker manteve a voz casual.
- Parece que a garota foi abandonada por volta da ocasio do seu desastre de 
avio.
Silncio.
Ele continuou:
- O que matou seu cunhado, a esposa e a filha Patricia.
"Chantagem. No havia outra explicao. Portanto, ele descobrira tudo."
-  isso mesmo - disse Ellen Scott, calmamente. - Eu devia ter falado tudo. 
Explicarei quando 
voltar. Tem mais alguma notcia da garota?
- No, mas ela no pode se esconder por muito mais tempo. O pas inteiro est a 
sua procura. 
- Avise-me assim que for encontrada.
A ligao foi cortada.
Alan Tucker continuou sentado, os olhos voltados para o telefone mudo em sua 
mo. "Ela 
 uma mulher fria," pensou, com admirao. "Como ser que vai aceitar a ideia de 
ter um scio?"

"Cometi um erro ao  mand-lo," pensou Ellen Scott. "Agora terei de det-lo. E o 
que farei 
com a garota? Uma freira! Mas no vou julg-la at conhec-la."
A secretria avisou pelo interfone: - Esto todos  sua espera na sala de 
reunies, Sr Scott.
- J estou indo.

Lucia e Rubio continuaram a avanar pelo bosque, ao  escorreges e tropees, 
lutando com 
galhos de rvores, moitas e insectos, mas cada passo os levava para mais longe 
dos perseguidores.
Rubio finalmente anunciou:
- Podemos parar por aqui. No vo mais nos encontrar.
Estavam bem alto nas montanhas, no meio de uma densa floresta. Lucia deitou-se, 
fazendo 
o meior esforo para recuperar o flego. Em sua mente, reconstituiu as cenas 
terrveis que teste-
munhara. Toms fuzilado sem qualquer aviso. "E os filhos da puta tencionavam 
assassinar a todos 
ns," pensou Lucia. S continuava viva graas ao  homem sentado ao  seu lado.
Ela observou Rubio, enquanto ele se levantava e fazia um reconhecimento da rea 
em redor.
- Podemos passar o resto da noite aqui, irm.
- Est bem. - Ela estava impaciente em continuar, mas sabia que precisava 
descansar.
Como se lesse seus pensamentos, Rubio acrescentou:
- Partiremos ao  amanhecer.
Lucia sentiu uma pontada no estmago.
- Deve estar faminta. Vou  procura de comida. Ficar bem aqui sozinha?
- Claro. No se preocupe comigo.
Rubio agachou-se ao  seu lado.
- Por favor, tente no ficar assustada. Sei como deve ser difcil para voc se 
encontrar outra 
vez no mundo, aps tantos anos no convento. Tudo deve lhe parecer muito 
estranho.
Lucia fitou-o e disse, sem qualquer inflexo na voz:
- Farei um esforo para me acostumar.
-  muito corajosa, irm. - Ele levantou-se. - Voltarei logo.
Lucia observou-o desaparecer entre as rvores. Era hora de tomar uma deciso, e 
havia duas 
opes: podia escapar agora, tentar alcanar alguma cidadezinha prxima, trocar 
a cruz por um 
passaporte e dinheiro suficiente para chegar  Sua; ou podia continuar com 
Rubio at se 
distanciarem ainda mais dos soldados. "A segunda opo  mais segura," decidiu 
Lucia.
Ouviu um barulho entre as rvores e virou-se. Era Rubio. Ele aproximou-se, 
sorrindo. Trazia 
a boina na mo, estofadas de tomates, uvas e mas.
Sentou-sse no cho, ao  lado de Lucia.
- Caf da manh. Havia uma galinha gorda e bonita disponvel, mas o fogo que 
precisaramos 
para cozinh-la poderia denunciar nossa presena. H uma fazenda aqui perto.
Lucia olhou para o contedo da boina.
- Parece ptimo. Estou faminta.
Ele deu-lhe uma ma.
- Prove esta.
Terminaram de comer, e Rubio estava falando, mas Lucia, absorta em seus 
pensamentos, no 
prestava ateno.
- Disse que est h dez anos no convento, irm?
Lucia foi arrancada de seu devaneio.
- Como?

- Passou dez anos no convento?
- Passei.
Ele sacudiu a cabea.
- Ento no tem a menor ideia do que aconteceu durante todo esse tempo.
- Ahn... no. - Muita coisa mudou nos ltimos dez anos, irm.
-  mesmo?
"- S." Franco morreu - disse Rubio gravemente.
- No!
-  verdade. No ano passado.
"E indicou Juan Carlos seu herdeiro."
- Pode achar muito difcil acreditar, mas o homem andou na lua pela primeira 
vez.  a pura 
verdade.
"Na verdade, dois homens," pensou Lucia. "Como eram seus nomes? Neil Amstrong e 
Buzz 
alguma coisa."
- , sim. Norte-americanos.  h agora um avio de passageiros que voa mais 
rpido do que 
o som.
- Incrvel!
"Mal posso esperar para viajar no Concorde," pensou Lucia.
Rubio era como criana, ansioso em p-la a par dos ltimos acontecimentos no 
mundo
- Houve uma revoluo em Portugal, e nos Estados Unidos da Amrica o presidente 
Nixon 
esteve envolvido num grande escndalo e foi obrigado a renunciar. 
"Rubio  sem dvida muito simptico," refletiu Lucia.
Ele tirou do bolso um mao de cigarros Ducados, o forte tabaco preto da Espanha.
- No vou ofend-la, irm?
- Claro que no. Por favor, fume.
Observou-o a acender um cigarro, e no momento em que a fumaa alcanou suas 
narinas 
sentiu-se desesperada para fumar. 
- Importa-se que eu experimente um?
Ele ficou espantado.
- Quer experimentar um cigarro?
- S para ver como  - apressou-se Lucia em explicar.
- Ah... claro. - Rubio estendeu-lhe o mao.
Ela pegou um e ps entre os lbios, ele acendeu-o. Lucia inalou fundo e sentiu-
se maravilhosa 
quando a fumaa encheu-lhe os pulmes.
Rubio observava-a perplexo.
Lucia tossiu.
- Ento  esse o gosto de um cigarro...
- Acha bom.
- No muito, mas...
Deu outra tragada, profunda, satisfatria. S Deus sabia o quanto sentia falta 
de um cigarro. 
Mas precisava ser cautelosa. No queria deix-lo desconfiado. Por isso apagou o 
cigarro que 
segurava desajeitadamente entre os dedos. Passara apenas poucos meses no 
convento, mas Rubio 
estava certo. Parecia estranho se encontrar outra vez no mundo. Especulou como 
Megan e Graciela 
estariam se sentindo. E o que acontecera  irm Teresa? Teria sido capturada 
pelos soldados?
Os olhos de Lucia comearam a arder. Fora uma noite longa, de muita tenso.
- Acho que vou dormir um pouco.
- No se preocupe. Ficarei de vigia, irm.
- Obrigada - disse ela com um sorriso. Momentos depois ela dormia.

Rubio Arzano contemplou-a e pensou: "Jamais conheci uma mulher assim." Era to 
espiritual 
que dedicara sua vida a Deus, mas ao  mesmo tempo era prtica e objetiva. E se 
comportara naquela 
noite to bravamente quanto qualquer homem. "Voc  uma mulher muito especial," 
pensou Rubio 
Arzano, enquanto a observava a dormir. "Irmzinha de Jesus."

 Captulo 20



O coronel Fal Sostelo estava em seu dcimo cigarro. "No posso adiar por mais 
tempo," 
decidiu. Respirou fundo vrias vezes para se acalmar e depois discou um nmero. 
E disse, assim que 
Ramn Acoca atendeu:
- Coronel, atacamos um acampamento terrorista ontem  noite.  Fui informado de 
que Jaime 
Mir estava l. Achei que deveria ser informado.
Houve um silncio perigoso.
- Pegou-o?
- No.
- Realizou essa  operao sem me consultar?
- No havia tempo para...
- Mas houve tempo para deixar Mir escapar. - A voz de Acoca estava inpregnada 
de fria. 
- O que o levou a empreender essa operao executada com tanta competncia?
O coronel Sostelo engoliu em seco.
- Pegamos uma das freiras do convento. Ela nos levou a Mir e seus homens. 
Matamos um 
deles no ataque.
- Mas todos os outros escaparam?
- Isso mesmo, coronel.
- Onde est a freira agora? Ou ser que a deixou escapar tambm? - O tom era 
sarcstico.
- Claro que no, coronel. Ela est aqui, no acampamento. Comeamos a interrog-
la e...
- No faa isso. Pode deixar que a interrogarei pessoalmente. Estarei a dentro 
de uma hora. 
Veja se consegue mant-la at minha chegada. - Ele bateu o telefone.

Exactamente uma hora depois, o coronel Ramn Acoca chegou ao  acampamento em que 
a 
irm Teresa se encontrava. Estava acompanhado por uma dzia de homens do  "COE."
- Tragam-me a irm - ordenou Acoca.
Irm Teresa foi conduzida  barraca do comandante, onde o coronel Acoca a 
aguardava.
Ele levantou-se polidamente quando ela entrou e sorriu.
- Sou o coronel Acoca. 
"Finalmente!"
- Sabia que voc viria. Deus me disse.
Ele acenou com a cabea, amavelmente.
-  mesmo? ptimo. Sente-se, por favor, irm.
Irm Teresa sentia-se nervosa demais para se sentar.
- Precisa me ajudar.
- Vamos ajudar um ao  outro - assegurou o coronel. - Escapou do convento 
Cisterciense em 
vila, no  mesmo?
- , sim. Foi terrvel. Todos aqueles homens... Eles fizeram coisas horrveis 
e... - Sua voz 
hesitou. 
"E coisas estpidas. Deixamos que voc e as outras escapassem."
- Como chegou aqui, irm?
- Deus me trouxe. Est me testando, como outrora testou...
- Junto com Deus, alguns homens tambm a trouxeram para c, irm?
- Isso mesmo. Eles me sequestraram. E eu tinha de fugir deles.

- Disse ao  coronel Sostelo onde poderia encontrar esses homens?
- Disse, sim. Os homens maus. Raul est por trs de tudo isso. Ele me enviou uma 
carta e 
disse...
- Irm, o homem que procuramos em particular  Jaime Mir. Por acaso o viu?
Ela estremeceu.
- Vi, sim. Ele...
O coronel inclinou-se para a frente.
- Isso  ptimo. Agora me diga onde posso encontr-lo.
- Ele e os outros esto a caminho de ze.
Acoca franziu o rosto, perplexo.
- Para ze? Na Frana?
Suas palavras eram um murmrio.
- Isso mesmo. Monique abandonou Raul e ele enviou os homens para me sequestrarem 
por 
causa do beb, a fim de que eu...
O coronel tentou controlar sua crescente impacincia.
- Mir e seus homens esto seguindo para o norte. ze fica para o leste.
- ...No deve deixar que me levem de volta para Raul. No quero v-lo nunca 
mais. Pode 
compreender.     No poderia  encar-lo...
O coronel Acoca interveio bruscamente:
- No estou interessado nesse tal de Raul. Quero saber onde posso encontrar 
Jaime Mir.
- J lhe disse. Ele est em ze,  minha espera. Quer...
- Est mentindo. Acho que tennta proteger Mir. No quero machuc-la, por isso 
vou 
perguntar mais uma vez. Onde est Jaime Mir?
Irm Teresa fitou-o, desamparada.
- No sei - murmurou ela, olhando ao  redor, desvairada. - No sei.
- Disse h um momento atrs que ele se encontrava em ze.
A voz do coronel era como um chicote estalado.
-  verdade.  Deus me contou.
O coronel Acoca j aguentara demais. A mulher era demente ou uma actriz 
brilhante. De 
qualquer forma, ela o enojava com toda aquela conversa de Deus. Ele virou-se 
para Patrcio Arrieta, 
seu ajudante-de-ordens.
- A memria da irm precisa de algum estmulo. Leve-a para a barraca do 
intendente. Talvez 
voc e seus homens possam ajud-la a se lembrar onde est Jaime Mir.
- Est bem, coronel.
Patrcio Arrieta e os seus homens que o acompanhavam haviam participado do 
ataque ao  
convento em vila. Sentiam-se responsveis por ter deixado as quatro freiras 
escaparem. "Pois 
compensaremos isso agora," pensou Arrieta. Ele virou-se para irm Teresa.
- Venha comigo, irm.
- Est certo. - "Abenoado Jesus, obrigada." - No vo deixar que eles me levem 
para ze, 
no  mesmo?
- No, no vai para ze - Assegurou Arrieta. 
"O coronel tem razo," ele pensou. "Ela est se divertindo conosco. Mas vamos 
lhe ensinar 
outras diverses. Ser que ficar deitada quietinha ou gritar?"
o chegarem  barraca de intendncia, Arrieta disse:
- Irm, vamos lhe dar a ltima oportunidade. Onde est Jaime Mir? 

"J me perguntaram isso antes? Ou foi outra pessoa? Foi aqui ou... tudo est 
confuso 
demais."
- Ele me sequestrou a mando de Raul, porque Monique  abandonou-o, e ele 
pensou...
"- Boeno," se  assim que voc prefere... - murmurou Arrieta. - Veremos se 
conseguimos lhe 
refrescar a memria.  - Eu gostaria muito, por favor. Tudo  muito confuso.
Meia dzia de homens de Acoca entraram na barraca, junto com alguns soldados 
uniformizados. Irm Teresa fitou-os, aturdida.
- Esses homens vo me levar para o  convento agora?
- Faro melhor do que isso. - Patrcio Arrieta sorriu. - vo lev-la ao  
paraso, irm.
Os  homens adiantaram-se, cercando-a.
-  muito bonito o vestido que est usando - disse um soldado. - Tem certeza que 
 freira, 
querida?
- Sou, sim. - Raul a chamava de querida. Aquele era Raul? - Tivemos de trocar de 
roupa para 
escapar dos soldados.
Mas aqueles homens eram soldados. Estava tudo confuso demais. Um dos homens 
empurrou 
Teresa para o catre.
- No  nenhuma beleza, mas vamos ver como parece por baixo de todas essas 
roupas.
- O que est fazendo?
Ele estendeu a mo e arrancou a parte superior do vestido, enquanto outro homem 
rasgava 
a saia.
-  At que no  um corpo dos piores para uma velha, no  mesmo, pessoal?
Teresa gritou. Olhou para os homens  sua volta. "Deus vai fulminar  todos eles. 
No 
permitir que me toquem, pois sou seu receptculo. Estou com o Senhor, bebendo 
de Sua fronte de 
pureza."
Um dos soldados abriu o cinto. Um instante depois, irm Teresa sentiu mos rudes 
abrirem 
suas pernas. Enquanto o soldado se esparramava por cima dela, sentiu sua carne 
dura penetr-la e 
tornou a gritar.
- Agora, Deus! Castigue-os agora! - Esperou pela trovoada e um relmpago   
brilhante que 
destruiria todos aqueles homens.
Outro soldado subiu em cima dela. Um nevoeiro vermelho assentou-lhe os olhos. 
Teresa ficou 
 espera que Deus os fulminasse, quase inconsciente dos homens que a estupravam. 
No sentia mais 
dor.
Arrieta estava de p ao  lado do catre. Depois que cada homem terminava com 
Teresa, ele 
perguntava:
- J  o suficiente, irm? Pode acabar com isso a qualquer momento. Tudo que 
precisa fazer 
 contar onde est Jaime Mir.
Irm Teresa no ouvia. Gritava em sua mente: "Fulmine-os com Seu Poder, Senhor. 
Extermine-os como exterminou os outros inquos em Sodoma e Gomorra."
Por mais incrvel que pudesse parecer, Ele no respondeu. No  possvel, pois 
Deus se 
encontrava em toda a parte. E quando o sexto homem penetrou em seu corpo, a 
epifania ocorreu-lhe 
subitamente. Deus no estava escutando porque no havia Deus. Ela enganava-se a 
si mesma durante 
todos aqueles anos, idolatrando um poder supremo e servindo-o fielmente. Mas no 
havia nenhum 
poder supremo. "Se Deus existisse, Ele teria me salvado."
O nevoeiro vermelho dissipou-se da frente dos olhos de irma Teresa, e ela teve 
uma viso 
ntida do que acontecia pela primeira vez. Havia pelo menos uma dzia de 
soldados na barraca   
esperando a vez de estupr-la. Os soldados na fila estavam de uniforme, no se 
dando ao  trabalho 
de tir-lo. Enquanto um soldado saa de cima dela, o seguinte agacho-se por cima 
dela e penetrou-a 
logo depois.

"No h Deus, mas existe um Sat, e estes so seus ajudantes," pensou irm 
Teresa. "E eles 
devem morrer. Todos eles."
Enquanto o soldado afundava nela , irm Teresa tirou-lhe a pistola do coldre. 
Antes que 
algum pudesse reagir, ela apontou para Arrieta. A bala acertou-lhe na garganta. 
Apontou ento a 
arma para os outros soldados e continuou a disparar. Quatro deles caram ao  
cho antes que os 
outros recuperassem o controle e comeassem a atirar nela. Por causa do soldado 
em cima dela 
tivera, dificuldade para mirar. 
Irm Teresa e seu ltimo estuprador morreram ao  mesmo tempo.


         Captulo 21


Jaime Mir acordou instantaneamente, despertado por um movimento na beira da 
clareira. 
Saiu do saco de dormir e levantou-se, com a arma na mo. Quando se aproximou, 
viu Megan  
ajoelhada, rezando. Ficou imvel, estudando-a. Havia uma extraordinria beleza 
na imagem daquela 
linda mulher concentrada em suas oraes na floresta, no meio da noite. Jaime 
descobriu-se 
ressentido. "Se Felix Carpio no dissesse que estvamos a caminho de San 
Sebastin, eu no estaria 
com o fardo da irm, para comear."
Era indispensvel que ele chegasse a San Sebastin  o mais depressa possvel. O 
coronel 
Acoca e seus homens fechavam o cerco. Mesmo sozinho, j seria difcil escapar da 
rede. Com o fardo 
adicional daquela mulher para retard-lo, o perigo era dez vezes maior.
Aproximou-se de Megan, irritado, a voz soou mais rspida do que tencionava. 
- J lhe disse para dormir um pouco. No quero que nos retarde amanh.
Megan fitou-o e disse calmamente:
- Desculpe se o deixei zangado.
- Irm, guardo minha raiva para coisas mais importantes. Seu tipo me cansa. 
Passam suas 
vidas escondidas por trs de muros de pedra,  espera de uma viagem gratuita 
para o outro mundo. 
Deixam meu estmago embrulhado, todas vocs.
- Porque acreditamos no outro mundo?
- No, irma. Porque no acreditamos neste. E fogem dele.
- Para rezar por homens como voc. Dedicamos nossas vidas a preces por vocs.
- E acha que isso resolver os problemas do mundo?
- Com o tempo, sim.
- No h tempo. Seu Deus no pode ouvir as oraes por causa do barulho dos 
canhes e os 
gritos das crianas sendo dilaceradas pelas bombas.
- Quando se tem f...
- Ora, irm, tenho muita f. Tenho f naquilo por que estou lutando. Tenho f em 
meus 
homens e nas minhas armas. S no tenho f nas pessoas que andam sobre a gua. 
Se acha que seu 
Deus est nos escutando agora, diga a ele para nos levar ao  convento em 
Mendavia, afim de que eu 
possa livrar-me de voc.
Estava furioso consigo mesmo por perder a calma. No era culpa dela que a Igreja 
se tivesse 
posto de lado, sem fazer nada, enquanto os falangistas de Franco torturavam, 
estupravam e assas-
sinavam bascos e catales. "No foi culpa dela que minha famlia estivesse entre 
as vtimas."

Ele era criana na ocasio, mas aquela lembrana ficaria gravada em sua memria 
para 
sempre...

Foi despertado no meio da noite pelo barulho das bombas caindo. Desciam do cu 
como 
mortferas flores de som, plantando suas sementes de destruio por toda a 
parte.
- Levanta, Jaime! Depressa!
O medo na voz do pai era mais assustador para o menino do que o estrondo 
terrvel do 
bombardeio areo.
Guernica era um baluarte dos bascos, e o general Franco decidira convert-la 
numa lio: 
"Destruam-na." 
A temida Legio Condor nazista e alguns avies italianos desfecharam um ataque 
concentrado sem misericrdia. Os moradores da pequena cidade tentaram fugir da 
chuva de morte 
que caa do cu, mas no havia escapatria.
Jaime, a me, o pai e duas irms nazistas velhas fugiram junto com os outros.
- Para a igreja! - gritou o pai de Jaime. - Eles no vo bombardear a igreja.
Ele estava certo. Todos sabiam que a Igreja se postara do lado do caudilho, 
ignorando o 
tratamente brutal dispensado a seus inimigos.
A famlia Mir encaminhou-se para a igreja, fazendo fora para abrir caminho 
pela multido 
em pnico que tentava fugir.
O menino segurava com toda fora a mo  do pai e procurava no ouvir o barulho 
terrvel  
sua volta. Lembrou um tempo em que o pai no estava assustado, nem fugindo.
- Vamos ter uma guerra? - perguntou ele ao  pai uma vez.
- No, Jaime.  apenas boato de jornal. Tudo o que pedimos  que o governo nos 
d um 
mnmo de independncia. Os bascos e catales tm direito  sua prpria lngua, 
bandeira e feriados. 
Ainda somos uma nao. E espanhis nunca lutaro contra espanhis.
Jaime era muito pequeno na ocasio para compreender, mas claro que havia mais em 
jogo do 
que a questo dos catales e bascos. Era um profundo conflito ideolgico entre o 
governo 
republicano e os nacionalistas da direita, e o que comeara como uma fasca de 
dissidncia logo se 
transformou numa conflagrao incontrolvel, que atraiu outras potncias 
estrangeiras.
Quando as foras superiores de Franco derrotaram os   republicanos e os 
nacionalistas j 
mantinham um firme controle da Espanha, o ditador concentrara sua ateno nos 
intransigentes 
bascos: "Punham-nos."
E o sangue continuara a jorrar.
Um grupo de lderes bascos criara a  "ETA," um movimento por um  Estado Basco 
Livre, e 
o pai de Jaime fora convidado a aderir.
- No. Est errado. Devemos obter o que  nosso por direito atravs de meios 
pacficos. A 
guerra nada realiza.
Mas os gavies demonstraram ser mais fortes do que as pombas, e a "ETA" logo se 
tornara 
uma fora poderosa.
Jaime tinha amigos cujos pais eram membros da "ETA" e escutava as histrias de 
seus efeitos 
hericos.
- Meu pai e um grupo de amigos atacaram  bomba o quartel-general da Guarda 
Civil - lhe 
diria um amigo.
Ou:
- J soube do assalto ao  banco em Barcelona? Foi meu pai. Agora eles podem 
comprar armas 
para conbater os fascistas.
E o pai de Jaime insistia:
- A violncia  um erro.. Devemos negociar.

- Explodimos uma das fbricas deles em Madrid. Por que seu pai no est do nosso 
lado? Ele 
 um covarde?
O pai dizia a Jaime:
- No d ateno aos seus amigos, Jaime. A atitude deles  criminosa.
- Franco ordenou que uma dzia de bascos fossem executados sem um julgamento 
sequer. 
Vamos promover uma retaliao em escala nacional. Seu pai vai se juntar a ns?
- Papai...?
- Somos todos espanhis, Jaime. No devemos permitir que ningum nos divida.
E o menino estava dividido. "Meus amigos esto certos? Papai  um covarde?" 
Jaime 
acreditava no pai.
E agora..., Armagedom. O mundo desmoronava ao  seu redor. As ruas de Guernica 
estavam 
apinhadas por uma multido que gritava e tentava escapar das bombas vindas do 
cu. Prdios, 
esttuas e caladas explodiam em chuvas de concreto e sangue.
Jaime, a me, o pai e as irms chegaram  enorme igreja, o nico prdio da praa 
que ainda 
se encontrava de p. Outras pessoas batiam  porta.
- Deixem-nos entrar! Em nome de Jesus, abram a porta!
- O que est acontecendo? - gritou o pai de Jaime.
- Os padres trancaram a igreja. No querem nos deixar entrar.
- Vamos arrombar a porta!
- No!
Jaime olhou para o pai, surpreso.
- No arrombamos a casa de Deus - declarou o pai. - Ele nos proteger onde quer 
que 
estejamos
Tarde demais, eles viram o esquadro de falangistas aparecer vindo da esquina e 
abrir fogo 
de metralhadora, varrendo a multido desarmada de homens, mulheres e crianas na 
praa. Mesmo 
enquanto sentia as balas se cravando em seu corpo, o pai de Jaime segurou o 
filho e puxou-o para 
baixo, para a segurana, seu prprio corpo protegendo Jaime da saraivada 
mortfera.
Um silncio fantstico parecia envolver o mundo depois do ataque. O som de 
armas, de 
pessoas s carreiras e gritos desapareceu, como um passe de mgica. Jaime abriu 
os olhos e ficou 
imvel por um longo tempo, sentindo o peso do corpo do pai por cima, como um 
cobertor de amor. 
O pai, a me e as irms estavam mortos, junto com centenas de outros. E na 
frente dos cadveres 
estavam as portas trancadas da igreja.

Noite tarde Jaime deixou a cidade, e dois dias depois, ao  chegar a Bilbo, 
ingressou na 
"ETA."
O oficial de recrutamento fitou-o e disse:
- Voc  jovem demais para se juntar a ns, filho. Devia estar na escola.
- Vocs sero minha escola - respondeu Jaime Mir, calmamente. - Vo me ensinar 
a lutar, 
afim de que eu possa vingar o assassinato da minha famlia.
Ele nunca olhou para trs. Lutava por si mesmo e pela famlia, seus feitos se 
tornaram 
lendrios. Jaime planeava e executava ataques audasiosos a fbricas e bancos, 
comandava as 
execues de opressores. Quando algum dos seus homens era capturado, ele 
conduzia misses 
temerrias para salv-lo.
o ser informado da criao do "GOE" para perseguir os bascos, Jaime sorriu e 
comentou:
- ptimo. Eles nos notaram.

Nunca se perguntou se os riscos que assumia se relacionavam de alguma forma com 
os gritos 
de "Seu pai  um covarde" ou se tentava provar alguma coisa a si mesmo e aos 
outros. Era suficiente 
que provasse sempre sua coragem e que no tivesse medo de arriscar a vida pelo 
que acreditava.

Agora, porque um dos seus homens falara demais, Jaime se descobria 
sobrecarregado com 
uma freira.
" irnico que sua Igreja esteja agora do nosso lado. Mas  tarde demais, a 
menos que eles 
possam promover um Segundo Advento e incluam minha me, pai e irms," pensou.

Eles andaram pela floresta  noite, o luar branco salpicava a paisagem ao  
redor. Evitavam 
as cidades principais, alertas a qualquer sinal de perigo. Jaime ignorava Megan. 
Ia junto de Felix, 
conversando sobre as aventuras passadas. Megan descobriu- -se intrigada. Jamais 
conhecera algum 
com Jaime. Era um homem seguro e confiante.  "Se algum pode me levar a 
Mendavia,  esse 
homem."

Havia momentos em que Jaime sentia pena da irm, at mesmo uma admirao 
relutante pela 
maneira como ela se comportava na rdua jornada. Especulava como seus outros 
homens estariam 
se saindo com as pupilas de Deus.
Pelo menos ele tinha Amparo.  noite, encontrava nela um grande conforto. 
"Ela  to dedicada quanto eu," pensou Jaime. "E tem ainda mais motivos do que 
eu para 
odiar o governo."
Toda a famlia de Amparo fora exterminada pelo Exrcito Nacionalista. Ela era 
profundamente independente e dominada por uma paixo intensa.

o amanhecer, estavam se aproximando de Salamanca,  margem do rio Tormes.
- Estudantes de toda a Espanha vm cursar a universidade aqui - Felix explicou 
para Megan. 
- Provavelmente  a melhor do pas.
Jaime no prestava ateno. Concentrava-se em seu prprio movimento. Se eu fosse 
o 
caador, onde poria minha armadilha? Ele virou-se para Felix.
- No vamos para Salamanca. H um "parador" fora da cidade. Ficaremos l at o 
anoitecer.
A estalagem, "o parador," era pequena, afastada do fluxo principal de turistas. 
Alguns degraus 
levavam ao  saguo, guardado por uma antiga armadura de cavaleiro.
o se aproximarem da entrada, Jaime disse s duas mulheres:
- Ele acenou com a  cabea para Felix Carpio e os dois desapareceram.
- Para onde eles vo?
Amparo lanou-lhe um olhar desdenhoso.
- Talvez estejam  procura do seu Deus.
- Espero que O encontrem - respondeu Megan, suavemente.
Os homens voltaram dez minutos depois.
- Tudo calmo - informou Jaime a Amparo. - Voc e a irm partilharo um quarto. 
Felix ficar 
comigo. - Ele entregou-lhe 
uma chave. 
- Querido, quero ficar com voc, no...
- Faa o que estou dizendo. E fique de olho nela.
Amparo olhou para Megan. 
"- Bueno." Vamos embora, irm.

Megan entrou no "parador" e subiu os dehgraus atrs de Amparo.
O quarto era um dos doze localizados no segundo andar, ao  longo de um  corredor 
cinzento. 
 Amparo abriu a porta, e as duas entraram. Era pequeno e desolado, escassamente 
mobiliado, o cho 
de tbuas, paredes de estuque, uma cama, um pequeno catre, uma comda 
escalavrada e duas 
cadeiras.
Megan olhou ao  redor e exclamou:
-  lindo!
Amparo virou-se com raiva, pensando que Megan estava sendo sarcstica.
- Quem  voc para se queixar...?
-  to grande... - acrescentou Megan.
Amparo fitou-a em silncio por um momento, depois riu. Claro que devia parecer 
enorme, 
em comparao com as celas em que as irmas viviam.
Amparo comeou a se despir.
Megan no pde deixar de contempl-la. Era a primeira vez em que realmente 
olhava para 
Amparo Jir,  luz  do dia. A mulher era muito bonita, de uma maneira simples. 
Tinha cabelos ruivos, 
pele branca, ceios fartos, cintura fina e quadris que ondeavam a cada movimento.
Amparo percebeu que ela a observava.
- Irm... poderia me dizer uma coisa? Por que algum ingressaria para um 
convento?
Era uma pergunta fcil de responder.
- O que pode ser mais maravilhoso do que se devotar  glria de Deus? 
- De imediato, posso pensar em mil coisas. - Amparo  foi at a cama e sentou-se. 
- Pode 
dormir no catre. Pelo que me contaram, seu Deus no quer que fiquem muito 
confortveis.
Megan sorriu.
- No tem importncia. Eu me sinto confortvel por dentro.

Em seu quarto, no outro lado do corredor, Jaime Mir acomodou-se na cama. Felix 
Carpio 
tentava ajeitar-se no pequeno catre. Os dois permaneciam vestidos. A arma de 
Jaime encontrava-se 
debaixo do travesseiro, a de Felix na mesinha escalavrada ao  seu lado.
- O que ser que as levam a fazerem isso? - especulou Felix, em voz alta.
- Fazem o qu, "amigo?"
- Ficam trancafiadas num convento a vida inteira, como prisioneiras.
Jaime Mir encolheu os ombros.
- Pergunte  irm. Eu gostaria muito que estivssemos viajando sozinhos. Estou 
com um 
terrvel pressentimento.
- Jaime, Deus nos agradecer por esta boa aco.
- Acredita mesmo nisso? No me faa rir.
Felix Carpio no insistiu no assunto. No era conveniente discutir sobre a 
Igreja Catlica com 
Jaime. Os dois ficaram em silncio, cada um  absorto em seus pensamentos.
Felix Carpio estava pensando: "Deus ps as irms em nossas mos. Precisamos 
lev-las a 
salvo a um convento."
Jaime pensava em Amparo. Queria-a desesperadamente naquele momento. "Aquela 
maldita 
freira." Comeou a puxar as cobertas quando se lembrou que ainda havia uma coisa 
a ser feita.
 

No saguo pequeno e escuro l embaixo, o recepcionista estava sentado em 
silncio,  espera 
at ter certeza que os novos hspedes dormiam. Seu corao batia forte quando 
pegou o telefone e 
discou.
Uma voz indolente atendeu.
- Delegacia de polcia.
O recepcionista sussurrou ao  telefone para o sobrinho:
- Florian, Jaime Mir e mais trs terroristas esto aqui. No gostaria de ter a 
honra de 
prend-los?

         Captulo 22



Cento e cinquenta quilmetros para o leste, numa rea de bosque no caminho para 
Pe~nafiel, 
Lucia Carmine dormia.
Rubio Arzano estava sentado, observando-a, relutante em acord-la. "Ela dorme 
como um 
anjo," pensou.
Mas era quase manh, hora de seguir viajem. Rubio inclinou--se e sussurrou 
gentilmente em 
seu ouvido:
- Irm Lucia...
Ela abriu os olhos.
- Est na hora de partirmos.
Lucia bocejou e espreguiou-se. A blusa desabotoara e parte de um seio apareceu. 
Rubio logo 
desviou os olhos.
"Devo me precaver contra meus pensamentos. Ela  a esposa de Jesus."
- Irm...
- O que ?
- Eu... eu gostaria de lhe pedir um favor. - Ele estava quase corando.
- Pode pedir.
- Eu... j faz muito tempo que rezei pela ltima vez, mas fui criado como 
catlico. Importa-se 
de dizer uma orao? 
"H quanto tempo eu no fao uma orao?," indagou-se Lucia. O convento no 
contava. 
Enquanto as outras rezavam, sua mente estava ocupada com os planos de fuga.
- Eu..., eu no...
- Tenho certeza que isso faria com que nos sentssemos melhor.
Como ela podia explicar que no se lembrava de nenhuma orao?
- Eu... ahn...  
"Ei!" Havia uma de que se lembrava agora. Era pequena, ajoelhada junto a cama, o 
pai de p 
ao  seu lado, pronto para ajeit-la na cama. Lentamente, as palavras do Salmo 23 
comearam a 
aflorar-lhe.
- O Senhor  meu pastor. Nada me faltar. Ele me faz repousar em pastos 
verdejantes: 
leva-me para junto das guas de     descanso. Refrigera-me a alma: guia-me pelas 
veredas da justia, 
por amor do Seu nome...
As lembranas jorravam.
Lucia e o pai possuam um mundo. E ele sentia o maior orgu-lho da filha. 
"Voc nasceu sob uma estrela da sorte, faccia d' angelo."
E, ouvindo isso, Lucia sentira-se afortunada e bela. No era a linda filha do 
grande Angelo 
Carmine?
- ... Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, no temerei o mal...
O mal era representado pelos inimigos de seu pai e irmos. E ela os fizera 
pagar.
- Porque ests comigo; Tua vara e cajado me sustentam...
"Onde estava Deus quando precisei de conforto e apoio?"
- Preparas-me uma mesa com leo, minha taa transborda...

Ela falava mais devagar agora, a voz um mero sussurro. O que acontecera, 
especulou, com 
a menininha no vestido branco da primeira comunho? O futuro parecia 
maravilhoso. De alguma 
forma, tudo sara errado. Tudo." "Perdi meu pai e meus irmos, e a mim mesma."
No convento, ela no pensava em Deus. Mas agora, aqui fora, com aqueles 
camponses to 
simples...  "Importa-se de dizer uma orao por ns?"
Lucia continuou.
- Bondade e misericrdia me acompanharo com certeza por todos os dias da minha 
vida, e 
habitarei para sempre na casa do Senhor.
Rubio observava-a, comovido.
- Obrigado, irm.
Lucia acenou com a cabea, incapaz de falar. "O que est acontecendo comigo?," 
perguntou-se.
- Est pronta, irm?
Ela olhou para Rubio Arzano.
- Estou, sim.
Cinco minutos depois os dois estavam a caminho.

Foram apanhados por um sbito temporal e abrigaram-se numa cabana abandonada. A 
chuva 
caa com violncia contra o telhado e os lados da cabana.
- Acha que a tempestade vai passar algum dia?
Rubio sorriu.
- No  uma tempestade de verdade, irm.  o que ns, os bascos, chamamos de 
"sirimiri." 
Vai passar to depressa quanto comeou. A terra est muito seca. Precisa desta 
chuva.
-  mesmo?
- Conheo essas coisas. Sou um lavrador. 
"D para perceber," pensou Lucia.
- Perdoe-me por dizer isso, irm, mas ns dois temos muita coisa em comum.
Lucia contemplou o empavonado campons  e pensou: "Esse dia nunca vai chegar."
- Acha mesmo?
- Acho. Acredito sinceramente que, em muitas coisas, viver numa fazenda  como 
estar num 
convento.
Ela no percebeu a ligao.
- No entendi.
- Ora, irm, num convento se pensa muito sobre Deus e Seus  milagres. No  
verdade?
- Isso mesmo.
- De certa forma, uma fazenda  Deus.  Vive-se cercado pela criao. Todas as 
coisas que 
crescem da terra de Deus, quer seja trigo, azeitonas ou uvas... tudo vem de 
Deus, no  mesmo? So 
milagres e acontecem todos os dias... e como voc ajuda as coisas a crescer,  
parte do milagre.
Lucia no pde deixar de sorrir pelo entusiasmo em sua voz.
A chuva parou de repente.
- Podemos continuar agora, irm.

- Chegaremos ao  rio Duero daqui a pouco - disse Rubio. - As cataratas Pe~nafiel 
ficam logo 
 frente. Continuaremos por Aranda de Duero e depois seguiremos para Logro~no, 
onde nos 
encontraremos com os outros. 
"Voc estar indo para esses lugares," pensou Lucia. "E boa sorte. Eu estarei na 
Sua, meu 
amigo."


Ouviram o barulho das cataratas meia hora antes de alcanarem-nas. As cataratas 
Pe~nafieel 
eram um espetculo deslumbrante, as guas caindo abrutamente no rio veloz. Seu 
estrondo era quase 
ensurdecedor. 
- Quero tomar um banho - disse Lucia.
Parecia que j se passara anos desde a ltima vez em que tomara um banho.
 Rubio ficou surpreso. - Aqui? 
"No, seu idiota, em Roma."
- Isso mesmo.
- Tome cuidado. O rio est cheio por causa da chuva.
- No se preocupe. - Ficou parada, esperando pacientemente.
- Ah... vou me afastar enquanto se despe.
- No v muito longe - pediu Lucia.
Provavelmente havia animais selvagens no bosque.
Enquanto Lucia comeava a tirar as roupas, Rubio afastou-se alguns passos, 
apressado, e 
ficou de costas.
- No v muito longe, irm. O rio  traioeiro.
Lucia deixou a cruz embrulhada num lugar em que poderia vigi-la. O ar frio da 
manh era 
maravilhoso em seu corpo nu. Despiu-se completamente e entrou na gua. Estava 
fria e revigorante. 
Virou-se e constatou que Rubio continuava com os olhos voltados para o outro 
lado, de costas para 
ela. Sorriu para si mesma. Todos os homens que conhecera estariam regalando os 
olhos.
Ela avanou mais um pouco, evitando as pedras  sua volta. Jogou gua na cabea, 
sentindo 
o rio impetuoso empurrando-lhe as pernas com fora.
Perto dali uma pequena rvore estava sendo arrastada pela correnteza. ao  se 
virar para 
observ-la, Lucia perdeu subitamente o equilbrio e escorregou, gritando. Bateu 
com a cabea numa 
pedra ao  cair.
Rubio virou-se e observou horroriizado, enquanto Lucia desaparecia nas guas 
tumultuosas. 

         Captulo 23



Quando o sargento Florian Santiago desligou o telefone na delegacia de polcia 
de Salamanca, 
suas mos tremiam. 
"Estou com Jaime Mir e trs terroristas aqui. No gostaria de ter a honra de 
prend-los?"
O governo prometera uma grande recompensa pela cabea de Jaime Mir, e agora o 
bandido 
basco se encontrava em suas mos. O dinheiro da recompensa mudaria sua vida por 
completo. 
Poderia mandar os filhos para uma escola melhor, comprar uma mquina de lavar 
roupa para a esposa 
e jias para a amante. Claro que teria de partilhar uma parte da recompensa com 
o tio. "Darei vinte 
por cento a ele," pensou Santiago. "Ou talvez dez por cento."
Ele estava  bem a par da reputao de Jaime Mir e no tinha a menor inteno de 
arriscar 
a vida na tentativa de capturar o terrorista. "Que os outros  enfrentem o perigo 
e me entreguem a 
recompensa."
Continuou sentado  mesa,  procura da melhor maneira de cuidar da situao. O 
nome do 
coronel Acoca aflorou-lhe no mesmo  instante na mente. Todo mundo sabia que 
havia um vendeta 
de sangue entre o coronel e o terrorista. Alm do mais, o coronel tinha todo o 
"GOE" sob seu 
comando. Isso mesmo, era a melhor maneira de agir.
Santiago pegou o telefone, e dez minutos depois falava pessoalmente com o 
coronel.
- Aqui  o sargento Florian Santiago, da delegacia de polcia em Salamanca. 
Descobri o 
paradeiro de Jaime Mir.
O coronel Ramn Acoca fez um esforo para manter a voz calma.
- Tem certeza?
- Tenho sim, coronel. Ele est no Parador Nacional Raimundo de Borgn, nos 
arredores da 
cidade. Passar a noite ali. Meu tio  o recepcionista. Acaba de me telefonar. 
H outro homem e duas 
mulheres com Mir.
- Seu tio tem certeza absoluta de que  mesmo Mir?
- Absoluta, coronel. Ele e os outros esto dormindo nos dois quartos dos fundos, 
no segundo 
andar da estalagem.
- Preste muita ateno no que vou dizer, sargento. Quero que v imediatamente 
para a 
estalagem e fique de vigia do lado de fora, a fim de impedir a sada de qualquer 
um. Deverei chegar 
a em trs horas. No deixe que ningum o veja. Entendido?
- Entendido, senhor. Partirei agora mesmo. - Santiago hesitou. - Coronel, sobre 
a 
recompensa...,
- Quando pegarmos Mir, ser toda sua.
- Obrigado, coronel. Estou muito...
- V logo.
- Est bem, senhor.
Florian Santiago desligou. Sentia-se tentado a ligar para a amante e lhe dar a 
notcia 
sensacional, mas isso podia esperar. Deixaria a surpresa para depois.  Antes 
disso, tinha uma misso 
a cumprir. Chamou um dos guardas de planto:
- Assuma o comando aqui. Tenho uma misso a fazer. Voltarei dentro de algumas 
horas. 
"E voltarei um homem rico," pensou. "A primeira coisa que farei ser comprar um 
carro novo 
- um Seat. Azul. No, talvez branco seja melhor."

O coronel Ramn Acoca desligou e ficou imvel, deixando o crebro trabalhar. 
Desta vez no 
queria erro algum. Era o movimento final na partida de xadrez entre os dois, 
embora soubesse que 
Mir teria sentinelas alertas para o perigo.
Acoca chamou o seu ajudante-de-ordens.
- Pois no, coronel?
- Escolha duas dzias dos seus melhores homens. Providencie para que estejam 
armados com 
armas automticas. Partiremos para Salamanca dentro de 15 minutos.
- Claro, senhor.
No havia escapatria para Mir. A estalagem seria completamente cercada, os 
homens 
avanariam depresa, sem qualquer baru-lho. "Um ataque de surpresa antes que o 
carniceiro possa 
assassinar mais algum dos meus homens. Mataremos todos enquanto dormem."

O sargento Santiago no perdeu tempo em chegar  estalagem. Mesmo sem a 
advertncia do 
coronel, no tinha a menor inteno de atacar os terroristas. Mas agora, em 
obedincia s ordens de 
Acoca, permaneceu nas sombras, a vinte metros da estalagem, num ponto que tinha 
boa vista a porta 
da frente. Fazia frio, mas o pensamento da recompensa mantinha Santiago 
aquecido. Especulou se 
as duas mulheres l dentro eram bonitas e se estariam na cama junto com os 
homens. De uma coisa 
Santiago tinha certeza: dentro de poucas horas todos estariam mortos.

O camio do exrcito atravessou a cidade sem alarme e seguiu para a estalagem. O 
coronel 
Acoca acendeu uma lanterna e estudou o mapa.
- Pare aqui - disse ele, a um quilmetro e meio da estalagem. - Seguiremos a p 
o  restante 
do caminho. Mantenham-se em silncio.
Santiago no percebeu a aproximao at que a voz em seu ouvido sobressaltou-o 
com uma 
pergunta:
- Quem  voc?
Ele virou-se e descobriu-se diante do coronel Ramn Acoca. "Por Deus," pensou 
Santiago, 
"ele tem uma aparncia assustadora!"
- Sou o sargento Santiago, senhor.
- Algum saiu da estalagem?
- No, senhor. Esto todos l dentro, provavelmente em sono profundo a esta 
altura.
O coronel virou-se para seu ajudante-de-ordens.
- Quero que a metade dos homens serquem a estalagem. Se algum tentar escapar, 
eles devem 
atirar para matar. Os outros iro comigo. Os fugitivos esto em dois quartos nos 
fundos, no segundo 
andar. Vamos embora.
Santiago observou o coronel e seus homens entrarem pela porta da frente da 
estalagem, em 
silncio. Especulou se haveria tiroteio. E se hovesse, pensou no perigo de que o 
tio podesse morrer 
no fogo cruzado. Seria uma pena. Mas, por outro lado, no haveria mais ningum 
com quem partilhar 
o dinheiro da recompensa.
Quando o coronel Acoca e seus homens chegaram ao  alto da escada, ele sussurrou:
- No corram riscos. Abram fogo assim que os virem.
- Gostaria que eu fosse na sua frente, coronel? - perguntou o ajudante-de-ordens
- No. - Acoca queria ter o prazer de matar Jaime Mir pessoalmente.
No final do corredor estavam os dois quartos em que Mir e seus terroristas 
dormiam.

Acoca fez sinal em silncio para que alguns homens cobrissem uma porta e seis 
ficaram na 
outra.
- Agora! - gritou.
Era o momento pelo qual tanto ansiava. ao  seu sinal, os homens chutavam as 
portas ao  
mesmo tempo e entraram correndo nos quartos, as armas levantadas. Pararam no 
meio dos quartos, 
as armas levantadas. Pararam no meio dos quartos vzios, olhando para as camas 
desarrumadas.
- Espalhem-se! - berrou Acoca. - Depressa! L embaixo!
Os soldados revistaram todos os quartos, arrombando portas, acordando hspedes 
aturdidos. 
Jaime Mir e os outros no estavam em parte alguma.
O coronel desceu furioso para uma confrontao com o recepcionista. No havia 
ningum 
no saguo.
- Al! - ele gritou - Al!
No houve resposta. O covarde estava se escondendo.
Um dos soldados olhava para o cho, por trs da recepo.
- Coronel...,
Acoca foi para o seu lado e olhou para o cho. O corpo amarrado e amordaado do 
recepcionista estava ali, encostado na parede. Com um cartaz pendurado no 
pescoo. Dizia: FAVOR 
NO INCOMODAR.

         Captulo 24



Rubio Arzano observou, horrorizado, enquanto Lucia desaparecia sob as guas 
turbulentas 
e era arrastada pela correnteza. Numa frao de segundos, ele virou-se e saiu 
desesperado pela 
margem do rio, pulando sobre pequenos troncos  e moitas. Na primeira curva do 
rio vislumbrou o 
corpo de Lucia se aproximando. Mergulhou e nadou freneticamente para alcan-la, 
lutando contra 
a forte correnteza. Era quase impossvel. Sentiu que estava sendo puxado. Lucia 
se encontrava a 
apenas trs metros dele, mas parecia a quilmetros. Ele fez um ltimo e herico 
esforo, conseguiu 
segurar-lhe o brao, os dedos quase escorregando. Segurou-a firme, enquanto 
comeava a voltar  
segurana da margem.
Quando por fim atingiu a margem, Rubio puxou Lucia para a relva e deitou-a, 
tentando 
recuperar o flego. Ela estava inconsciente e sem respirar. Rubio virou-a de 
barriga para baixo, 
montou-a   e comeou a massagear-lhe os pulmes. Um minuto passou, depois dois;  
quando j se 
desesperava, um jacto de gua saiu-lhe pela boca e Lucia gemeu. Rubio murmurou 
uma prece de 
graas.
Ele manteve a presso, mais gentil agora, at as batidas do corao de Lucia se 
tornarem 
firmes. Quando ela comeou a tremer de frio, Rubio correu para algumas rvores e 
pegou um 
punhado de folhas. Levou-as para junto de Lucia, para enxugar-lhe o corpo. Ele 
tambm estava 
molhado e com frio, as roupas encharcadas, mas no prestou a menor ateno a 
isso. Ficara em 
pnico, com medo de que irm  Lucia morresse. Agora, enquanto esfregava 
gentilmente o corpo nu 
com as folhas secas, pensamentos indignos afloraram-lhe  mente.
"Ela tem o corpo de uma deusa. Perdoe-me, Senhor, ela Lhe pertence, e no devo 
acalentar 
esses pensamentos horrveis..."
Lucia foi gradativamente despertada pela massagem suave em seu corpo. Estava na 
praia, a 
lngua de Ivo deslocava-se por seu corpo. "Ah, est bom," pensou. "Continue. No 
pare, meu 
querido." Sentiu-se excitada antes mesmo de abrir os olhos.
o cair no rio, o ltimo pensamento de Lucia fora o do homem que a salvara. Sem 
querer 
pensar, Lucia estendeu as mos e puxou Rubio. Havia uma expresso de surpresa 
chocada no rosto 
dele.
- Irm... - protestou ele. - No podemos...
- Psiu! - Os lbios de Lucia encontraram-se com os de Rubio, impetuosos, 
sfregos, 
exigentes, sua lngua explorava-lhe o interior da boca. Era demais para Rubio.
- Depressa! - sussurrou Lucia - Depressa! - Observou Rubio  tirar nervosamente 
as roupas 
molhadas." Ele merece uma recompensa," pensou Lucia. "E eu tambm." ao  tornar a 
se aproximar, 
hesitante, Rubio murmurou:
- Irm, no devermos...
Lucia no es
                                                        tava com disposio para conversas. Sentiu o corpo de Rubio se unir         
ao  se                                u, 
num ritual eterno, entregou-se s gloriosas sensaes que a dominaram. E foi 
tudo ainda melhor por 
causa de seu quase encontro com a morte.
Rubio era um amante surpreendentemente bom, ao  mesmo tempo gentil e impetuoso. 
Possua 
uma vulnerabilidade que surpreendeu Lucia. E havia uma expresso de tanta 
ternura em seus olhos 
que ela sentiu um sbito aperto na garganta. 

"Espero que esse campons no se apaixone por mim. Ele est ansioso demais para 
me 
agradar. Quando foi a ltima vez em que um homem se empenhou tanto em me 
agradar?" E Lucia 
pensou no pai. Especulou se ele teria gostado de Rubio Arzano. E depois indagou 
por que especulava 
se o pai teria gostado de Rubio Arzano. "Devo estar louca. Este homem  um 
campons. Sou Lucia 
Carmin, a filha de Angelo Carmine. A vida de Rubio no tem nada a ver com a 
minha. Fomos 
reunidos apenas por um estpido acidente do destino."
Rubio abraava-a e murmurava:
- Lucia, minha Lucia...
E o brilho em seus olhos dizia a Lucia tudo o que ele sentia. "Ele  to terno," 
pensou ela. E 
depois: "O que h comigo? Porque estou pensando nele assim? Estou fugindo da 
polcia e..." 
Lembrou-se de repente da cruz de ouro e soltou um ofego. "?h, Deus! Como pude 
esquecer, mesmo 
que por u momento apenas?"  Sentou-se no mesmo instante.
- Rubio, deixei um..., um embrulho na margem do rio, l atrs. Poderia traz-lo 
para mim, por 
favor? E minhas roupas tambm?
- Claro. Voltarei num instante.
Lucia ficou sentada,  espera, frentica pela possibilidade de ter acontecido 
alguma coisa  
cruz. E se tivesse desaparecido? E se algum passara e a levara?
Foi com um enorme sentimento de alvio que viu Rubio voltar com a cruz 
embrulhada 
debaixo do brao. "No devo deixar que fique longe da minha vista outra vez."
- Obrigada - disse para Rubio.
Rubio entregou-lhe as roupas. Lucia fitou-o e disse,  insi-nuante:
- No vou precisar disso imediatamente...

O sol em sua pele nua fazia Lucia sentir-se indolente e quente,  e estar nos 
braos de Rubio 
era um conforto maravilhoso. Era como se tivesse encontrado um osis pacfico. 
Os perigos de que 
fugiam pareciam a anos-luz de distncia.
- Fale-me a respeito de sua fazenda - pediu Lucia.
O rosto de Rubio se iluminou e havia orgulho em sua voz.
- Era uma fazenda pequena, nos arredores de uma aldeia perto de Bilao. Pertencia 
 minha 
famlia h geraes.
- O que aconteceu?
A expresso de Rubio tornou-se sombria.
- Porque sou um basco, o governo de Madri puniu-me com impostos extras. Recusei-
me a 
pagar,  e confiscaram-me a fazenda. Foi nessa ocasio que conheci Jaime Mir. 
Uni-me a ele para 
lutar contra o governo pelo que  justo. Tenho me e duas irms, um dia vamos 
recuperar nossa 
fazenda e tornarei a administr-la.
Lucia pensou no pai e  dois irmos, trancafiados na priso para sempre.
-  muito ligado  sua famlia?
Rubio sorriu, efusivamente.
- Claro. A famlia  o nosso primeiro amor, no acha? 
", sim," pensou Lucia. "Mas jamais tornarei a ver a minha."
- Fale-me a respeito de sua famlia, Lucia. Antes de entrar no convento, eram 
muito unidos?
A conversa enveredava por um rumo perigoso. "O que posso lhe dizer? Meu pai  um 
mafioso. Ele e meus dois irmos esto na priso por homicdio."
- ramos, sim... muito unidos.
- O que faz o seu pai?
- Ele... ele  um homem de negcios.

- Tem irmos e irms?
- Dois irmos. Trabalham com papai.
- Por que foi para o convento, Lucia?
"Porque a polcia me procura por ter asssassinado dois homens. Preciso de acabar 
com esta 
conversa," pensou Lucia. Em voz alta, ela disse:
- Eu precisava escapar.
"Est bem perto da verdade."
- Sentiu que o mundo era... era demais para voc?
- Mais ou menos isso.
- No tenho o direito de dizer isso, Lucia, mas estou apai-xonado por voc.
- Rubio...
- Quero casar com voc. Em toda a minha vida, nunca disse isso a outra mulher. - 
Havia algo 
comovente e srio nele.
"Rubio no sabe jogar," pensou Lucia. "Preciso tomar cuidado para no mago-lo. 
Mas a 
perspectiva da filha de Angelo Carmine se tornar esposa de um campons  
demais!" Ela quase soltou 
uma risada.
Rubio interpretou de maneira errada o sorriso no rosto de Lucia.
- No viverei escondido para sempre. O governo ter de fazer a paz com a gente. 
Voltarei 
ento para a minha fazenda. "Querida..." Quero passar o resto da vida fazendo 
voc feliz. Teremos 
muitos filhos, e as meninas crescero para serem como voc... 
"No posso deix-lo continuar assim," decidiu Lucia. "Preciso det-lo agora." 
Mas por algum 
motivo, no foi capaz. Ficou escutando Rubio descrevere imagens romnticas da 
vida que leva-riam 
juntos, descobriu-se quase a desejar que pudesse acontecer. Estava cansada de 
fugir. Seria 
maravilhoso encontrar um refgio em que pudesse permanecer s e salva, protegida 
por algum que 
a amasse... "Devo estar perdendo o juzo." 
- No falemos mais sobre isso agora - murmurou Lucia. - Devemos partir.

Os dois viajaram  para o nordeste, seguindo pela margem sinuosa do rio Duero, 
com seus 
campos  ondulados e rvores exuberantes. Pararam na pitoresca aldeia de Villalba 
de Duero para 
comprar po, queijo e vinho, e fizeram um piquenique idlico numa campina 
relvada.
Lucia sentiu-se contente ao  lado de Rubio. Havia nele uma fora tranquila que 
lhe parecia 
dar fora tambm. "Ele no  para mim, mas tornar muito feliz alguma mulher 
afortunada," pensou 
ela.
Depois que terminaram de comer, Rubio disse:
- A prxima cidade  Aranda.  bem grande. Seria melhor se a contornssemos, a 
fim de 
evitar o  "GOE" e os  soldados.
Era o momento da verdade, a hora de deix-lo. Lucia estivera  espera que se 
aproximassem 
de uma cidade maior. Rubio Arzano e sua fazenda eram um sonho, a fuga para a 
Sua era a 
realidade. Lucia  sabia o  quanto o magoaria e no suportou fit-lo nos olhos 
quando disse:
- Rubio... eu gostaria que fssemos para a cidade.
Ele franziu o rosto.
- Pode ser perigoso, "querida." Os soldados...
- No estaro  nossa procura ali. - Ela pensou rapidamente. - Alm do mais, 
eu... eu preciso 
de uma muda de roupa. no posso continuar assim.

A perspectiva de entrar na cidade perturbava Rubio, mas ele se limitou a dizer:
- Se  isso o que voc quer...
o longe, os muros de Arana de Duero assomaram  diante deles, como uma montanha 
construda  pelo homem.
Rubio tentou mais uma vez. - Lucia...  tem certeza que precisamos ir  cidade?
- Tenho,  sim.

Os dois atravessaram a comprida ponte que levava  via principal, a Avenida 
Castilla. 
Passaram por uma usina de aucar, igrejas e lojas de aves, o ar impregnado com 
uma variedade de 
cheiros. Lojas e prdios de apartamentos margeavam a avenida. Lucia avistou 
finalmente o que 
procurava... uma placa que dizia CASA DE "EMPEOS" - uma loja de penhores. Ela 
continuou 
calada.
Chegaram  praa, com suas lojas, mercados e bares, passaram pela Taverna Cueva, 
com um 
balco comprido e mesa de madeira. Havia uma vitrola automtica l dentro, 
salames e fieiras de alho 
pendurado no tecto em vigas.
Lucia percebeu a oportunidade.
- Estou com sede, Rubio. Podemos entrar?
- Claro.
Rubio pegou-a pelo brao e entraram no bar.
Havia alguns homens no balco. Lucia e Rubio foram para uma mesa no canto.
- O que vai querer, "querida?"
- Pea um copo de vinho para mim, por favor. Voltarei num instante. Tem uma 
coisa que 
preciso fazer. - Levantou-se e saiu para a rua, deixando Rubio perplexo.
L fora, Lucia voltou apressada at a Casa de "Empeos," apertando com fora a 
cruz 
embrulhada. No outro lado da rua avistou uma placa preta com letras brancas que 
dizia: POLCIA. 
Fitou-a por um momento, o corao quase parando, depois virou-se e entrou na 
loja de penhores.
Um homem encarquilhado, com uma cabea enorme, estava atrs do balco, mal 
visvel. 
"- Buenos das, seorita."
"- Buenos das, seor." Tenho uma coisa que gostaria de vender. - Estava to 
nervosa que 
precisou comprimir os joelhos com fora, a fim de evitar que tremessem.
"- S?"
Lucia desembrulhou a cruz de ouro e estendeu-a.
- Estaria... estaria interessado em comprar isto?
O homem pegou a cruz, e Lucia percebeu o brilho em seus olhos.
- Posso perguntar onde adquiriu isto?
- Foi deixada por um tio que acaba de morrer. - A garganta estava to seca que 
Lucia mal 
conseguia falar.
O homem pegou a cruz, virando-a lentamente.
- Quanto est pedindo?
O sonho se transformava em realidade.
- Quero 250  mil pesetas.
Ele franziu o rosto e sacudiu a cabea.
- No. Vale apenas cem mil pesetas.
- Prefiro vender meu corpo primeiro.
- Talvez eu pudesse chegar a 150 mil pesetas.
- Prefiro derret-la e deixar o ouro escurrer pelas ruas.
- Duzentas mil pesetas.  a minha ltima oferta.
Lucia tirou-lhe a cruz de ouro.

- Est me roubando vergonhosamente, mas vou aceitar. - Percebeu o excitamento no  
rosto 
do homem. 
"- Buenos, seorita." - Estendeu as mos a cruz, Lucia puxou-a.
- H uma condio.
- Que condio, "seorita?"
- Meu passaporte foi roubado. Preciso de um novo, a fim de poder deixar o pas 
para visitar 
minha tia doente. Ele a estudava agora,  cauteloso. Balanou a cabea.
- Entendo...
- Se puder me ajudar a resolver o problema, a cruz  sua.
Ele suspirou.
- No  fcil arrumar passaportes, "seorita." As autoridades so muito 
rigorosas.
Lucia fitava-o em silncio.   
- No sei como poderia ajud-la.
- De qualquer forma, obrigada, "seor." - Encaminhou-se para a porta. O homem 
deixou-a 
chegar l antes de dizer:
"- Momentito."
Lucia parou.
- Acabo de me lembrar de uma coisa. Tenho um primo que s vezes se envolve em 
questes 
delicadas desse tipo.  um primo  "distante," espero que compreenda.
- Claro que compreendo.
- Eu poderia falar com ele. Quando vai precisar desse passaporte?
- Hoje.
A cabea enorme balanou para cima e para baixo.
- E se eu conseguir, temos um negcio fechado?
- Quando eu receber o passaporte.
- Combinado. Volte depois das oito horas, e meu primo estar aqui. Ele 
providenciar a 
fotografia necessria e por em seu passaporte.
Lucia sentiu o corao disparar.
- Obrigada, "seor." 
- No gostaria de deixar a cruz aqui, como medida de segurana?
- Estar segura comigo.
- Oito horas ento. "Hasta luego."
Ela deixou a loja. L fora, evitou com todo cuidado a delegacia de polcia e se 
encaminhou 
para a taverna, onde Rubio a esperava. Comeou a andar mais devagar. Finalmente 
conseguia o que 
queria. Com o dinheiro da cruz, poderia alcanar a Sua e a liberdade. Deveria 
estar feliz mas, em 
vez disso,  sentia-se estranhamente deprimida.  
"O que h de errado comigo? Estou a caminho. Rubio me esquecer em breve. 
Encontrar 
outra."
Recordou a expresso nos olhos de Rubio quando lhe disse: "Quero casar com voc. 
Nunca 
disse isso a outra mulher em toda a minha vida."
"Dane-se ele!,"  pensou. "Ora, ele no  problema meu."
Diante da taberna, Lucia parou e respirou fundo; forou ento um sorriso e 
entrou para se 
juntar a Rubio.

         Captulo 25



Os meios de comunicao estavam alvoroados. As manchetes se sucediam. Houvera o 
ataque ao  convento, a priso das freiras por abrigar terroristas, a fuga de 
quatro freiras, o 
fuzilamento de cinco soldados por uma das freiras, antes de ela ser alvejada e 
morta. As agncias 
noticiosas internacionais estavam excitadas.
Reprteres do mundo inteiro chegaram a Madri,    e o primeiro-ministro Leopoldo 
Martnez, 
num esforo para atenuar a crise, concordava em conceder uma colectiva. Quase 
cinquenta reprtes 
do mundo todo se reuniram em seu gabinete. Os coroneis Ramn Acoca e Fal Sostelo 
estavam ao 
 seu lado. O primeiro-ministro vira na manchete do "Times" de Londres naquela 
tarde: 
TERRORISTAS E FREIRAS ESCAPAM DO EXRCITO E da POLCIA DA ESPANHA.
Um reprter do "Paris Match" perguntou:
- Senhor primeiro-ministro, tem alguma ideia do paradeiro das freiras neste 
momento?
- O coronel Ramn Acoca est no comando da operao de busca - respondeu o 
primeiro-ministro Martnez. - Deixarei que ele responda.
- Temos motivos para acreditar que se encontram em poder dos terroristas bascos 
- falou 
Acoca. - Tambm lamento informar que h indcio de que as freiras esto 
colaborando com os 
terroristas.
Os reprtes escreviam febrilmente.
- O que tem a dizer sobre a morte de irm  Teresa e dos soldados?
- Temos informaes de que a irm Teresa trabalhaba com Jaime Mir. Sob o 
pretexto de nos 
ajudar a encontrar Mir, ela entrou no acampamento do exrcito e fuzilou cinco 
soldados antes que 
fosse possvel det-la. Posso assegurar que o exrcito e o "GOE" esto envidando 
todos os esforos 
para levar os criminosos  justia.
- E as freiras que foram presas e trazidas para Madri?
- Esto sendo interrogadas - respondeu Acoca.
O primeiro-ministro queria encerrar a entrevista o mais depressa possvel. Tinha 
dificuldades 
para manter o controle. O fracasso em localizar as freiras e capturaros 
terroristas faziam com que seu 
governo - e ele prprio - parecesse inapto e tolo, permitindo que a imprensa 
tirasse o mximo de 
proveito da situao. 
- Pode nos dizer alguma coisa sobre os antecedentes das quatro freiras que 
escaparam, 
primeiro-ministro? - perguntou um reprter de "Oggi."
- Sinto muito, mas no posso fornecer novas informaes. Repito, senhoras e 
senhores, o 
governo est fazendo tudo ao  seu alcance para encontrar as freiras.
- Primeiro-ministro, h rumores sobre a brutalidade do ataque ao  convento em 
vila. Poderia 
fazer algum comentrio a esse respeito?
Era uma questo delicada para Martnez, por ser verdade. O coronel Acoca 
ultrapassara em 
muito a sua autoridade. Mas cuida-ria dele mais tarde. Naquele momento para 
demonstrar unio. 
Virou-se para o coronel e disse suavemente:
- O coronel Acoca pode responder a isso.

- Tambm j ouvi esses rumores infundados - retrucou Acoca. - Os factos so 
simples. 
Recebemos informaes confiveis de que o terrorista Jaime Mir e uma dzia de 
seus homens 
escondiam-se no convento Cisterciense e que estavam fortemente armados. Quando 
chegamos ao 
 convento, no entanto, eles j haviam fugido.
- Coronel, soubemos que alguns dos seus homens molestaram...
- Isso  uma acusao afrontosa!
- Obrigado, senhoras e senhores  -     interveio o primeiro-ministro Martnez.  
- Sero 
informados de tudo e de qualquer acontecimento novo.
Depois que os reprteres se retiraram, o primeiro-ministro virou-se para os 
coronis Acoca 
e Sostelo.
- Eles esto fazendo com que pareamos selvagens aos olhos do mundo.
Acoca no tinha o menor interesse pela opinio do  primeiro- -ministro. O que o 
preocupava 
era um telefonema que recebera a meia-noite.

- Coronel Acoca?
Era uma voz que conhecia muito bem. Despertara imediatamente.
- Pois no, senhor.
 Estamos desapontados com voc. Espervamos resultados mais rpidos.
- Estou chegando perto, senhor. - Ele descobrira que suava profundamente. - 
Peo-lhe um 
pouco mais de pacincia. No vou desapont-lo. - Prendera a respirao,  espera 
da resposta.
- Seu tempo est se esgotando.
A ligao fora cortada.
O coronel Acoca tambm desligara e continuara sentado, frustrado. Onde est o 
miservel 
do Mir? 

         Captulo 26


Vou mat-la," pensou Ricardo Mellado. "Poderia estrangul-la com minhas prprias 
mos, 
jog-la do alto da montanha ou simplesmente fuzil-la.    No,  acho que 
estrangul-la me daria   mais 
prazer."
Irm Graciela era o ser humano mais exasperante que j conhecera. Era 
insuportvel. No 
comeo, quando Jaime Mir o incumbira de escot-la,  Ricardo Melado ficara 
satisfeito. Era uma 
freira,  verdade, mas tambm era a beldade mais deslumbrante que j 
contemplara. Estava decidido 
a conhec-la melhor, descobrir por que tomara a deciso de trancafiar toda 
aquela beleza excepcional 
por trs dos muros do convvento pelo resto da sua vida. Sob a saia e blusa que 
ela usava, Ricardo 
Mellado podia discernir as curvas  espetaculares de uma mulher. "Ser uma viagem 
muito 
interessante," concluiu ele.
Mas as coisas haviam enveredado por um rumo totalmente inesperado. Irm Graciela 
recusava-se a falar-lhe. No dissera uma nica palavra desde o incio da viagem, 
e o que mais descon-
centrava Ricardo era o facto de que ela no parecia zangada, assustada ou 
transtornada. De jeito 
nenhum. Apenas  se retirara para alguma parte remota de si mesmo e dava a 
impresso de total 
desinteresse por ele e tudo o que acontecia ao  seu redor. Viajaram num bom 
ritmo, andando por 
estradas secundrias, quentes e poeirentas, passando por trigais, ondulando 
dourados ao  sol, 
plantaes de cevada, aveia e vinhedos. Contornando as pequenas aldeias pelo 
caminho, Berroccule 
e Aldeavieja, passando por campos de girassis, os rostos amarelos acompanhando 
o sol.
o cruzar o Rio Moro, Ricardo perguntou:
- Gostaria de descansar um pouco, irm?
Silncio.
Aproximaram-se de Segvia, antes de seguirem para o norte, na direco das 
montanhas de 
picos nevados das Guadarrama. Ricardo continuava a tentar  puxar conversa, 
polidamente, mas era 
completamente intil.
- Chegaremos a Segvia em breve, irm. 
No hove qualquer reao.
"O que fiz para ofend-la?"
- Est com fome, irm?
Nada.
Era como se ele no estivesse ali. Nunca se sentira to frustrado em toda a  sua 
vida. "Talvez 
a mulher seja retardada," pensou. "Essa deve ser a resposta. Deus lhe concedeu 
uma beleza sublime 
e depois amaldioou-a com uma mente fraca." Mas ele no acreditava nisso.

o chegar aos arredores de Segvia, Ricardo notou  que a cidade estava apinhada 
de gente, 
o que  significava que a Guarda Civil se manteria mais alerta do que nunca. ao  
se aproximarem da 
Plaza del Coonde de Cheste, ele viu soldados patrulhando na direco dos dois. E 
sussurrou:
- Segure minha mo, irm. Devemos dar a impresso de que somos dois namorados em 
passeio.
Ela ignorou-o. 
"Meu Deus!," pensou Ricardo. "Talvez ela seja surda-muda."

Inclinou-se e pegou-lhe a mo, ficou aturdido com a sbita e vigorosa 
resistncia de irm 
Graciela. Ela puxou a mo como se tivesse sido picada.
Os guardas estavam cada vez mais perto. Ricardo tornou a se inclinar para 
Graciela e disse, 
em voz alta: - No deve ficar zangada. Minha irm pensa da mesma maneira. Ontem 
 noite, depois 
do jantar e de pr as crianas na cama, ela disse que seria muito melhor se os 
homens no se 
sentassem separados, fumando charutos fedorosos e contando histrias, esquecidos 
das mulheres. 
Aposto...
Os guardas passaram. Ricardo virou-se para fitar Graciela, que se mantinha 
impassvel. 
Mentalmente, Ricardo comeou a praguejar contra Jaime, desejando que ele o 
tivesse incumbido de 
alguma das outras freiras. Aquela era feita de pedra, no havia nenhum cinzel 
bastante duro para 
penetrar naquele exterior frio.
Com toda a modstia, Ricardo Mellado sabia que era atraente para as mulheres. 
Muitas j lhe 
haviam dito isso. Tinha a pele clara, alto e de boa compleio, nariz 
aristocrata, o rosto inteligente, 
dentes brancos e perfeitos. Vinha de uma das mais proeminentes famlias bascas. 
O pai era um 
banqueiro no pas basco ao  norte e providenciara para que Ricardo recebesse a 
melhor educao. 
Cursara a Universidade de Salamanca, e o pai aguardava ansioso que o filho se 
juntasse a ele no 
comando da empresa da famlia.
o sair da faculdade e voltar para casa, Ricardo foi traba-lhar no banco, 
submisso, mas pouco 
tempo depois comeou a envol-ver-se com os problemas de seu povo. Passou a 
comparecer a reu-
nies, comcios e protestos contra o governo, e no demorou muito a tornar-se um  
dos lderes da 
"ETA." O pai, ao  saber das actividades do filho, convocou-o  sua vasta sala, 
revestida de madeira, 
para um sermo.
- Sou um basco tambm, Ricardo, mas tambm sou um banqueiro. No podemos 
estragar 
tudo ao  fornecer uma revoluo no pas em que ganhamos a vida.
- Ningum  pretende derrubar o governo, pai. Tudo o que queremos  liberdade. A 
opresso 
do governo aos bascos e catales  intolervel.
O velho Mellado recostou-se na cadeira e estudou o filho.
- Meu bom amigo, o prefeito, enviu-me um aviso discreto ontem. Sugeriu que seria 
melhor 
para voc no comparecer mais a comcios. Acho que deve concentrar suas energias 
nos negcios 
bancrios.
- Pai...
- Quero que me escute, Ricardo. Quando eu era jovem, tambm tinha sangue quente. 
Voc 
est noivo de uma moa maravilhosa. Espero que tenham muitos filhos. - Acenou 
com a mo pela 
sala. - E voc tem muita coisa a esperar de seu futuro.
- Mas ser que no percebe...?
- Percebo mais claramente do que voc, meu filho. Seu futuro sogro tambm est 
infeliz com 
suas actividades. Eu no gostaria que acontecesse alguma coisa que impedisse o 
casamento. Estou 
sendo claro?
- Est sim, pai.
No sbado seguinte Ricardo Mellado foi preso ao  liderar uma manifestao basca 
num 
auditrio em Barcelona. Recusou-se a permitir que o pai pagasse a fiana, a 
menos que tambm 
pagasse as fianas dos outros manifestantes detidos. O pai no concordou. A 
carreira de Ricardo foi 
encerrada, assim como o noivado. Isso acontecera cinco anos antes. Cinco  anos 
de perigos e fugas 
por um triz. Cinco anos repletos com a emoo da luta por uma causa em que 
acreditava 
fervorosamente. Agora estava em fuga, escapando da polcia, escotando uma freira 
retardada e muda 
atravs da Espanha.

- Vamos por aqui - disse  irm Graciella,  para no tocar em seu brao.
Deixaram a rua principal e entraram na Calle de San Valentm. Na esquina havia 
uma loja que 
vendia artigos musicais.
- Tenho uma ideia - disse Ricardo. - Espere aqui, irm. Voltarei num instante. - 
Entrou na loja 
e encaminhou-se para um jovem vendedor, parado atrs do balco.
"- Buenos das." Posso ajud-lo?
- Pode, sim. Gostaria de comprar duas guitarras.
O jovem sorriu.
- Est com sorte. Acabamos de receber algumas Ramirez. So as melhores.
- Talvez alguma coisa inferior. Minha amiga e eu somos apenas amadores.
- Como quiser, "seor." O que acha dessas? - O vendedor foi para uma seco da 
loja em que 
havia uma dzia de guitarras expostas. - Posso vender-lhe duas Konos por cinco 
mil pesetas cada 
uma.
- Acho que no. - Ricardo escolheu duas guitarras, com a remota esperana de que 
irm 
Graciela tivesse desaparecido, mas ela continuava pacientemente parada ali,  
sua espera. Ricardo 
abriu a correia de uma guitarra e estendeu para ela.
-  Tome aqui, irm. Pendure no ombro.
Ela fitou-o aturdida.
- No precisa de tocar - explicou Ricardo. -  apenas um disfarce. - Empurrou a 
guitarra e 
Graciela pegou-a, relutante.
Os dois caminharam pelas ruas sinuosas de Segvia, passando sob o enorme viaduto 
construdo pelos romanos sculos antes.
Ricardo resolveu tentar outra vez.
- Est vendo este viaduto, irm? No h cimento entre as pedras. Segundo contam, 
foi 
construdo pelo demnio h dois mil anos, pedra sob pedra, sem nada para mant-
las juntas alm da 
magia do demnio.
Nada.
"Ela que se dane," pensou Ricardo Mellado. "Eu desisto."
Os soldados da Guarda Civil estavam por toda a parte. Sempre que eles passavam 
por eles, 
Ricardo fingia estar empenhado numa conversa interessante com Graciela, 
cauteloso para evitar qual-
quer contacto fsico.
O nmero de polcias e soldados parecia estar aumentando, mas Ricardo sentia-se 
relactivamente seguro. Estariam  procura de uma freira de hbito e um grupo de 
homens de Jaime 
Mir; no teriam motivos para desconfiar de um jovem casal de turistas 
carregando guitarras.
Ricardo estava com fome e tinha certeza que o mesmo acontecia com a irm 
Graciela, embora 
ela nada dissesse. Passaram por um pequeno caf.
- Vamos parar aqui e comer alguma coisa, irm.
Ela parou e fitou-o.
Ricardo suspirou.
- Est bem. Como preferir.
Entrou no pequeno caf.  Um momento depois,   Graciela seguiu-o.
- O que vai querer, irm?, - perguntou Ricardo aps se sentarem.
No houve resposta. Ela era irritante.
Ricardo ento pediu  garonete.
- Dois "gazpachos" e duas pores de "chorizos."

Quando a sopa e as linguias foram servidas, Graciela comeu o que foi posto  
sua frente. 
Ricardo notou que ela comia automaticamente, sem desfrutar, como se cumprisse 
algum dever. Os 
homens sentados s outras mesas observavam-na, e Ricardo no pudia culp-los." 
Seria preciso um 
Goyta para captar sua beleza," pensou ele. Apesar do comportamento taciturno de 
Graciela, Ricardo 
sentia um aperto na garganta cada vez que a contemplava e se censurava por ser 
um tolo romntico. 
Ela era um  enigma, sepultada por trs de alguma muralha impenetrvel. Ricardo 
Mellado conhecera 
dezenas de belas mulheres, mas nenhuma jamais o afetara daquela maneira. Havia 
algo quase mstico 
em sua beleza. A ironia era que ele no tinha absolutamente a menor ideia do que 
havia por trs 
daquela fachada espectacular. No sabia se ela era inteligente ou estpida. 
Interessante ou chata? Fria 
ou ardente? "Espero que ela seja estpida, chata e fria," pensou  Ricardo, "ou 
eu no suportaria 
perd-la. Como se algum dia pudesse t-la. Ela pertence a Deus." Ele desviou os 
olhos, com receio 
que Graciela pudesse perceber seus sentimentos.
Quando chegou a hora de partirem, Ricardo pagou a conta e os dois se levantaram. 
Durante 
a viagem, ele notara que a irm Graciela claudicava um pouco. "Terei de 
providenciar alguma espcie 
de transporte," pensou ele. "Ainda temos um longo caminho a percorrer."
Comearam a descer a rua e na outra extremidade da cidade, no Manzanares el 
Real, 
encontraram uma caravana pitorescamente decorada, puxada por cavalos. As 
mulheres e crianas, 
vestindo trajes ciganos, viajavam nas traseiras das carroas.
- Espere aqui, irm. Vou tentar arrumar uma carona para ns - avisou Ricardo.
Aproximou-se do condutor da primeira carroa, um corpulento cigano com traje 
tpico 
completo, inclusive brincos.
"- Buenos tardes, "seor". Eu consideraria uma grande gentileza se pudesse 
oferecer uma 
carona para mim e para minha noiva.
O cigano olhou para Graciela.
-  possvel. Para onde vo?
- Para a montanha Guadarrama.
- Posso lev-los at Cerezo de Abajo.
- Seria ptimo. Fico agradecido. - Ricardo apertou a mo do cigano, passando-lhe 
algum 
dinheiro.
- Embarquem na ltima carroa.
"- Gracias."
Ricardo voltou para o lugar em que Graciela esperava, e falou:
- Os ciganos vo nos levar at Cerezo de Abajo. Viajaremos na ltima carroa.
Por um instante, ele teve certeza que Graciela ia recusar. Ela hesitou, depois 
encaminhou-se 
para a carroa.
Havia uma dzia de ciganas dentro da carroa e elas abriram espao para Ricardo 
e Graciela. 
ao  subirem, Ricardo comeou a ajudar a irm, mas ao  tocar-lhe no brao, ela 
puxou-o bruscamente, 
com uma violncia que o pegou de surpresa. "Est bem, voc que se dane." Ele 
vislumbrou a perna 
nua de Graciela quando ela subiu na carroa, e no pde deixar de pensar: "Ela 
tem as mais lindas 
pernas que j vi."
Procuraram se acomodar da melhor forma possvel no cho duro de madeira, e a 
longa 
jornada comeou. Graciela sentada num canto, os olhos fechados e os lbios se 
mexendo em orao. 
Ricardo no conseguia desviar os olhos dela.


 medida que o dia avanou, o sol tornou-se uma fornalha ardente, castigando-os, 
implacvel, 
crestando a terra, o cu de um azul profundo, sem qualquer nuvem. De vez em 
quando, com as 
carroas atravessando as plances, enormes aves a sobrevoavam. "Buitre leonado," 
pensou Ricardo. 
O abutreleo.
No  final da tarde, a caravana cigana parou e o lder aproximou-se da carroa da 
retaguarda. 
- Este  o ponto mximo a que podemos lev-los. Estamos indo para "Viuela."
"Direco errada."
- Est ptimo - disse Ricardo. - Obrigado.
Ele comeou a estender a mo para ajudar a irm Graciela a se levantar, mas 
mudou de ideia. 
Virou-se para o lder dos ciganos.
- Considerando uma gentileza se me vendesse alguma comida para ns.
O chefe virou-se para uma das mulheres e disse alguma coisa numa lngua 
estrangeira. Logo 
depois dois pacotes de comida foram entregues a Ricardo.
"- Muchas gracias." - Tirou algum dinheiro.
O lder dos ciganos fitou em silncio por um momento.
- Voc e a irm j pagaram pela comida.
"Voc e a irm." Ento ele sabia. Contudo, Ricardo no experimentou o senso de 
perigo. Os 
ciganos eram to oprimidos pelo governo quanto os bascos e catales.
"- Vayan con Dos."
Ricardo ficou parado, observando a caravana se afastar e ento virou-se para 
Graciela. Ela 
observava-o, em silncio, impassvel.
- No ter de aturar minha companhia por muito mais tempo - assegurou Ricardo. - 
Dentro 
de dois dias estaremos em Logroo. Voc se encontrar com suas amigas ali e 
partiro para o 
convento em Mendavia.
No houve reao. Era como se ele falasse com um muro de pedra. "Estou falando 
com um 
muro de pedra."

Desceram para um vale aprazvel, com muitas macieiras, pereiras e figueiras. Ali 
perto 
passava o rio Duratn, cheio de gordas trutas. No passado, Ricardo pescara ali 
muitas vezes. Seria 
um lugar ideal para ficar e descansar, mas ainda havia um longo caminho a 
percorrer.
Ele virou-se para estudar a montanha Guadarrama, que se estendiam  sua frente. 
Ricardo 
conhecia a regio muito bem. Havia vrias trilhas para atravessar a cadeia de 
montanhas. "Cabras," 
selvagens cabritos monteses, e lobos rondavam os caminhos, e Ricardo escolheria 
o caminho mais 
curto se estivesse viajando sozinho. Mas com a Irm Graciela ao  seu lado, ele 
optou pelo mais 
seguro.
-  melhor comearmos logo - disse Ricardo. - Temos uma longa subida pela 
frente.
No tinha a menor inteno de perder o encontro com os outros em Logroo. A irm 
silenciosa que se tornasse   problema  de outra pessoa.
Irm Graciela estava parada,  espera que Ricardo indicasse o caminho. Ele 
virou-se e 
comeou a subir. No demorou muito para que Graciela escorregasse em algumas 
pedras na ngreme 
trilha e Ricardo instintivamente estendeu a mo para ajud-la. Ela empurrou-lhe 
a mo bruscamente 
e recuperou o equilbrio. "Como quiser," pensou ele, furioso. "Pode quebrar o 
pescoo."

Continuaram a subir, encaminhando-se para o majestoso pico l em cima. A trilha 
foi se 
tornando cada vez mais ngreme e estreita, o ar frio era mais rarefeito. 
Seguiram para leste, passando 
por uma floresta de pinheiros.  frente deles ficava uma aldeia que tinha um 
refgio para esquiadores 
e alpinistas. Ricardo sabia que encontrariam   ali comida quente, calor e 
descanso. Era tentador. "Mas 
muito perigoso," concluiu. Seria um lugar perfeito para Acoca montar uma 
armadilha. Virou-se para 
irm Graciela. - Vamos contornar a aldeia. Pode andar mais um pouco, antes de 
pararmos para 
descansar?
Ela fitou-o e, como resposta, virou-se e recomeou a andar.
A grosseria desnecessria ofendeu-o, e ele pensou: "Ainda bem que me livrarei 
dela em 
Logroo. Por que, em nome de Deus, tenho sentimentos contraditrios em relao a 
isso?"

Os dois contornaram a aldeia, caminhando  beira da floresta, e logo se 
encontravam outra 
vez na trilha, subindo cada vez mais. A respirao se tornava mais difcil, e o 
caminho, ainda mais 
ngreme. ao  contornarem uma curva, depararam com um ninho de guia vazio. Deram 
uma volta 
para evitar outra aldeia na monta-nha, silenciosa e pacfica ao  sol da tarde, e 
descansaram nos 
arredores, parando num regato onde beberam gua gelada.
o anoitecer, alcanaram uma rea acidentada famosa por suas cavernas. A partir 
daquele 
ponto, a trilha comeava a descer. 
"Daqui por diante ser mais fcil," pensou Ricardo. "O pior j passou."
Ele ouviu um zumbido distante l em cima. Levantou os olhos,  procura. Um avio 
militar 
apareceu de repente sobre o topo da montanha, voando na direco do lugar em que 
se encontravam.
- Abaixe-se! - gritou. - Abaixe-se!
Graciela continuou a andar. O avio fez uma volta e comeou a voar mais baixo.
- Abaixe-se! - berrou Ricardo de novo.
Pulou sobre Grraciela e derrubou-a no cho, seu corpo por cima. Sem qualquer 
aviso. 
Graciela ps-se a gritar histericamente, lutando com ele. Chutou-o na virilha, 
arranhando-lhe o rosto, 
tentava arrancar os olhos. O mais espantoso, no entanto, era o que ela dizia. 
Gritava uma sucesso 
de obscenidades que deixaram Ricardo chocado, uma torrente de palavres que o 
atordoou. No 
podia acreditar que tais palavras saam daquela boca linda e inocente.
Tentou segurar as mos de Graciela, a fim de se proteger das unhas que o 
arranhavam. 
Graciela parecia uma gata selvagem por baixo dele.
- Pare com isso! - gritou Ricardo. - No vou machoc-la.  um avio militar de 
reconhecimento. Eles podem ter nos visto. Precisamos sair daqui.
Procurou imobiliz-la, at que a resistncia frentica finalmente cessou. Sons 
estranhos e 
estrangulados vinham de Graciela, e Ricardo compreendeu que ela soluava. Apesar 
de toda sua 
experincia com as mulheres, estava completamente aturdido. Encontrava-se por 
cima de uma freira 
histrica que tinha o vocabulrio de um motorista de camio e no sabia o que 
fazer em seguida. 
Procurou tornar a voz o mais calma possvel.
- Irm, precisamos encontrar um  lugar para nos escondermos e depressa. O avio 
pode ter 
comunicado a nossa presena aqui e dentro de poucas horas podr haver soldados 
por toda a parte. 
Se quer chegar ao  convento, deve se levantar e acompanhar-me. - Esperou um 
pouco, depois saiu 
de cima de Graciela e, com todo o cuidado, sentou-se ao  lado, enquanto os 
soluos se desvaneciam.

Graciela acabou se sentando. O rosto estava sujo de terra, os cabelos 
desgrenhados, os olhos 
vermelhos de chorar, mas mesmo assim sua beleza deixou Ricardo angustiado.
- Desculpe t-la assustado - murmurou. - Parece que no sei me comportar direito 
com voc. 
Prometo que me esforarei para ter mais cuidado.
Ela fitou-o, os olhos pretos luminosos marejados de lgrimas. Ricardo no tinha 
a menor ideia 
do que ela pensava naquele momento. Ele suspirou e levantou-se. Graciela  
acompa-nhou-o.        
- H dezenas de cavernas por aqui - disse Ricardo. - Vamos nos esconder em uma 
delas 
durante a noite. Continuaremos a viagem ao  amanhecer. - Seu rosto estava 
esfolado e sangrando 
onde ela o arranhara. Apesar do que acontecera, Graciela parecia indefesa, com 
uma fragilidade que 
o comovia, o que fazia querer dizer alguma coisa para tranquiliz-la. Mas agora 
era ele que permane-
cia em silncio. No podia pensar em nada para dizer. 
As cavernas haviam sido escavadas por milnios de vento, inundaes e 
terramotos, possuam 
uma variedade infinita. Algumas no passavam de simples depresses na rocha, 
outras eram tneis 
interminveis, jamais explorado pelo homem.
A um quilmetro e meio do lugar onde avistaram o avio, Ricardo encontrou uma 
caverna 
que parecia segura. A baixa entrado estava quase oculta pelas moitas.
- Espere aqui, irm. - Passou pela entrada e dirigiu-se para o interior da 
caverna. Estava 
escuro l dentro, apenas uma tnua clariedade penetrava pela abertura. No havia 
como descobrir a 
exteno da caverna, mas isso no importava, pois no havia razo  para explor-
la.
Voltou para junto de Graciela.
- Parece um lugar seguro - comentou Ricardo aps sair da caverna. - Espere l 
dentro, por 
favor. Vou pegar alguns galhos para cobrir a entrada. Voltarei em poucos 
minutos.
Observou-a entrar em silncio na caverna e especulou se ainda a encontraria ali 
quando 
voltasse. Percebeu que queria desesperadamente que ela estivesse.

Dentro da caverna, Graciela observou-o  se afastar e ento sentou-se no cho 
frio, em 
desespero.   "No possso mais aguentar," pensou ela. "Onde voc est, Jesus? Por 
favor, liberte-me 
deste inferno."
Era mesmo um  inferno. Desde o incio que Graciela lutava contra a atrao que 
sentia por 
Ricardo. Pensou no mouro. "Sinto medo de mim mesma. Quero este homem, mas no 
devo."
Por isso, ela erguera uma barreira de silncio entre os dois, o silncio com que 
vivera no 
convento. Mas agora, sem a disciplina do convento, sem oraes, sem a muleta da 
rutina rgida, 
Graciela descobriu-se incapaz de banir suas trevas ntimas. Passara anos 
combatendo os impulsos 
satnicos de seu corpo, tentando impedir que voltasse os sons lembrados, os 
gemidos e suspiros que 
vinham da cama da me.
O mouro olhava para seu corpo nu. 
"Voc  apenas uma criana. Vista-se e saia daqui..."
"Sou uma mulher!"
Passara muitos anos tentando esquecer a sensao do mouro dentro dela, tentando 
expulsar 
da mente o ritmo dos corpos se mexendo juntos, saciando-a, proporcionando o 
sentimento de estar 
finalmente viva.
A me gritando: "Sua sem-vergonha!"

O mdico dizendo: "Nosso cirugio-chefe decidiu   cuidar de voc pessoalmente. 
Disse que 
era bonita demais para ficar com cicatrizes." 
Todos os anos de oraes haviam sido para se expurgar do sentimento de culpa. E 
havia 
fracassado.
O passado  abruptamente na primeiro vez em que olhava para Ricardo. Ele era 
bonito, bom, 
gentil. Quando era pequena, Graciela sonhara com algum como Ricardo. E quando 
ele estava 
prximo, quando a tocara, seu corpo se inflamava no mesmo instante e 
experimentava uma profunda 
vergonha. "Sou a esposa de Cristo, e meus pensamentos constituem uma traio a 
Deus. Perteno 
a Voc, Jesus. Por favor, ajude-me agora. Purifique minha mente dos pensamentos 
impuros."
Graciela tentara desesperadamente manter o muro de silncio entre os dois, um 
muro pelo 
qual ningum podia penetrar,  excepo de Deus, um muro para manter o demnio 
afastado. Mas 
queria mesmo manter o demnio afastado? Quando Ricardo pulara em cima dela e a 
empurrara  para 
o cho, era o mouro lhe fazendo amor, e o frade tentando estupr-la, e, em seu 
pnico incontrolvel, 
fora contra eles que ela lutara. "No," admitiu para si mesma, "isso no  
verdade." Era contra o seu 
desejo mais profundo que lutara. Estava dividida entre o esprito e os an-seios 
da carne. "No devo 
ceder. Preciso voltar ao  convento. Ele estar aqui a qualquer momento. O que 
fazer?"
Graciela ouviu  um miado baixo no fundo  da caverna e virou- -se. Havia quatro 
olhos verdes 
fitando-os no escuro, avanou em sua direco. O corao de Graciela disparou.
Dois filhotes de lobo aproximaram-se, em passos macios, almofadados. Ela sorriu 
e  estendeu 
a mo na direco deles. Houve um sbito sussurro na entrada da caverna. 
"Ricardo est de volta," 
pensou.
No momento seguinte uma enorme loba cinzenta voava em sua garganta.

         Captulo 27


Lucia Carmine parou diante da "taverna" em Arana de Duero e respirou fundo. 
Atravs da 
janela, podia ver Rubio Arzano sentado l dentro,  sua espera.
"No devo deixar que ele desconfie," pensou Lucia. "s oito horas terei um novo 
passaporte 
e estarei a caminho da Sua."
Ela forou um sorriso e entrou na "taverna." Rubio sorriu aliviado ao  v-la, e 
a expresso em 
seus olhos, ao  se levantar,  provocou uma  pontada de angstia em Lucia.
- Eu estava muito preocupado, "querida." Passou tanto tempo fora que tive medo 
de que 
alguma coisa terrvel lhe tivesse acontecido.
Lucia ps a mo sobre a dele.
- Est tudo bem.
"Apenas comprei a minha passagem para a liberdade. Estarei fora do pas amanh."
Rubio sentou-se, fitou-a nos olhos, segurando-lhe a mo. O sentimento de amor 
que irradiava 
era to intenso que Lucia   sentiu-se apreensiva. "Ser que ele no percebe que 
nunca poderia dar 
certo? No, ele no compreende. Por que no tenho coragem de lhe contar. No 
est apaixonado por 
mim. Est apaixonado pela mulher que pensa que eu sou. E ficar muito melhor 
livre de mim."
Ela virou-se e correu os olhos pelo ambiente. Estava cheio de moradores locais.  
A maioria 
parecia observar os   dois estranhos.
Um dos jovens comeou a cantar e outros o acompanharam.
Um homem aproximou-se da mesa a que Lucia e Rubio se sentavam.
- No est cantando, "seor." Junte-se a ns.
Rubio sacudiu a cabea.
- No.
- Qual  o problema, "amigo?"
-  a cano. - Rubio viu a expresso de perplexidade de Lucia e explicou: -  
uma antiga 
cano de louvor a Franco.
Outros homens comearam a agrupar-se em torno da mesa. Era evidente que haviam 
bebido 
muito.
- Foi contra Franco, "seor"?
Lucia viu os punhos de Rubio se contrarem. "Oh, Deus, no agora! Ele no pode 
comear 
qualquer coisa que atraia a ateno." Ela murmurou, em tom de advertncia:
- Rubio...
E, graas a Deus, ele compreendeu. Olhou para os homens e disse, jovialmente:
- No tenho nada contra Franco. Apenas no conheo a letra.
- Ahn... Nesse caso, vamos todos  cantarolar juntos.
Eles ficaram em silncio,  espera que Rubio recusasse. Ele olhou para Lucia. 
"- Bueno."
Os homens recomearam a cantar, e Rubio cantarolou em voz alta. Lucia podia 
sentir sua 
tenso, enquanto fazia um esforo para manter o controle. "Ele est fazendo isso 
por mim."
Quando a cano terminou, um homem deu um tapinha nas costas de Rubio.
- Nada mal, velho, nada mal.
Rubio permaneceu em silncio, ansioso para que eles se afastassem.
Um dos homens viu o embrulho no colo de Lucia.
- O que est escondendo a, "querida?"

Seu companheiro acrescentou: - Aposto que ela tem uma coisa melhor por baixo da 
saia.
Os homens riram.
- Por que no abaixa as calcinhas e nos mostra o que tem l?
Rubio levantou-se de um pulo e agarrou um dos homens pela garganta. Empurrou-o 
com 
tanta fora que o homem voou atravs do bar e quebrou uma mesa.
- No! - gritou Lucia. - No faa isso!
Mas era tarde demais.   Em pouco tempo, a confuso espalhou- -se pela "Taverna," 
com todo 
o mundo aderindo ansiosamente  briga e homens bbados engalfinhando-se no cho. 
Uma garrafa 
de vinho espatifou o espelho por trs do balco. Cadeiras e mesas foram 
derrubadas, enquanto 
homens voaram de um lado para o outro, aos gritos. Rubio derrubou dois homens, 
um terceiro 
avanou e acertou-o na barriga. Ele soltou um grunhido de dor.
- Rubio! - gritou Lucia. - Vamos sair daqui!
Ele acenou com a cabea,  as mos comprimindo a barriga. Esgueiraram-se pela 
confuso e 
saram para a rua.
- Precisamos escapar - murmurou Lucia. 
"Voc ter seu passaporte esta noite. Volte depois das oito horas." Precisava 
encontrar um 
lugar para se esconder at l. "Ele que se dane! Por que no podia se 
controlar?"
Os dois desceram pela Calle Santa Maria, e os rudos da briga na "taverna" foram 
diminuindo 
gradativamente. Dois quartei-res adiante, chegaram a uma grande igreja, a 
Iglesia Santa Maria. 
Lucia subiu os degraus, abriu a porta e espreitou l para dentro. Estava 
deserta.
- Ficaremos sos e salvos aqui - disse ela.
Entraram na semi-escurido da igreja, Rubio ainda comprimia a barriga.
- Podemos descansar um pouco.
- Est bem.
Rubio retirou a mo da barriga e o sangue esguichou. Lucia ficou desesperada.
- Santo Deus! O que aconteceu?
- Uma faca - balbuciou Rubio. - Ele usou uma faca. - Rubio arriou para o cho.
Lucia ajoelhou-se ao  seu lado, em pnico.
- No se mexa. - Tirou a saia e comprimiu-a contra a barriga de Rubio, tentando 
estancar a 
hemorragia.
O rosto de Rubio estava branco.
- No deveria ter brigado com eles, seu idiota - disse Lucia, furiosa.
A voz dele era um sussurro enrolado:
- No podia permitir que falassem de voc daquela maneira. 
"No podia permitir que falassem de voc daquela maneira." 
Lucia sentiu-se comovida como nunca sentira-se antes. Ficou imvel, olhando para 
ele e 
pensando: "Quantas vezes esse homem j arriscou a vida por mim?"
- No deixarei que morra - disse ela, com vemncia. Levantou-se abruptamente. - 
Voltarei 
num instante.

Encontrou gua e toalhas onde o padre trocava de roupas, no fundo da igreja. 
Lavou o 
ferimento de Rubio. O rosto dele estava quente, o corpo encharcado de suor. 
Lucia ps toalhas frias 
em sua testa. Os olhos de Rubio estavam fechados, parecia adormecido. Ela 
aninhou sua cabea nos 
braos e ps-se a lhe falar. No importava o que dizia. Falava para mant-lo 
vivo, obrig-lo a se 
segurar no tnue fio da existncia. Falou incessantemente, com medo de parar um 
segundo sequer.
- Vamos trabalhar juntos em sua fazenda, Rubio. Quero co-nhecer sua me e irms. 
Acha que 
elas vo gostar de mim? Quero muito que elas gostem. Eu sou muito trabalhadeira, 
"caro." Vai ver 
s. Nunca trabalhei numa fazenda, mas aprenderei. Faremos com que seja a melhor 
fazenda de toda 
a Espanha.
Lucia passou a tarde falando, banhando seu corpo febril, trocando o curativo. A 
hemorragia 
quase cessara.
- Est vendo, "caro?" J comea a melhorar. Eu no disse? Ns dois teremos uma 
vida 
maravilhosa juntos, Rubio. Mas, por favor, no morra. Por favor!
Percebeu que estava chorando.

Lucia observou  as sombras da tarde pintar as paredes da igreja atravs dos 
vitrais e se 
desvanecerem lentamente. O pr-do-sol escureceu o cu e finalmente a escurido 
total. Ela trocou 
de novo o curativo de Rubio e nesse instante, to perto que lhe provocou um 
sobressalto, o sino da 
igreja comeou a repicar. Ela prendeu a respirao e contou as badaladdas. 
Uma... trs... cinco... 
sete... oito. Oito horas. Estava chamando-a, dizendo que era tempo de voltar  
Casa do Empeos. 
Tempo de escapar daquele pesadelo e salvar-se.
Ajoelhou-se ao  lado de Rubio e sentiu sua testa. Ele ardia em febre. O corpo 
estava 
encharcado de suor e a respirao era difcil e irregular. No podia ver 
qualquer sinal de hemorragia, 
mas isso talvez significasse que ele sangrava internamente. "Mas que diabo! 
Trate de se salvar, 
Lucia!"
- Rubio... querido...
Ele abriu os  olhos, apenas meio consciente.
- Preciso sair por um momento.
Rubio apertou-lhe a mo.
- Por favor...
- Est tudo bem - sussurrou Lucia. - Voltarei logo.
Levantou-se e lanou-lhe um ltimo olhar. "No posso ajud- -lo," pensou.
Pegou a cruz de ouro, virou-se e deixou a igreja rapidamente, os olhos cheios de 
lgrimas. 
Comeou a andar depresa, encaminhando-se para a loja de penhores. O homem e seu 
primo estariam 
ali,  sua espera, com o passaporte para a liberdade. "Pela manh, quando 
comearem as missas, 
encontraro Rubio e o levaro a um mdico. Vo trat-lo, e ele ficar bom. S 
que no sobreviver 
a esta noite," pensou. "Mas isso no  problema meu."
A Casa de Empeos ficava logo  frente. Estava apenas uns poucos minutos 
atrasada. Podia 
ver as luzes acesas no interior da loja. Os homens a esperavam.
Comeou a andar mais depresa, depois desatou  a correr. Atravessou a rua e 
passou pela 
porta aberta. 
Dentro da delegacia, um guarda uniformizado estava sentado atrs de uma 
escrivaninha. 
Levantou os olhos quando Lucia entrou.
- Preciso de voc! - gritou ela. -Um homem foi apunhalado! Pode estar morrendo!
O guarda no fez perguntas. Pegou um telefone e falou rapidamente. Depois de 
desligar, 
comunicou a Lucia:
- Algum vir falar-lhe.
Dois detetives apareceram quase que no mesmo instante.
- Algum foi apunhalado, "seorita?"
- Isso mesmo. Acompanhe-me, por favor. Depressa!

- Vamos apanhar o mdico no caminho - disse um dos detetives. - E depois poder 
nos levar 
a seu amigo...
Pegaram o mdico em sua casa, e Lucia conduziu o grupo  igreja. O mdico foi 
at o corpo 
imvel no cho e ajoelhou-se ao  lado. Levantou o rosto um momento depois.
-  Ainda est vivo, mas corre perigo. Chamarei uma ambulncia.
Lucia ajoelhou-se e murmurou em silncio: "Obrigada, Deus. Fiz tudo o que pude. 
Agora 
deixe-me escapar, s e salva, e nunca mais tornarei a incomod-lo."
Um dos detetives observava Lucia por todo o caminho at a igreja. Ela lhe 
parecia familiar. 
E de repente ele compreendeu por qu. Tinha uma semelhana extraordinria com o 
retrato na 
Vermelha, a circular de prioridade da Interpol.
O detetive sussurrou alguma coisa a seu companheiro e os dois se viraram para 
estud-la. 
Ento aproximaram-se de Lucia.
- Com licena, "seorita." Poderia fazer a gentileza de nos acompanhar de volta 
 delegacia? 
Gostaramos de lhe fazer algumas perguntas.

         Captulo 28.



Ricardo Mellado encontrava-se a uma curta distncia da caverna na montanha 
quando avistou 
subitamente uma enorme loba cinzenta encaminhando-se para a entrada. Ficou 
paralizado por um 
nico instante, depois saiu correndo, como nunca correra em toda a sua vida. 
Disparou para a entrada 
da caverna.
- Irm!
Na semi-escurido, divisou a forma enorme e cinzenta saltar em cima de Graciela. 
Instintivamente, pegou a pistola e atirou. A loba saltou um uivo de dor e virou-
se para Ricardo. Ele 
sentiu as presas do animal ferido lhe rasgando as roupas, sentiu seu bafo 
ftico. A loba era mais forte 
do que esperava, pesada e musculosa. Ricardo tentou se desenvencilhar, mas era 
impossvel.
Sentiu que comeava a perder os sentidos. Percebeu vagamente que Graciela se 
aproximava 
e gritou:
- Fuja!
Viu ento a mo de Graciela levantar por cima de sua cabea. No momento em que 
comeava 
a descer,  percebeu que segurava uma pedra enorme e pensou: "Ela vai me matar."
Um instante depois a pedra passou por ele e esmagou o crnio da loba. Houve um 
ltimo e 
selvagem estertor, depois o animal ficou imvel no cho. Ricardo encontrava-se 
todo encolhido, 
lutando para respirar.
Graciela ajoelhou-se ao  seu lado. 
- Voc est bem? - Sua voz tremia de preocupao.
Ele conseguiu balanar a cabea. Ouviu um som de lamria por trs e virou-se 
para deparar 
com os filhotes encolhidos num canto. Continuou deitado por mais algum tempo, 
para recuperar as 
foras. Finalmente se levantou, com alguma dificuldade.
Saram cambaliando para o ar puro da montanha, abalados. Ricardo parou, respirou 
fundo, 
enchendo os pulmes, at a cabea desanuviar. O choque fsico e emocional do 
contacto prximo 
com a morte exercera um efeito profundo sobre os dois.
- Vamos sair logo daqui. Talvez j estejam  nossa procura.
Graciela estremeceu  lembrana do perigo que ainda corriam.

Os dois seguiram a trilha ngreme na montanha durante uma hora. Chegaram a um 
pequeno 
crrego, e Riccardo disse:
- Vamos para aqui.
Sem ataduras e anti-spticos, limparam os arranhes da melhor forma possvel, 
lavando com 
a gua lmpida e fria. O brao de Ricardo estava to rgido que sentia 
dificuldades    para mov-lo. 
Para sua surpresa, Graciela disse:
- Deixe que eu cuido disso tudo.
Ficou ainda mais surpreso pela gentileza com que ela lavou os ferimentos.
De repente, sem aviso,  Graciela comeou a tremer violentamente,  no efeito 
posterior do 
choque.
- Est tudo bem - murmurou Ricardo. - J passou.
Ela no conseguia parar de tremer.
Ricardo abraou-a e disse suavemente:
- Calma, calma... A loba est morta. No h mais nada a temer.

Apertava-a e podia sentir as coixa se comprimindo contra seu corpo, os lbios 
macios se 
encontraram com os seus, Graciela abraou-o tambm, sussurrando coisas que 
Ricardo no pde 
compreender.
Era com se sempre tivesse conhecido Graciela. E, no entanto, nada sabia a seu 
respeito. "Mas 
ela  um milagre de Deus," pensou Ricardo.
Graciela tambm pensava em Deus. "Obrigada, Deus, por esta alegria. Obrigada por 
finalmente me deixar sentir o que  o amor."
Experimentava emoes para as quais no tinha palavras, alm de qualquer coisa 
que jamais 
imaginava.
Ricardo observava-a, e sua beleza ainda o deslumbrava. "Ela me pertence agora," 
pensou. 
"No precisa voltar  para um convento. Casaremos e teremos lindos filhos... 
filhos saudveis."
- Eu amo voc - murmurou ele. - Nunca a deixarei partir, Graciela.
- Ricardo...
- Quero casar com voc, querida. Quer se casar comigo?
- Quero... quero, sim! - respondeu Graciela, sem pensar.
E ela se viu outra vez em seus braos e pensou: "Era isso o que eu queria e 
pensava que 
nunca teria."
- Viveremos por algum tempo na Frana, onde estaremos seguros. Esta luta acabar 
em 
breve, e voltaremos  Espanha - dizia Ricardo.
Graciela sabia que iria para qualquer lugar com aquele homem, e se houvesse 
perigo, haveria 
de partilh-lo ao  seu lado.
conversaram sobre muitas coisas. Ricardo contou como se envolvera com Jaime 
Mir, do 
noivado desfeito e da insatisfao do pai. Mas, depois, quando esperou que 
Graciela falasse de seu 
passado, ela se manteve em silncio.
Graciela fitou-o e pensou: "No posso contar. Ele vai me odiar."
- Abrace-me! - suplicou ela.

Dormiram e acordaram ao  amanhecer para contemplar o sol escalar o topo da 
montanha, 
banhando as encostas com um suave claro vermelho.
- Estaremos mais seguros escondidos por aqui hoje - comentou Ricardo. - 
Comearemos a 
viajar assim que escurecer.
Comeram os alimentos dados pelos ciganos e planearam o futuro.
- H opurtunidades maravilhosas aqui na Espanha - falou Ricardo. - Ou haver 
quando 
tivermos paz. Tenho muitas ideias. Abriremos nosso prprio negcio. Compraremos 
uma bonita casa 
e criaremos lindos filhos.
- E lindas filhas.
- E lindas filhas. - Ele sorriu. - Nunca pensei que pudesse me sentir to feliz.
- Nem eu, Ricardo.
- Estaremos em Logroo dentro de dois dias e nos encontraremos com os outros. - 
Segurou-lhe a mo. - E contaremos que voc no voltar ao  convento.
- No sei se vo compreender - riu Graciela. - Mas no me importa. Deus 
compreende. Eu 
adorava a vida no convento, mas... - Inclinou-se e beijou-o.
- Preciso compens-la por muita coisa.
Ela ficou perplexa.
- No estou entendendo.
- Todos os anos em que voc esteve no convento, excluda do mundo. Diga-me uma 
coisa, 
querida... incomoda-a ter perdido tantos anos?
Como podia faz-lo entender?   

- Ricardo... no perdi coisa alguma. Acha mesmo que perdi tanta coisa?
Ele pensou a esse respeito, sem saber por onde comear. Concluiu que coisas que 
julgava de 
maior importncia no teriam o menor significado para as freiras em seu 
isolamento. Guerras, como 
a guerra rabe-isrelita? Assassinatos de lderes polticos, como o do presidente 
americano Jonh 
Kennedy e seu irmo, Robert Kennedy? E de Martin Luther King, Jr., o grande 
lder do movimento 
 da no-violncia pela igualdade negra? O Muro  de Berlim? Fomes? Inundaes? 
Terramotos? 
Greves e manifestaes de protestos contra  a desumanidade do homem com seu 
semelhante?
Afinal, quo profundamente qualquer dessas coisas afectariam a vida pessoal de 
Graciela? Ou 
as vidas pessoais da maioria das pessoas do mundo?
- De certa forma, voc no perdeu muita coisa. Mas, por outro lado, perdeu. Algo 
importante 
tem acontecido. Vida. Enquanto se manteve apartada durante todos esses anos, 
crianas nasce-ram 
e cresceram, namorados casaram, pessoas sofreram e foram felizes, outras 
morreram e todos ns aqui 
fora fomos uma parte do acto de viver.
- E voc acha que eu nunca fui? - As palavras saram espontneas, antes que 
Graciela pudesse 
impedi-las. - J fui parte dessa vida de que est falando, e era como viver no 
inferno. Minha me era 
uma prostituta, e todas as noites eu tinha um tio diferente. Aos 14 anos, 
entreguei meu corpo a um 
homem, porque me senti atrada por ele e senti cimes de minha me e do que ela 
fazia.
As palavras saram agora numa torrente impetuosa.
- Eu tambm me tornaria uma prostituta se ficasse ali, para ser parte desssa 
vida que voc 
considera to preciosa. No, no creio que eu tenha fugido de alguma coisa. 
Corri para alguma coisa. 
Encontrei um mundo seguro, que  sereno e bom.
Ricardo fitou-a horrorizado.
- Eu... eu sinto muito. No tive a inteno...
Graciela soluava agora, e ele abraou-a.
- Calma, calma... Est tudo bem. J acabou. Voc era uma criana. Eu a amo.
Foi como se Ricardo tivesse lhe concedido a absolvio. Falara sobre coisas 
horrveis que 
fizera no passado e ainda assim ele a perdoava. E... maravilha das maravilhas... 
ainda a amava.
Ele abraou-a com ternura.
- H um poema de Federico Carcia Lorca:

A noite no deseja vir,
a fim de que voc no possa vir
e eu no possa ir...

Mas voc vir,
com sua lngua queimada pela chuva salgada.

O dia no deseja vir,
a fim de que voc no possa vir
e eu no possa ir...

Mas voc vir
atravs dos turvos sumidouros da escurido.
Nem a noite nem o dia desejam  vir, 
A fim de que eu possa morrer por voc
e por mim.

Subitamente, Graciela pensou nos soldados que os perseguiam, e imaginou se ela e 
seu amado 
Ricardo sobreviveriam por tempo para terem um futuro juntos.

         Captulo 29



Faltava um elo, uma pista para o passado, Alan Tucker estava determinada a 
encontr-lo. No 
havia qualquer referncia no jornal de uma criana abandonada, mas devia ser 
muito fcil descobrir 
a data em que fora levada para o orfanato. Se a data coincidisse com o desastre 
do avio, Ellen Scott 
teria de ofere-cer algumas explicaes bem interessantes. "Ela no pode ter sido 
to estpida assim," 
pensou Alan Tucker. "Assumir o risco de simular que a herdeira Scott morrera e 
deix-la na porta 
de uma casa de fazenda. Perigoso. Muito perigoso. Por outro lado, a recompensa 
era tentadora: a 
Scoot Industrie. Isso mesmo, ela pode muito bem ter dado o golpe. Se  um 
segredo que enterrou, 
continua bem vivo e vai lhe custar caro."
Tuckeer sabia que precisava ser ccauteloso. No tinha iluses sobre a pessoa com 
quem 
lidava. Estava se confrontando com o poder implacvel. Sabia que precisava de 
dispor de todas as 
provas antes de fazer seu movimento.
Sua primeira providncia foi outra visita ao  padre Berrento.
- Padre... eu gostaria de conversar com o campons e a esposa em cuja casa 
Patricia... Megan 
foi abandonada.
O velho sacerdote sorriu.
- Espero que sua conversa com eles no ocorra por muito tempo.
Tucker ficou surpreso.
- Est querendo dizer...
- Eles morreram a muito tempo. 
"Droga!" Mas devia haver outros caminhos para  explorar.
- No disse que a criana foi levada para o hospital com pneumonia?
- Isso mesmo. 
"Haveria registos ali." 
- Que hospital era?
- Foi destrudo por incndio em 1961. Construram outro em seu lugar. - Ele 
percebeu a 
expresso consternada de Tucker. - Deve lembrar-se, "seor," que a informao 
que procura j tem 
28 anos. Muitas coisas mudaram. 
"No vai me deter," pensou Tucker. "No quando estou to perto. Deve haver um 
arquivo 
sobre ela em algum lugar."
Ainda lhe restava um lugar para investigar: o orfanato.

Tucker fazia agora relatrios dirios para Ellen Scott.
- Mantenha-me informada de cada acontecimento. Quero ser avisada no  momento en 
que a 
garota for encontrada.
E Alan aTucker especulava sobre a urgncia em sua voz. 
"Ela parece estar muito presa, por causa de uma coisa que aconteceu h tantos 
anos. Por qu? 
Mas isso pode esperar. Primeiro, preciso obter a prova que procuro."

Alan Tucker foi visitar o orfanato naquela manh. Correu  os olhos pela desolada 
sala 
comunitria, onde algumas crianas brincavam, fazendo barulho e falando sem 
parrar, e pensou: 
"Ento este  o lugar em que a herdeira da dinastia Scott foi criada, enquanto 
aquela sacana em Nova 
York ficava com todo o dinheiro e poder. Pois ela agora vai partilhar um pouco 
comigo. Isso mesmo, 
 formaremos uma grande dupla, Ellen Scott e eu."
Uma moa aproximou-se e perguntou:

- Em que posso ajud-lo, "seor?"
Ele sorriu. "Pode me ajudar a ganhar um bilho de dlares." - Eu gostaria de 
falar com a 
pessoa encarregada.
-  a seora Angeles.
- Ela est?
"- S, seor." Eu o levarei  sua sala.
Ele seguiu a mulher pelo corredor principal at uma pequena ssala nos fundos do 
prdio.
- Entre, por favor.
Ele entrou no escritrio. A mulher sentada  mesa estava na casa dos oitenta. 
Outrora fora 
grande, mas o corpo encolhera, e por isso dava a impresso de que a armao 
pertencia a outra 
pessoa. Os cabelos eram grissalhos e ralos, mas os olhos se mantinham brilhantes 
e claros.
- Bom dia, "seor". Em qe posso ajud-lo? Veio adotar uma de nossas lindas 
crianas? Temos 
muitas para escolher.
- No, "seora." Vim perguntar sobre uma criana que foi deixada aqui h muitos 
anos.
Mercedes Angeles franziu o cenho.
- No estou entendendo.
- Uma menina foi trazida para c... - fingiu consultar um pedao de papel. - 
...em outubro de 
1948. 
- Isso foi a muito tempo. Ela no estaria mais aqui. Temos um regulamento, 
"seor", que aos 
15 anos...
- Sei que ela no est mais aqui, "seora." O que desejo saber  a data exacta 
em que foi 
trazida para c.
- Lamento, "seor", mas no poderei ajud-lo.
Tucker sentiu um aperto no corao.
- Muitas crianas so trazidas para c. A menos que saiba seu nome... 
"Patricia Scott," ele pensou. Mas disse em voz alta:
- Megan... o nome dela  Megan.
O rosto de Mercedes Angeles iluminou-se.
- Ningum poderia esquecer aquela criana. Era um diabrete, e todos  a adoravam. 
Sabia que 
um dia...
Alan Tucker no tinha tempo para histrias. O instinto dizia-lhe que se 
encontrava agora na 
iminncia de obter uma parte da fortuna Scott. E aquela velha tagarela era a 
chave para isso. "Devo 
ser paciente com ela."
- Seora Angele... no tenho muito tempo. Tem essa data em seus arquivos?
- Claro, "seor". O estado exige que mantenhamos registos bastante apurados.
Tucker animou-se. "Eu deveria ter  trazido uma mquina para fotografar o 
arquivo. Mas no 
importa.  Tirarei uma fotocpia."
- Posso ver  esse arquivo, "seora?"
- Acho que no. Nossos arquivos so confidenciais e... 
- Claro que compreendo e respeito sua hesitao - disse Tucker, suavemente. - 
Falou que 
gostava da pequena Megan e tenho certeza que haveria de fazer tudo o que podesse 
para ajud-la. 
Pois  por isso que estou aqui. Tenho boas notcias para ela.
- E para isso precisa da data em que foi trazida para c? 
- Preciso ter a prova de que se trata da mesma pessoa que penso que . O pai 
morreu e  
deixou-lhe uma pequena herana, quero fazer com que ela a receba.
A mulher acenou com a cabea, sabiamente.
- Entendo.
Tucker tirou um mao de notas do bolso.

- E para mostrar meu agradecimento pelo incmodo que estou causando, gostaria de 
contribuir com cem dlares para o orfanato.
Ela olhou para o mao de notas, com uma expressoV indecisa.
Tucker tirou outra nota.
- Duzentos. A velha franziu o cenho.
- Est bem. Quinhentos.
Mercedes Angeles ficou radiante.
-  muita  generosidade sua, "seor". Vou buscar o arquivo. 
"Consegui!," pensou ele, exultante. "Santo Deus, consegui! Ela roubou a Scott 
Industrie. E 
se no fosse por mim, teria escapado impune." 
Quando a confrontasse com aquela prova, Ellen Scott no teria como negar. O 
desastre de 
avio ocorrera a 1. de Outubro.  Megan passara dez dias no hospital. Portanto, 
chegara ao  orfanato 
 por volta  de 11 de Outubro. Mercedes Angeles voltou  sala, trazendo uma pasta 
de arquivo.
- Encontrei! - anunciou orgulhosa.
Alan Tucker teve de fazer um esforo para no arrancar a pasta de suas mos.
- Posso dar uma olhada? - perguntou, polidamente.
- Claro. Foi muito generoso. - A velha tornou a franzir o cenho. - Espero que 
no mencione 
o facto a ningum. Eu no deveria fazer isso.
- Ser nosso segredo, "seora."
Ela lhe entregou a pasta.
Tucker respirou fundo e abriu-a. Em cima estava escrito: "Megan. Menina. Pais 
desconhecidos." E depois a data. Mas havia um equvoco.
- Diz aqui que Megan foi trazida para o orfanato a 14  de junho de 1948.
"- S, seor."
- Mas  impossvel! - Ele estava quase gritando. O desastre de avio aconteceu a 
1. de 
outubro, quatro messes depois.
Havia uma expresso aturdida no rosto de Mercedes.
- Impossvel, "seor"? No estou entendendo.
- Quem... quem cuida desses registos?
- Eu mesma. Quando uma criana  deixada aqui, anoto  a data e todas as 
informaes que 
posso obter..
O sonho de Tucker desmoronava-se.
- No poderia ter cometido algum erro? Sobre a data... no poderia ser 10 ou 11 
de outubro?
Mercedes Angeles protestou indignada:
"- seor", sei muito bem a diferena entre 14 de junho e 11 de outubro.
Estava acabado. Ele construra um sonho sobre uma base muito frgil. Ento 
Patrcia Scott 
morrera de facto no desastre. Era uma coincidncia que Ellen Scott estivesse  
procura de uma 
menina que nascera mais ou menos na mesma ocasio. Alan Tucker levantou-se 
pesadamente e 
murmurou:
- Obrigado, "seora."
- De nada, "seor". - Observou-o se retirar. Era um homem muito simptico. E 
generoso. Os 
 quinhentos dlares comprariam coisas para o orfanato. E tambm o cheque  de cem 
mil dlares 
enviado pela gentil dama que telefonava de Nova York. "Onze de outubro foi sem 
dvida um dia de 
sorte para nosso orfanato. Obrigada, Senhor."

Alan Tucker estava apresentando seu relatrio dirio.

- Ainda no h notcias concretas, Sr Scott. H rumores de que eles esto indo 
para o norte. 
At onde pude descobrir, a garota continua viva.  
"O tom de voz mudou por completo," pensou Ellen Scott. "A ameaa desapareceu. O 
que 
significa que ele esteve no orfanato. Voltou a ser um empregado. Depois que ele 
encontrar Patrcia, 
isso tambm vai mudar." - Volte a comunicar amanh.
- Pois no, Sr Scott.

         Captulo 30



- Preserva-me,  Deus, pois em Vs encontro  refgio. Sois meu Senhor; no h o 
bem 
apertado de Vs. Eu Vos amo,  Senhor, minha fora. O Senhor  minha rocha e 
minha fortaleza e 
meu libertador...
Irm  Megan levantou os olhos para deparar com Felix Carpio a observ-la, com 
uma 
expresso preocupada. 
"Ela est mesmo assustada," pensou Felix.
Desde que haviam iniciado a jornada que ele percebera a profunda ansiedade de 
irm Megan. 
"Nada mais natural. Ela passou s Deus sabe quantos anos trancafiada num 
convento, e agora  
lanada subitamente num mundo estranho e aterrador. Teremos de ser muito gentis 
com a pobre 
coitada."
Irm Megan estava realmente assustada. Rezava com afinco desde que deixara o 
convento. 
"Perdoai-me, Senhor, pois adoro a emoo do que est acontecendo e sei que  uma 
iniquidade da minha parte."
Por mais que irm Megan rezasse, no entanto, no podia deixar de pensar que era 
a aventura 
mais espantosa que j tivera. No orfanato planeara muitas vezes fugas usadas, 
mas era apenas 
brincadeira de criana. Aquilo era real. Estava nas mos de terroristas que eram 
perseguidos pela 
polcia e exrcito. em vez de estar apavorada por isso, irm Megan sentia-se 
estranhamente exultada.

Depois de viajarem a noite inteira, pararam ao  amanhcer. Megan e Amparo Jir 
ficaram de 
vigia, enquanto Jaime Mir e Felix Carpio debruavam-se sobre um mapa.
- So seis quilmetros e meio  para Medina del Campo - disse Jaime. - Vamos 
evit-la. H 
uma guarnio permanente do exrcito ali. seguiremos para nordeste, na direco 
de Valladolid. 
Devemos chegar l no incio da tarde. 
"Muito fcil," pensou irm Megan.
Fora uma noite longa e extenuante, sem descanso, mas Megan sentia-se muito bem. 
Jaime 
estava deliberadamente exigindo o mximo do grupo, mas Megan compreendia por que 
ele fazia isso. 
Estava testando-a,  espera que sofresse um colapso. "Pois ele ter uma 
surpresa," pensou ela.
Na verdade, Jaime Mir estava intrigado com irm Megan. Seu comportamento no 
era 
exactamente o que  ele esperava de uma freira. Encontrava-se a muitos 
quilmetros do convento, 
viajando por um territrio estranho, perseguida, mas mesmo assim parecia gostar 
da situao. "Que 
tipo de freira  ela?," especulou Jaime Mir.
Amparo Mir estava menos impressionada. "Terei o maior prazer de me livrar 
dela," pensava. 
Ficava sempre junto de Jaime, e deixava a freira caminhar ao  lado de Felix. 
Os campos eram desertos e belos, acariciados pela suave fragncia da brisa de 
vero. 
Passaram por aldeias antigas, avistaram um castelo antigo, deserto, no topo da 
colina.
Amparo parecia a Megan como um animal selvagem... deslizando sem esforo pelas 
colinas 
e  vales, dando a impresso de que  jamais se cansava.
Quando, horas depois,  Valladolid finalmente surgiu ao  longe, Jaime parou e 
virou-se para 
Felix.
- Est tudo acertado?

- Est.



Megan especulou sobre o que teria sido acertado, e no demorou a descobrir.
- Toms tem instrues para fazer contacto conosco na praa de touros.
- A que horas o banco fecha?
- Cinco. Haver tempo suficiente.
- Jaime acenou com a cabea.
-  hoje deve haver muito dinheiro da folha de pagamento. 
Santo Deus, eles vo assaltar um banco!, pensou Megan.
- E o carro? - perguntou Amparo.
- Isso no  problema - garantiu Jaime. 
Eles vo tambm roubar um carro, pensou Megan. Era mais aventura que ela 
desejava. Deus 
no vai gostar disso. 

Quando o grupo chegou nos arredores de  Valladolid, Jaime advertiu:
-Fiquem no meio da multido. Hoje  dia de tourada, e haver milhares de pessoas 
nas ruas. 
No vamos nos separar.
Jaime Mir estava certo sobre a multido. Megan nunca vira tanta gente.  As ruas 
estavam 
apinhadas de pedestres, automveis e motocicletes, pois a  tourada atraa no 
apenas turistas, mas 
tambm moradores das cidades prximas. At as crianas nas ruas brincavam  
tourada.
Megan sentia-se fascinada pela multido, o barulho e confuso ao  seu redor. 
Observava os 
rostos das pessoas que passavam e especulava como seriam suas vidas. Muito em 
breve voltarei ao 
 convento, onde nunca mais terei premisso de olhar para o rosto de ningum. 
Devo aproveitar ao 
 mximo, enquanto posso.
As caladas achavam-se repletas de vendedores ambulantes, oferecendo bijuterias, 
crucifixos 
e medalhas religiosas, por toda a parte havia o cheiro penetrante a fritos.
Megan percebeu de repente que sentia muita fome.
- Jaime, estamos todos com fome. Vamos experimentar alguns desses bolinhos 
fritos - sugeriu 
Felix.
Felix comprou quatro bolinhos e deu um a Megan.
- Experimente, irm. Vai gostar.
Estava delicioso. Por tantos anos, a comida no devia ser desfrutada, mas apenas 
sustentar 
o corpo para a glria do Senhor. Isto  para mim, pensou Megan, irreverente.
-  por aqui - indicou Jaime.
Eles seguiram a multido, passando pelo parque no centro da cidade, at a Plaza 
Poinente, 
que levava   plaza de toros. O interior era uma enorme estrutura de adobe, da 
altura de trs andares. 
Havia quatro bilheteiras na entrada. As placas na esquerda diziam SOL e na 
direita SOMBRA. Havia 
centenas de pessoas paradas nas filas,  espera para comprar os ingressos.
- Esperem aqui - ordenou Jaime.
Encaminhou-se para o lugar em que alguns cambistas vendiam ingressos.
Megan virou-se para Felix.
- Vamos assistir a uma tourada?
- Isso mesmo, irm, mas no se preocupe. Vai descobrir  que  emocionante. 

Preocupar-me?, Megan estava excitada com a perspectiva. Umas das suas fantasias 
no 
orfanato fora a de que o pai havia sido um grande toureiro. Megan lera todos os 
livros sobre tourada 
que conseguira encontrar.
- As melhores touradas so realizadas em Madri ou Barcelona - explicou Felix. - 
A tourada 
aqui ser com  novilleros, em vez de profissionais. So amadores. Ainda no 
receberam  alternativa.
Megan sabia que  alternativa  era o prmio conferido apenas aos grandes 
matadores. - Os que 
veremos hoje lutam em trajes alugados, contra touros com perigosos chifres 
limados, que os 
profissionais se recusam a enfrentar.
- Por que fazem eles isso?
Felix encolheu os ombros. 
- Humbre hace ms dao que las cuernas.  A fome  mais dolorosa que as 
chifradas.
Jaime voltou com quatro ingressos.
- Tudo acertado. Vamos entrar.
Megan sentia um excitamento crescente.
o aproximarem-se da entrada, passsaram por um cartaz colocado na parede. Megan 
parou 
e olhou.
- Vejam!
Havia um retrato de Jaime Mir e, embaixo: 

        PROCURADO POR HOMICDIO
        JAIME MIR
        500.000 PESETAS DE RECOMPENSA
        POR SUA CAPTURA, VIVO OU MORTO.


E, subitamente, isso fez com que Megan se lembrasse com quem viajava, o 
terrorista que 
tinha sua vida nas mos.
Jaime estudava a fotografia. Atrevidamente, tirou o chapu e os culos escuros e 
encarou seu 
retrato.
- At que  parecido. - Arrancou o cartaz da parede, dobrou-o e guardouu-o no 
bolso.
- De  que adianta? - falou Amparo. - Eles devem ter   espalhado  centenas de 
cartazes.
Jaime sorriu.
- Este em particular vai nos proporcionar uma fortuna, querida.
Ele colocou de novo o chapu e os culos. 
Um estranho comentrio, pensou Megan. No podia deixar de admirar a 
tranquilidade de 
Jaime. Havia um ar de slida competncia em Jaime Mir que ela achava 
tranquilizador. Os soldados 
nunca o apanharo, pensou.
- Vamos entrar.
Haviam 12 espaosas entradas para o estdio. As portas vermelhas de ferro 
estavam abertas, 
todas numeradas. L dentro, puestos vendiam Coca-Cola e cerveja, ao  lado de 
pequennos banheiros. 
Cada seco e cada acento nas arquibancadas eram numerados. As fileiras de 
bancos de pedra 
efectuavam um crculo completo, e no meio ficava a enorme arena, coberta de 
areia. Havia cartazes 
comerciais por toda parte: BANCO CENTRAL... BOUTIQUE CALZADOS... SCHWEPPES... 
RADIO POPULAR...

Jaime comprara ingressos para o lado da sombra e, ao  sentarem-se nos bancos de 
pedra, 
Megan olhou ao  redor, admirada. No era absolutamente como ela imaginara. 
Quando pequena, vira 
romnticas fotografias coloridas da praa de touros em Madri, imensa e 
ornamentada. Aquela arena 
era improvisada. Os espectadores lotavam rapidamente as arquibancadas.
Soou um clarim. A tourada comeou.
Megan inclinou-se para a frente, os olhos arregalados. Um enorme touro entrou na 
arena e 
um matador saiu de trs de uma pequena barreira de madeira ao  lado, e comeou a 
provocar o 
animal.
- Os picadores viro em seguida - comentou Megan.
Jaime Mir fitou-a, surpreso. Estava preocupado com a possibilidade da tourada 
deix-la 
angustiada, o que atrairia as atenes para o grupo. Em vez disso, porm, ela 
parecia estar se 
divertindo. Estranho.
Um picador aproximou-se do touro, montado num cavalo coberto por uma grossa 
manta. O 
touro baixou a cabea e atacou o cavalo. No momento em que cravou os chifres na 
manta, o picador 
enfiou uma bandarilha de dois metros e meio no dorso do touro. Megan observava, 
fascinada.
- Ele est fazendo isso para enfraquecer os msculos no pescoo do touro - 
explicou, 
recordando os livros to amados que lera h tantos anos.
Felx Carpio piscou, surpreso.
-  isso mesmo, irm.
Megan continuava a observar, enquanto as bandarilhas coloridas eram cravadas nas 
espduas 
do touro.
Agora era a vez do matador. Ele avanou pela arena, segurando no lado uma capa 
vermelha, 
com uma espada oculta. O  touro virou-se e desfechou o ataque.
Megan estava mais excitada do que nunca.
-  Ele far os pases agora - comentou ela. - Primeiro o pase vernica, depois o 
meia-vernica 
e por ltimo o rebolera.
Jaime no podia conter a curiosidade por mais tempo.
- Irm... onde aprendeu tudo isso?
Sem pensar, Megan respondeu:
- Meu pai era um toureiro... Olhem!
A aco era to rapida, Megan mal conseguia acompanh-la. O touro enfurecido 
continuava 
a atacar o matador. A cada vez que se aproximava, o matador desviava a capa 
vermelha para o lado 
e o touro a seguia.
Megan ficou preocupada.
- O que acontece se o toureiro for ferido?
Jaime encolheu os ombros.
- Numa cidade como esta, o barbeiro o levar para o estbulo e o custurar ali 
mesmo.
O touro tornou a atacar, e dessa vez o matador pulou da sua frente. O pblico 
vaiou.
Felix Carpio desculpou-se:
- Lamento que no seja uma luta melhor, irm. Deveria assistir as grandes. J vi 
Manolete, 
El Cordobs e Ordez. Eles transformam a tourada num espetculo inesquecvel.
- Li sobre eles - comentou Megan.
- Ouviu alguma vez  a histria maravilhosa sobre Manolete?
- Que histria?

- Houve um tempo, segundo a histria, em que Manolete era apenas um toureiro, 
nem melhor 
nem pior do que uma centena de outros. Estava noivo de uma linda moa, mas um 
dia um touro 
chifrou-o na virilha, e o mdico que cuidou de Manolete explicou que ele ficaria 
estril. Claro que 
Manolete amava tanto a noiva que no lhe contou nada,  com medo  de que ela no 
quisesse mais 
casar. Poucos meses depois do casamento, ela anunciou orgulhosa que estava 
grvida. Claro que 
Manole sabia que no era seu filho e abandonou-a. A moa desolada cometeu 
suicdio. Manolete 
reagiu como um louco. No tinha mais vontade de continuar a viver, por isso 
entrava na arena e fazia 
coisas que nenhum matador jamais fizera antes. Arriscava a vida constantemente  
espera de ser 
morto; tornou-se assim o maior matador do mundo. Dois anos depois tornou a 
apaixonar-se e casou 
com a moa. Poucos meses depois do casamento, ela anunciou orgulhosa que estava 
grvida. E foi 
ento que Manolete descobriu que o mdico errara.
- Que coisa horrvel... - murmurou Megan.
Jaime soltou uma risada.
-  uma histria interessante, s no sei se tem algum fundo de verdade. - Eu 
gostaria de 
pensar que sim - disse Felix.
Amparo escutava em silncio, o rosto impassvel. Observara o crescente interesse 
de Jaime 
pela freira com ressntimento. Era melhor a irm tomar muito cuidado.

Vendedores ambulantes de avental subiam e desciam pelas passagens, anunciando 
suas 
mercadorias. Um deles aproximou-se da fileira em que Jaime e os outros se 
sentavam.
- Empanadas! - gritou. - Empanadas calientes! 
Jaime levantou a mo.
- Aqu! 
O vendedor jogou habilmente um pacote embrulhado nas mos de Jaime. Ele entregou 
dez 
pesetas ao  homem ao  seu  lado, para serem passadas adiante, at o vendedor. 
Megan observou 
Jaime colocar a empanada no colo e abriu com todo cuidado. Havia um pedao de 
papel l dentro. 
Ele leu-o e releu-o, Megan observou-o cerrar os dentes. Jaime guardou o papel no 
bolso e disse 
bruscamente:
- Vamos embora. Um de cada vez. - Virou-se para Amparo. - Voc primeiro. O 
encontro ser 
no porto.
Sem dizer nada, Amparo levantouse e seguiu para o corredor. Jaime acenou a 
cabea  para 
Felix, tambm se levantou e seguiu Amparo.
- O que est acontecendo? - perguntou Megan. -    Algum problema?
- Estamos de partida para Logroo. - Ele levantou-se. - Fique olhando para mim, 
irm. Se eu 
no for detido, siga para o porto.
Megan observou, tensa, enquanto Jaime saa para a passagem  e se encaminhava 
para o 
porto. Ningum parecia lhe prestar ateno. Assim que Jaime desapareceu, Megan 
levantou-se e 
comeou a se retirar. Houve um clamor da multido, e ela virou a cabea para 
olhar a arena. Um 
jovem matador estava cado no cho, sendo escornado pelo touro selvagem. O 
sangue espalhou-se 
pela areia. Megan fechou os olhos e ofereceu uma prece silenciosa: Oh, abenoado 
Jesus, tenha 
misericrdia desse homem. Ele no morrer, haver de viver. O Senhor puniu-o 
severamente, mas 
no o entregou  morte. Amm. Ela abriu os olhos, virou-se e afastou-se 
apresada.
Jaime, Amparo e Felix esperavam-na na entrada.
- Vamos logo - disse Jaime.
Comearam a andar.
- Qual  o problema? - perguntou  Felix a Jaime.
- Os soldados fuzilaram Toms - respondeu Jaime, muito tenso. - Ele est morto. 
E a polcia 
est com Rubio. Ele foi esfaqueado numa briga de bar.
Megan fez o sinal-da-cruz.
- O que aconteceu com irm Teresa e irm Lucia? - perguntou, ansiosa.

- No sei sobre a irm Teresa. Irm Lucia tambm foi detida pela polcia. - 
Jaime virou-se 
para os outros. - Temos de nos apressar. - Consultou o relgio. - O banco deve 
estar cheio.
- Jaime, talvez seja melhor esperar - sugeriu Felix. - Ser perigoso apenas ns 
dois 
assaltarmos o banco.
Megan escutou o que ele estava dizendo e pensou: Isso no vai det-lo. E 
acertou.
Os trs se encaminharam para o vasto estacionamento por trs da praa de touros. 
Quando 
Megan alcanou-os, Felix examinava um sed azul.
- Este deve servir - comentou ele.
Felix mexeu na fechadura por um momento, abriu a porta e enfiou a cabea dentro. 
Um 
momento depois o motor pegou. - Entrem.
Megan ficou parada, indecisa.
- Esto roubando um carro? 
- Pelo amor de Deus! - sibilou Amparo. - Pare  de se comportar como uma freira e 
entre logo!
Os dois homens sentaram-se no banco da frente, com Jaime ao  volante. Amparo 
entrou atrs.
- Voc vem ou no? - indagou Jaime.
Megan respirou fundo e entrou no carro, ao  lado de Amparo. Partiram. Ela fechou 
os olhos. 
Querido Senhor, para onde ests me levando? 
- Se isso a faz sentir-se melhor, irm - disse Jaime -, no estamos roubando 
este carro. Apenas 
o confiscamos, e nome do exrcito basco.
Megan comeou a dizer algumas palavras, mas se conteve. Nada que argumentasse 
iria 
faz-lo mudar de ideia. Ficou em silncio, enquanto Jaime guiava para  o centro 
da cidade. 
Ele vai assaltar um banco, e aos olhos de Deus sou igualmente culpada, pensou 
Megan. Fez 
o sinal-da-cruz e em silncio comeou a rezar.

O Banco de Bilbo fica no andar trreo de um prdio de apartamentos de nove 
andares, na 
Calle de Cervantes, junto da Plaza de Circular.
Quando o carro parou  na frente do prdio, Jaime disse a Felix:
- Mantenha o motor ligado. Se surgir algum problema, saia daqui e v se 
encontrar com os 
outros em Logroo.
Felix ficou aturdido.
- Mas do que est falando? No pretende entrar a  sozinho, no  mesmo? No 
pode. O risco 
 grande demais, Jaime. Seria muito perigoso.
Jaime deu um tapinha em seu ombro.
- Se saem machucados, ento saem machucados - disse ele com um sorriso 
estampado.
Jaime saiu do carro e os outros obsservavam-no encaminhar-se para uma loja de 
artigos de 
couro vrias portas alm do banco. Poucos minutos depois ele reapareceu com uma 
pasta de 
executivo. Acenou com a cabea para o grupo no carro e entrou no banco.
Megan mal conseguia respirar. Comeou a rezar

Orao  um chamado.
Orao  uma escuta
Orao  uma morada
Orao  uma presena
Orao  uma lamparina acesa

com Jesus.
 
Estou calma e cheia de paz. 
Ela no estava calma nem cheia de paz.

Jaime Mir cruzou as duas portas que levavam ao  saguo de mrmore do banco. 
Logo 
depois da entrada, ele notou uma cmara de segurana, no alto da parede. Lanou-
lhe um olhar 
casual e depois examinou o lucal. Por trs dos balces, uma escada levava ao  
segundo andar, onde 
funcionrios trabalhavam em escrivaninhas. Estava quase na hora de fechar, e o 
banco encontrava-se 
repleto de clientes ansiosos em sair logo dali. Havia filas na frente dos trs 
caixas, e Jaime constatou 
que diversos clientes carregavam pacotes. Entrou numa fila e esperou 
pacientemente que chegasse 
sua vez. ao  se postar diante do guich, sorriu para o caixa e disse: 
- Buenas tardes.
- Buenas tardes, "senhor". O que deseja?
Jaime inclinou-se para o guich, tirou do bolso o cartaz dobrado. Entregou ao  
caixa.
- Quer dar uma olhada nisso, por favor?
O caixa sorriu. 
- Pois no, senhor.
Ele desdobrou o cartaz, viu o que era, seus olhos se arregalaram. Fitou Jaime, o 
pnico 
estampado nos olhos.
- No acha que est bem parecido? - murmurou Jaime. - Como est dito a, j 
matei muitas 
pessoas. Portanto, mais uma no far a menor diferena para mim. Estou sendo 
claro?
- Es... est sim, "senhor". Tenho famlia. Eu lhe suplico...
- Respeito famlias, e por isso vou lhe dizer o que quero que faa para poupar o 
pai de seus 
filhos. - Jaime empurrou a pasta de executivo para o caixa. - Quero que encha 
isso para mim. E 
depressa, discretamente. Se acredita sinceramente que o dinheiro  mais 
importante do que sua vida, 
ento v em frente, acione o alarme.
O caixa sacudiu a cabea.
- No, no, no... - Ele comeou a tirar dinheiro da gaveta e meteu na pasta. As 
mos 
tremiam. Quando a pasta ficou cheia, o caixa balbuciou:
- A est, "senhor". Prometo no acionar o alarme.
-  uma actitude muito sensata - disse Jaime. - E vou lhe explicar por qu, 
amigo. - Virou-se 
e apontou para uma mulher de meia-idade, quase no final da fila, segurando um 
embrulho de papel 
pardo. - Est vendo aquela mulher?  do nosso grupo. H uma bomba naquele 
pacote. Se o alarme 
soar, ela acionar a bomba no mesmo instante.
O caixa ficou ainda mais plido.
- No, por favor!
-  melhor esperar dez minutos, depois que ela for embora, antes de fazer 
qualquer coisa - 
advertiu Jaime.
- Pela vida dos meus filhos - sussurrou o caixa.
- Buenas tardes. 
Jaime pegou a pasta de executivo e encaminhou-se para a porta. Sentiu que os 
olhos do caixa 
o acompanhavam. Parou ao  lado da mulher com o pacote e disse:
- Devo compriment-la. Est usando um vestido muito bonito.
A mulher corou.
- Oh... obrigada, senhor... graas.
- De nada. 

Jaime virou-se e acenou com a cabea para o caixa, depois saiu do banco. Levaria 
15 minutos 
at a mulher terminar o que tinha  de fazer e ir embora. A essa altura,  ele e 
os outros j estariam 
longe.
No momento em que Jaime saiu do banco e aproximou-se do carro, Megan quase 
desfaleceu 
de alvio.
Felix Carpio sorriu.
- O filho da puta conseguiu escapar. - Ele olhou para Megan. - Desculpe, irm.
Megan nunca se sentira to contente por ver algum em toda a sua vida. Ele 
conseguiu, 
pensou. E sozinho. Espere s at eu contar s 
irms o que aconteceu. E depois se lembrou. Nunca poderia contar a 
ningum. Quando voltasse ao  convento, haveria apenas o silncio, pelo resto da 
sua vida. E 
experimentou um estranho sentimento.
- Vamos embora, amigo - disse Jaime a Felix. - Pode deixar que eu dirijo. - 
Jogou a pasta no 
banco traseiro. - Correu tudo bem? - perguntou Amparo.
Jaime riu.
- No poderia ter corrido melhor. Devo lembrar-me de agradecer ao  coronel Acoca 
por seu 
carto de visitas.
O carro desceu a rua. Na primeira esquina, Cale de Tudela, Jaime virou  
esquerda. Um 
guarda prostrou-se na frente do carro e levantou a mo, fazendo sinal para que 
parasse. Jaime pisou 
no freio. O corao de Megan comeou a bater forte.
O guarda aproximou-se do carro. Jaime perguntou calmamente:
- Qual  o problema, senhor guarda?
- O problema, "senhor",  que est guiando na contramo, numa rua de mo  nica. 
A menos 
 que possa provar que  legalmente cego, est numa situao difcil. - Ele 
apontou para uma placa 
na esquina. - A placa est bem visvel. Espera-se que os motoristas respeitem a 
sinalizao.  para 
isso que so colocadas.
- Mil perdes - disse Jaime. - Meus amigos e eu estvamos numa discusso to 
sria que nem 
me apercebi da placa.
O guarda apoiou-se na janela do motorista. Estudava Jaime, com uma expresso de 
perplexidade.
- Gostaria que me mostrasse seus documentos, por favor.
- Pois no. - Jaime estendeu a mo para o revlver que estava em baixo do 
palet. Felix 
estava pronto para entrar em aco. Megan prendeu a respirao. Jaime fingiu 
vasculhar os bolsos. 
- Sei que esto em algum lugar.
 Neste momento, do outro lado da praa, soou um grito alto. O guarda virou-se. 
Um homem 
na esquina batia numa mulher, acertando-lhe com os punhos na cabea e nos 
ombros.
- Socorro! - gritou a mulher. - Socorro! Ele est me matando!
O guarda hesitou apenas por um instante.
- Esperem aqui - ordenou.
O guarda correu na direco  do homem e da mulher. Jaime engrenou o carro e 
calcou o 
acelerador. O carro disparou pela rua de mo nica, dispersando os carros que 
vinham em sentido 
contrrio, sob o barulho de buzinas furiosas. Chegaram  esquina, e Jaime fez a 
curva, seguindo para 
a ponte de sada da cidade, pela Avenida Sanchez de Arjona.
Megan olhou para Jaime e fez o sinal-da-cruz. Tinha dificuldade em respirar.

- Voc... voc mataria o guarda, se aquele homem no agredisse a mulher?
Jaime no se deu ao  trabalho de responder.
- A mulher no estava sendo agredida, irm - explicou Felix. - Os dois eram 
nossos. No 
estamos sozinhos. Temos muitos amigos.
A expresso de Jaime era sombria.
- Teremos de nos livrar deste carro.
Estava deixxando os arredores de Valladolid. Jaime entrou na N620, a estrada 
para Burgos, 
no caminho para Logroo. Tomou cuidado para no ultrapassar o limite de 
velocidade.
- Deixaremos o carro logo aps passarmos por Burgos - avisou.   
No posso acreditar que isso esteja acontecendo comigo, pensou Megan. Escapei do 
convento, estou fugindo do exrcito, viajando num  carro roubado, com 
terroristas que acabam de 
assaltar um banco. Senhor, o que mais me reserva? 

         Captulo 31



O coronel Ramn Acoca e meia dzia de membros do  GOE  encontravam-se no meio de 
uma reunio de estratgia. Estudavam um grande mapa da regio. O coronel disse:
-  evidente que Mir segue para o norte, a caminho do pas basco.
- O que pode ser Burgos, Vitoria, Logroo, Pamplona ou San Sebastin. 
San Sebastin, pensou Acoca. Mas preciso peg-lo antes que chegue l. 
Podia ouvir a voz ao  telefone: Seu tempo est se esgotando.
No podia se permitir ao  fracasso.

Eles atravessavam as colinas  ondulantes que anunciavam o acesso a Burgos. 
Jaime, ao  
volante, mantinha-se em silncio. S depois de um longo tempo  que falou:
- Felix, quando chegarmos  a San Sebastin quero tomar providncias para tirar 
Rubio das 
mos da polcia.
Felix  balanou a cabea.
- Ser um prazer. Isso os levar  loucura.
- E o que me diz de irm Lucia? - indagou Megan.
- O que tem ela?
- No disse que havia sido capturada tambm? 
- Acontece que sua irm Lucia  uma criminosa procurada pela polcia por 
homicdio - 
respondeu Jaime, irnico.
A notcia abalou Megan. Lembrou como Lucia assumira o comando e persuadira-as a 
se 
esconderem nas colinas. Gostava de irm Lucia. Ela disse, obstinada:
- J que vai salvar Rubio, deveria salvar os dois. 
Mas que diabo de freira  essa?,  especulou Jaime.
Mas ela estava certa. Tirar Rubio e Lucia debaixo do nariz da polcia seria uma 
propaganda 
sensacional e daria manchetes.
Amparo mergulhara num silncio mal-humorado.
Subitamente, ao  longe, na estrada, surgiram trs camies do exrcito repletos 
de soldados.
-  melhor sairmos desta estrada - decidiu Jaime.
No cruzamento seguinte ele pegou a rodovia e seguiu para o leste.
- Santo Dominga de La Calzada fica logo  frente. H ali um velho castelo 
abandonado, onde 
poderemos passar a noite.
J ao  longe podiam avistar os contornos no alto da colina. Jaime pegou uma 
estrada 
secundria, evitando a cidade. O castelo foi se tornando cada vez maior, a 
medida que se aproxi-
mavam. Havia um lago no muito longe dali.
Jaime parou o carro.
- Saiam todos, por favor.
Depois que todos saltaram. Jaime apontou o carro para o lago, pela encosta 
abaixo, pisou no 
acelerador, saltou o freio de mo e pulou pela porta. Ficaram observando o carro 
desaparecer na 
gua.
Megan j ia perguntar como chegariam a Logroo, mas se conteve. Uma pergunta 
tola. Ele 
roubar outro carro,  claro.
O grupo virou-se para examinar o castelo abandonado. Um enorme muro de pedra 
cercava-o, 
e havia torres em runas em cada canto.

- Nos tempos antigos - disse Felix a Megan - os   prncipes usavam esses 
castelos como 
prises para seus inimigos.  E Jaime  um inimigo do Estado, se for apanhado, 
no haver priso 
para ele, apenas a morte, pensou Megan. E ele no teve medo. Recordou as 
palavras de Jaime: 
Tenho f naquilo por que estou lutando. Tenho f em meus homens e em minhas 
armas.
Subiram os degraus de pedra que levavam ao  porto da frente, que era de ferro. 
Estava to 
enferrujado que no conseguiram empurr-lo e se espremeram pela abertura para um 
ptio calado 
com pedra.
O interior do castelo pareceu enorme a Megan. Havia passagens estreitas e 
cmodos por toda 
a parte, e aberturas viradas para fora, pelas quais os defensores do castelo 
podiam repelir os 
atacantes.
Degraus de pedra levavam ao  segundo andar, onde havia outro  claustro, um ptio 
interno. 
Os degraus estreitavam-se ao  subirem para o terceiro andar. O castelo estava 
deserto.
- Bem, pelo menos h muitos  cmodos para se dormir aqui - comentou Jaime. - 
Felix e eu 
vamos procurar comida. Escolham seus quartos.
Os homens comearam a descer. Amparo virou-se para Megan.
- Vamos, irm.
Elas deceram pelo corredor, e todos os cmodos pareciam iguais para Megan. Eram 
cubculos de pedra vazios, frios   e austeros, alguns maiores do que outros.
Amparo escolheu o maior.
- Jaime e eu dormiremos aqui. - Olhou para Megan e acrescentou, insiinuante: - 
No gostaria 
de dormir com Felix?
Megan no comentou nada.
- Ou talvez prefira dormir com Jaime. - Amparo deu um passo na direco de 
Megan. - No 
fique com idias, irm. Ele  um homem demais para voc.
- No precisa se preocupar. No estou interessada. - Mesmo enquanto falava, 
Megan 
especulou se Jaime Mir seria mesmo homem demais para ela.

Quando Jaime e Felix voltaram ao  castelo, uma hora depois, Jaime trazia dois 
coelhos, Felix 
carregava lenha e trancou a porta da frente. Megan observou os homens acenderem 
uma fogueira na 
enorme lareira.
Jaime limpou e assou os coelhos num espeto.
- Lamentamos no poder oferecer um autntico banquete s damas - disse Felix -, 
mas 
comeremos bem em Logroo. At l... divirtam-se. 
Depois que terminaram a frugal refeio, Jaime disse:
- Vamos dormir. Quero partir cedo pela manh.
Amparo disse a Jaime:
- Venha, querido. J escolhi nosso quarto.
- Bueno, Vamos.
Megan observou-os subirem, de mos dadas.
Felix fitou-a.
- J escolheu seu quarto, irm?
- J, sim, obrigada.
- Ento vamos nos deitar.
Megan e Felix subiram a escada juntos.
- Boa noite - disse Megan.
Felix entregou-lh um saco de dormir.
- Boa noite, irm.

Megan queria interrogar Felix sobre Jaime, mas hesitou. Jaime podia pensar que 
ela queria 
bisbilhotar e por algum motivo  inexplicvel Megan queria que ele tivesse a 
melhor opinio a seu 
respeito. Isso  mesmo muito estranho, pensou Megan.  Ele  um terrorista, um 
assassino, um 
assaltante de bancos e no sei o que mais, e me preocupo se ele pensa bem a meu 
respeito.  Mesmo 
enquanto pensava nisso, Megan sabia que havia um outro aspecto. Ele  um 
combatente da 
liberdade. Assalta bancos para financiar sua causa. Arrisca a vida pelo que 
acredita.  um homem 
corajoso. 
o passar pelos quartos deles, ela ouviu risos de Jaime e Amparo. Entrou no 
quarto pequeno 
em que dormiria, ajoelhou-se no cho frio de pedra.
- Santo Deus, perdoai-me por... 
Perdoai-me pelo qu? O que fiz? Pela primxxxxxeira vez na vida, Megan foi incapaz de 
rezar. Deus 
estaria escutando?
Entrou no saco de dormir que Felix lhe entregara, mas o sono estava to distante 
quando as 
estrelas frias que podia avistar pelas estreita janelas. 
O que estou fazendo aqui?, perguntou-se Megan. Os pensammentos voltaram ao  
convento... 
ao  orfanato. E antes do orfanato? Por que fui deixada l? No acredito 
realmente que meu pai 
tenha sido um grande guerreiro ou um toureiro. Mas no seria maravilhoso saber 
quem ele foi? 
J estava quase amanhecendo quando Megan resvalou para o sono.

Na priso, em Aranda de Duero, Lucia Carmine era uma celebridade.
- Voc   peixe grado em nosso aqurio - disse-lhe um guarda. - O governo 
italiano est 
enviando algum para escolt-la na viajem de volta. Eu gostaria de escolt-la 
para minha casa, puta 
bonita. Qual foi a coisa terrvel que voc fez?
- Cortei os colhes de um homem por me chamar de  puta bonita. Como est meu 
amigo?
- Vai sobreviver.
Lucia fez uma prece silenciosa de agradecimento. Correu os olhos pelas paredes 
de pedra de 
sua cinzenta cela lgubre e pensou: Como vou sair daqui?

         Captulo 31


A  notcia do assalto ao  banco passou pelos canais competentes da polcia e 
apenas duas 
horas depois do acontecimento  que o tenente de polcia fez contacto com o 
coronel Acoca.
Uma hora depois, Acoca chegava a Valladolid, furioso com a demora.
- Por que no fui informado imediatamente?
- Lamento muito, coronel, mas pensamos que...
- Vocs o tinham nas mos e deixaram que escapasse!
- No foi nossa...
- Mande o caixa do banco entrar.
O caixa estava se sentindo  muito importante.
- Foi em meu guich que ele apareceu. Percebi logo que era um assassino, pela 
expresso em 
seus olhos. Ele...
- No tem a menor dvida de que o homem que o assaltou era Jaime Mir?
- Absolutamente nenhuma. At me mostrou um cartaz com a cabea dele a prmio. 
Era...
- Ele entrou no banco sozinho?
- Entrou. Apontou para uma mulher na fila e disse que pertencia  quadrilha, mas 
reconheci-a 
logo que Mir saiu.  uma secretria cliente nossa...
O coronel Acoca interrompeu-o, impaciente:
- Quando Mir partiu,  viu a direco  que ele seguiu?
- Saiu pela porta da frente.
A entrevista com o guarda de trnsito no foi mais proveitosa.
- Havia quatro pessoas no carro, coronel. Jaime Mir e outro homem, e duas 
mulheres no 
banco traseiro.
- Em que direco eles seguiram?
O guarda hesitou.
- Eles podem ter seguido por qualquer direco, senhor, depois que saram 
daquela rua de 
mo nica. - Seu rosto se iluminou. - Mas posso descrever o carro.
O coronel Acoca sacudiu a cabea, irritado.
- No precisa de se incomodar.

Ela sonhava e podia ouvir as vozes de uma multido, as pessoas chegavam para 
queim-la na 
fogueira por assaltar um banco. No foi por mim. Foi pela causa. As vozes se 
tornaram mais altas.
Megan abriu os olhos, olhando para as estranhas paredes do castelo. O som real. 
Vinha de 
fora.
Megan levantou-se e correu para espreitar pela janela. L embaixo, na frente do 
castelo, havia 
um acampamento de soldados. Megan foi dominada por um pnico sbito. Eles nos 
apanharam. 
Preciso encontrar Jaime.
Correu para o quarto onde Jaime e Amparo dormiam e olhou. Estava vazio. Desceu a 
escada 
correndo para o salo no andar principal. Jaime e Amparo encontravam-se parados 
perto da porta 
da frente, que estava trancada, aos sussurros.
Felix correu para os dois.
- Verifiquei os fundos. No h outra sada.
- E as janelas dos fundos?
- Muito pequenas. A nica sada  pela porta da frente. 
Onde esto os soldados, pensou Megan. Estamos encurralados.
-  muito azar nosso que eles tenham escolido este lugar para acampar - disse 
Jaime.

- O que vamos fazer? - sussurrou Amparo. - No h nada que possamos fazer. Temos 
de ficar 
aqui at eles partirem. Se...
E nesse instante soou uma batida forte na porta da frente. Uma voz autoritria 
gritou:
- Abram essa porta!
Jaime e Felix trocaram um olhar rpido e sem dizerem nada sacaram as armas. A 
voz tornou 
a gritar:
- Sabemos que h algum a dentro! Abram logo!
Jaime disse para Amparo e Megan:
- Saiam da frente. 
 intil, pensou Megan. Deve haver uma dzia de soldados armados l fora. No 
temos a 
menor chance. 
Antes que os outros pudessem det-la, Megan encaminhou-se rapidamente para a 
porta da 
frente e abriu-a.
- Graas a Deus que vocs apareceram! - exclamou ela. - Preciso que me ajudem!

 Captulo 33


O oficial do exrcito olhou aturdido para Megan.
- Quem  voc? O que est fazendo aqui? Sou o capito Rodrigues e estou  
procura...
- Chegou bem a tempo, capito - Megan segurou-o pelo brao. - Meus dois filhos 
pequenos 
esto com tifo e preciso lev-los a um mdico. Preciso que entre e me ajude.
- Tifo?
- Isso mesmo. - Megan puxava-o pelo brao. -  terrvel. Esto ardendo em febre. 
Cobertos 
por pstulas, muito doentes. Chame seus homens e me ajude a lev-los para...
- Deve estar louca, seora!  uma doena altamente contagiosa!
- No importa. Eles precisam de sua ajuda. Podem estar morrendo.  - Ela 
continuava a 
pux-lo.
- Largue-me!
- No pode me deixar! O que vou fazer?
- Torne a entrar e fique a at podermos  avisar a polcia para mandarem uma 
ambulncia ou 
um xxxxxmdico.
- Mas...
-  uma ordem, seora. Entre logo. - O capito gritou: Sargento, vamos sair 
daqui!
Megan fechou a porta, encostou-se nela, esgotada. Jaime fitou-a num espanto 
total.
- Por Deus, foi sensacional! Onde aprendeu a mentir assim?
Megan virou-se para ele e suspirou.
- Quando eu estava no orfanato, tinhamos de aprender a nos defender. S espero 
que Deus 
me perdoe.
- Eu gostaria de ter visto a cara daquele capito. - Jaime soltou uma risada. - 
Tifo! Santo 
Deus! - Ele viu a expresso de Megan. - Peo que me desculpe, irm.
L fora, os soldados levantavam acampamento e partiam apressados. Depois que 
foram 
embora, Jaime disse:
- A polcia estar aqui em breve - disse Jaime ao  perceber que tinham ido 
embora. - De 
qualquer forma, temos um encontro em Logroo.

Quinze minutos depois da partida dos soldados, Jaime anunciou:
- Acho que podemos ir embora agora. - Virou-se para Felix. - Veja o que consegue 
arrumar 
na cidade. De preferncia um sed.
Felix sorriu.
- No h problema.
Meia hora depois eles estavam num velho sed cinza, seguindo para o leste.
Para supresa de Megan, ela estava sentada ao  lado de Jaime. Felix e Amparo 
viajavam no 
banco traseiro.
Jaime olhou para Megan, sorrindo.
- Tifo! - exclamou, soltando uma risada.
Megan sorriu.
- Ele parecia ansioso em escapar, no  mesmo?
- Esteve num orfanato, irm?
- Estive.
- Onde?
- Em vila.
- No parece espanhola.
- J me disseram.
- Deve ter sido um inferno para voc ficar no orfanato.

Megan ficou supresa com a sbita preocupao. - Poderia ter sido, mas no foi.
Eu no deixaria que fosse, pensou ela.
- Tem alguma ideia de quem foram seus pais?
Megan recordou suas fantasias.
- Claro. Meu pai era um bravo ingls que guiava uma ambulncia para os 
Legalistas na Guerra 
Civil espanhola. Minha me foi morta na luta, e me deixaram na porta de uma casa 
de fazenda. - Ela 
deu de ombros. - Ou meu pai foi um prncipe estrangeiro que teve um romance com 
uma camponesa 
e me abandonou para evitar um escndalo.
Jaime lanou-lhe um olhar, sem dizer nada.
- Eu... - Megan parou abruptamente. - No sei quem foram meus pais.
Seguiram em silncio por algum tempo.
- Por quantos anos esteve atrs dos muros do convento?
- Cerca de 15 anos.
Jaime ficou atnito.
- Meu Deus! - Ele apressou-se a acrescentar: - Perdoe, irm. Mas  como falar 
com algum 
de outro planeta. No tem a menor ideia do que aconteceu no mundo durante os 
ltimos 15 anos.
- Tenho certeza de que qualquer coisa que mudou foi apenas temporrio. Tornar a 
mudar.
- Ainda quer voltar para um convento?
A pergunta apanhou Megan de surpresa.
- Claro.
- Por qu? - Jaime fez um amplo gesto. - Afinal... H muita coisa que deve 
perder por trs 
dos muros. Aqui temos msica e poesia. A Espanha deu ao  mundo Cervantes e 
Picasso, Lorca, 
Pizarro, de Soto, Cortes. Este  um pas mgico.
Havia uma surpreendente brandura naquele homem, um fogo suave. Inesperadamente, 
Jaime 
acrescentou:
- Desculpe ter querido abandon-la antes, irm. No era pessoal. Tive as piores 
experincias 
com a sua Igreja.
-  difcil acreditar.
- Mas pode acreditar. - A voz de Jaime era amargurada. Em sua imaginao, podia 
ver os 
prdios,  Esttuas e ruas de Guernica explodindo numa chuva de morte. Ainda 
podia ouvir os 
estrondos das bombas, misturando-se aos gritos das vtimas desamparadas. O nico 
santurio era a 
igreja. 
Os padres trancaram a igreja. No nos deixaram entrar. 
E a saraivada de balas que assassinara seu pai, me e irms. No, no foram as 
balas, pensou 
Jaime. Foi a Igreja.
- Sua Igreja apoiou Franco e permitiu que coisas indescritveis fossem feitas 
com inocentes 
civis.
- Tenho certeza que a Igreja protestou - disse Megan.
- Isso no ocorreu. S aps as freiras estarem sendo estrupadas pelos 
falangistas, os padres 
assassinados e as igrejas incendiadas  que o papa finalmente rompeu com Franco. 
Mas isso no 
ressuscitou meu pai, me e irms.
A vemncia em sua voz era assustadora.
- Lamento, mas isso aconteceu h muito tempo. A guerra j acabou.
- No. Para ns, ainda no acabou. O governo no nos permite hastear a bandeira 
basca, 
celebrar nossos feriados nacionais ou falar a nossa prpria lngua. No, irm. 
Continuaremos a luta 
at conquistar a independncia. Ainda sofremos opresso. H meio milho de 
bascos na  Espanha e 
mais 150 mil na Frana. Queremos a independncia... mas seu Deus est ocupado 
demais para nos 
ajudar.

Megan respondeu muito sria:
- Deus no pode tomar partido, pois Ele est em todos ns. Somos 
todos uma parte de Deus e quando tentamos destru-lO, estamos destruindo a ns 
mesmos.
Para surpresa de Megan, Jaime   sorriu.
- Somos muito parecidos, voc e eu, irm.
-  mesmo?
- Podemos acreditar em coisas diferentes, mas acreditamos com fervor. A maioria 
das pessoas 
passam pela vida sem se importar profundamente com qualquer coisa. Voc devota 
sua vida a Deus; 
eu devoto a vida  minha causa. Ns nos importamos.
Megan pensou: Eu me importo bastante? E se me importo, por que estou gostando da 
companhia desse homem? Eu deveria estar pensando apenas em voltar para o 
convento. Havia uma 
fora em Jaime Mir  que era como m. Ele  como Manolete? Arriscando a vida, 
desafiando os 
maiores perigos, porque no tem nada a perder? 
- O que eles faro se os soldados o capturarem? - perguntou Megan.
- Vo me executar. - Falou com  indeferena que por um momento Megan pensou ter 
entendido mal.
- No tem medo?
- Claro que tenho. Todos temos medo. Nenhum de ns quer morrer, irm. 
Encontraremos seu 
Deus muito em breve. No queremos apressar o momento.
- Fez coisas horrveis?
- Isso depende do seu ponto de vista. A diferena entre um patriota e um rebelde 
depende de 
 quem est no poder no momento. O governo nos chama de terroristas. Ns nos 
chamamos de 
guerreiros da liberdade. De acordo com Jean-Jacques Rousseau, liberdade  a 
capacidade de escolher 
os prprios grilhes. Eu quero essa liberdade. - Estudou-a por um instante. - 
Mas voc no precisa 
de se preocupar com essas coisas, no  mesmo? Depois de voltar ao  convento, 
no estar mais 
interessada no mundo exterior. 
Seria verdade? Tornar a sair para o mundo virara-lhe a vida do avesso. 
Renunciara  sua 
liberdade? Havia muita coisa que queria saber, tanto que precisava aprender. 
Sentia-se como um 
pintor com uma tela branca, pronta para comear a desenhar uma vida nova. Se eu 
voltar para um 
convento, pensou, estarei outra vez excluda da vida. E mesmo enquanto pensava, 
Megan ficou 
consternada pela palavra  se. Quando eu voltar, ela se apressou em corrigir. 
Claro que voltarei. No 
tenho nenhum outro lugar para ir.  

Acamparam no bosque aquela noite.
- Estamos a cerca de cinco quilmetros de Logroo, mas s podemos  nos encontrar 
com os 
outros daqui a dois dias. Ser mais seguro para ns mantermo-nos em movimento 
at l. Assim, 
amanh iremos em direco a Vitoria. No dia seguinte iremos a Logroo, e apenas 
algumas horas 
depois, irm, voc estar no convento de Mendavia. 
Para sempre. 
- Voc ficar bem? - perguntou Megan.
- Est preocupada com minha alma, irm, ou com meu corpo?
Megan ficou corada.
- Nada me acontecer. Cruzarei a fronteira e passarei algum tempo na Frana.
- Rezarei por voc - murmurou Megan. 

- Obrigado - respondeu, solenemente. - Pensarei em voc rezando por mim e isso 
me far 
sentir mais seguro. E agora trate de dormir um pouco.
o virar-se para se deitar, Megan percebeu Amparo observando-a do outro lado da 
clareira. 
Havia uma expresso de dio intenso no seu rosto. 
Ningum vai tirar-me meu homem. Ningum. 

         Captulo 34



Na manh seguinte, ainda cedo, eles chegaram aos arredores de Nanclares, uma 
pequena 
aldeia a oeste de Vitoria. Pararam num posto de gasolina com uma oficina ao  
lado, onde um 
mecnico trabalhava num carro.
- Buenos das- disse o mecnico. - Qual  o problema?
- Se eu sobesse, consertaria pessoalmente e cobraria por isso - respondeu Jaime. 
- Este carro 
 to intil quanto uma mula. Gagueja como uma velha e no tem nenhuma fora.
- Parece at minha mulher - sorriu o mecnico. - Pode ser o carburador, 
"senhor".
Jaime encolheu os ombros.
- No entendo nada de carros. Tudo o que sei  que tenho um encontro marcado 
muito 
importante em Madri amanh.  Pode consertar at esta tarde?
- Tenho dois servios na frente do seu, "senhor", mas... - Deixou a frase 
inacabada pairando 
no ar.
- Terei o maior prazer em pagar o dobro.
O rosto do mecnico iluminou-se.
- Duas horas est bom?
- Est ptimo. Vamos comer alguma coisa e estaremos aqui s duas. - Jaime virou-
se para 
os outros, que escutavam a conversa aturdidos. - Estaremos com sorte. Este homem 
vai consertar 
o carro. Vamos comer.
Eles saram do carro e seguiram Jaime pela rua.
- Duas horas - lembrou o mecnico.
- Duas horas.
Quando estavam longe, Felix disse:
- O que vai fazer? No h nada de errado com o carro. 
Excepto que a essa altura a polcia est procurando-o, pensou Megan. Mas 
procuraro na 
estrada, no numa oficina.  uma maneira esperta de se livrar do carro.
- s duas horas j estaremos longe daqui, no  mesmo? - disse ela.
Jaime fitou-a e sorriu.
- Preciso de fazer um telefonema. Esperem por mim.
Amparo pegou o brao de Jaime.
- Irei com voc.
Megan e Felix observaram os dois afastarem-se. Felix olhou  para Megan e disse:
- Voc e Jaime esto se dando muito bem, hein?
- Estamos.
- Ele no  um homem fcil de se conhecer. Mas  muito honrrado e corajoso. E 
preocupa-se 
com os outros. No h ningum como ele. J lhe contei que Jaime salvou minha 
vida, irma?
- No. Eu gostaria de ouvir a histria.

- H poucos meses o governo executou seis combatentes da liberdade. Em vingana, 
Jaime 
resolveu explodir a represa em Puente la Reina, ao  sul de Pamplona. A cidade 
por baixo era o 
quartel-general do exrcito. Avanamos  noite, mas algum avisou ao   GOE, e os 
homens de Acoca 
pegaram trs dos nossos. Fomos condenados  morte. Seria preciso um exrcito 
para invadir a priso, 
mas Jaime encontrou um jeito. Soltou os touros em Pamplona e na confuso 
conseguiu libertar dois. 
O terceiro havia sido espancado at a morte pelos homens de Acoca.  verdade, 
irma, Jaime Mir 
 muito especial.
Quando Jaime e Amparo voltaram, Felix perguntou:
- O que est acontecendo? - Alguns viro nos buscar. Teremos uma bolia at 
Vitoria.
Meia hora depois um camio apareceu, a traseira coberta por lona.
- Sejam bem-vindos - disse o motorista, jovialmente. - Podem subir.
- Obrigado, amigo.
-  um prazer ajud-lo, "senhor". Ainda bem que telefonou. Os malditos soldados 
esto por 
toda a parte como pulgas. No  seguro ficarem expostos.
Eles embarcaram na traseira do caminho, que seguiu para o nordeste.
- Onde ficaram? - indagou o motorista.
- Com amigos - respondeu Jaime.
E Megan pensou: Ele no confia em ningum. Nem mesmo em algum que o est 
ajudando. 
Mas como poderia? Sua vida corre perigo. Refletiu como deveria ser terrvel para 
Jaime viver sob 
aquela sombra, fugindo da polcia e do exrcito. E tudo porque acreditava tanto 
num ideal que estava 
disposto a morrer por ele. O que ele dissera? A diferena entre um patriota e um 
rebelde depende 
de quem est no poder no momento.

A viajem foi bastante agradvel. A tnue cobertura de lona parecia oferecer 
segurana, e 
Megan percebeu quanta tenso sentira nos campos abertos, sabendo que todos 
estavam sendo 
caados. E Jaime vive sob essa tenso constantemente. Como ele  forte! 
Ela e Jaime conversaram com tanto entrosamento que at pareciam velhos amigos. 
Amparo 
Jir escutava sem dizer nada, o rosto impassvel.
- Quando eu era pequeno - disse Jaime a Megan -, queria ser um astrnomo.
Megan ficou curiosa.
- O que fez...?
- Vi meu pai, me e irms serem fuzilados, amigos assassinados, no podia 
suportar o que 
acontecia aqui, neste mundo sangrento. As estrelas eram uma fuga. Estavam a 
milhes de anos-luz 
de distncia, e eu sonhava em visit-las um dia, escapar deste horrvel planeta.
Megan no disse nada.
- Mas no h escapatria, no  mesmo? No final, eu voltei  terra. Pensava que 
uma nica 
pessoa no poderia fazer qualquer diferena. Mas sei agora que isso no  
verdade. Jesus fez uma 
diferena, assim como mom e Gandhi e Einstein e Churchill. - Ele sorriu, 
irnico. - No me entenda 
mal, irm. No estou me comparando a nenhum deles. Mas,  minha pequena maneira, 
fao o que 
posso. Acho que devemos todos fazer o que podemos.
Megan especulou se aquelas palavras no visavam ter um significado especial para 
ela.
- Quando apaguei as estrelas dos olhos, passei a estudar para ser engenheiro. 
Aprendi a 
construir prdios. Agora eu os destruo. E a ironia  que alguns dos prdios que 
explodi so os que 
constru.
Chegaram a Vitoria ao  anotecer.
- Para onde devo lev-los? - perguntou o motorista do camio.
- Pode nos deixar aqui, amigo.
O motorista assentiu.

- Claro. Continuem a boa luta.
Jaime ajudou Megan a descer  do camio. Amparo observou, os olhos em chama. No 
admitia que seu homem tocasse noutra mulher. Ela  uma puta, pensou Amparo. E 
Jaime est com 
teso pela sacana da freira. Mas isso no vai durar. Ele descobrir em breve que 
o leite dela  
muito ralo. Precisa de uma mulher de verdade. 
O grupo seguiu por ruas secundrias, atento a qualquer sinal de perigo. Vinte 
minutos depois 
chegaram a uma casa de pedra de um andar, numa rua estreita, cercada por uma 
alta cerca.
-  aqui - disse Jaime. - Passaremos a noite e partiremos amanh, assim que 
escurecer.
Abriram o porto na cerca e se encaminharam para a porta. Jaime levou apenas um 
momento 
para abrir a fechadura e todos entraram na casa.
- De quem  esta casa? - perguntou Megan.
- Faz perguntas demais - disse-lhe Amparo.- Devia apenas sentir-se feliz porque 
a mantemos 
viva.
Jaime fitou Amparo por um momento.
- Ela j provou seu direito a fazer perguntas. - Virou-se para Megan. - Pertence 
a um amigo. 
Voc est agora no pas basco. Daqui por diante a viagem ser mais fcil. Haver 
camaradas por toda 
a parte, observando e protegendo-nos. Estar no convento depois de amanh.
Megan sentiu um pequeno calafrio que era quase de pensar. O que h comigo? Claro 
que 
quero voltar. Perdoe-me, Senhor. Pedi que me levasse para sua segurana, e 
atendeu-me. 
- Estou faminto - anuciou Felix. - Vamos dar uma olhada na cozinha.
Estava bem abastecida. Jaime disse:
- Ele nos deixou bastante comida. Farei um   jantar maravilhoso. - Ele sorriu 
para Megan. - 
No acha que merecemos?
- No sabia que os homens cozinhavam - comentou Megan.
Felix riu. 
- Os homens bascos orgulham-se de ser seu talento  na cozinha. Prepare-se para 
um banquete. 
Vai ver s.
Jaime recebeu os ingredientes solicitados, e os outros ficaram observando-o 
preparar um  
piperade  de pimentes verdes assados, fatias de cebola branca, tomates, ovos e 
presunto, tudo 
misturado.
Quando comeou a cozinhar, Megan perguntou:
- Tem um cheiro delicioso.
- E isso  apenas para abrir o apetite. Vou fazer um  prato basco famoso para 
voc - pollo al 
chilindrn.
Ele no disse "para ns", notou Amparo. Disse "para voc". Para a sacana.
Jaime cortou pedaos de galinha, salpicou sal e pimenta-do-reino por cima, 
tostou em leo 
quente, enquanto cozinhava cebolas, alho e tomates numa panela separada.
- Vamos deixar em fogo brando por meia hora.
Felix encontrara uma garrafa de vinho tinto. Distribuiu os copos.
- O vinho tinto de La Rioja. Vai gostar. - Estendeu um copo para Megan. - Irm?
A ltima vez que Megan provara vinho fora na comunho.
- Obrigada. - Lentamente, ela levou o copo aos lbios e tomou um gole. Era 
delicioso. 
Tomou outro gole e pde sentir um calor espalhar-se pelo corpo. A sensao era 
maravilhosa. Devo 
desfrutar tudo isso enquanto posso, pensou. Acabar em breve.
Durante o jantar, Jaime parecia bastante preocupado.

- O que o deixa perturbado assim, amigo? - indagou Felix.
Jaime hesitou.
- Temos um traidor no movimento.
Houve um silncio chocado.
- O que... o que o leva a pensar assim? - perguntou Felix.
- Acoca. Ele est sempre muito perto de ns. Felix encolheu os ombros.
- Ele  uma raposa, e ns somos os coelhos.

-  algo assim.
- Como assim? - perguntou Amparo.
- Quando amos explodir a represa em Puente la Reina, Acoca foi avisado. - Ele 
olhou para 
Felix. - Preparou um armadilha, pegou voc, Ricardo e Zamora. Se eu no me 
atrasasse, teria me 
capturado tambm. E pense tambm no que aconteceu no  parador. 
- Voc ouviu o recepcionista telefonando para a polcia - lembrou Amparo.
Jaime balanou a cabea.
-  verdade... porque tive o pressentimento de que havia alguma coisa errada.
A expresso de Amparo era sombria.
- Quem voc acha que ?
Jaime sacudiu a cabea.
- No tenho certeza. Algum que sabe de todo os os nossos planos.
- Ento vamos mudar de planos - sugeriu Amparo. - Encontraremos os outros em 
Logroo 
e no iremos a Mendavia.
Jaime olhou para Megan.
- No podemos fazer isso. Precisamos levar as irms ao  convento.
Megan fitou-o e pensou: Ele j fez demais por mim. No devo submet-lo a um 
perigo maior 
do que j enfrentou.
- Jaime, eu posso...
Mas ele sabia o que ela pretendia dizer.
- No se preocupe, Megan. Todos chegaremos l sos e salvos. 
Ele mudou, pensou Amparo. No comeo, no queria nada com  nenhuma delas. Agora, 
est 
disposto a arriscar a vida por ela. E chama-a de Megan. No  mais irm.
- H pelo menos 15 pessoas que esto a par dos nossos planos - acrescentou 
Jaime.
- Temos que descobrir quem  o traidor - insistiu Amparo.
- Como faramos isso? - indagou Felix, dobrando nervosamente as pontas da toalha 
de mesa.
- Paco est em Madri, verificando algumas coisas para mim - informou Jaime. - 
Combinei que 
ele telefonaria para c. - Fitou Felix por um momento, depois desviou os olhos. 
No dissera que 
appenas meia dzia de pessoas conhecia os percursos exactos que os trs grupos 
seguiriam. Era 
verdade que Felix Carpio fora aprisionado por Acoca. Era tambm verdade que isso 
proporcionava 
um libi perfeito para Felix. No momento propcio, podia-se planear sua fuga. S 
que eu o tirei de 
l antes, pensou Jaime. Paco est investigando-o. Espero que ligue logo.
Amparo levantou-se e olhou para Megan.
- Ajude-me com a loua.
As duas comearam a levantar a mesa, e os homens foram para a sala de estar.
- A freira... ela est aguentando muito bem - comentou Felix.
- Tem razo.

- Gosta dela, no  mesmo?
Jaime descobriu que tinha dificuldade para fitar Felix.
- Gosto, sim. - E voc a trairia, junto com todos ns.
- E voc e Amparo?
- Somos iguais. Ela acredita na causa tanto quanto eu. Toda a sua famlia foi  
exterminada 
pelos Falangistas de Franco. - Jaime levantou-se e espreguiou-se. - Est na 
hora de deitar.
- Acho que no conseguirei dormir esta noite. Tem certeza de que h um espio 
entre ns? 
Jaime fitou-o.
- Tenho.

Quando Jaime desceu para o desjejum, pela manh, Megan no o reconheceu. O rosto 
fora 
escurecido, ele usava uma peruca e bigode postio e vestia roupas andrajosas. 
Parecia dez anos mais 
velho.
- Bom dia - disse ele.
E a voz que saa daquele corpo deixou Megan aturdida.
- Onde voc...?
- Uso esta casa de vez em quando. Mantenho aqui um estoque  de coisas que 
preciso.
Apenas o tom despreocupado de sua voz, isso forneceu a Megan uma percepo  do 
tipo de 
vida que levava. De quantas outras casas e disfarces ele precisava para se 
manter vivo? Quantas fugas 
por um triz de que ela nada sabia? Megan recordou os homens brutais que haviam 
atacado o 
convento e pensou: Se pegarem Jaime, no tero misericrdia. Eu gostaria de 
saber como 
proteg-lo. 
A mente de Megan foi povoada de pensamentos que ela no tinha o direito de 
acalentar.

Amparo preparou o desjejum: bacalhau, leite de cabra, queijo, chocolate quentee 
grosso e 
 churros. 
- Quanto tempo ficaremos aqui? - perguntou Felix enquanto comiam.
Jaime respondeu calmamente:
- Partiremos assim que escurecer. - Mas no tinha a menor inteno de permitir 
que Felix 
ussasse essa informao. - Tenho algumas coisas para fazer - acrescentou Jaime. 
- Precisarei de sua 
ajuda. 
- Certo.
Jaime chamou Amparo l fora.
- Quando Paco ligar, avise-u que voltarei em breve. Anote o recado
Ela assentiu.
- Tome cuidado.
- No se preocupe. - Ele virou-se para Megan. - Seu ltimo dia. Amanh estar no 
convento. 
Deve estar ansiosa por chegar.
Ela fitou-o em silncio por um longo tempo.
-  verdade. - No ansiosa, pensou Megan. Aflita. E gostaria de no me sentir 
assim. Vou 
me afastar de tudo isso, mas pelo resto da vida ficarei especulando sobre o que 
aconteceu com 
Jaime, Felix e os outros. 
Ela observou Jaime e Felix partirem. Sentiu uma tenso entre os dois que no 
podia 
compreender.
Amparo a estudava, e Megan lembrou-se de suas palavras: Jaime  homem demais 
para voc. 
Amparo disse brutalmente:
- Arrum as camas. Eu fao o almoo.
- Est bem.
Megan foi para os quartos. Amparo ficou parada ali por um momento, observando-a, 
depois 
entrou na cozinha.

Durante a hora seguinte, Megan trabalhou, concentrando-se activamente em varrer, 
tirar o 
p e polir, tentando no pensar, tentando manter a mente afastada do que a 
incomodava. 
Preciso tir-lo da cabea, pensou.
Era impossvel. Ele era como uma fora da natureza, arrastando tudo em seu 
caminho.
Megan poliu com mais vigor.

Quando Jaime e Felix voltaram, Amparo esperava-os na porta. Felix estava plido. 
- No 
estou me sentindo muito bem. Acho que vou me deitar um pouco.
Ele desapareceu num quarto.
- Paco ligou - anunciou Amparo, muito excitada.
- O que ele disse?
- Tem informaes para voc, mas no quis falar pelo telefone. Est enviando 
algum para 
encontr-lo. A pessoa estar na praa ao  meio-dia.
Jaime franziu o cenho, pensativo.
- Ele no disse quem ?
- No. Falou apenas que era urgente.
- Droga. Eu... Ora, no importa. Muito bem, irei ao  encontro. Quero que fique 
de olho em 
Felix.
Amparo ficou perplexa.
- No com...
- No quero que ele use o telefone.
Um brilho de compreenso surgiu no rosto de Amparo.
- Acha que Felix ...?
- Por favor. Faa apenas o que estou pedindo. - Jaime olhou no relgio. - Quase 
meio-dia. 
Partirei agora. Estarei de volta dentro de uma hora. Tome cuidado, querida.
- No se preocupe.
Megan ouviu as vozes. 
No quero que ele use o telefone.
Acha que Felix ...?
Por favor. Faa apenas o que estou pedindo.
Ento Felix  o traidor, pensou Megan. Ela o vira entrar no quarto e fechar a 
porta. Ouviu 
Jaime sair.
Megan entrou na sala de estar. Amparo virou-se.
- J acabou?
- Ainda no, mas... - Queria perguntar para onde Jaime fora, o que faria a 
Felix, o que 
aconteciria em seguida, mas no sentiu a menor vontade de discutir o assunto com 
aquela mulher. 
Esperarei at a volta de Jaime.
- Pois ento acabe - disse Amparo.
Megan voltou para o quarto. Pensou em Felix. Ele parecera muito amigo e 
afetuoso. 
Fizera-lhe muitas perguntas, mas agora esse acto de aparencia cordialidade 
assumira um segnificado 
diferente. O barbudo procurava informaes para transmitir ao  coronel Acoca. As 
vidas de todos 
corriam perigo. 
Amparo pode precisar de ajuda, pensou Megan. Encaminhou-se para a sala de estar, 
mas 
parou abruptamente. Uma voz estava dizendo:
- Jaime acaba de sair. Estar sozinho num banco, na praa principal. Seus homens 
no devem 
ter dificuldades para peg-lo.
Megan ficou imvel, congelada.
- Ele foi a p, por isso deve levar uns quinze minutos para chegar l.
Megan escutava com crescente horror.

- Lembre-se do nosso acordo, coronel - disse Amparo ao  telefone. - Prometeu no 
mat-lo.
Megan recuou para o corredor. Sua mente estava em turbilho. Ento Amparo era a 
traidora. 
E enviara Jaime para uma armadilha.
Recuando sem fazer barulho, a fim de que Amparo no a ouvisse, Megan virou-se e 
saiu 
correndo pela porta dos fundos. No tinha a menor ideia como ajudaria Jaime. 
Sabia apenas que 
precisava fazer alguma coisa. Passou pelo porto e comeou a descer a rua, 
andando to depressa 
quanto podia sem atrair a ateno, seguindo para o centro da cidade. 
Por favor, Deus, permita-me chegar a tempo, rezou Megan. 
O percurso para a praa central era aprazvel, as ruas secundrias ensombradas 
por enormes 
rvores, mas Jaime se mantinha alheio ao  cenrio. Pensava em Felix. Fora como 
um irmo para ele, 
dera-lhe sua total confiana. O que o transformava num traidor, disposto a pr 
em risco as vidas de 
todos? Talvez o mensageiro de Paco tivesse a resposta. Por que Paco no podia 
falar pelo telefone?, 
Ele aproximou-se da praa. No meio havia um chafariz e rvores frondosas, com 
bancos 
espalhados ao  redor. Crianas brincavam. Dois velhos jogavam  boule. Alguns 
homens estavam 
sentados no banco, aproveitando o sol, lendo, cochilando ou alimentando os 
pombos. Jaime 
atravessou a rua, caminhou devagar e sentou-se num banco. Olhou para seu relgio 
no momento em 
que a torre comeava a bater o meio-dia. O emissrio de Paco deve estar 
chegando.
Pelo canto dos olhos, Jaime avistou um carro de polcia parar no outro canto da 
praa. Olhou 
na outra direco. Um segundo carro de polcia chegou. Seu corao comeou a 
bater mais depressa. 
Era uma armadilha. Mas quem a promovera? Teria sido Paco, que enviara o recado, 
ou Amparo, que 
o transmitira? Ela o mandara para o parque. Mas por qu? Por qu?
No havia tempo para se preocupar com isso agora. Tinha de escapar. Mas Jaime 
sabia que 
os guardas atirariam no momento que tentasse correr. Podia tentar um blefe, mas 
os guardas sabiam 
que ele estava ali.  
Pense em alguma coisa! Depressa! 


A um quarteiro dali, Megan seguia apressada para o parque. ao  v-lo, avaliou a 
situao 
num olhar. Avistou Jaime sentado num banco e os guardas se aproximando pelos 
dois lados.
A mente de Megan disparou. No havia como Jaime escapar.
Ela estava por uma merciaria.  sua frente, bloqueando a passagem, uma me 
empurrava um 
carrinho de beb. A mulher parou, encostou o carrinho na parede da mercearia e 
entrou para fazer 
uma compra. Megan pegou um carrinho de beb e atravessou a rua, entrando no 
parque.
Os polcias passavam agora pelos bancos, interrogando os homens ali sentados. 
Megan 
passou por um guarda. E gritou:
- Madre de Dios!  A est voc, Manuel! Estive  sua procura por toda a parte! 
J no 
aguento mais! Prometeu pintar a casa esta manh e vem sentar-se no parque como 
um milionrio! 
Mame tinha razo! Voc  um vagabundo que no presta para nada! Eu nunca deevia 
ter casado 
com voc!
Jaime levou menos de uma frao de segundo para reagir. Levantou-se.
- Sua me  mesmo uma especialista em vagabundice. Casou com um. Se ela...

- Quem  voc para falar? Se no fosse por mame, nosso filho passaria fome. 
Voc nunca 
leva po para casa...
Os guardas pararam, acompanhando a discusso.
- Se fosse minha mulher - murmurou um deles -, eu a mandaria de volta para a 
me.
- Estou cansado das suas reclamaes, mulher! - berrou Jaime. - J avisei antes! 
Quando 
chegarmos em casa vai aprender uma lio!
- Bom para ele - comentou um dos guardas.
Jaime e Megan comearam a deixar o parque, discutindo furiosamente, empurrando o 
carrinho de beb. Os guardas tornaram a concentrar sua ateno nos homens 
sentados. - Seus 
documentos, por favor?
- Qual  o problema, senhor guarda?
- No  da sua conta. Apenas mostre os documentos.
Por todo o parque, homens pegavam as carteiras e tiravam os documentos para 
provar quem 
eram. No meio da confuso, um beb comeou a chorar. Um dos guardas olhou. O 
carrinho de beb 
fora abandonado na esquina. O casal que brigava desaparecera.

Meia hora depois, Megan entrou pela porta da frente da casa. Amparo andava 
nervosamente 
de um lado para outro.
- Onde voc esteve, Megan? No deveria ter deixado a casa sem me avisar.
- Precisei sair para cuidar de um problema.
- Que problema? - indagou Amparo, desconfiada.  - No conhece ningum aqui. Se 
voc...
Jaime entrou, e o sangue esvaiou-se do rosto de Amparo. Mas ela rapidamente 
recuperou o 
controle.
- O que... o que aconteceu? No foi ao  parque?
- Por qu, Amparo? - murmurou Jaime.
Ela fitou-o nos olhos e compreendeu que estava tudo acabado.
- O que a fez mudar?
Ela sacudiu a cabea.
- Eu no mudei. Voc  que mudou. Perdi todas as pessoas que eu amava nessa 
guerra 
estpida em que voc luta. Estou cansada de tanto derramamento de sangue.  
capaz de suportar a 
verdade a seu respeito, Jaime?  to ruim quanto ao  governo que combate. Pior, 
porque eles esto 
dispostos a fazer a paz, e voc no. Pensa que est ajudando nosso Pas? Pois 
est destruindo-o. 
Assalta brancos, explode carros e assassina pessoas inocentes, acha que  um 
heri. Eu o amava e 
acreditava em voc, mas... - A voz tremeu. - O derramamento de sangue precisa 
acabar.
Jaime adiantou-se, os olhos como gelo.
- Eu deveria mat-la.
- No! - balbuciou Megan. - Por favor! No pode fazer isso!
Felix entrara na sala e escutara a conversa.
- Meu Deus! Ento  ela! O que vamos fazer com essa miservel!
- Teremos de lev-la e ficar de olho nela - respondeu Jaime. Ele pegou Amparo 
pelos ombros 
e disse suavemente: - Se tentar mais alguma coisa, juro que morrer. - Empurrou-
a para longe, 
virou-se para Megan e Felix. - Vamos sair daqui antes que os amigos dela 
apaream.



        Captulo 35 

 

- Teve Mir em suas mos e deixou-o escapar?
- Coronel... com todo respeito... meus homens...
- Seus homens so uns idiotas. E se intitulam de polcias? so uma vergonha para 
seus 
uniformes!
O chefe de polcia ficou imvel, encolhendo-se sob o desdm implacvel do 
coronel Acoca. 
No havia mais nada que ele podesse fazer, pois o coronel era bastante poderoso 
para obter sua 
cabea. Acoca ainda no acabara com ele.
- Eu o considero pessoalmente responsvel. Providenciarei para que seja afastado 
do cargo.
- Coronel...
- Saia! Voc me deixa enjoado. 
  O coronel Acoca fervilhava de frustrao. No hovera tempo suficiente para ele 
chegar a 
Vitoria e pegar Jaime Mir. Tivera de confiar a misso  polcia local, e eles 
haviam estragado tudo. 
S Deus sabia para onde Mir seguira agora.
O coronel aproximou-se do mapa aberto sobre uma mesa. Eles esto indo para o 
pas basco, 
 claro. O que pode ser Burgos, ou Logroo ou Bilo ou San Sebastim. Vou me 
concentrar no nor-
deste. Tero de aparecer em algum lugar. 
O coronel recordou a conversa com o primeiro ministro naquela manh.
- Seu tempo est a esgotar-se, coronel. Leu os jornais desta manh? A imprensa 
mundial est 
fazendo com que pareamos palhaos.. Mir e as freiras nos converteram em alvo 
de riso.
- Primeiro-ministro, tem a minha garantia...
- O rei Juan Carlos ordenou-me  que criasse uma comisso de inqurito oficial 
para investigar 
toda a questo. No posso protelar por mais tempo.
- Adie o inqurito s por uns poucos dias. Pegaremos Mir e as freiras at l.
Houve uma pausa.
- Quarenta e oito horas.
No era o primeiro-ministro que o coronel Acoca tinha medo de desapontar. Nem o 
rei. Era 
a  OPUS MUNDO. Quando fora convocado  sala de um dos mais eminentes industriais 
da Espanha, 
as ordens que recebera eram expressas: "Jaime Mir est criando um clima 
prejudicial  nossa 
organizao. Detenham-o. Ser bem recompensado."
E o coronel Acoca conhecia a parte da conversa que no ocorrera: Fracasse e ser 
punido. 
Agora, sua carreira estava em perigo. E tudo porque alguns polcias idiotas 
haviam deixado Mir 
escapar debaixo de seus narizes. Jaime Mir podia se esconder em qualquer parte. 
Mas as freiras... 
Uma onda de excitamento invadiu o coronel Acoca. As freiras! Elas eram a chave 
de tudo. Jaime 
Mir podia se esconder em qualquer lugar, mas as irms s podiam encontrar um 
santurio em outro 
convento. E quase certamente seria um convento da mesma ordem.
O coronel virou-se para estudar o mapa outra vez. E l estava: Mendavia. Havia 
um convento 
da Ordem Cisterciense em Mendavia.  para l que esto indo, pensou Acoca, 
triunfante. E eu 
tambm.
S que chegarei l primeiro, e ficarei  espera deles. 

A jornada chegava ao  fim para Ricardo e Graciela.

Os ltimos dias haviam sido dos mais felizes que Ricardo j conhecera. Estava 
sendo caado 
pelo exrcito e polcia, a captura significava a morte certa, mas nada disso 
parecia importar. Era 
como se ele e Graciela tivessem construdo uma ilha no tempo, um paraso em que 
nada podia 
alcan-los. Transformaram a viagem desesperada numa aventura maravilhosa que 
partilhavam.
Conversavam sem parar, explorando e explicando, as palavras eran tentculos que 
os uniam 
ainda mais. Falavam do passado, presente e futuro. Particularmente do futuro.
- Casaremos na igreja - disse Ricardo. - Voc ser a mais linda noiva do mundo.
E Graciela podia visualizar a cena, ficava emocionada.
- E viveremos na casa mais bonita...
E ela pensou: Nunca tive uma casa minha, um quarto meu...
Tivera apenas a casa pequena que partilhava com a me e todos os tios, depois a 
cela do 
convento, vivendo com as irms.
- E teremos filhos encantadores. 
E eu lhe darei todas as coisas que nunca tive. Eles sero muito amados. 
E o corao de Graciela exultava.
Mas havia uma coisa que a perturbava. Ricardo era um soldado, lutando por uma 
causa em 
que acreditava fervorosamente. Podia se contentar em viver na Frana, retirando-
se da batalha? Ela 
sabia que precisava discutir o assunto com ele.
- Ricardo... quanto tempo mais voc acha que esta revoluo vai durar? 
J durou tempo demais, pensou Ricardo. O governo apresentara propostas de paz, 
mas a  
ETA  fizera pior do que rejeitar. Respondera s propostas com uma sucesso de 
ataques terroristas. 
Ricardo tentara discutir o problema com Jaime.
- Eles esto dispostos a fazer um acordo, Jaime. No deveramos conversar?
- As propostas no passam de um truque... eles querem destruir-nos. Esto nos 
forando a 
lutar.
E porque Ricardo amava Jaime e acreditava nele, continuava a apoi-lo. Mas as 
dvidas no 
desapareceram. Enquanto aumentava o derramamento de sangue, o mesmo acontecia 
com sua 
incerteza. E agora Graciela queria saber: Quanto tempo mais voc acha que esta 
revoluo vai 
durar? 
- No sei - respondeu Ricardo. - Eu gostaria que j tivesse acabado. Mas posso 
lhe dizer uma 
coisa, minha querida: nada jamais poder se interpor entre ns... nem mesmo uma 
guerra. Nunca 
haver palavras suficientes para lhe dizer o quanto a amo.
E os dois continuaram a sonhar.

Viajavam durante a noite, atravessando verdes campos frteis, passando por El 
Burgo e 
Soria. ao  amanhecer, avistaram Logroo ao  longe.  esquerda da estrada havia 
um bosque de 
pinheiros , e mais alm uma floresta de cabos de electricidade.  Graciela e 
Ricardo desceram a estrada 
sinuosa at os arredores da cidade fervilhante.
- Onde vamos nos encontrar com os outros? - perguntou Graciela.
Ricardo apontou para um cartaz num prdio por que passavam. Dizia:

        CIRQUE JAPON!
        O MAIS SENSACIONAL
        CIRCO DO MUNDO! RECM CHEGADO DO JAPO
        24 DE JULHO POR UMA SEMANA
        AVENIDA CLUB DEPORTIVO

- A. Vamos nos encontrar no circo esta tarde.

Em outra parte da cidade, Megan, Jaime, Amparo e Felix tambm olhavam para um 
cartaz 
do circo. Havia um sentimento de enorme tenso no grupo. Amparo nunca ficava 
longe das vistas 
dos outros. Desde do incidente em Vitoria que os homens a tratavam como um 
pria, ignorando-a 
na maior parte do tempo e falando-lhe apenas o necessrio. Jaime consultou seu 
relgio.
- O espetculo do circo deve estar comeando. Vamos embora.

No quartel-general da polcia em Logroo, o coronel Ramn  Acoca estava dando os 
retoques finais em seu plano.
- Os homens esto postados em volta do convento.
-Esto, sim, coronel. Est tudo pronto.
- ptimo.

O coronel Acoca estava expansivo. A armadilha era infalvel, e dessa vez no 
haveria polcias 
desastrados para estragar-lhe os planos. Comandaria pessoalmente a operao. A  
OPUS MUNDO 
 orgulhar-se-ia dele. Repassou os detalhes com seus oficiais.
- As freiras esto viajando com Mir e seus homens.  importante que peguemos 
todos  antes 
 de entrarem no convento. Ficaremos  espera no bosque ao  redor. No faam 
qualquer movimento 
at eu dar o sinal para atacar.
- Quais so as nossas ordens se Jaime Mir resistir?
- Toro para que ele resista - disse suavemente o gigante de cicatriz.
Um ordenana entrou na sala.
- Com licena, coronel. H um americano aqui que deseja lhe falar.
- No tenho tempo agora.
- Est bem, senhor. - O ordenana hesitou. - Ele diz que  sobre uma das 
freiras.
-  mesmo? falou que ele  americano?
- Isso mesmo, coronel.
- Mande-o entrar.
Um momento depois Alan Tucker entrou na sala.
- Desculpe incomod-lo, coronel. Sou Alan Tucker. Espero que possa ajudar-me.
- De que maneira, Sr. Tucker?
- Fui informado que est  procura de uma das freiras do convento 
Cisterciense... uma certa 
irm Megan.
O coronel recostou-se na cadeira, estudando o americano.
- E por que isso o interessa?
- Tambm estou  procura dela. E  muito importante que eu a encontre. 
Interessante, pensou o coronel. Por que  to importante que esse americano 
encontre uma 
freira? 
- No tem ideia de onde ela se encontra?
- No. Os jornais... 
A maldita imprensa outra vez. 
- Talvez pudesse me explicar por que est  procura da freira.
- Lamento, mas no posso discutir esse assunto.
- Ento tambm lamento, mas no poderei ajud-lo.
- Coronel... poderia ajudar-me se a encontrasse?
Acoca sorriu.
- Voc saber.

O pas inteiro acompanhava a hgira das freiras. A imprensa noticiara a fuga por 
um triz de 
Jaime Mir e uma delas em Vitoria. 

Ento eles esto seguindo para o norte, pensou Alan Tucker. A melhor 
possibilidade  que 
eles tm de sair do pas  provavelmente San Sebastin. Preciso encontr-la. 
Podia sentir que sua 
situao com Ellen Scott era difcil. Cuidei muito mal do problema, pensou ele. 
Mas poderei 
compensar se levar Megan. 
Ele telefonou para Ellen Scott.

O Cirque Japon estava instalado numa enorme tenda no bairro nos arredores de 
Logroo. 
Dez minutos depois antes do incio do espetculo, as arquibancadas j estavam 
lotadas. Megan, 
Jaime, Amparo e Felix desceram pelo corredor apinhado at os lugares reservados. 
Haviam dois 
lugares vazios ao  lado de Jaime. Ele deu uma olhada e disse:
- Alguma coisa est errada. Ricardo e irm Graciela j deveriam ter chegado. - 
Ele virou-se 
para Amparo. - Voc...?
- No. Juro que no. Nada sei sobre isso.
As luzes diminuiram, e o espetculo comeou. A multido gritava e eles olharam 
para o 
picadeiro. Um ciclista circulava ppelo picadeiro e, enquanto ele pedalava, um 
acrobata pulou em seus 
ombros. Depois, um a um, um enxame de outros acrobatas tambm pulou, segurando-
se na frente, 
atrs e nos lados da bicicleta at que ela ficou completamente invisvel. A 
plateia aplaudiu.
Um urso treinado foi o nmero seguinte, depois um equilibrista na corda bamba. 
Todos 
estavam adorando o espetculo, mas Jaime e os outros sentiam-se muito tensos 
para prestarem 
ateno. O tempo se esgotava.
- Esperaremos mais 15 minutos - decidiu Jaime. - Se no tiverem aparecido at 
l...
Uma voz disse:
-  Com licena... estes lugares esto ocupados?
Jaime levantou os olhos, viu Ricardo e Graciela e sorriu.
- No. Sentem-se, por favor. - Num sussurro aliviado, ele acrescentou. - Estou 
muito 
contente por v-los.
Ricardo acenou a cabea para Megan, Amparo e Felix. Olhou em redor.
- Onde esto os outros?
- No tem lido jornais?
- Jornais? No. Estivemos nas montanhas.
- Tenho ms notcias - disse Jaime. - Ricardo est num hospital penitencirio.
- Como...? - Ricardo ficou aturdido.
- Foi esfaqueado numa briga de bar. A polcia prendeu-o.
- Mierda! - Ricardo ficou em silncio por um momento, depois suspirou. - Teremos 
de tir-lo 
de l, no  mesmo?
-  esse o meu plano - concordou Jaime.
- Onde est irm Lucia? - perguntou Graciela. - E irm Teresa?
- Irm Lucia foi presa - respondeu Megan. - Ela era... era procurada por 
homicdio. Irm 
Teresa morreu.
Graciela fez o sinal-da-cruz.
- Oh, meu Deus!

No picadeiro, um palhao andava na corda bamba, com um  poodle  debaixo de cada 
brao 
e dois gatos siameses nos enormes bolsos. Os ces tentavam morder os gatos, e as 
cordas balanavam 
violentamente, o palhao fingiu fazer o maior esforo para manter o equilbrio. 
Todos vibraram. Era 
difcil ouvir alguma coisa com tanto barulho. Megan e Graciela tinham muitas 
coisas para contar uma 
 outra. Quase que simultaneamente, elas comearam a falar na linguagem de 
sinais do convento. Os 
dois homens olharam, espantados. 
Ricardo e eu vamos nos casar...
Isso  maravilhoso...
O que aconteceu com voc? 
Megan comeou a responder, mas logo compreendeu que no havia sinais para 
transmitir as 
coisas que queria dizer. Teria de esperar.
- Vamos embora - disse Jaime. - H um furgo  espera l fora para nos levar a 
Mendavia. 
Deixaremos as irms no convento e seguiremos viajem.
Eles comearam a subir pela passagem, Jaime segurando o brao de Amparo.
Quando chegaram ao  estacionamento, Ricardo anunciou:
- Jaime, Graciela e eu vamos casar.
Um sorriso iluminou o rosto de Jaime.
- Isso  maravilhoso! Parabns! - Ele virou-se para Graciela. - No poderia 
escolher homem 
melhor.
Megan abraou Graciela.
- Fico muito feliz por vocs dois. - E ela pensou: Foi fcil para ela tomar a 
deciso de deixar 
o convento?  Estou pensando em Graciela? Ou em mim mesmo? 

O coronel Acoca acabava de receber uma informao excitada de um ajudante.
- Eles foram vistos no circo h menos de uma hora. Quando chegamos com os 
reforos, j 
haviam ido embora. Partiram num furgo azul e branco. O senhor estava certo, 
coronel. Eles esto 
indo na direco de Mendavia. 
Ento finalmente est acabado, pensou Acoca. A caada fora emocionante, e devia 
admitir 
que Jaime Mir fora um inimigo  altura. A  OPUS MUNDO  ter agora planos ainda 
maiores para 
mim.

Atravs de um potente binculos Zeiss, Acoca obserbou o furgo azul e branco 
aparecer no 
alto de uma colina e se encaminhar para o convento l embaixo. Soldados 
fortemente armados 
escondiam-se entre as rvores, nos dois lados da estrada e em volta do convento. 
No havia a menor 
possibilidade de algum escapar.
Enquanto o furgo se aproximava da estrada do convento e parava, o coronel Acoca 
gritou 
pelo  walkie-talkie: 
- Agora! Fechem o cerco!
A manobra foi executada com prefeio. Dois polotes de soldados, empunhavam 
armas 
automticas, assumiram as posies, bloqueando a estrada e cercando  o furgo. 
Acoca permaneceu 
imvel por um momento, observando a cena, saboreando se momento de glria. 
Depois, lentamente, 
aproximou-se do furgo, com a pistola na mo.
- Vocs esto cercados! - gritou. - No tm a menor chence! Saiam com as mos 
levantadas! 
Um de cada vez! Se tentarem resistir, todos morrero!
Houve um longo momento de silncio, e depois a porta do furgo foi aberta, bem 
devagar, 
trs homens e trs mulheres saram, trmulos, as mos levantadas acima da 
cabea.
Eram estranhos.


        Captulo 36



No alto de uma colina, por cima do convento, Jaime e os outros observavam Acoca 
e seus 
homens aproximarem-se do furgo. Viram os passageiros apavorados saltarem, as 
mos levantadas, 
assistiram  cena desempenhada em pantomima.
Jaime quase podia ouvir o dilogo: 
Quem so vocs?
Trabalhamos num hotel perto de Logroo.
O que esto fazendo aqui?
Um homem nos deu cem mil pesetas para entregar este furgo no convento.
Quem  o homem?
No sei. Nunca o tinha visto antes.
 este aqui no retrato?
, sim.  ele.  
- Vamos sair daqui - disse Jaime.

Eles estavam numa camionete branca, de volta para Logroo. Megan olhava admirada 
para 
Jaime.
- Como soube?
- Que o coronel Acoca estaria  nossa espera no convento? Ele me disse.
- Como  assim?
- A raposa precisa pensar como o casador, Megan.   Coloquei-me no lugar de 
Acoca. Onde 
ele aprontaria uma armadilha para mim? Ele fez exactamente o que eu faria.
- E se ele no aparecesse?
- Ento seria seguro voc entrar no convento.
- O que faremos agora? - perguntou Felix.
Era o que todos queriam saber.
- A Espanha no  segura para qualquer um de ns por algum tempo - disse Jaime. 
- 
Seguiremos para San Sebastin, e de l iremos para a Frana. - Ele olhou para 
Megan. - H 
conventos Cistercienses na Frana.
Era mais do que Amparo podia suportar.
- Por que no se entrega? Se continuar assim, haver mais sangue derramado, mais 
vidas 
perdidas...
- Voc perdeu o direito de falar - interrompeu-a Jaime, bruscamente. - Deve 
apenas se sentir 
grata por continuar viva. - Ele virou-se para Megan. - H dez passagens nos 
Pireneus que levam de 
San Sebastin  Frana. Ser nosso caminho.
-  muito perigoso - protestou Felix. - Acoca estar  nossa procura em San 
Sebastin. 
Esperar que cruzemos a fronteira para a Frana.
- Se  to perigoso assim... - comeou Graciela.
- No precisa se preocupar - garantiu Jaime. - San Sebastin  territrio basco.
A camioneta aproximava-se outra vez dos arredores de Logroo.
- Todas as estradas para San Sebastin estaro vigiadas - advertiu Felix. - Como 
planeja nos 
levar at l?
Jaime j decidira a questo.
- Iremos de combio.
Os soldados revistaro os combios - objetou Ricardo.
Jaime lanou um olhar pensativo para Amparo.
- Acho que no. Nossa amiga aqui vai nos ajudar. Sabe como entrar em contacto 
com o 
coronel Acoca?
Ela hesitou.
- Sei.
- ptimo. Vai ligar para ele.

Pararam numa cabine telefonica na estrada. Jaime entrou com Amparo na cabine e 
fechou a 
porta. Empunhava uma pistola. 
- Sabe o que dizer?
- Sei.
Observou-a discar um nmero. Quando atenderam, ela disse:
- Aqui  Amparo Jirn. O coronel Acoca est  espera da minha ligao... 
Obrigada. - Ela 
olhou para Jaime. - Esto transferindo a ligao. - A arma se comprimiu contras 
suas costelas. - 
Precisa mesmo...?
- Lmite-se a fazer o que estou mandando.
A voz de Jaime era fria. Um momento depois ele ouviu a voz de Acoca ao  
telefone. 
- Onde voc est?
A arma se comprimiu com mais fora ainda.
- Eu... eu... estamos deixando Logroo.
- Sabe para onde nossos amigos vo?
- Sei.
O rosto de Jaime estava bem prximo do dela, os olhos duros.
- Eles decidiram inverter o rumo para despist-lo. Esto a caminho de Barcelona. 
Ele est 
guiando um Seat branco. Seguir pela estrada principal.
Jaime acenou com a cabea para ela.
- Eu... eu tenho de desligar. O carro est aqui.
Jaime desligou.
- Muito bem. Vamos embora. Ns lhe daremos meia hora para tirrar seus homens 
daqui.

Meia hora depois eles estavam na estao ferroviria.

Havia trs tipos de combios de Logroo para San Sebastin: o TALGO era o 
combio de 
luxo; o combio de segunda classe era o TER; e o pior e mais barato, 
desconfortvel e sujo, era 
eronecamente chamado de  expresso - parava em cada estao, por menor que fosse, 
de Logroo a 
San Sebastin.
- Pegaremos o  expresso - anunciou Jaime. - A esta altura, os homens de Acoca 
esto 
empenhados em parar cada Seat branco na estrada para Barcelona. Compraremos as 
passagens 
separadamente e nos encontramos no ltimo vago. - Virou-se para Amparo. - Voc 
vai primeiro. 
Estarei logo atrs.
Ela sabia o motivo, odiou-o por isso. Se o coronel Acoca tivesse montado uma 
armadilha, 
ela seria a isca. Muito bem, era Amparo Jirn. No vacilaria.
Ela entrou na estao, enquanto Jaime e os outros observavam. No havia 
soldados. 
Todos esto na estrada para Barcelona, pensou Jaime, ironicamente. Aquilo vai 
virar um 
hospcio. Um em cada dois carros  um Seat branco.
Um a um, eles compraram as passagens e se encaminharam para o combio. 
Embarcaram sem 
incidentes. Jaime sentou-se ao  lado de Megan. Amparo sentou-se na frente, ao  
lado de Felix. 
Ricardo e Graciela sentaram-se no outro lado do corredor.
Jaime disse a Megan:
- Chegaremos a San Sebastin em trs horas. Passaremos a noite ali, e no incio 
da manh 
cruzaremos a fronteira para a Frente.
- E depois  de chegarmos  Frana? - Ela pensava no que acontecia a Jaime.
- No se preocupe - respondeu ele. - H um convento Cisterciense a poucas horas 
da 
fronteira. - Jaime hesitou. - Se ainda  isso o que voc quer.

Portanto, ele compreendia suas dvidas.  isso o que eu quero? Encaminhava-se 
para algo 
mais do que uma fronteira a dividir dois pases. Aquela fronteira dividiria sua 
vida antiga da vida 
futura... que seria... o qu? Sentira-se ansiosa por voltar a um convento, mas 
agora se descobria 
dominada pelas dvidas. Esquecera como o mundo alm dos muros podia ser 
emocionante. Nunca 
me senti to viva. Olhou para Jaime e admitiu para si mesma: E Jaime Mir  uma 
parte disso. 
Jaime percebeu seu olhar e fitou-a.
Megan pensou: Ele sabe disso. 
O  expresso  parava em cada povoado e aldeia ao  longo dos trilhos. O combio 
estava 
apinhado de camponeses e suas esposas, mercadores e vendedores, em cada paragem 
havia embarque 
e desembarque ruidosos de passageiros.
O  expresso  avanou bem devagar, lutando com os ngremes declives.
Quando o combio finalmente parou na estao em San Sebastin. Jaime disse a 
Megan:
- O perigo acabou. Esta  a nossa cidade. Providenciei para que um carro nos 
esperasse.
Um grande sed aguardava na frente da estao. O   motorista, usando uma  
chapella, a boina 
enorme, de abas largas, dos bascos, saudou Jaime com um abrao apertado. O grupo 
entrou no carro.
Megan notou que Jaime permaneceu perto de Amparo, pronto para agarr-la, se ela 
tentasse 
alguma coisa. O que ele far com Amparo?, especulou Megan.
- Estvamos preocupados com voc, Jaime - disse o motorista. - Segundo a 
imprensa, o 
coronel Acoca est comandando uma grande caada  sua procura.
Jaime sorriu.
- Que ele continue a caar, Gil. Estou fora da temporada.
Desceram pela avenida Sancho el Savio, na direco da praia. Era um dia de 
vero, sem 
nuvens, as ruas estavam cheias de casais, passeando, interessados apenas no 
prazer. A enseada estava 
repleta de iates e embarcaes menores. As montanhas distantes formavam um 
pitoresco pano de 
fundo para a cidade. Tudo parece muito pacfico.
- Onde ficaremos? - perguntou Jaime ao  motorista.
- O Hotel Niza. Largo Cortez est  espera.
- Ser bom rever o velho pirata. 
O Niza era um hotel de classe mdia, na Plaza Juuan de Olezabal, sempre 
movimentada, perto 
da Calle de San Martn. Era um prdio branco, com janelas castanhas e um enorme 
letreiro azul no 
alto. Os fundos do hotel davam para a praia.
O carro parou na frente do hotel, o grupo saltou e seguiu Jaime para o saguo.
Largo Cortez, o proprietrio do hotel, correu para cumpriment-los. Era um homem 
grandalho. Tinha apenas um brao, em decorrncia de uma faanha ousada, e 
movia-se meio 
desajeitado, como se lhe faltasse equilbrio.
- Sejam bem-vindos! - exclamou, radiante. - Estou esperando h uma semana.
Jaime encolheu os ombros.
- Houve alguns imprevistos, amigo.
Largo Cortez sorriu.
- Li a esse respeito. Os jornais no falam de outra coisa. - Virou-se para fitar 
Megan e 
Graciela. - Todos esto torcendo por vocs, irms. Os quartos j esto 
reservados.

- Passaremos a noite aqui - disse Jaime. - Partiremos pela manha bem cedo e 
cruzaremos para 
a Frana. Quero um bom guia, que conhea todas as passagens... Cabrera Infante 
ou Jos Cebrin.
- Darei um jeito - assegurou o dono do hotel. - Vocs sero seis?
Jaime olhou para Amparo.
- Cinco.
Amparo desviou os olhos.
- Sugiro que nenhum de vocs se registe - acrecentou Cortez, sorrindo. - O que a 
polcia no 
sabe no far mal. Por que no me deixam agora lev-los a seus quartos, onde 
podero descansar um 
pouco? E, depois, teremos um magnfco jantar.
- Amparo e eu vamos ao  bar tomar um drinque - disse Jaime. - Subiremos depois.
Largo Cortez balanou  a cabea.
- Como quiser, Jaime.
Megan observava Jaime, aturdida. Imaginava o que ele planeava fazer com Amparo. 
Ser que 
tencionava mat-la a sangue-frio...? no podia suportar pensar a esse respeito.
Ammparo especulava tambm, mas era orgulhosa demais para perguntar.
Jaime levou--a para o bar, na outra extremidade do saguo, e sentaram-se a uma 
mesa no 
canto. Quando o garo se aproximou, Jaime disse:
- Um copo de vinho, por favor.
- Um s?
- Isso mesmo.
Amparo observou Jaime tirar um pequeno pacote do bolso e abri-lo. Continha um p 
fino.
- Jaime... - Havia desespero na voz de Amparo. - Por favor, escute-me! Tente 
compreender 
por que agi assim.      Voc est destruindo o pas. Precisa parar com essa 
insanidade.
O garo voltou e ps o copo de vinho na mesa. Depois que ele se afastou, Jaime 
despejou 
o p no copo e mexeu. Empurrou-o para a frente de Amparo.
- Beba.
- No!
- No so muitas pessoas que tm o privilgio de escolher a maneira como morrem 
- 
comentou Jaime, suavemente. - Assim, ser rpido e sem dor. Se eu entreg-la ao  
meu pessoal, no 
posso fazer tal promessa.
- Jaime... houve um tempo em que o amei. Tem de acreditar em mim. Por favor...
- Beba.
A voz era implacvel. Amparo fitou-o em silncio  por um longo momento, depois 
pegou o 
copo.
- Beberei  sua morte.
Observou-a levar o copo aos lbios e beber o vinho de um gole s. Amparo 
estremeceu.
- O que acontece agora?
- Eu a ajudarei a subir. E a porei na cama. Voc dormir.
Os olhos de Amparo se encheram de lgrimas.
- Voc  um tolo - sussurrou ela. - Jaime... estou morrendo e lhe digo que o 
amava tanto...
As palavras comearam a sair enroladas. Jaime levantou-se e ajudou-a a ficar de 
p. Estava 
trpega. O bar parecia balanar.
- Jaime...
Levou-a para o saguo, amparando-a. Largo Cortez esperava com a chave.

- Eu a levarei para seu quarto - disse Jaime. - Cuide para que ela no seja 
incomodada.
- Certo.
Megan observava enquanto Jaime quase que carregava Amparo pela escada.

Em seu quarto, Megan pensava como era estranho se encontrar num hotel, num hotel 
de 
veraneio. San Sebastin estava repleta de pessoas em frias, casais em lua-de-
mel, amantes se 
divertindo em uma centena de outros quartos de hotel. E, suvitamente, Megan 
desejou que Jaime 
estivesse ali, em seu quarto, especulou como seria se fizesse amor. Todos os 
sentimentos que 
reprimira por tanto tempo afloraram em sua mente, como uma torrente impetuosa de 
emoes. 
Mas o que Jaime fizera com Amparo? Seria possvel... no, ele nunca poderia 
fazer isso. Ou 
poderia? Eu o quero, pensou. Oh, Deus, o que est acontecendo comigo? O que 
posso fazer?

Ricardo assoviava enquanto se vestia. Sentia-se maravilhoso. Sou o homem mais 
afortunado 
do mundo, pensou. Casaremos na Frana. H uma linda igreja logo depois da 
fronteira, em 
Bayonne. Amanha. 

Em seu quarto, Graciela tomava um banho, deleitando-se com a gua quente e 
pensando em 
Ricardo. Sorriu para si mesma e refletiu: Vou faz-lo muito feliz. Obrigada, 
Deus. 

Felix Carpio pensava em Jaime e Megan. Um cego pode ver a electricidade entre os 
dois, 
pensou. Vai trazer azar. As freiras pertencem a Deus. J  bastante ruim que 
Ricardo tenha 
afastado irm Graciela de sua vocao. Mas Jaime sempre fora afoito. O que faria 
com aquela?

Os cinco reuniram-se para jantar no restaurante do hotel. Ningum mencionou 
Amparo. 
Olhando para Jaime, Megan sentiu-se subitamente embaraada, como se ele pudesse 
ler seus 
pensamentos.
 melhor no fazer perguntas, decidiu ela. Sei que ele nunca faria qualquer 
coisa brutal.
Descobriram que Largo Cortez no exagerara sobre o jantar. A refeio comeou  
com  
gazpacho - a sopa fria e grossa, feita com tomates, pepinos e po encharcado na 
gua -, seguida por 
uma salada 
de folhas e um enorme prato de  paela - arroz, camaro, galinha e legumes - e 
encerrava com 
um saboroso pudim. Era a primeira refeio quente que Ricardo e Graciela faziam 
em muito tempo.
Megan levantou-se ao  terminar de comer.
- Preciso de me deitar.
- Espere um pouco - disse Jaime. - Quero falar com voc. - Levou-a para um canto 
deserto 
do saguo. - Sobre amanh...
- O que tem? - Sabia o que Jaime ia perguntar. O que no sabia era o que ela 
responderia. Eu 
mudei, refletiu Megan. Tinha certeza absoluta da minha vida antes. Acreditava 
ter tudo o que 
queria. 
- No quer realmente voltar ao  convento, no  mesmo? - indagou Jaime. 
Ser que eu quero? Preciso ser sincera com ele, pensou Megan. Fitou-o nos olhos 
e disse:
- No sei o que quero, Jaime. Estou muito confusa.
Ele sorriu. Hesitou por um instante, escolheu as palavras com todo cuidado:

- Megan... esta luta acabar em breve. Conseguiremos o nosso objectivo, porque o 
povo est 
do nosso lado. No posso lhe pedir para partilhar o perigo comigo agora, mas eu 
gostaria que esper-
asse por mim. Tenho uma tia que mora na Frana. Estar segura com ela. 
Megan fitou-o em silncio por um longo tempo, antes de dizer:
- Jaime... d-me algum tempo para pensar a esse respeito.
- Ento no est dizendo no?
- No estou dizendo no - respondeu ela suavemente.

Ningum do grupo dormiu naquela noite. Tinham muito em que pensar,  vrios 
conflitos a 
resolver.
Megan permaneceu acordada, reconstruindo o passado. Os anos passados no orfanato 
e o 
santurio no convento... Ento a sbita expulso para o mundo a que renunciara 
para sempre. Jaime 
Mir arriscava a vida lutando por aquilo em que acreditava. E em que eu posso 
acreditar?, 
perguntou-se Megan. Como quero passar o resto da minha vida? 
Uma vez fizera uma opo. Agora, era obrigada a optar de novo. Precisaria 
decidir-se at a 
manh seguinte.

Graciela tambm pensava no convento. Foram anos muito felizes e tranquilos. 
Sentirei falta? 

Jaime pensava em Megan. Ela no deve voltar. Quero-a ao  meu lado. Qual ser sua 
resposta? 

Ricardo estava excitado demais para dormir, absorto nos planos para o futuro. A 
igreja em 
Bayonne...

Felix especulava sobre como se livrar do corpo de Amparo.  melhor deixar que 
Largo 
Cortez cuide disso. 

Na manh seguinte, bem  cedo, o grupo reuniu-se no saguo.
Jaime aproximou-se de Megan.
- Bom dia.
- Bom dia.



- Pensou em nossa conversa?
Ela no pensara noutra coisa durante a noite inteira.
- Pensei sim, Jaime.
Ele fitou-a nos olhos, tentando encontrar a resposta.
- Vai esperar por mim?
- Jaime... Nesse momento Largo Cortez encaminhou-se para eles, apressado. Estava 
acompanhado por um homem de aparncia curtida, na casa dos cinquenta anos.
- Lamento, mas no haver tempo para o desjejum - disse Cortez. - Devem partir 
logo. Este 
 Jos Cebrin, o guia. Ele levr-vos- atravs das montanhas para a Frana.  o 
melhor guia de San 
Sebastin.
- Prazer em conhec-lo, Jos - disse Jaime. - Qual  seu plano?
- Faremos a primeira parte do percurso a p - respondeu Jos Cebrin. - J 
providenciei para 
que carros nos esperem no outro lado da fronteira. Devemos de nos apressar. 
Vamos embora agora, 
por favor.
O grupo saiu para a rua, invadida pelos raios do sol da manh.

- Boa viagem - desejou Largo Cortez na entrada do hotel.
- Obrigado por tudo - respondeu Jaime. - E voltaremos, amigo. Mais cedo do que 
imagina.
- Seguiremos por aqui - ordenou Jos Cebrin.
O grupo comeou a virar-se na direco da praa. E nesse momento soldados e 
agentes do 
 GOE  surgiram de repente nos dois lados da rua, fechando-a. Havia pelo menos 
uma dzia, todos 
fortemente arrmados. Os coroneis Acoca e Sostelo comandavam o grupo.
Jaime olhou rapidamente para  a praia,  procura de um caminho de fuga. Mas uma 
dzia de 
soldados aproximava-se vindo daquela direco. No havia escapatria. Teriam de 
lutar. Instin-
tivamente, Jaime estendeu a mo para a arma.
O coronel Acoca gritou:
- Sequer pense nisso, Mir, ou fuzilaremos todos vocs aqui mesmo.
A mente de Jaime estava em turbilho,  procura de uma sada. Como Acoca soubera 
onde 
encontr-lo? Jaime virou-se e avistou Amparo parada na porta, com uma expresso 
de profundo 
pesar.
- Mas que merda! - exclamou Felix. - Pensei que voc...
- Pensei que lhe tivesse dado  um p sonfero forte, suficiente para mant-la 
desacordada at 
cruzarmos a fronteira.
- Sacana!
O coronel Acoca aproximou-se de Jaime.
- Est acabado. - Ele virou-se para um  dos seus homens. - Pode desarm-los.
Felix e Ricardo olharam para Jaime,  espera de uma orientao. Relutante, ele 
entregou a 
arma. Felix e Ricardo seguiram o exemplo.
- O que vai fazer conosco? - perguntou Jaime.
Vrias pessoas haviam parado para assistir  cena.
O coronel Acoca respondeu rspido:
- Levarei voc e sua quadrilha de assassinos para Madri. Concederemos a todos u 
julgamento 
militar justo e depois os enforcaremos. Se dependesse de mim, eu o enforcaria 
aqui mesmo.
- Deixe as irms partirem - pediu Jaime. - Elas no tm nada a ver com isso.
- Elas so cmplices; to culpadas quanto vocs.
O coronel Acoca voltou-se e fez um sinal. Os soldados gesticularam para que a 
crescente 
multido de pedestres se afastasse, a fim de dar passagem aos trs camies 
militares.
- Vocs e seus assassinos iro no camio do meio - informou o coronel a Jaime. - 
Meus 
homens estaro na frente e retaguarda. Se algum de vocs fizer um movimento em 
falso, eles tm 
ordens para matar todos. Est me entendendo? Jaime assentiu.
O coronel Acoca cuspiu-lhe no rosto.
- ptimo. E agora entrem no camio.
Amparo observava impassvel da porta do hotel, enquanto Jaime, Megan, Graciela, 
Ricardo 
e Felix subiam no camio, cercados de soldados empunhando armas automticas. O 
coronel Sostelo 
foi at ao  motorista do primeiro camio.
- Seguiremos direto para Madri. Nada de paragens pelo caminho.
- Est bem, coronel.
quela altura, muitas pessoas agrupavam-se nas duas extremidades da rua 
assistindo ao  que 
estava acontecendo.
O coronel Acoca comeou a subir no primeiro camio. Gritou para os que estavam 
no 
caminho:

- Saiam da frente!  - gritou de novo Acoca. - Saiam da passagem!
E as pessoas continuavam a chegar, os homens usando as enormes  chapellas  
bascas. Era 
como se respondessem a algum sinal invisvel. Jaime Mir est em perigo. As 
pessoas vinham de 
lojas e casas. Donas-de-casa largaram seus servios e saam para a rua. 
Comerciantes prestes a 
abrirem suas lojas eram informados do acontecido e corriam para a rua do hotel.  
E mais pessoas 
chegavam. Artistas, encanadores e doutores, mecnicos, vendedores e estudantes, 
muitos carregando 
espingardas e rifles, machados e foices. Eram bascos, e aquela era sua ptria. 
Comeou com poucos, 
logo havia uma centena e em poucos minutos cresceu para mais de mil, lotando 
caladas e ruas, 
cercando os camies militares. Mantinham um silncio ameaador.
O coronel Acoca observava a enorme multido em desespero. Gritou:
- Saiam todos da frente ou comearemos a atirar!
Jaime advertiu, do camio do meio:
- Eu no o aconselharia a fazer isso. Essas pessoas o odeiam pelo o que est 
tentando fazer. 
Uma palavra minha e o liquidaro junto com seus homens. H uma coisa que se 
esqueceu, coronel. 
So Sebastin  uma cidade basca.  a minha cidade. - Ele virou-se para seu 
grupo. - Vamos sair 
daqui. - Jaime ajudou Megan a descer, os outros os seguiram.
O coronel ficou olhando, impotente, o rosto contrado em fria. A multido 
aguardava, hostil 
e silenciosa.
Jaime encaminhou-se  para o coronel.
- Pegue seus camies e volte para Madri.
Acoca olhou em redor, contemplando a multido, que continuava a aumentar.
- Eu... no vai escapar impune, Mir.

- J escapei. E agora saia daqui. - Ele cuspiu no rosto de Acoca.
O coronel fitou-o em silncio por um longo momento, com uma expresso de dio 
assassino. 
No pode acabar assim, pensou, desesperado. Eu estava to perto... Era o xeque-
mate. Mas Acoca 
sabia que para ele, era pior do que a derrota. Era uma sentena de morte. A  
OPUS MUNDO  estaria 
 sua procura em Madri. Olhou para a multido em redor. No tinha opo. Virou-
se para o motor-
ista e disse, a voz sufocada de fria:
- Vamos embora.
A multido recuou, observando os soldados embarcarem nos camies. Um momento 
depois 
os veculos comearam a afastar-se descendo a rua, e a multido aclamou 
delirante. Comeou com 
uma aclamao por Jaime Mir e foi se tornando mais e mais alta, e logo estavam 
aclamando por sua 
liberdade e a luta contra a tirania, a vitria iminente, as ruas ressoando com o 
barulho da celebrao.
Dois adolecentes gritaram at ficarem roucos. Um virou-se para o outro.
- Vamos nos juntar   ETA.
Um casal idoso abraou-se, e a mulher murmurou:
- Talvez agora nos devolvam nossa fazenda.
Um velho estava parado sozinho no meio da multido, observando em silncio, 
enquanto os 
camies partiam. E comentou:
- Eles voltaro um dia.
Jaime pegou a mo de Megan e disse:
- J acabou. Estamos livres. Atravessaremos a fronteira dentro de uma hora. Eu a 
levarei para 
casa da minha tia.

Ela fitou-o nos olhos.
- Jaime...
Um homem abriu caminho pela multido e aproximou-se de Megan.
- Com licena - disse, ofegante. - Voc  a irm Megan?
Ela virou-se para ele.
- Sou, sim.
Ele soltou um suspiro de alvio.
- Levei muito tempo para encontr-la. Meu nome  Alan Tucker. Posso lhe falar 
por um 
momento?
- Claro.
- A ss.
- Desculpe, mas estou de partida para...
- Por favor.  muito importante. Vim de Nova York para encontr-la.
Megan ficou ainda mais perplexa.
- Para me encontrar? No compreendo. Por qu...?
- Explicarei tudo, se me conceder um momento.
O estranho pegou-a pelo brao e conduziu-a pela rua, falando depressa. Megan 
olhou para 
trs uma vez, Para o lugar em que Jaime Mir continuava parado,  sua espera.

A conversa de Megan com Alan Tucker virou seu mundo pelo avesso.
- A mulher que represento gostaria de conhec-la.
- No estou entendendo. Que mulher? O que ela quer comigo? 
Eu gostaria de saber a resposta para isso, pensou Alan Tucker.
- No estou autorizado a falar sobre isso. Ela a espera em Nova York.
No fazia sentido. Deve haver algum equvoco.
- Tem certeza que encontrou a pessoa certa... irm Megan? 
- Tenho, sim. S que seu nome no  Megan...  Patricia.
E, num relance sbito e vertiginoso, Megan soube de tudo. Depois de tantos anos, 
sua 
fantasia estava prestes a se consumar. Finalmente descobriria quem era. A mera 
perspectiva era 
emocionante... e aterradora.
- Quando... quando terei de partir? - Sua garganta estava de repente to seca 
que ela mal 
conseguia falar. 
Quero que descubra onde ela est e traga para mim o mais depressa possvel. 
- Imediatamente. Providenciarei seu passaporte.
Ela virou-se e avistou Jaime parado na frente do hotel,  sua espera.
- D-me um minuto, por favor. - Megan voltou para Jaime atordoada, com a 
sensao de que 
vivia um sonho.
- Voc est bem? - perguntou Jaime. - Aquele homem a est incomodando?
- No. Ele ... no. Ele pegou-lhe a mo.
- Quero que venha comigo. Pertencemos um ao  outro, Megan. 
Seu nome no  Megan...  Patricia. 
Ela fitou o rosto bonito de Jaime e pensou: Tambm quero ficar junto de voc. 
Mas teremos 
de esperar. Primeiro, preciso de descobrir quem sou. 
- Jaime... quero ir com voc. Mas h uma coisa que tenho de fazer primeiro.
Ele estudou-a, com uma expresso transtornada.
- Vai embora?
- Por algum tempo. Mas voltarei.

Jaime permaneceu em silncio, a contempl-la, por um longo momento, depois 
balanou a 
cabea lentamente.
- Est certo. Pode fazer contacto comigo por intermdio de Largo Cortez.
- Voltarei para voc. Prometo.
Megan tinha toda a inteno de voltar. Mas isso foi antes de se encontrar com 
Ellen Scott.



        Captulo 37


- Deus Israel conjugat vos; et ipse sit vobiiscum, qui, misertus est duobus 
unicis... plenius 
benedicere te... O Deus de Israel vos une  e est convosco... e agora, Senhor, 
faa com que eles Vos 
abenoem ainda mais. Abenoado sejam todos os que amam o Senhor, que andem por 
Seus 
caminhos. Glria...
Ricardo desviou os olhos do padre e contemplou Graciela, de p ao  seu lado. Eu 
tinha razo. 
Ela  a noiva mais linda do mundo. 
Graciela mantinha-se imvel, escutando as palavras do padre ecoarem pela vasta 
igreja 
abobadada. Havia uma profunda sensao de paz naquele lugar. Parecia que 
Graciela estava lotada 
com todos os fantasmas do passado, todos os milhares de pessoas que por ali 
haviam passado, 
gerao aps gerao, em busca de perdo, realizao e alegrias. Lembrando-a 
muito do convento. 
Sinto como se tivesse voltado para casa, pensou Graciela. ao  lugar a que 
perteno.
- Exaudi nos, omnipotens et misericors Deus; ut, quod nostro ministratur 
officio, tua 
benedictione potius impleatur Per Dominum... Escutai-nos, Todo-Poderoso e 
misericordioso Deus, 
para que tudo o que seja feito por nosso ministrio possa se realizar abundante 
com Vossa bno... 
Ele me abenoou, mais do que mereo. Que eu seja digna d'Ele.
- In te speravi, Domine: dixi: Tu es Deus meus: in manibus tuis tempora mea... 
Em Vz,  
Senhor, tenho esperado; eu disse: Vs sois meu Deus; meu tempos esto em Vossas 
mos... 
Meus tempos esto em Vossas mos. Prestei um juramento  solen de devotar o resto 
da 
minha vida a Ele.
- Suscipe, quasumus, Domine, pro sacra connbii lege munus... Recebei, ns Vos 
suplicamos, 
 Senhor, a oferenda que Vos fazemos, em nome de santa unio do matrimnio...
As palavras pareciam reverberar na cabea de Graciela. Tinha a sensao de que o 
tempo 
parara.
- Deus qui potestate virtutis toae de nihilo cunceta fecisti...   Deus que com 
Seu poder e 
fora fez todas as coisas do nada...
-  Deus, que saudaste o matrimnio para prenunciar a unio de Cristocom a 
Igreja... olhai 
em vossa misericrdia para esta donzela que se une em matrimnio e Vos suplica 
proteco e fora..
Mas como Ele pode ter misericrdia comigo quando O estou traindo? 
Graciela descobriu-se de repente com dificuldade de respirar. As paredes 
pareciam 
comprimi-la.

- Nihil in ea ex actibus suis ille aucto praevaricationis usurpet... Concedei 
que o autor do 
pecado no lance sobre ela seu mal...
Foi nesse instante que Graciela soube. E sentiu como se um pesado fardo fosse 
removido. Foi 
inundada por uma alegria intensa.
O padre continuava:
- Que ela possa ganhar a paz do reino dos cus. Vos pedimos para abenoar este 
casamento 
e...
- J sou casada - declarou Graciela, em voz alta.
Houve um momento de silncio chocado, Ricardo e o padre fitavam-na, aturdidos. O 
rosto 
de Ricardo estava plido.
- Graciela, o qu...?
Ela pegou-lhe o brao e murmurou gentilmente:
- Sinto muito, Ricardo.
- Eu... eu no entendo. Deixou de me amar?
Ela sacudiu a cabea.
- Eu o amo mais do que minha prpria vida. Mas minha vida no me pertence mais. 
Entreguei-a a Deus h muito tempo.
- No! No posso permitir que sacrifique sua...
- Ricardo, querido... No  um sacrifcio.  uma bno. Encontrei no convento a 
primeira 
paz que conheci. Voc  uma parte do mundo a que renunciei... a melhor parte. 
Mas renunciei. Devo 
voltar ao  meu mundo.
O padre ouvia imvel, em silncio.
- Por favor, perdoe-me pelo sofrimento que estou lhe causando, mas no posso 
voltar atrs 
em meus votos. Estaria traindo tudo que acredito. Sei disso agora. Nunca poderia 
faz-lo feliz. 
Compreenda, por favor.
Ricardo fitava-a aturdido, abalado, no foi capaz de dizer coisa alguma. Era 
como se algo 
nele tivesse morrido.
Graciela contemplou seu rosto abatido, e o corao se angustiou por ele. Beijou-
o no rosto 
e murmurou:
- Eu amo voc. - Seus olhos se encheram de lgrimas. - Rezarei por voc. Rezarei 
por ns 
dois.



        Captulo 38


 ao  final da tarde de sexta-feira, uma ambulncia militar parou na entrada de 
energncia do 
hospital de Aranda de Duero. Um atendente, acompanhado por dois guardas 
uniformizados, passou 
pelas portas de vaivm e aproximou-se do supervisor, por trs de uma mesa.
- Temos uma ordem aqui para buscar um tal de Rubio Arzano - disse um dos 
guardas, 
estendendo o documento.
O supervisor examinou o documento e franziu o rosto.
- Acho que no tenho autorizao  para liberar o paciente. O administrador  que 
deve 
resolver.
- Est certo. V cham-lo.
O supervisor hesitou.
- H um problema. Ele est ausente pelo fim de semana.
- No  problema nosso. Tenho uma ordem de entrega, assinada pelo coronel Acoca. 
Quer 
ligar para ele e comunicar que no vai cumpri-la?  
 - Claro que no - apressou-se o supervisor em dizer. - Isso no ser 
necessrio. Mandarei 
aprontarem o prisioneiro.


A menos de um quilmetro de distncia, na frente da cadeia da cidade, dois 
detetives saram 
de um carro de polcia e entraram no prdio. Aproximaram-se do sargento de 
planto. Um dos 
detetives mostrou sua identificao.
- Vim buscar Lucia Carmine.
O sargento fitou os dois detetives.
- Ningum me disse nada.
Un dos detetives suspirou.
- A droga da borocracia. A mo esquerda nunca diz o que a direita est fazendo.
- Deixe-me ver a ordem de transferncia.
O detetive entregou-a.
- Assinada pelo coronel Acoca, hein?
- Isso mesmo.
- Para onde vo lev-la?
- Madri. O coronel quer interrog-la pessoalmente.
-  mesmo? Bom, acho melhor eu confirmar com ele.
- No h necessidade - protestou um dos detetives.
- Temos ordens para manter uma vigilncia rigorosa  sobre essa mulher. O governo 
italiano 
est fazendo tudo para conseguir sua estradio. Se o coronel a quer, ter de me 
dizer pessoalmente.
- Est perdendo seu tempo, e ...
- Tenho muito tempo,  amigo. O que no tenho  outro rabo se perder o meu. - 
Pegou o 
telefone e disse: - Ligue-me com o coronel Acoca, em Madri.
- Meu Deus! - exclamou um dos detetives. - Minha mulher vai me matar se eu 
chegar 
atrasado para o jantar outra vez. Alm do mais, o coronel provavelmente  no 
est e...
O telefone tocou.
- O gabinete do coronel est na linha.
O sargento  lanou um olhar triunfante para os detetives.
- Aqui  o sargento da delegacia em Aranda de Duero.  importante que eu fale 
com o 
coronel Acoca.
Um dos detetives olhou para seu relgio, impaciente.
- Mierda! Tenho coisas melhores a fazer do que ficar por aqui e...
- Al? Coronel Acoca?
A voz trovejou pelo telefone:
- Sou eu mesmo. O que ?
- Tenho dois detetives aqui, coronel, querendo que eu entregue uma prisioneira 
sob a sua 
custdia. - Lucia Carmine?
- Isso mesmo, senhor.
- Eles apresentam uma ordem assinada por mim?
- Apresentam, senhor. Eles...
- Ento por que est me incomodando? Entregue-a!
- Mas pensei...
- No pense! Cumpra as ordens!
A ligao  foi cortada. O sargento engoliu em seco.
- Ele... ahn...
- Ele tem um pavio curto, no  mesmo? - comentou um dos detetives, sorrindo.
O sargento levantou-se, tentando conservar a dignidade.
- Vou mandar trazerem a prisioneira.
Na viela por detrs da delegacia, um menino observava um homem num poste 
telefnico 
desligar um grampo e descer.
- O que est fazendo? - perguntou o menino.
O homem passou a mo pelos cabelos do menino, desmanchando-os.
- Ajudando um amigo, muchacho, ajudando um amigo...


Trs horas depois, numa isolada casa de fazenda, ao  norte, Lucia Carmine e 
Rubio Arzano 
se reencontraram.

Acoca foi despertado s trs horas da madrugada pelo telefone. A voz familiar 
disse:
- O comit gostaria de encontr-lo.
- Pois no, senhor. Quando?
- Agora. Uma limusene ir busc-lo dentro de uma hora. Esteja pronto, por favor.
Ele desligou e ficou sentado na beira da cama. Acendeu um cigarro e deixou que a 
fumaa 
lhe penetrasse pelos pulmes. 
Uma limusine ir busc-lo dentro de uma hora. Esteja pronto, por favor. 
Ele estaria pronto.
Foi para o banheiro e examinou sua imagem no espelho. Contemplava os olhos de um 
homem 
derrotado. 
Eu estava to perto, pensou, amargurado. To perto... 
O coronel Acoca comeou a fazer a barba, com todo cuidado. Depois de terminar, 
tomou um 
demorado banho de chuveiro, escolheu as roupas que usaria.
Exactamente uma hora depois, ele saiu pela porta da frente e deu uma olhada na 
casa que 
sabia que nunca mais tornaria a ver. No haveria nenhuma reunio,  claro. Os 
homens no tinham 
mais nada a discutir com ele.
Uma limusine preta e cumprida esperava na frente da casa. Uma porta foi aberta 
quando ele 
se aproximou. Havia dois homens na frente e dois atrs.
- Entre, coronel.
Ele respirou  fundo e entrou no  carro,      que no  mesmo instante partiu pela 
noite escura.

 como um sonho, pensou Lucia. Estou olhando pela janela para os Alpes suos. 
Cheguei 
realmente. 
Jaime Mir providenciara um guia para que ela chegasse s e salva a Zurique. E 
l chegara 
ao  entardecer. 
Pela manh irei ao  Banco Leu. 
O pensamento deixou-a nervosa. E se alguma coisa sasse errada? E se o dinheiro 
no tivesse 
mais l? E se...?
Enquanto a primeira claridade do novo dia avanava pelas montanhas, Lucia ainda 
estava 
acordada.
 No incio da manh, ela deixou o Baur au Lac Hotel e aguardou na frente do 
banco pelo 
incio do expediente. Um homem de meia-idade, de aparncia gentil, abriu-lhe a 
porta.
- Entre, por favor. Est esperando h muito? 
Apenas uns poucos de meses, pensou Lucia.
- No.
Os dois entraram.
- Em que podemos servi-la? 
Podem me tornar rica. 
- Meu pai tem uma conta aqui. Pediu-me que viesse e... assumisse a conta.
-  uma conta numerada?
- , sim.
- Pode me fornecer o nmero, por favor?
- 2A149207.
Ele balanou a cabea.
- Um momento, por favor.

Lucia observou-o desaparecer num cofre nos fundos do banco. Os clientes 
comearam a 
entrar. Tem de estar l, pensou Lucia. Nada deve sair...
O homem retornou. Ela nada podia perceber por sua expresso.
- Esta conta... disse que estava em nome de seu pai?
Lucia sentiu um aperto no corao.
- Isso mesmo. Angelo Carmine.
Ele estudou-a por um instante.
- A conta tem dois nomes. 
Isso significa que ela no poderia moviment-la? 
- O qu... - Ela mal conseguia falar. - ...qual  o outro nome?
- Lucia Carmine.
E nesse instante ela possuiu o mundo.
Na conta estavam depositados poucos mais de 13 milhes de dlares.
- O que deseja que faamos? - perguntou o homem.
- Pode transferir para uma das suas filiais no Brasil? No Rio?
- Claro. Mandaremos a documentao para a senhorita esta tarde.
Era simples assim.
A paragem seguinte de Lucia, foi numa agncia de viagens, perto do hotel. Havia 
um cartaz 
grande na vitrine, anunciando o Brasil. 
 um pressgio, pensou Lucia, feliz. Ela entrou.
- Em que posso servi-la?
- Gostaria de comprar duas passagens para o Brasil. 
No h leis de extradio l. 
Mal podia esperar para contar tudo a Rubio. Ele estava em Biarritz, aguardando 
seu 
telefonema. Viajariam juntos para o Brasil.
- Podemos viver em paz l pelo resto de nossas vidas - dissera-lhe Lucia.
Agora, tudo estava finalmente acertado. Depois de tantas aventuras e perigos... 
a priso de 
seu pai e irmos, a vingana contra Benito Patas e o juiz Buscetta... a polcia 
 sua pprocura, e a fuga 
para o convento... os homens de Acoca e o falso frade... Jaime  Mir, Teresa e a 
cruz de ouro... E 
Rubio Arzano. Acima de tudo, o querido Rubio. Quantas vezes Rubio arriscara a 
vida por ela? 
Salvara-a dos soldados no bosque... das guas impetuosas nas corredeiras... dos 
homens no bar em 
Aranda de Duero. O simples acto de pensar em Rubio deixava-a enternecida.
Voltou a seu quarto no hotel, pegou o telefone e aguardou que a telefonista 
atendesse. 
Haver alguma coisa para ele fazer no Rio. Mas o qu? O que ele pode fazer? 
Provavelmente vai querer comprar uma fazenda em algum lugar do Brasil. E o que 
eu faria ento? 
- Nmero, por favor - falou a telefonista.
Lucia ficou olhando em silncio para os picos nevados dos Alpes. Temos duas 
vidas 
diferentes, Rubio e eu. Sou a filha de Angelo Carmine. 
- Nmero, por favor? 
Ele  um campons. Adorava a vida numa fazenda. Como eu poderia separ-lo disso? 
A 
telefonista comeava a ficar impaciente.
- Em que posso ajud-la? O que deseja?
- Nada. Nada, obrigada - respondeu Lucia lentamente. Ela desligou.
No incio da manh seguinte, embarcou num vo da Swisa para o Rio.

Sozinha.



        Captulo 39




A reunio teria lugar na luxuosa sala de estar da casa de Ellen Scott. Ela 
andava de um lado 
para outro, ansiosa pela chegada de Alan Tucker com a garota. No. No uma 
garota. Uma mulher. 
Uma freira. Como seria ela? O que a vida lhe fizera? O que eu fiz com ela?
O mordomo entrou.
- Seus visitantes chegaram, madame.
Ela respirou fundo.
- Mande-os entrar.
Um momento depois, Megan e Alan Tucker estavam na sala.

Ela  linda, pensou Ellen.
Tucker sorriu.
- Sr Scott, esta  Megan.
Ellen fitou-o e disse suavemente:
- No vou mais precisar de voc.
Suas palavras tinham uma finalidade inequvoca. O sorriso de Tucker desapareceu.
- Adeus, Tucker.
Ele continuou parado ali por um momento, indeciso, depois balanou a cabea e se 
retirou. 
No podia reprimir a impresso de que perdera alguma coisa. E importante. Muito 
tarde, pensou. 
Tarde demais.
Ellen Scott estudava Megan.
- Sente-se, por favor.
Megan sentou-se, e Ellen Scott tambm, as duas ficaram se examinando. 
Ela  parecida com a me, pensou Ellen. Cresceu para se tornar uma linda mulher. 
E Ellen 
Scott recordou a noite terrvel do acidente, a tempestade e o avio em chamas... 
Voc disse que ela estava morta... Podemos dar um jeito... O piloto disse que 
estvamos 
perto de vila. Deve haver muitos turistas por l. No h motivo para algum 
relacionar a criana 
com o desastre de avio... Vamos deix-la numa linda casa de fazenda nos 
arredores da cidade. 
Algum a adotar e ela crescer para levar uma vida maravilhosa aqui... Voc tem 
de optar, Milo. 
Pode ter a mim ou pode passar o resto de sua vida trabalhando para a filha do 
seu irmo.  
E agora o passado estava ali, confrontando-a. Por onde comear?
- Sou Ellen Scott, presidente da Scott Industries. J ouviu falar? - No. 
Claro que ela no poderia conhecer, Ellen censurou-se.

Seria mais difcil do que ela previra. Inventara uma histria sobre a velha 
amiga da famlia que 
morrera, e uma promessa de tomar conta de sua filha - mas no momento em que 
olhava pela primeira 
vez para Megan. Ellen compreendera que no daria certo. No tinha escolha. Devia 
torcer para que 
Patricia... Megan... no destrusse tudo. Refletiu sobre o que fizera com a 
mulher sentada  sua frente, 
e seus olhos se encheram de lgrimas. Mas  tarde demais para lgrimas.  hora 
de corrigir tudo. 
 hora de contar a verdade. Inclinou-se e pegou a mo de Megan.
- Tenho uma histria para lhe contar - disse, calma.

Isso acontecera trs anos antes. Durante o primeiro ano, at ficar doente demais 
para 
continuar, Ellen Scott mantivera Megan sob sua proteco. Megan fora trabalhar 
na Scott Industries, 
e sua aptido e inteligncia encantara a velha senhora, dando-lhe uma aparncia 
mais nova e 
reforando-lhe a vontade de viver.
- Ter de trabalhar com afinco - avisara Ellen. - Aprender, como eu tive de 
aprender. No 
comeo ser difcil, mas no final se tornar sua vida.
E fora o que ocorrera.
Megan trabalhava em horas que nenhum de seus empregados podia conceber.
- Voc tem de chegar ao  escritrio s quatro horas da madrugada E trabalhar o 
dia inteiro. 
Ser capaz?
Megan sorriu e pensou: Se eu dormisse at s quatro horas da madrugada no 
convento, irm 
Betina me repreenderia. 

Ellen Scott morrera, mas Megan  continuara a aprender, observando a companhia 
crescer. 
Sua companhia. Ellen Scott a adotara.
- Assim no teremos de explicar por que voc  uma Scott - dissera ela.
Mas havia um tom de orgulho em sua voz.
 irnico, pensara Megan. Todos aqueles anos no orfanato, e ningum quis me 
adotar. 
Agora, sou adotada por minha prpria famlia. Deus tem um maravilhoso senso de 
humor. 



        Captulo 40 


Um novo homem estava no volante do carro de fuga, e isso deixava Jaime Mir 
nervoso.
- No confio nele - explicou Jaime a Felix. - E se ele for embora e nos deixar?
- Relaxe. Ele  cunhado do meu primo. Far tudo certo. H muito que suplica por 
uma 
oportunidade de sair conosco.
- Tenho um terrvel pressentimento - insistiu Jaime.
Eles haviam chegado a Sevilha no incio daquela tarde e examinado meia dzia de 
bancos, 
antes de escolherem o alvo. Era um banco numa rua transversal, pequeno, no 
havia muito movimen-
to, perto de uma fbrica que efectuava seus depsitos ali. Tudo parecia 
perfeito. Excepto pelo homem 
no carro de fuga.
- Ele  tudo o que o preocupa? - perguntou Felix.
- No.
- O que mais?
Era difcil responder.
- Digamos que  uma premonio.
Jaime falou jovialmente, escarnecendo de si mesmo.
Felix levou a srio.
- Quer que eu suspenda a operao?
- Porque estou hoje com os nervos de uma velha lavadeira? Nada disso, amigo. 
Tudo correr 
to macio quanto seda.

E, no comeo, fora o que acontecera.
Havia poucos clientes no banco, e Felix mantivera-os imobilizados comuma arma 
automtica, 
enquanto Jaime esvaziava as gavetas dos caixas. Suave como seda.
Quando os dois saam, encaminhando-se para o carro de fuga, Jaime gritou:
- Lembrem-se, amigos, que o dinheiro  para uma boa causa.
Foi na rua que tudo comeou a desmoronar. Havia guardas por toda a parte. O 
motorista do 
carro estava ajoelhado na calada, a pistola de um guarda encostada em sua 
cabea.
No momento em que Jaime e Felix apareceram, um detetive ordenou:
- Larguem as armas!
Jaime hesitou por uma frao de segundo. E depois levantou a arma.



        Captulo 41


 O 727 adaptado voava a 35 mil ps de altitude, sobre o Grand Canyo. Fora um dia 
longo e 
rduo. E ainda no acabou, pensou Megan.
Ela seguia para a Califrnia, a fim de assinar os contractos que dariam  Scott 
Industrie 
quatrocentos mil hectares de terras florestais, ao  norte de San Francisco. 
Megan discutira muito o 
negcio e sara levando vantagem. 
A culpa  delas, pensou Megan. No deveriam me enganar. Aposto que sou a 
primeira 
guarda-livros de um convento Cisterciense que eles j enfrentaram. 
Soltou uma risada.
A aeromoa aproximou-se.
- Deseja alguma coisa, Sr Scott?
Ela viu uma pilha de jornais e revistas numa prateleira. Andara to ocupada com 
a transaco 
que no tivera tempo de ler coisa alguma.
- Deixe-me ver o  New York Time, por favor.
A notcia estava na primeira pgina, e saltou a seus olhos. Havia uma fotografia 
de Jaime 
Mir. E  abaixo a notcia: "Jaime Mir, lder da  ETA, o radical movimento 
separatista basco na 
Espanha, foi ferido e preso pela polcia durante um assalto a um banco,  ontem  
tarde, em Sevilha. 
Felix Carpio, outro acusado de terrorismo, foi morto no assalto. As autoridades 
procuravam Mir..." 
Megan leu o resto da matria e ficou imvel por um longo tempo, recordando o 
passado. Era 
como um sonho distante, fotografado atravs de uma cortina de gs, enevoado e 
irreal. 
Esta guerra acavar em breve. Conseguiremos o que queremos porque o povo est do 
nosso 
lado... Gostaria que voc esperasse por mim... 
H muito tempo ela lera sobre uma civilizao em que se acreditava que, quando 
se salvava 
a vida de uma pessoa, passava-se a ser responsvel por ela. Pois ela salvara 
Jaime duas vezes..., uma 
no castelo e outra no parque.  No posso deixar que o matem agora. Estendeu a 
mo para o telefone 
ao  lado da poltrona e disse ao  piloto:"
- Mude a rota. Retornaremos a Nova York.

Uma limusine esperava por ela no aeroporto La Guardia. Quando ela chegou ao  
escritrio, 
s duas horas da madrugada, Lawrence Gray j estava  sua espera. O pai fora o 
melhor advogado 
da companhia por muitos anos, e se aposentara. O filho era intelignte e 
ambisioso. Sem qualquer 
prembulo, Megan disse:
- Jaime Mir. O que sabe sobre ele?
A resposta foi imediata:
-  um terrorista basco, lder da  ETA. Creio que acabei de ler a notcia de que 
foi capturado 
h um ou dois dias.
- Certo. O governo ter de submet-lo a julgamento. Quero algum l. Quem  o 
melhor 
advogado criminal do pas?
- Eu diria Curtis Hayman.
- No. Ele  fino demais. Precisamos de algum implacvel. - Megan pensou por um 
instante. 
- Chame Mike Rosen.
- Ele j est ocupado pelos prximos cem anos, Megan.
- Desocupe-o. Quero-o em Madri para o julgamento.
Cray franziu o cenho.
- No podemos nos envolver num julgamento pblico na Espanha.
- Claro que podemos. Amicus curiae. Somos amigos do r.
Ele estudou-a por um momento.
- Importa-se se eu lhe fizer uma pergunta pessoal?
- Claro que me importo. Faa o que estou dizendo.
- Farei o melhor que puder. - Larry...
- O que ?
- Quero o melhor e mais alguma coisa. - A voz de Megan era dura como ao.

Vinte minutos depois, Lawrence Gray Jr. voltou  sala de Megan.
- Mike Rosen est no telefone. Acho que o acordamos. Ele quer falar com voc.
Megan pegou o telefone.
- Sr. Rosen?  um prazer falar-lhe. Nunca nos encontramos pessoalmente, mas 
tenho a 
impresso de que vamos nos tornar grandes amigos. Muitas pessoas processam a 
Scott Industries 
para tentar nos arrancar alguma coisa, e tenho procurado por algum para assumir 
nosso 
departamento jurdico. Seu nome sempre aflora. Claro que estou disposta a lhe 
pagar muito bem...
- Senhorita Scott...
- Pois no?
- No me importo de pegar um trabalho que  uma fria, mas voc est me jogando 
uma 
geada.
- No entendi.
- Pois ento permita-me usar o jargo legal. Sem rodeios. So duas horas da 
madrugada. 
Ningum contrata ningum s duas da madrugada.
- Sr. Rosen...
- Mike. Vamos ser grandes amigos, est lembrada? Mas amigos devem confiar um no 
outro. 
Larry me disse que voc quer que eu v  Espanha e tente salvar um terrorista 
basco que est no 
poder da polcia.
Ela j ia dizer: "Ele no  terrorista", mas se conteve.
-  isso mesmo.
- Qual  o seu problema? Ele est processando a Scott Industries porque sua arma 
emperrou?
- Ele...

- Sinto muito, amiga. No posso ajud-la. Estou com a agenda to cheia que 
desisti de ir ao 
 banheiro h seis meses. Posso recomendar alguns advogados... 
No, pensou Megan. Jaime Mir precisa de voc. E ela foi subitamente dominada 
por um 
senso de desespero. A Espanha era outro mundo, outro tempo. Quando falou, a voz 
cansada:
- No importa.  um assunto pessoal. Desculpe t-lo incomodado.
- Ei,  para isso que servem os amigos! Uma questo pessoal  diferente, Megan. 
Para dizer 
a verdade, estou ansioso em saber por que a presidente da Scott Industries se 
interessa em salvar um 
terrorista espanhol. Est livre para o almoo amanh.
Megan no permitiria que nada a atrapalhasse.
- Estou.
- Le Cirque,  uma hora?
Megan sentiu-se mais animada.
- Combinado.
- Faa a reserva. Mas devo alert-la para uma coisa.
- O que ?
- Tenho uma mulher muito bisbilhoteira.

Os dois se encontraram no Le Cirque. Depois que Siirio deixou-os  mesa, Mike 
Rosen disse:
- Voc  mais bonita do que nas fotografias. Aposto que todo mundo lhe diz isso.
Ele era bem baixo e vestia-se de maneira descuidada. Mas no havia nada mais 
descuidado 
em sua mente. - Despertou minha curiosidade - declarou Mike Rosen. - Qual seu 
interesse por Jaime 
Mir?
Havia muito para dizer. Coisas demais para contar. Megan limitou-se a responder:
- Ele  um amigo. No quero que morra.
Rosen inclinou-se para a frente.
- Examinei os arquivos de jornal sobre ele esta manh. Se o governo de Don Juan 
Carlos 
executar Mir apenas uma vez, ele estar levando vantagem. Eles ficaro roucos 
s de ler acusaes 
contra seu amigo. - Ele percebeu a expresso de Megan. - Desculpe, mas preciso 
ser franco. Mir 
tem andado muito ocupado. Assaltando bancos, explode carros, assassina 
pesssoas...
- Ele no  um assassino, mas um patriota. Est lutando por seus direitos.
- Est bem, est bem. Ele  meu heroi tambm. O que deseja que eu faa?
- Salve-o.
- Megan, somos to bons amigos que vou lhe dizer a verdade absoluta. O prprio 
Jesus Cristo 
no poderia salv-lo. Est  procura de um milagre que...
- Acredito em milagres. Vai me ajudar?
Ele estudou-a por um momento.
- Para que serve os amigos? J experimentou o pat? Ouvi dizer que eles o fazem  
kosher. 

O Fax de Madri dizia: "Falei com alguns dos maiores advogados europeus. Todos se 
recusam 
a defender Mir. Tentei ser admitido no julgamento, como  amicus curiae. O 
tribunal no me aceitou. 
Gostaria de poder realizar o milagre para voc, amiga, mas Deus ainda no se 
levantou. Estou 
voltando. Voc me deve um almoo. Mike.

O julgamento estava marcado para comear a 17 de setembro.

- Cancele todos os meus compromissos - ordenou Megan a um assistente. - Tenho 
alguns 
negcios em Madri.
- Quanto tempo vai demorar?
- No sei.

Ela planeou sua estratgia no avio, enquanto sobrevoava o Atlntico. Deve haver 
uma 
maneira, pensou Megan. Tenho dinheiro e puder. O primeiro-ministro  a chave. 
Preciso de entrar 
em contacto com ele antes do incio do julgamento. Depois disso, ser tarde 
demais. 

Megan teve uma reunio com o primeiro-ministro Leopoldo Martnez 24 horas depois 
de 
chegar a Madri. Ele convidou-a para almoar no Palcio Moncloa.
- Agradeo por me recebber to prontamente - disse Megan. - Sei que  um homem 
ocupado.
Ele levantou a mo num gesto de protesto.
- Minha cara Senhorita Scott,  quando a presidente de uma organizao to 
importante 
quanto a Scott Industries voa para meu pas querendo me falar, s posso me 
sentir honrado. Por 
favor, diga-me em que posso ajud-la.
- Para ser franca, vim at aqui para ajud-lo. Ocorreu-me que temos algumas 
fbricas na 
Espanha, mas no estamos aproveitando todo o potencial que seu pas tem a 
oferecer.
Martnez escutava agora com toda ateno, os olhos brilhando.
-  mesmo.
- A Scott Industries est pensando em instalar uma enorme fbrica de material 
electrnico. 
Deve empregar entre mil e mil e quinhentas pessoas. Se for bem-sucedida, como 
esperamos, abrire-
mos fbricas subsidirias.
- E ainda no decidiu em que pas deseja instalar essa fbrica?
- Isso mesmo. Pessoalmente, sou a favor da Espanha. Mas para ser franca, 
Excelncia, alguns 
dos meus executivos no esto satisfeitos com a situao dos direitos civis 
aqui.
-  mesmo?
- , sim. Acham que as pessoas que protestam contra as polticas do Estado so 
tratadas com 
muito rigor.
- Est pensando em algum em particular?
- Para dizer a verdade, estou, sim. Jaime Mir.
Ele fitou-a em silncio por um momento.

- Entendo. E se formos clementes com Jaime Mir, teramos a fbrica de material 
electrnicos 
e...
- E muito mais - assegurou Megan. - Nossas fbricas elevaro o padro de vida em 
todas as 
comunidades em que se instalarem.
O primeiro-ministro franziu o rosto.
- Receio que haja um pequeno problema.
- Qual? Podemos negociar tudo.
- Trata-se de algo que no pode ser negociado, Senhorita Scott. A honra da 
Espanha no est 
 venda. No pode nos subornar, comprar ou ameaar.
- Pode ter certeza de que no estou...
- Chega aqui com suas esmolas e espera que ignoremos nossos tribunais para 
agrad-la? 
Pense bem, Senhorita Scott. No precisamos de suas fbricas.  
Piorei a situao, pensou Megan.


O julgamento durou seis semanas, num tribunal sobre forte guarda, fechado ao  
pblico.
Megan permaneceu em Madri, acompanhando todos os dias as notcias do julgamento. 
Mike 
Rosen telefonava-lhe de vez em quando.
- Sei pelo que est passando, amiga. Acho que deveria voltar para casa.
- No posso, Mike.
Ela tentou se encontrar com Jaime.
As visitas estavam terminantemente proibidas.

No ltimo dia do julgamento, Megan prostrou-se diante do tribunal, perdida na 
multido. 
Reprteres saram correndo do prdio, e Megan deteve um deles.
- O que aconteceu?
- Ele foi considerado culpado de todas as acusaes. E condenado  morte pelo 
garrote.



        Captulo 42


s cinco horas da manh marcada para a execuo de Jaime Mir, uma multido 
comeou a 
concentrar-se diante da priso central de Madri. A Guarda Civil ergueu 
barricadas para manter a 
multido crescente no outro lado da ampla rua, longe da entrada principal da 
priso. Soldados e 
tanques bloqueavam os portes da priso.
L dentro, no gabinete do director Gomez de la Fuente, ocorria uma reunio 
extraordinria. 
Ali estavam o primeiro-ministro Leopoldo Martnez, Alonzo Sebastin, o novo 
comandante do  
GOE, e os dois assistentes do director, Juanito Molinas e Pedro Arrango.
O director La Fuente era um homem corpulento, de meia-idade, expresso 
taciturna, que 
devotara sua vida  a diciplinar criminosos que o governo entregara a seus 
cuidados. Molina e 
Arrango, seus inflexveis assistentes, trabalhavam com ele h vinte anos.
O primeiro-ministro Martnez estava falando: 
- Eu gostaria de saber que providncias foram adotadas para evitar que haja 
problemas na 
execuo de Mir.
O director de la Fuente respondeu:
- Estamos preparados para todas as emergncias possveis, Excelncia. Como 
constatou ao 
 chegar, foi colocada uma companhia inteira de soldados armados em volta da 
priso. Seria preciso 
um exrcito para entrar aqui.
- E dentro da priso?
- As precaues so ainda mais rigorosas. Jaime Mir encontra-se numa cela de 
segurana 
mxima no segundo andar. Os outros prisioneiros do andar foram temporariamente 
trransferidos. 
Dois guardas esto de atalaia na frente da cela de Mir, e h mais dois em cada 
extremidade do 
corredor. Ordenei que todos os presos permaneam em suas celas at o trmino da 
execuo.
- A que horas ser?
- ao  meio-dia, Excelncia. Adiei o almoo para a uma hora. Isso nos dar tempo 
suficiente 
para tirar o corpo de Mir daqui. - Que planos fez para a disposio do corpo?

- Estou seguindo sua sujesto, Excelncia. O sepultamento na Espanha poderia 
causar 
dificuldades ao  governo, se os bascos convertessem a sepultura numa espcie de 
santurio. Entram 
os em contacto com a tia dele na Frana. Ela vive numa pequena aldeia, nos 
arredores de Bayonne. 
Concordou em enterr-lo l.
O primeiro-ministro levantou-se.
- Excelente. - Ele suspirou. - Ainda acho que um  enforcamento em praa pblica 
seria mais 
apropriado.
-  possvel, Excelncia. Mas, nesse caso, eu no poderia mais ser responsvel 
pelo controle 
da multido l fora.
- Acho que voc tem razo. No h sentido em atiar a multido mais  do que 
necessrio. O 
garrote  mais doloroso e mais lento. E se algum homem merece o garrote,  Jaime 
Mir.
- Com licena, Excelncia - disse o director de l Fuente -, mas fui informado 
de que uma 
comisso de juze est reunida para considerar o ltimo apelo dos advogados de 
Mir. Se for aceite, 
o que devo...
O primeiro-ministro interrompeu-o:
- No ser aceite. A execuo ser realizada de acordo com o previsto.
A reunio estava encerrada.

s sete e meia da manh, o camio da padaria parou na frente dos portes da 
priso.
- Entrega.
Um dos guardas da priso examinou o motorista.
- Voc no  novo?
- Sou, sim.
- Onde est Julio?
- Est doente, de cama.
- Por que no vai para junto dele, amigo?
- Como?
- No h entregas esta manh. Volte  tarde.
- Mas todas as manhs...
- Nada entra, e apenas uma coisa vai sair. E agora d marcha  r, faa a volta 
e saia depressa 
daqui, antes que meus companheiros fiquem nervosos.
O motorista olhou para os soldados que o fitavam fixamente.
- Claro.
Ele observou o camio fazer a volta e desaparecer pela rua. O comandante de 
guarda 
comunicou o incidente ao  director. A histria foi investigada e descobriu-se 
que o entregador regular 
estava no hospital, vtima de um  atropelamento, tendo o responsvel fugido.

s oito horas da manh, um carro-bomba explodiu no outro lado da rua, em frente 
 priso, 
ferindo meia dzia de pessoas. Em circunstncias normais, os guardas deixariam 
seus postos para 
investigar e ajudar os feridos. Mas tinham ordens rigorosas. Permaneceram  em 
seus postos, e a 
Guarda Civil foi chamada para cuidar da situao.
O incidente foi imediatamente comunicado ao  director de la Fuente, que 
comentou:
- Eles esto ficando desesperados. Dispostos a qualquer coisa.

s nove e quinze da manh, um helicptero sobrevoou a rea da priso. Pintada 
nos lados 
estavam as palavras  La Prensa, o maior jornal da Espanha.

Dois canhes anti-areos haviam sido instalados no telhado da priso. O tenente 
no comando 
acenou uma bandeira de sinalizao, avissando para o aparelho se afastar. O 
helicptero continuou 
a sobrevoar o local. O tenente pegou um telefone de campanha.
- Director, temos um helicptero sobrevoando a priso.
- Alguma identificao?
- Diz  La Prensa, mas parece ser recm-pintado.
- D um tiro de advertncia. Se o helicptero no se afastar, pode derrob-lo.
- Est certo, senhor. - O tenente acenou com a cabea para seu artilheiro. - 
Dispare um tiro 
prximo.
O disparo explodiu a cinco metros do helicptero. Eles podiam ver o rosto do 
piloto. O 
artilheiro tornou a carregar. O helicptero subiu e desapareceu no cu de Madri. 
O que vir em seguida?, enspeculou o tenente.

s onze horas da manh, Megan Scott apresentou-se na sala de recepo da priso. 
Estava 
abatida e plida.
- Quero falar com o director de la Fuente.
- Tem um encontro marcado?
- No, mas...
- Lamento muito, mas o director no receber ningum esta manh. Se telefonar 
esta tarde...
- Avise-o que  Megan Scott.
O homem examinou-a mais atentamente. Ento esta  a rica americana que est 
tentando 
libertar Jaime Mir. Eu no me importaria se ela trabalhasse em mim por algumas 
noites. 
- Est bem. Vou avis-lo que est aqui.
Cinco minutos depois, Megan estava sentada na sala do director de la Fuente. 
Alguns 
dirigentes da priso tambm estavam ali.
- Em que posso ajud-la, Senhorita Scott?
- Eu gostaria de ver Jaime Mir.
O director suspirou.
- Lamento, mas no  possvel.
- Mas estou...


- Senhorita Scott, todos sabemos quem . Se pudssemos atend-la, garanto que 
teramos o 
maior prazer - disse com um sorriso. - Ns, espanhis, somos muito 
compreensivos. E tambm somos 
sentimentais, de vez em quando no hesitamos em ignorar determinados 
regulamentos. - O sorriso 
desapareceu. - Mas no hoje, Senhorita Scott. De jeito nenhum. Este dia  muito 
especial. Levamos 
anos para capturar o homem que deseja ver. Por isso, hoje  o dia em que todos 
os regulamentos 
esto em vigor. Agora, s quem pode ver Jaime Mir  seu Deus... se  que ele 
tem algum.
Megan estava desesperada.
- Eu no poderia... v-lo apenas por um instante?
Um dos membros da directoria da priso, comovido pela angstia de Megan, sentiu-
se 
tentado a interferir. Mas se conteve.
- Sinto muito, mas no  possvel - respondeu o director de la Fuente.
- Poderia mandar um recado para ele?
A voz de Megan era trmula.
- Mandaria um recado para um morto. - O director olhou para o relgio. - Ele tem 
menos de 
uma hora para viver.
- Mas ele est apelando da sentena. Uma comisso de juzes no est se reunindo 
para...
- O apelo foi rejeitado. Recebi o comunicado h 15 minutos. A execuo vai 
ocorrer. E agora, 
se me d licena...
Ela levantou-se, e os outros seguiram seu exemplo.

Megan olhou ao  redor, deparando com rostos frios. Estremeceu. - Que Deus tenha 
misericordia de todos vocs - murmurou ela.
Eles ficaram observando, em silncio, enquanto Megan deixava a sala.

Dez minutos antes do meio-dia a porta da cela de Jaime Mir foi aberta. O 
director Gomez 
de la Fuente, acompanhado por seus dois assistentes, Molinas e Arrango, e pelo 
Dr. Miguel 
Anuncin, entraram na cela. Quatro guardas armados mantinham-se de prontido no 
corredor.
- Est na hora - disse o director.
Jaime levantou-se. Estava algemado, os ps acorrentados.
- Torci para que se atrasasse. - Ele exibia um ar de dignidade que o director de 
la Fuente no 
podia deixar de admirar. 
Em outro tempo, em outras circunstncias, poderamos ser amigos, pensou.
Jaime saiu para o corredor deserto, os movimentos desajeitados, por causa das 
correntes nos 
ps. Foi escoltado pelos guardas, Molinas e Arrango.
- O garrote? - perguntou ele.
O director acenou com a cabea.
- O garrote. 
Terrivelmente doloroso, desumano, ainda bem que a execuo ocorreria numa cela 
fechada, 
longe dos olhos do pblico e da imprensa, pensou o director.
O grupo avanou pelo corredor. Podiam ouvir o brado da multido na rua l fora:
- Jaime... Jaime... Jaime...
Era uma exploso de mil gargantas, tornando-se cada vez mais alto.
- Esto chamando por voc - disse Pedro Arrango.
- Nada disso. Esto chamando a si mesmos. Chamando por liberdade. Amanh eles 
tero 
outro nome. Eu posso morrer... mas sempre haver outro nome.
Eles passaram por duas portas de segurana e chegaram a uma pequena cmara na 
extremidade do corredor, com uma porta de ferro verde. Um padre com uma batina 
preta surgiu de 
uma curva do corredor.
- Graas a Deus que cheguei a tempo. Vim dar os ltimos sacramentos ao  
condenado.
Quando ele se encaminhou para Mir, dois guardas bloquearam-lhe a passagem.
- Lamento, padre - disse o director de la Fuuente -, mas ningum chega perto 
dele.
- Mas eu sou...
- Se quer dar os ltimos sacramentos, ter de faz-lo atravs de portas 
fechadas. E agora saia 
da frente, por favor.
Um guarda abriu a porta verde. Parado l dentro, ao  lado de uma cabea presa no 
cho, com 
grossas tiras saindo dos braos, estava um homem enorme, usando uma meia 
mscara. O garrote 
estava em suas mos.
O director acenou com a cabea para Molinas, Arrango e o mdico, que entraram na 
sala 
atrs de Jaime. Os guardas ficaram no lado de fora. A porta verde foi fechada e 
trancada.

L dentro, os assistentes Molinas e Arrando levaram Jaime para a cadeira. 
Tiraram-lhe as 
algemas, amarraram-no na cadeira com as tiras de couro, enquanto o Dr. Anuncin 
e o director de 
la Fuente observavam. Atravs da porta fechada, mal podiam ouvir o murmrio do 
padre. De la 
Fuente olhou para Jaime e encolheu os ombros.
- No tem importncia. Deus compreender o que ele est dizendo.
O gigante com o garrote colocou-se atrs de Jaime. O director Gomez de la Fuente 
perguntou:
- Quer um  pano para cobrir o rosto?
- No.
O director olhou para o gigante e acenou com a cabea. O homem levantou o 
garrote e 
estendeu-o para a frente.
Os guardas junto da porta podiam ouvir  os gritos da multido na rua.
- Querem saber de uma coisa? - resmungou um dos guardas. - Eu gostaria de estar 
l fora 
com eles.
Cinco minutos depois, a porta verde foi aberta.
- Tragam o saco para o corpo - disse o Dr. Anuncin.

De acordo com as instrues, o corpo de Jaime Mir saiu por uma porta nos fundos 
da 
priso. O saco foi jogado na traseira de um furgo sem qualquer identificao. 
Mas no momento em 
que o veculo deixou a rea da priso, a multido na rua adiantou-se, como se 
atrada por algum m 
mstico.
- Jaime... Jaime...
Mas os gritos eram mais suaves agora. Homens e mulheres choravam, seus filhos 
olhavam 
espantados, sem entenderem o que se passava. O furgo passou pela multido e 
finalmente 
alcanaram a estrada.
- Meu Deus! - murmurou o motorista. - Foi fantstico. O cara devia ter alguma 
coisa.
-  verdade. E milhares de pessoas sabiam disso!

s duas horas daquela tarde, o director Gomez de la Fuente e seus dois 
assistentes, Juanito 
Molinas e Pedro Arrango, entraram no gabinete do primeiro-ministro.
- Quero dar-lhes meus parabns - disse o primeiro-ministro. - A execuo foi 
perfeita.
- Senhor primeiro-ministro, no estamos aqui para receber os parabns - disse o 
director. - 
Viemos apresentar nossos pedidos de demisso.
Martnez ficou espantado.
- Eu... eu no compreendo. O que...
-  uma questo de humanidade, Excelncia. Acabamos de ver um homem morrer. 
Talvez ele 
merecesse morrer. Mas no daquele jeito. Foi... brbaro. No quero mais fazer 
parte disso ou de 
qualquer outra coisa parecida, e meus colegas pensam da mesma maneira.
- Talvez devessem pensar mais um pouco no assunto. Suas penses...
- Temos de viver com nossas conscincias. - O director de la Fuente entregou 
trs cartas ao 
 primeiro-ministro. - Aqui esto nossas renncias.

o anoitecer, o furgo cruzou a fronteira com a Frana e seguiu para a aldeia de 
Bidache, 
perto de Bayonne. Parou diante de uma casa de fazenda imaculada.
-  aqui. Vamos nos livrar do corpo antes que comece a feder.
A porta da casa foi aberta por uma mulher de cinquenta e poucos anos.
- Vocs o trouxeram?
- Trouxemos, madame. Onde gostaria que o deixssemos?

- Na sala de vsitas, por favor.
- Pois no, madame. Eu... ahn... no esperaria muito tempo para enterr-lo. 
Entende o que 
estou querendo dizere?
Ela observou os dois homens carregarem o saco com o corpo para o interior da 
casa e 
largarem-no no cho da sala. - Obrigada.
- De nada. 
Ela ficou parada, observando o furgo afastar-se.
Outra mulher veio dos fundos da casa e correu para o saco. Abriu-o rapidamente.
Jaime Mir estava encolhido l dentro, sorrindo.
- Aquele garrote podia ter me deixado com torcicolo.
- Vinho branco ou tinto? - perguntou Megan.



        Captulo 43


No Aeroporto Barajas em Madri, o ex-director Gomez de la Fuente, seus dois 
assistentes, 
Molinas e Arrango, o Dr. Anincin e o gigante que vestira a mscara estavam no 
salo de espera para 
viajar.
- Ainda acho que esto cometendo um erro ao  no irem comigo para Costa Rica - 
disse de 
la Fuente. - Com cinco milhes de dlares poderiam comprar toda a porra do pas.
Molinas sacudiu a cabea.
- Arrango e eu  vamos para a Sua.  Estou cansado do sol. Vamos comprar algumas 
dezenas 
de bonequinhas de neve.
- Eu tambm - disse o gigante. Eles viraram-se para Miguel Anuncin.
- O que vai fazer, doutor?
- Vou para Bangladesh.
- O qu?
- Isso mesmo. Usarei o dinheiro para abrir um hospital.  Pensei muito a esse 
respeito, antes 
de aceitar a oferta de Megan Scott. Cheguei  concluso de que se pudesse salvar 
uma poro de 
vidas inocentes por deixar um terrorista viver, ento seria uma boa troca. Alm 
do mais, devo lhes 
dizer, eu gostava de Jaime Mir.



        Captulo 44


Fora uma estao das melhores na regio rural da Frana, proporcionando aos 
fazendeiros 
colheitas abundantes. Eu gostaria que todos os anos pudessem ser to 
maravilhosos como este, 
pensou Rubio Arzano. Fora um bom ano sob mais que um aspecto. 
Primeiro, seu casamento,  depois, h um ano, o nascimento dos gmeos. Quem 
jamais sonhou 
que um homem pudesse ser to feliz?
Estava comeando a chover. Rubio fez a volta com o tractor e seguiu para o 
celeiro. Pensou 
nos gmeos. O menino seria grande e robusto.  Mas a menina... Ela seria 
impossvel. Vai dar  
trabalho a seu homem, pensou Rubio, sorrindo. Sau  me. 
Ele deixou o tractor no celeiro e foi para a casa, sentindo a chuva fria no 
rosto. Abriu a porta 
e entrou.

- Chegou bem na hora - disse Lucia. - O jantar est pronto.

A reverenda madre Betina despertou com  a premonio de que alguma coisa 
maravilhosa 
estava prestes a acontecer. 
Mas  claro que muitas coisas boas j aconteceram, pensou ela.  O convento 
Cisterciense 
fora reaberto h bastante tempo, sob a proteco do rei Don Juan Carlos. Irm 
Graciela e as outras 
freiras levadas para Madri estavam de volta ao  convento, ss e salvas, 
refugiando-se mais uma vez 
na abenoada solido e silncio.
Pouco depois do desjejum, a reverenda madre entrou em sua sala e parou 
abruptamente, 
aturdida. Em sua mesa, faiscando com um brilho ofuscante, estava a cruz de ouro.
Foi considerado um milagre. 



        Posfcio


Em 1978, Madri tentou comprar a paz, oferecendo aos bascos uma autonomia 
limitada, 
permitindo-lhes que tivessem sua bandeira, sua lngua e um departamento de 
polcia basco. A  ETA 
     respondeu com o assassinato de Constantin Ortin Gil, o governador militar 
de Madri, e depois de 
Luis Carrero Blanco, o homem escolhido por Franco para seu sucessor.
A escala de violncia continua.
Num perodo de trs anos, terroristas da  ETA  mataram mais de seiscentas 
pessoas. O 
massacre continua, e a retaliao da polcia tem sido igualmente brutal.
No faz muitos anos, a  ETA  continuava com a simpatia dos dois milhes e meio 
de bascos, 
mas o terrorismo continuado minou o apoio. Em Bilbao, o prprio corao do pas 
basco, cem mil 
pessoas saram s ruas para uma manifestao  contra  a  ETA. O povo espanhol 
sente que chegou 
o momento para a paz, o momento para curar as feridas.
A  OPUS MUNDO  est mais poderosa do que nunca, mas poucas pessoas se mostram 
dispostas a discutir o assunto.

Quanto aos conventos Cistercienses da Estrita Observncia, h hoje 54, 
espalhados pelo 
mundo, sete deles na Espanha.
O antigo ritual de eterno silncio e isolamento permanece inalterado.



196
